“Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: “Fui eu?” Deus sabe, porque o escreveu.”— Fernando Pessoa (via flores-e-haicais)
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“Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que…, Isto Um internado num manicômio é, ao menos, alguém, Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.”
— Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
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Identidade
Preciso ser um outro
para ser eu mesmoSou grão de rocha
Sou o vento que a desgastaSou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvoresExisto onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuroNo mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço— Mia Couto
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“Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo. Levei a mochila das coisas que sei para o lado e pro fundo Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto, E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto. Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube. Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube, Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia, Sou uma coisa que fica a uma grande distância, E vou, porque o meu ser é cômodo e profundo, Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.”
— Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, 01.12.1928)
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“Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.”
— Fernando Pessoa
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