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histórias da ilustração portuguesa

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O segredo de Clara

Dedicado a Clara Silva

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Clara Soler, ilustradora editorial em Barcelona, apaixona-se pelo pintor José Luís Iturri, um artista emergente já célebre na sociedade espanhola. A púdica e honesta Clara arrasta há anos um falso segredo que funciona como um escudo contra complicações sentimentais mas que vai atrapalhar o romance com o pintor. Após uma desajeitada tentativa de suicídio, Clara reconquistará o eleito e, claro, dar o tão almejado nó sacramental.

Na panóplia de títulos dedicados ao coração em livro, como as coleções Andorinha, Branca Flor, Camélia, Cisne, Madrepérola, Orquídea, Pérola, Pimpinela, Rosa e Rubi, destaca-se a miniatural «revista semanal»Açucena, recordista com mais de 1200 volumes. Ilustradas na capa, na página de rosto e num número, nem sempre constante, de seis imagens espalhadas ao longo do texto, as historietas semanais da Açucena começam em maio de 1963 e vão prolongar-se até 1987. O objetivo final dos enredos é apenas um: o casamento. Por entre as variadas assinaturas dos autores, facilmente encontramos a da espanhola Corin Tellado, a rainha das novelas românticas. A variedade de coleções (a que podemos juntar as da concorrência) e a longevidade umas quantas, revela um mercado apetecível, maioritariamente feminino, disposto a gastar 2$50 semanais (preços de 1973) nos pequenos sonhos cor de rosa da mais prolífica editora de cariz popular do século XX, a APR Agência Portuguesa de Revistas.

O segredo de Clara contém um outro segredo que traz a Colecção Açucena à atenção do Almanak. O número 547, de 13 de novembro de 1973, revela a primeira intervenção ilustrada de Baptista Mendes na coleção. A estreia é titubeante, de composições acanhadas e paginação desastrada, mas as ilustrações ganharão desenvoltura ao longo das centenas dos volumes seguintes. Nos primeiros meses, capas e páginas de rosto são ainda desenhadas por Carlos Alberto Santos, o ilustrador «faz-tudo» da Agência Portuguesa de Revistas, que assegura a ilustração ininterrupta da coleção ao longo dos primeiros 546 volumes.

Baptista Mendes não tem o virtuosismo anatómico e a desenvoltura narrativa de Carlos Alberto e a sua mise en scène revela, por vezes, embaraçosos erros de perspetiva. Talvez por isso, ficará livre de ilustrar as capas que, após a colaboração de Carlos Alberto, passarão a ostentar centenas de «enlatados» estrangeiros, de sabor anglo-saxónico. Tal como o seu colega, Batista Mendes segue os cânones do género nas suas ilustrações para a Açucena: simplicidade narrativa, presença sistemática dos protagonistas, a solo ou em casal, ora amuados ora enlaçados, em planos médios ou fechados. Mas as imperfeições de Mendes ganham um selo de autenticidade e crueza que humaniza os clichés do enredo e se demarca da caraterização estereotipada de Carlos Alberto. O seu traço orgânico vai conferir uma qualidade estética e uma valoração emocional, visível na aspereza da tinta da china que Baptista Mendes aplica sobre o papel e acrescenta uma palpável tensão entre as personagens, conferindo uma espessura «existencialista» que o fast food literário desta coleção parece não reclamar.

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Carlos Fernando da Silva Baptista Mendes (Luanda, 1937 — Lisboa, 2026) é um autor clássico dos quadradinhos portugueses, especializado em temas e personagens da História de Portugal, em registo realista e de grande rigor documental. A sua sobriedade intelectual e artística evita a tentação fácil, ao tempo, de um proselitismo nacionalista alinhado pela propaganda do Estado Novo, mesmo nas curtas BDs de duas páginas que publica no Jornal do Exército, ao longo dos anos sessenta e setenta. Na coleção Açucena, e em outras pequenas coleções da editora, tem o artista obra menos visível, embora abundante, alinhada pelo seu realismo gráfico na BD histórica. Ao número 1155, a novela A Intrusa, datada de 3 de dezembro de 1985, põe um ponto final na colaboração de Baptista Mendes com a coleção. Daí para a frente, a Açucena afunda-se na irrelevância ilustrada de um autor que, felizmente, ficará anónimo até ao fim dos tempos.

