A primeira queda.Havia um desejo insano de vingança transposto pelo sentimento de impotência e fracasso - o erro que custou suas asas, a maldita da sua auréola e o seu lugar ao lado do Criador.
"Grande forma de me agradecer por todos esses séculos mantendo os invejosos em ordem nesse lugar vasto, vazio e vívido, pai", murmurou com o maxilar travado, enquanto levantava do aterro sanitário onde fora jogado pelos seus antigos irmãos - tão ambiciosos como os nefilins que desejavam um lugar ao qual jamais poderia pertencer pela luxúria da sua mestiçagem.
Liam Payne, ex-arcanjo¹, era um dos principais na oitava hierarquia celeste até que caiu. O anjo de olhos castanhos, fios claros raspados com o físico escultural como um guerreiro de Deus deveria ser e sete séculos de vida, apesar da aparência de vinte três anos continuava estático olhando para a montanha de lixo onde se encontrava e pensava sobre os últimos acontecimentos antes do desmaio pela interrupta dor das asas arrancadas.
Malditos. Sua queda não passou de uma armação entre um dos bastardos filhos de Satã, que por algum motivo que o próprio homem desconhecia, queria a sua presença na terra - ou deveria chamá-la de inferno? E de um maldito Principado² que havia feito negócios com o Gressil, um dos antigos príncipes dos Tronos que perdeu o seu lugar e levava impaciência ao coração fraco e deturpado dos humanos. Ele sabia disso, mas não houve sequer oportunidade de tentar defender-se e mesmo que houvesse o jogo sujo fora bem armado. Isso era claro, afinal, havia perdido o seu lugar no Paraíso.
Era um caído. Um detestável anjo caído. E como a situação parecia gozar com a sua cara, não tinha as mesmas características desses amaldiçoados, mas não poderia deixar de enxergar que agora era um deles. Um amaldiçoado.
"Essa porra dói pra caralho", resmungou enquanto esticava os músculos elevando o braço para o alto, para os céus, para o seu antigo lar. Que piada, não? Sentia o sangue escorrer pela recente parte decepada e algumas penas ainda presas, fazendo-o lembrar da amputação que sofrera. Levou seus dedos até as poucas e quase inexistentes plumas percebendo a textura mais grossa do que outrora, desafiou-se a puxar uma pequena dose e chiou ao conseguir. Seus dedos eram coloridos pelo carmim e carvão. Sangue e penas pretas. Pretas. O dia estava uma merda e apostava que poderia piorar.
E não demorou muito.
Castigado seja.
O hostil Gressil surgiu com suas asas quebradas e negras, tão escuras quanto os fios bagunçados que tampavam uma parte do seu olho esquerdo e tinha a mesma tonalidade da sua calça apertada que poderiam seduzir qualquer um pela forma como evidenciava o seu quadril desnudo, tal como o peitoral lotado de tatuagens e códigos demoníacos.
Um demônio poderia ser tão bonito assim?, o questionamento passou pela cabeça de Liam e o próprio decidiu que estava ficando louco, ficaria pior e não havia dúvidas de que a sua parte angelical estava sumindo. Não imaginava que poderia ocorrer tão rápido,
é uma vingança de ambas as partes, concluí. Não conhecia o dragão à sua frente, não pessoalmente, mas sabia que tinha uma parcela de culpa. E diferente do que pensava ou do que gostaria de fazer - anteriormente, apenas encarou a beleza da figura ali, exposta num ambiente fedorento com corvos ao redor e uma suposta neblina que se manifestou com a chegada do próprio, mas nenhum desses aspectos no âmbito deixava o sujeito menos radiante com a sua libertinagem envolvente.
"Olá, meu anjo", sibilou com a voz rouca e atrativa que possuía, escondendo a zombaria do que fora solto entre os lábios afiados.
"Você sabe quem eu sou, certo? Mas deixe-me apresentar de forma educada como você merece. Como a minha futura posse merece", um riso sem emoção havia saído de sua boca enquanto encarava o caído com a expressão derrotada. Parecia incrivelmente tentador. Os olhos castanhos que antes irradiavam pureza transformou-se em escuridão estimulante para o demônio, o príncipe bastardo.
