Lignana (química)
As lignanas constituem uma classe vasta e quimicamente diversificada de compostos polifenólicos secundários, amplamente distribuídos no reino vegetal, onde desempenham funções cruciais de defesa contra agentes patogénicos e regulação do crescimento. Do ponto de vista estrutural, as lignanas são formadas pela união de duas unidades de fenilpropano (unidades C6-C3) ligadas através dos carbonos centrais das suas cadeias laterais (posição 8-8'), o que as distingue quimicamente de outros compostos relacionados, como as neolignanas, cujas ligações ocorrem em posições distintas. Estes metabolitos são sintetizados através da via do xiquimato, tendo como precursores principais os álcoois monolignóis, como o álcool coniferílico, o álcool sinapílico e o álcool p-cumarílico. Embora partilhem precursores comuns com a lenhina (lignina), um polímero estrutural complexo que confere rigidez às paredes celulares das plantas, as lignanas são moléculas de baixo peso molecular, frequentemente encontradas em formas livres ou glicosiladas em sementes, raízes, caules e frutos, servindo como antioxidantes naturais e agentes citotóxicos contra herbívoros e fungos.[1][2][3][4][5][6][7][8]
A relevância das lignanas na nutrição humana e na medicina contemporânea advém principalmente da sua classificação como fitoestrogénios, devido à sua semelhança estrutural com o estradiol, a principal hormona sexual feminina. As fontes dietéticas mais ricas em lignanas incluem as sementes de linhaça (Linum usitatissimum) e de sésamo, seguidas por cereais integrais (como o centeio e a aveia), leguminosas, e certas frutas e vegetais. Após a ingestão, lignanas precursoras como o diglicosídeo de secoisolaricirresinol (SDG) e a matairresinol são metabolizadas pela microbiota intestinal humana em compostos biologicamente ativos conhecidos como lignanas mamíferas ou enterolignanas: a enterodiol e a enterolactona. Estas moléculas exibem uma afinidade moderada pelos recetores de estrogénio, podendo exercer efeitos agonistas ou antagonistas dependendo dos níveis de estrogénio endógeno no organismo, o que as coloca no centro das investigações sobre a prevenção de cancros hormonodependentes, como o cancro da mama e da próstata, além de auxiliarem no alívio de sintomas da menopausa.
Para além da sua atividade hormonal, as lignanas têm sido objeto de estudos intensivos devido às suas propriedades farmacológicas multifacetadas, que incluem capacidades antioxidantes, anti-inflamatórias e antivirais significativas. A podofilotoxina, uma lignana extraída de plantas do género Podophyllum, é talvez o exemplo mais notável de aplicação clínica direta, servindo como precursor para a síntese de fármacos quimioterápicos essenciais, como o etoposido e o teniposido, utilizados no tratamento de diversos tipos de neoplasias e linfomas. Outras lignanas, como a sesamina presente no óleo de sésamo, demonstram potencial na regulação do metabolismo lipídico e na redução da oxidação do colesterol LDL, contribuindo para a saúde cardiovascular e a prevenção da aterosclerose. A complexidade da sua biossíntese e a diversidade das suas estruturas estereoquímicas continuam a desafiar a química sintética e a biotecnologia, incentivando o desenvolvimento de novos métodos de extração e produção em larga escala para aplicações na indústria nutracêutica e farmacêutica global.
Referências
[editar código]- ↑ Adlercreutz, H.; Honjo, H.; Higashi, A.; Fotsis, T.; Hämäläinen, E.; Hasegawa, T.; Okada, H. (dezembro de 1991). «Urinary excretion of lignans and isoflavonoid phytoestrogens in Japanese men and women consuming a traditional Japanese diet». The American Journal of Clinical Nutrition. 54 (6): 1093–1100. ISSN 0002-9165. PMID 1659780. doi:10.1093/ajcn/54.6.1093
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- ↑ Yeung, Andy Wai Kan; Tzvetkov, Nikolay T.; Balacheva, Aneliya A.; Georgieva, Maya G.; Gan, Ren-You; Jozwik, Artur; Pyzel, Bożena; Horbańczuk, Jarosław O.; Novellino, Ettore; Durazzo, Alessandra; Lucarini, Massimo; Camilli, Emanuela; Souto, Eliana B.; Atanasov, Atanas G.; Santini, Antonello (2020). «Lignans: Quantitative Analysis of the Research Literature». Frontiers in Pharmacology. 11. 37 páginas. ISSN 1663-9812. PMC 7020883
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- ↑ https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/54790/6/67720_03-09T_TL_01_P.pdf