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http://www.tvamadora.com/fibda/fibda-2014/o-realismo-na-bd-de-carlos-baptista-mendes/2829

http://www.inverso.pt/APR

Filed under: Agência Portuguesa de Revistas, Baptista Mendes

«Era impossível fazer isto todos os dias»

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Ilustração de João Fazenda para promoção da edição ilustrada do Público—BIG 2025, não publicada na versão em papel

Sexta-feira, 24 de outubro de 2025. São 10 horas da noite e na sede do jornal Público, em Lisboa, observa-se alguma crispação nos responsáveis do fecho da edição do diário. A gigantesca sala de redação está praticamente deserta e a ausência de ruído não ilustra a tensão que se sente no ar. José Souto, designer, e Sónia Matos, diretora de arte, afadigam-se à volta das rotinas digitais do fecho enquanto Jorge Silva e Marta Anjos, diretores de arte por um dia, tentam garantir o fluxo de ilustrações para fechar as últimas páginas. Paira a memória do susto da edição ilustrada anterior, de 2023, em que o fecho rasou a meia noite e uma multa leonina a pagar pelo jornal à gráfica de impressão.

Pela quarta vez nos últimos anos, o jornal sujeita-se a uma quebra das suas rotinas: no dia seguinte, a edição de sábado será impressa exibindo apenas ilustrações em vez das habituais fotografias. Folgam os fotógrafos e aumenta a azáfama à volta de uma seleção apertada entre os ilustradores contemplados na short list da Bienal de Ilustração de Guimarães deste ano, a quinta, cujos trabalhos passam por uma exposição e catálogo. Não é tarefa fácil, criar cerca de três dezenas e meia de ilustrações num escasso número de dias (no dia de fecho serão horas) e com um padrão de qualidade satisfatório. Nos rotineiros fechos de um jornal diário esta pedra na engrenagem não é particularmente apreciada. Mas, então porque acontece?

Trata-se de celebrar uma arte que faz parte do ADN da imprensa. Os grandes diários, até pela sua longevidade, ostentam históricos impressionantes, dando guarida a muitos dos maiores artistas gráficos portugueses de sempre. Mas a relação quotidiana com a ilustração e o cartoon já conheceu melhores dias (anos). Os jornais já não são o meio eleito de comunicação entre o Mundo e os seus leitores. O desaparecimento de títulos, a redução imparável de receitas publicitárias e o politicamente correto, encolhem os jornais e a disponibilidade financeira para recursos não essenciais. As edições ilustradas celebram então um tempo mitológico de abundância e liberdade que não voltará. Uma segunda razão deriva deste primeiro pressuposto. Embora tendo um design sofisticado, os nossos jornais são bastante previsíveis nos seus recursos visuais, usando e abusando da fotografia, cuja natural literalidade e barateza parecem correr a favor dos tempos. Se não abundam recursos, a criatividade acomoda-se facilmente e esmorece. Uma edição integral de ilustração é uma ruptura cuja excecionalidade fica bem no currículo e tem um risco calculado. Se correr mal, será apenas um dia, de entre os outros 364. E uma experiência a não repetir.

