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Crônicas do cotidiano delirante, Crônicas do cotidiano familiar

A verdade das ruas

Crustácio deitou com a roupa da rua.

Completamente impregnadas com o cheiro das ruas.

Por baixo delas, em sua pele, as marcas das ruas.

A sua voz era a voz rouca das ruas.

Que verbalizava tão somente a verdade das ruas.

“Acho melhor você tomar banho”, ouviu da esposa, afinal as roupas de cama tinham voltado da lavanderia naquela semana, tudo cheirosinho, e a casa estava um brinco.

Crustácio resignou-se e aceitou.

Nem sempre a verdade das ruas prevalece.

Imagem: pixabay

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O planejador

Quando acorda, o planejador faz uma lista dos afazeres. Planejamento é lista.

Uma lista, no entanto, nunca é suficiente. A fim de evitar redundância nas tarefas, prioridades erradas e decisões equivocadas, várias são as listas necessárias.

Exige-se do planejador, portanto, uma lista de listas. A mãe de todas as listas, a lista-mãe. Tudo leva a crer que o planejamento do planejador começa na definição de uma bem acabada, generosa e rigorosa lista-mãe. Afinal, mãe só tem uma. Só que a mãe não vem do nada, não nasce de geração espontânea. Mãe tem ascendentes, linhagem e, sobretudo, outra mãe, que nesse caso é chamada de avó. E as avós, diferentemente das mães, costumam vir aos pares. Daí a necessidade de duas listas-avó para cada lista-mãe. Assim é possível começar os trabalhos.

 – E quem é o pai dessa lista-mãe? Ela tem duas mães e nenhum pai? Tudo bem. Dou todo o apoio. Só para entender a genealogia correta…

– Cala a boca. Você não entende nada de planejamento.

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Slow change startup

Entusiasmado com a experiência de trocar um pneu a dois em um dia frio de chuva, que contrariou todas as expectativas ao revelar-se muito prazerosa, o casal Décio e Carla decidiu abrir uma borracharia.

Não uma borracharia qualquer. Aplicariam ao segmento o conceito de slow food, tão caro à gastronomia europeia, batizado de slow change nessa nova versão.

Afinal, a borracharia não precisa ser aquele lugar sujo, aonde se chega com pressa, para encontrar um profissional mal-humorado, receber o serviço da forma mais rápida possível e sair apenas com um pneu remendado e trocado. A borracharia pode ser uma experiência única, um momento de pausa em um dia corrido, um reencontro consigo, um oásis de temperança e cuidado na aridez emocional da metrópole.

– Bom, bom, o texto de apresentação está muito bom. O conceito está exposto de forma clara e elegante.

– Que ótimo que você gostou.

– Mas…

– Mas?

– Tenho sérias dúvidas se existe mercado para um estabelecimento com essas premissas. Veja bem: como investidor, eu não consigo vislumbrar essa necessidade no consumidor atual. Reconheço a competência do seu storytelling, que pode ajudar a vender a projeto, mas isso não é suficiente. Resumindo, não vejo mercado para esse tipo de iniciativa.

– Como assim não vê mercado?

– Eu acredito que quem vai a uma borracharia quer, sim, ter o seu serviço realizado de forma rápida, eficiente e sem muita conversa.

– Em um lugar sujo, com pessoas mal educadas?

– Isso não, mas um atendimento minimamente humanizado em um estabelecimento asseado não chega a ser um projeto revolucionário. Não dá para montar uma franquia com base nisso. Seria apenas um concorrente um pouco melhor num mercado já saturado.

– Há muito mais que isso no projeto. Você leu a apresentação toda?

– Li, e é o muito mais que me preocupa. Massagem shiatsu até vai, mas podólogo? Mesa de pebolim? Jukebox? Hidro? Harmonização facial? Aplicação de botox? Jesus, quem vai querer fazer tudo isso em uma borracharia? As pessoas não têm tempo pra isso.

– É aí que entra o olhar do investidor.

– Convença-me.

– Criar um novo mercado é justamente o que dá dinheiro. Como bom investidor, você sabe disso.

– A-hã.

