Filho nos faz sair da nossa caixinha de segurança pessoal das formas mais variadas. Chega a ser engraçado pensar nas situações em que a gente se força a colocar para atender as expectativas e desejos dos nossos filhos.
Dessa vez Sara queria que o aniversário dela fosse comemorado no colégio, com a turma dela.
Particularmente, tenho pavor dessas interações escolares. Reunião dos pais? Eu me sinto naquele meme do como vim para aqui meu deus eu só tenho 6 anos. Um pouco daquela energia de não me sinto mãe e não me sinto adulta, um belo conflito de personalidade-estado-existência. A ficha não cai e as responsabilidades adultas e maternas cobram atitude da nossa parte mesmo assim. A vida como ela é.
Se for puxar as minhas memórias de infância então, eu morria de vergonha em comemorar aniversário no colégio. Morria. Como as comemorações aconteciam mesmo assim, nunca vou saber se foram importantes no meu desenvolvimento por outras questões. Quem sabe que memórias eu teria dessa época se as comemorações não acontecessem, independente da vergonha.
No caso da minha filha, tímida a ponto de não querer participar da apresentação de dia das mães — algo que conversei, tentou ensaiar mas não forcei quando achou melhor apresentar apenas pra mim em casa —, o aniversário parecia importante. Então lá fui eu entender as regras do colégio, organizar datas porque o aniversário cairia no recesso escolar, enfim, fazer a coisa acontecer.
Nisso algumas preocupações começaram a pipocar na minha cabeça ansiosa. Sara iria gostar da decoração, mesmo a temática sendo escolhida por ela? As crianças gostariam do bolo? Deveria encomendar apenas brigadeiro ao invés de doces sortidos? Conseguiria fazer a comemoração acontecer respeitando o limite de 30min do lanche das crianças? As crianças gostariam do que colocamos dentro das lembrancinhas? Quase dava pra escutar minha ventuinha mental virando um acelerador de partículas. Fiquei tão lelé da cuca que fui lembrar de comprar os utensílios (pratinhos, talheres, copos, guardanapo) poucas horas antes da festinha.
Que bom que mãe também é filha e também é nora.
Se não fosse minha mãe e sogra ajudando a organizar as coisas lá no colégio, cortar bolo, registrar o momento, ajudar a servir, meudeus, eu acho que ia acordar n'outro plano.
Fiquei ansiosa, ameacei travar quando a professora perguntou como queríamos cantar os parabéns, com as crianças junto, com as crianças sentadas, se faríamos fotos... eu não tinha pensado em nada disso, não tinha a menor ideia de como esses detalhes se desenrolariam. Então como uma adulta muito sensata e em pânico joguei a pergunta pras crianças. Jurei que a mesa do bolo ia cair quando começamos os parabéns, de tanto que as lembrancinhas balançavam e ameaçavam tombar na mesa, no meio daquela criançada animada.
Como a minha tática deu certo, assim que assopramos a velinha, com a Sara naquele misto de alegria e vontade de voltar para o útero, fiz as crianças voltarem aos seus lugares perguntando se estavam com fome. É, jamais imaginei que ficaria tão preocupada com as expectativas não só da aniversariante como de todos aqueles mini humaninhos eufóricos.
As professoras (são 3 naquela turminha) ajudaram a distribuir os pratinhos conforme eu ia servindo com os salgados sortidos, algo que amo comer mas que nem consegui tamanha a ansiedade que me bateu. Sara ainda muito envergonhada não me deixava sair do lado dela. Sogra cortando o bolo. Mãe registrando o momento, conversando com as professoras, com as crianças.
Deu tudo certo.
Sensação de alívio, missão cumprida.
Pouco antes de irmos embora, depois de deixarmos o arco de balões no colégio para a alegria dos pulmões das professores — no dia seguinte teria homenagem as avós, que a Sara não queria participar, e graças ao arco seriam menos balões para elas enxerem —, uma parada rápida no banheiro com a Sara onde fui entrevistada por uma coleguinha dela muito desconfiada sobre eu ser realmente a mãe da Sara. A pequena investigadora talvez tenha achado que eu era irmã dela? Questões...
Chegamos em casa exaustas e só então, mais calma, me atrevi a comer o que sobrou dos salgados. Brinquei com o novo quebra-cabeça das Huntrix que a Sara ganhou de alguma amiguinha enquanto ela pintava bobbie goods com a avó. Antes que déssemos o dia como encerrado Sara pegou no sono na cadeira da cozinha, tamanho o cansaço.
Sobrevivemos.
Sara teve sua festinha das Guerreiras do K-Pop.
Quanto as minhas preocupações, bom...
O bolo1 foi quase todo devorado, assim como os salgados. Podemos então concluir que as crianças gostaram. Já os brigadeiros foram ignorados, apesar de deliciosos, e boa parte dos 100 que sobraram montamos marmitinhas para os nossos vizinhos. Então alguém ficou feliz. E antes que você pense que é loucura talvez seja, ainda sobrou fácil uns 40 e nem sei como vamos dar conta de comer. Além de que eu ficaria super feliz de, em pleno sábado de manhã, ganhar marmita de brigadeiro de vizinho. Política da boa vizinhança, como diz o Toni.
Não lembro da hora que saímos de lá, mas acredito que o horário foi respeitado. Crianças e professoras parecem ter aproveitado o momento. Sarinha, apesar da vergonha por ser o centro das atenções, foi feliz e isso que importa.
Sinceramente, não achei que fosse me afetar tanto, apesar das preocupações etc, mas aparentemente toda aquela descarga de adrenalina era too much sim. Já no carro, voltando pra casa, senti a dor de cabeça piorar, a náusea, a falta de ar dando as caras. Precisei recorrer a minha querida dipirona e uns minutos em posição fetal até acalmar os ânimos.
Pelo visto assim como Sara começa um novo ciclo, começarei eu se o psicólogo concordar a viver o meu novo ciclo medicada porque no seco está, como diria Avril Lavigne, muito complicated.
Só os deuses sabem que novas aventuras maternas me esperam e não pretendo ir de arrasta tentando permitir que a mini queen viva o extraordinário enquanto minha cabecinha se resolve sozinha. A gente faz o que pode com o que tem e com o que tenho estou podendo pouco. Ou podendo muito né, mas a que custo.
Notas
- Em outro post comentei que o bolo seria feito por mim, mas no fim acabamos optando por encomendar (ainda bem). ↩
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