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Em 2025, Jorge Silva e Marta Anjos têm em mãos um cenário delicado: a maior parte dos artistas que escolhem para esta edição dedicam-se à ilustração para crianças. A agenda noticiosa política não folga ao sábado e, se a tarefa resulta fácil para cartoonistas treinados no comentário da governança pública, pode ser desmotivadora para ilustradores sem interesse em temas como as táticas dos candidatos para as presidenciais ou o discurso de Luís Montenegro a favor do Orçamento de Estado. Jorge Silva irá praticar uma direção de arte mais musculada, ajudando ilustradores a criar metáforas visuais que não desvirtuarão nem o conteúdo das notícias nem a sua identidade artística. Por puro bom senso, os suplementos autónomos são poupados à ilustração. É o caso do atual caderno Fugas, no Público, publicado também ao sábado, cuja rotina, editorial e gráfica, não sofre alteração.

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«Candidatos cruzam eleitorados em presidenciais fragmentadas», Yara Kono, 2025

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«Na Lei da Nacionalidade o PSD optou por continuar alinhado com o Chega», Dina Sachse, 2025

Mas a saga das edições de diários ilustradas começa bem atrás, em 1998, quando João Paulo Cotrim, então diretor de programação da recém-criada Bedeteca de Lisboa propõe ao jornal Público uma edição integralmente ilustrada que celebre o primeiro Salão Lisboa, dedicado à ilustração e à banda desenhada. A opção pelo Público é óbvia. O jornal tem um historial riquíssimo ligado à ilustração editorial e uma reputação sólida na divulgação da cultura e artes visuais. João Paulo Cotrim inspira-se numa ação semelhante, protagonizada pelo jornal francês Libération e o Festival de la Bande Dessinée d’Angoulême, iniciada no ano anterior.

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Libération, edição ilustrada de 2024

Na sua primeira edição integral ilustrada, o Público de 3 de outubro de 1998, sábado, assinala a abertura do Salão Lisboa, no dia anterior, nos Armazéns Abel Pereira da Fonseca, ao Beato. A sua direção de arte fica assegurada pelos designers Jorge Silva (então diretor gráfico do semanário O Independente) e Henrique Cayatte (criador do design do Público e seu primeiro diretor de arte), que assinará também a ilustração da primeira página. A lista de colaborações inclui os cartoonistas habituais do jornal, como Luís Afonso, Miguel e Vasco. Na página 36, aparece uma curiosa ilustração que autorretrata 11 ilustradores em pleno ato criativo, sentados na ampla mesa da sala de reuniões do jornal que, por esse tempo, tinha sede na Quinta do Lambert. 

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Uma curiosa reportagem, impressa na edição de novembro da revista 20 Anos, dirigida por Paula Ribeiro, acompanha a par e passo o making of da edição ilustrada de 1998. Gozando o fim da festa da Expo 98 e glosando o celebérrimo cowboy Lucky Luke que, na citada banda desenhada O Daily Star, «põe a sua brava pontaria ao serviço da liberdade de imprensa», esta espécie de fotonovela, escrita pela editora da revista, Fernanda Pratas, mostra em ação alguns dos protagonistas da odisseia ilustrada na sede do Público.

Foto 1 — José Manuel Fernandes, diretor do Público, e Henrique Cayatte, designer e ilustrador. 2 — Esboço do desenho de Jorge Silva, designer e ilustrador acidental. 3 — A ilustradora Alice Geirinhas. Ao fundo, o ilustrador Nuno Saraiva. 5 — Ao telefone, Jorge Silva. 6 — Os ilustradores André Ruivo, Pedro Pousada e Jorge Silva. Em primeiro plano, João Fazenda. 7 — A ilustração de Luís Félix, dedicada a Slobodan Milosevic, também conhecido como o «Carniceiro de Belgrado». Félix usa a sua personalizada técnica de pintura com stencil e escova de dentes. 8 — José Manuel Fernandes e Jorge Silva. 10 — Cristina Sampaio, ilustradora residente do jornal. 11 — O ilustrador André Ruivo.

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A segunda edição ilustrada, em 1999, imprime-se no dia da abertura do Salão Lisboa, exibido na Standard Elétrica. A direção de arte está a cargo de Jorge Silva, em Lisboa, e de Paulo Patrício, no Porto. A primeira página é desenhada por Nuno Saraiva.