– Necessidades são criadas e, uma vez que isso ocorre, o consumidor habitua-se a elas e não consegue mais viver sem. Quem imaginaria que o consumo de açaí se tornaria um hábito diário de muita gente? E quem apostaria nas paletas mexicanas em um país com tanto sorvete bom?

– Eu posso passar a minha vida toda sem açaí, e boa parte das paleterias fechou.

– As paletas mexicanas foram um exemplo ruim, mas o açaí é um sucesso, somos obrigados a admitir.

– Sim.

– Mas OK. Tenho um exemplo mais adequado para o nosso projeto.

– Seu projeto.

– As barbearias! Ir a uma barbearia estava totalmente fora de moda e, mesmo no cabeleireiro, os homens não gostavam de perder muito tempo. Hoje, ao ir a uma barbearia, você tem que cancelar os compromissos do dia e da noite se quiser aproveitar o pacote completo. E o melhor: dá dinheiro. Com todo esse valor agregado, as barbearias cobram valores antes impensáveis.

– É um exemplo mais cabível, sim. Um segmento já existente repaginado para um público de maior poder aquisitivo.

– Agora estamos falando a mesma língua.

– Talvez possamos conversar, mas eu faria uma extensa revisão nos serviços da sua borracharia. A cerveja e os vinhos, por exemplo, não caem bem em um negócio voltado para motoristas. A primeira blitz com bafômetro acabaria com a marca.

– Bom, a oferta de vinhos e cervejas para levar ainda poderia ser mantida. De qualquer modo, o foco seriam os cafés e as águas.

– Eu não vou pagar um barista, e as águas que você quer vender custam mais que um pneu novo.

– Puxa, mas se eu oferecer água e café comuns, minha borracharia vai virar um autocenter. Somos maiores que isso.

– São opiniões iniciais, pensando na viabilidade do negócio. Meu veredito, para o momento, é: volte aqui depois de fazer uma revisão no projeto todo pensando na viabilidade financeira e pertinência dos serviços. Nossa conversa continua.

– Que ótimo.

– Ah, mais uma sugestão.

– Por favor.

– Sem essa de tocar “Changes”, do Black Sabbath, toda vez quem um cliente entrar na borracharia. Além de ficar repetitivo, é um trocadilho de gosto duvidoso. Aliás, eu não usaria nem na apresentação.

– E na campanha?

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Das portas abertas

Às vezes a gente faz um esforço enorme para não fechar uma porta. Geralmente quando queremos que alguém entre. Normalmente é uma pessoa que já entrou, saiu e não voltou mais. Como esperamos que ela volte, não desejamos que, justo no dia em que ela voltar, a porta esteja fechada. E daí ela não volte nunca mais.

Ou mesmo que ela passe perto, do outro lado da rua, ou tope com um vizinho, pergunte de você e saiba que a sua porta está sempre fechada.

Então você deixa a porta aberta.

Só que manter uma porta aberta não é tão simples quanto parece. Primeiro, você tem que colocar um calço para a porta não ficar batendo. Ninguém quer ter uma porta balançando como a de um saloon. Ou então que ela receba um vento muito forte e estoure a fechadura, o batente ou simplesmente feche sozinha.

Além disso, o vento entra e traz sujeira. É preciso limpar tudo o dobro de vezes quando a porta está aberta. O triplo, porque, além de exposto às intempéries, o interior está disponível ao olhar dos curiosos.

Esse provavelmente é o mais difícil de manter uma porta aberta. Você tem que cuidar ao máximo para parecer que tudo está muito bem lá dentro, senão ninguém vai querer entrar mesmo. Tudo limpo, asseado, brilhante, alegre, sadio e sorridente.

Só que ninguém entra. Sobra uma porta aberta. E cada vez menos interessante pra quem olha de fora. O que era limpeza agora mais parece um vazio. O que era cuidado virou mania. O olhar sorridente mais espanta que atrai. Agora, um sorriso amarelo enfeitado por um olhar cheio de autopiedade.

Como se esperasse apenas que alguém tivesse a honestidade de dizer: “fecha essa porcaria, ninguém vai entrar”. Ninguém diz. Ninguém disse. Ninguém diria. Manter uma porta aberta exige muito esforço. As pessoas respeitam. Mas ninguém entra.