"Zayn Malik, mas para você, apenas Zayn", sorriu sem muita emoção mostrando os dentes brancos.
A cabeça de Liam revirava. As palavras do indivíduo faziam um nó em seu cérebro. O seu coração acelerava descontroladamente.
O que é isso? E notou milhares de sensações tomarem conta do seu corpo, da sua alma - ainda era realmente sua? - e provavelmente da sua mente que não tinha nenhuma função racional.
Meu anjo. Minha futura posse. Apenas Zayn.
O diabo estava o testando? O desejando? O convidando?
Acreditava dentro de si que já havia tido o suficiente.
Toda a situação sugava sua energia e tinha a sensação de estar queimando aos poucos. A terra era preenchida de vampiros - não, não se trata dos seres sobrenaturais com presas e com a necessidade de sangue humano, mas de seres que adulteravam a sua essência. Pobre alma, maldito seja o ex-arcanjo. A frase
"se estiver no inferno, abrace o diabo" rondava suas entranhas como um verdadeiro mantra.
O tempo passava e as nuvens cinzentas sumiam do céu para dar lugar ao anil escuro da noite, permitindo que algumas estrelas sobressaíssem naquele plano de escuridão, enquanto o vento frio arrepiava a pele pálida do maior. Os astros brilhavam como a antiga silhueta do pobre caído e aquilo começou a incomodá-lo, a transparência dos pontos no espaço quase que cegavam seus olhos que permaneciam encarando-os como se pudesse obter alguma resposta. Não tinha mais capacidade de ligações ou poderes com qualquer coisa celestial e ao notar isso, bufou e voltou a encarar o semblante do homem que tinha um maxilar notório e colocou-se a observá-lo, pode notar a clavícula gritante que parecia chamá-lo. Seus lábios formigaram com a suposta vontade de tocá-la. Fechou as pálpebras com esse pensamento e mordeu os próprios lábios, inspirando e notando algo diferente.
Inspiração? Respiração? Que pergunta idiota desde que o mesmo até sangrava - como humanos, como demônios.
Uma satisfação surgiu no peito de Zayn ao entender o que se passava no intelecto do outro, a mentalidade deste parecia com um anagrama na percepção do Gressil - era como se fosse uma matemática para os humanos e em geral, eles costumam ser péssimos nessa matéria, mas a sorte estava ao seu favor. Claro que estava. Liam caiu por conta de seu plano e não poderia se sentir mais vitorioso, agora o tinha mais perto, perto o suficiente para conseguir ler até os seus pensamentos.
As palavras que escaparam da cavidade bucal do anjo caído surpreenderam ambas as partes. Soou como uma melodia que sempre esteve guardada consigo.
"Você pode ter o meu coração", confessou com a tonalidade de voz franca. Era um segredo. Sujo ou puro. Era uma revelação. E possivelmente, um juramento.
E Liam sentiu, Zayn percebeu.
Aconteceu algo.
Grandioso.
Uma catástrofe ou uma benção?
Liam fora abençoado - com uma maldição e possivelmente, com o caos.
Zayn era o caos. Era possível notar a anarquia existente só pela forma como sibilava as palavras ou como a "janela da sua alma" era semelhante a um pandemônio. O filho bastardo do Satã era desordem, rebuliço, imoralidade e deleite. E o ex-arcanjo ansiou, pela primeira vez, fazer parte. Parte daquilo que seria o seu futuro desde que o passado era inalcançável e irreversível.
A segunda queda.Liam caiu por Zayn.
De todas as maneiras.
Literalmente e figuradamente.
Os joelhos desabaram entre os entulhos e resíduos, mas antes do tronco alheio ir de encontro aos detritos, o menor segurou a robustez de Liam pela cintura do mesmo. Quebrando a distância dos corpos e levando apoio para o pobre quase inconsciente apoiado em si.
Um novo sentimento tomou conta das suas vísceras e como se não fosse dono do seu corpo, pode sentir arrepios surgirem na nuca e seguindo até os pés ao segurar a antiga figura celestial.