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O jornal de 2000, continua um registo que será constante nesta primeira série de edições especiais: todas as ilustrações são impressas a preto e branco, excetuando a da primeira página, realizada por André Carrilho. As raras páginas a cores são reservadas para a inserção de publicidade comercial. A edição será a mais longa de todas, com 80 páginas, mas as suas 43 ilustrações, mantém-se na média da série. A direção é de Jorge Silva, que dirige as edições seguintes até 2003. O jornal coincide com a abertura do Salão Lisboa na Standard Eléctrica, subordinado ao tema Corpo.

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Em 2001, o jornal é desenhado pelo coletivo mais curto de todas as edições ilustradas: apenas 20 artistas, que se responsabilizarão pelas 32 ilustrações publicadas. A primeira página é do repetente André Carrilho. A edição sai no dia seguinte à abertura do Salão na Cordoaria Nacional, sob o tema Música. A ilustradora Marta Anjos, troca a colaboração ilustrada realizada nas duas edições anteriores pela gestão do tráfego com os ilustradores, tarefa que repetirá nas três edições seguintes.

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2002 é um ano de mudança na Bedeteca de Lisboa. A derrota de João Soares nas eleições para a Câmara da capital reflete-se na gestão da Bedeteca. João Paulo Cotrim demite-se do seu cargo em solidariedade com o autarca. Rosa Barreto será a nova diretora da Bedeteca. Nesta quinta edição, a Ilustração Portuguesa autonomiza-se do Salão, apresentando-se a solo em duas salas do Oceanário de Lisboa. O Público ilustrado sublinha a presença dos artistas nas redações de Lisboa e Porto, e especifica a sua composição pelas duas cidades. A ilustração da primeira página é de João Fazenda. O jornal será o recordista da série, com 49 ilustrações publicadas.
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Em 2003, a sexta edição consecutiva da edição ilustrada do Público coincide com a abertura do Salão Lisboa, dedicado ao tema Fronteiras, a uma quinta-feira. Tem a primeira página ilustrada por Alex Gozblau.

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A sétima edição ilustrada já decorre sobre a coordenação e direção de arte de Marcos Farrajota, programador da Bedeteca, banda desenhista e editor. O figurino das páginas ilustradas mantêm-se. O jornal aponta à abertura da exposição Ilustração Portuguesa, no dia anterior, na Cordoaria Nacional. Pedro Zamith ilustra a primeira página.

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A oitava edição ilustrada do Público, novamente liderada por Marcos Farrajota, fecha a série em beleza, com uma novidade revolucionária. Pela primeira vez, os ilustradores não estão obrigados a cumprir os temas dos artigos que lhe são destinados. Como se lê na última página: «Esta edição do jornal (mais uma edição de coleccionador) ficará, assim, como uma montra livre das opções estéticas e ideológicas de cada um dos ilustradores». A primeira página será ilustrada por André Lemos. Dedicado ao tema Entropia, o catálogo do Salão Lisboa, realizado na Estufa Fria, é distribuído com o jornal (por mais 8€).

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Mas a iniciativa de um jornal sem fotografias para celebrar eventos ilustrados não se ficou exclusivamente pelas páginas do Público. O Diário de Notícias tem três edições dedicadas à ilustração portuguesa, duas para a Festa da Ilustração de Setúbal, um salão criado pelo designer José Teófilo Duarte, e uma para o Amadora BD, o histórico festival de banda desenhada, cujo diretor, na época, é Nelson Dona.

A proposta chega ao Diário de Notícias pelo curador da Festa, João Paulo Cotrim que dirá, em entrevista na edição ilustrada de 2015, referindo-se à criação da Festa da Ilustração, que «Charlie Hebdo foi o nosso impulso», uma alusão ao atentado terrorista de janeiro desse ano contra o célebre semanário satírico francês, que vitima os cartoonistas Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski. Exposições dedicadas a André Carrilho, artista residente do DN, e a outros históricos, como Maria Keil, Lima de Freitas ou João Abel Manta, têm a adesão entusiástica da direção do jornal, liderada por André Macedo. O Diário de Notícias orgulha-se, no seu longo historial, de ter contado com a colaboração de Bordalo Pinheiro, Celso Hermínio, Stuart Carvalhais e Bernardo Marques. Nos mesmos moldes, acontecerá nova edição ilustrada em 2016, e a primeira página estará novamente a cargo de André Carrilho.

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O sucesso da edição ilustrada de junho, dedicada à Festa da Ilustração de Setúbal terá levado o jornal, cinco meses depois, ainda no ano de 2015, a desafiar o Amadora BD para um projeto similar. Nelson Dona, que lidera a equipa do Festival, e 18 artistas, incluindo os residentes André Carrilho e José Bandeira, preparam, ao longo de um mês a edição especial, que será publicada a 24 de outubro. A primeira página fica novamente nas mãos de Carrilho. O alinhamento de ilustradores privilegia a relação com a BD, permitindo páginas espetaculares que confirmam a programação atempada que o jornal sublinha.

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Em 2017 acontece a primeira edição da BIG — Bienal de Ilustração de Guimarães, criada pelo artista Tiago Manuel e produzida por Rui Ramos. A segunda Bienal, de 2019, inicia a ligação com o jornal Público, dirigido por Manuel de Carvalho, nos mesmos moldes da antiga parceria com a Bedeteca de Lisboa. A direção de arte e a logística com os ilustradores ficam a cargo de Jorge Silva e Marta Anjos, dupla que vai assegurar as edições seguintes, com a cumplicidade de Sónia Matos, diretora de arte do jornal. O grafismo do jornal está diferente. Redesenhado pelo escocês Mark Porter, o formato está mais pequeno e quadrado, o número médio de páginas também é menor, rondando as 56-60, e a impressão a quatro cores é total. A vulgarização da ilustração digital altera drasticamente o processo de trabalho. O telefone e o email reinam em absoluto. O happening presencial entre artistas desaparece, mas a direção de arte ganha tempo para sugerir ou impor alterações nos desenhos. As primeiras páginas assumem a ilustração na manchete principal, correndo o risco de alteração de última hora nas movediças breaking news. A pressão do countdown do fecho da edição mantém-se. A média de ilustrações desta nova série baixa para as três dezenas e meia, acompanhando a redução de páginas. A edição ilustrada sai sempre ao sábado, para coincidir com a abertura da Bienal.

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A edição de 2021 fica ensombrada por uma Carta Aberta que assume uma posição pública nas redes sociais contra a prática da ilustração pro bono. Os signatários defendem que todo o trabalho de ilustração deve ser pago, condena a iniciativa da BIG e responsabiliza o jornal por uma ação que fere direitos fundamentais dos criadores artísticos. O texto da Carta, que vai reunir algumas centenas de assinaturas, ignora o histórico do jornal nesta matéria, num tom e conteúdo que a organização da Bienal vai considerar populista e lesivo da reputação da BIG e do Público. Uma leitura posterior, desapaixonada, pode avaliar esta ação como um «xeque mate» à visão romântica do exercício da ilustração editorial, inadequada aos novos tempos. Como se verá, o objetivo da Carta virá a ter ter um efeito benéfico no futuro das edições ilustradas BIG—Público.

A edição deste ano ostenta uma fantástica banda desenhada, em duas páginas, numa rara concertação entre edição do texto e a arte, neste caso executada por Filipe Abranches.

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Na Bienal seguinte, em 2023, a equipa da BIG envolvida na organização da edição especial do Público não está disposta a continuar o mesmo formato, traumatizada pela Carta Aberta de dois anos antes. Mas a insistência do novo diretor do jornal, David Pontes, no figurino habitual da edição ilustrada, oferece uma possibilidade de redesenho da parceria, passando o ónus da remuneração aos ilustradores para o Município de Guimarães. E a edição de 2023 acontecerá. Além da soberba primeira página, ilustrada por Sebastião Peixoto, merece destaque um quarteto feminino que toma conta das páginas de desporto: Marta Madureira, Marta Ramírez, Soraia Oliveira e Yara Kono.