Meu anjo. O demônio não tem salvação, mas Liam parecia oferecer redenção aos seus pecados.
Seu peito imergiu água e advertiu a chuva malquista em seu coração.
O limite era uma linha tênue entre o amor e o ódio.
E era um caminho sem volta.
Fadados.
A cabeça de Liam estava "a mil" e o próprio tinha o conhecimento de que era tarde demais. Sentia muito por não sentir, por ser tarde demais para isso.
Havia um oceano dentro de cada um.
E a água nada mais era do que a essência do outro dentro de si.
Não era paixão, porque não existia fogo.
Era amor.
O amor estava emergindo no coração do caído.
Do demônio.
E Liam involuntariamente aspirou.
Que Zayn o amasse como o próprio ama o inferno.
"Eu não ligo de cair pelo demônio desde que o demônio me ame da mesma maneira que ama o inferno³", pensou quase que secretamente e poderia ter sido uma confidência para si, mas o moreno ouvirá mesmo que tenha soado como um sussurro. Ele ouviu - sentiu - e dentro de si, choveu mais uma vez.
E quando a tempestade passou, Zayn carregou Liam consigo.
Levou-o para fora daquele espaço sujo e desconfortável, arrastando-o lentamente enquanto segurava um de seus braços ao redor do próprio pescoço e o outro envolvia a cintura viril do castanho para uma casa de jogos que lhe pertencia. Era claro que como uma boa serpente, o homem demoníaco estava envolvido em jogos de azares entre os humanos e nefilins, disfarçado entre a pele de um cordeiro sedutor, mas naquele momento a ação trazia algo singular como um pressentimento e uma tarefa diferente do habitual.
Foram necessários alguns minutos até a chegada da dupla no cassino que poderia imitar um castelo pela grandiosidade e riqueza existente, havia brilho, bebidas, apostas e fogo, porém não era do interesse dos recém-chegados. A necessidade inicial era subir à cobertura onde ficava a casa ou o Paraíso - infernal - do menor e assim que conseguiu desviar dos parvos e empregados, conduziu ambos os corpos até o elevador.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12.
13.
Quando o elevador soou com o barulho irritante que anunciava a chegada ao andar, Liam levantou o pescoço e pode notar a aproximação do corpo robusto ao seu lado e não demorou um minuto para notar de quem se tratava e pode decifrar o cenário todo.
Não estava com medo como ocorreu quando caiu pela primeira vez, não estava possesso como ocorreu quando notou o que aconteceu ao ter caído, não estava curioso como ocorreu quando encontrou o homem de olhos cor-de-mel com substância de malícia. Sentia-se em casa dentro do meio abraço que o Gressil lhe dava - de modo instantâneo.
Quando saiu acompanhado de Zayn e entrou na residência do próprio, não pode ignorar a percepção de estar no Éden em uma forma moderna e urbana. Podia experimentar a sensação de esta sendo aceito novamente, mas sem a pressão da perfeição e do correto. Era apenas pele e osso, e isso parecia o suficiente para si. Antes de poder concluir mais alguma emoção, Liam teve os ombros puxados para trás e o rosto levado para perto da fisionomia alheia que rapidamente grudou os lábios no dele.
O toque não era artificial, as bocas rastejavam-se uma sob a outra e o demônio permitiu-se sussurrar.
"Está transbordando aqui, mas eu gosto disso", e deixou um sorriso morrer em sua expressão facial antes de colar seus lábios ao de Liam, novamente, agora massageando-os lentamente enquanto ambos entreabriam buscando sentir o gosto de outrem.
Zayn tinha gosto de maldade. De cigarros. De sedução e fogo, havia chamas no ex-príncipe.
Liam era mormaço. Um pássaro que estava sendo solto, havia gosto de liberdade em si.
E naquele tumulto com temporal, aconteceu novamente.
A terceira queda.Liam caiu com Zayn.
Zayn caiu por Liam.
Naquele tombo, o ex-arcanjo sepultou que era amor com dor.
E o demônio gostava disso.