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Filed under: Diário de Notícias, João Paulo Cotrim, Público

New Look

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São de 1958 estes cartazes de ponto de venda para o gás doméstico de garrafa Gazcidla, protagonizados por uma mulher que veste o famoso New Look, criado em 1947 por Christian Dior, onde o corpo de ampulheta e o Victory roll nos cabelos substituem a austeridade dos tempos da Segunda Guerra. Capaz de registo glamouroso e realista na figuração feminina, praticado por exemplo em anúncios dadécada de 60, Alberto Cardoso (Elvas, 1918-Lisboa, 1999) apresenta-nos aqui uma mulher de aparência cómica e geometrizada. Se a presença absoluta da mulher «fada do lar» é ainda reflexo da cultura patriarcal, o busto saliente, a cintura fina e as saias amplas e rodadas são sinal de uma assumida feminilidade e empoderamento. Num raro formato, quase quadrado, de 39 x 40 cm, impressos em cores diretas, os seis cartazes que serão, provavelmente, uma série completa, focam consagradas utilizações do gás butano nas lides domésticas que se repetem, com as mesmas designações, numa outra série de cartazes da década seguinte, também do Gazcidla, desenhada por Câmara Leme, e já apresentada no Almanaque. O acréscimo de prosperidade doméstica aqui retratado coincide com o aquecimento geral da economia do país, que se vai acentuar na década seguinte e convoca, da parte dos organismos oficiais e dos empórios industriais, um esforço de comunicação apreciável. As marcas Gazcidla e Propacidla, oriundas da petrolífera estatal SACOR, têm um riquíssimo historial de propaganda, colaborada por alguns dos mais interessantes ilustradores portugueses de meados do século. Além do New Look de Alberto Cardoso, há lugar ainda para as anedotas marialvas de Gabriel Ferrão, o construtivismo retro de Piló ou o traço vitralista de João da Câmara Leme.

Alberto Cardoso é um dos mais notáveis artistas gráficos do século XX português e a sua vasta obra, que se prolonga por seis décadas, repartida pela ilustração, design editorial, publicidade comercial e design expositivo, não tem bibliografia dedicada. O perfil modesto de Alberto Cardoso, muitas vezes assistindo outros artistas com mais projeção mediática, como Thomaz de Mello (Tom), deixa-o na sombra da história do design português. Mas está no prelo uma exaustiva biografia, investigada e escrita pelo designer Paulo Marcelo, a partir da sua tese de doutoramento, com particular foco na extensa colaboração de Alberto Cardoso com a Oliva, empresa industrial inovadora que ficará célebre pelas suas máquinas de costura, sediada em São João da Madeira, no distrito de Aveiro.

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Filed under: Alberto Cardoso,

Estrela do Mar

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A CCN – Companhia Colonial de Navegação, constituída em 1922, será, tal como a sua rival Companhia Nacional de Navegação, uma empresa-bandeira importante na projeção da imagem de Portugal no mundo, desígnio a que o Estado Novo e os seus organismos de propaganda, como o SNI, se aplicarão com afinco. Artistas plásticos e gráficos relevantes deixarão a sua assinatura na decoração de interiores e em artefatos de comunicação. Ilustradores-designers como Alberto Cardoso e Manuel Lapa, por exemplo, vão aprimorar as ementas marítimas de alguns dos grandes navios que fazem a ponte entre a diáspora geográfica portuguesa. À pintora Estrela Faria caberão os cardápios ilustrados para os viajantes da primeira classe do Paquete Pátria, um dos navios de passageiros da CCN que, em 1949, reluzente nos seus dois anos de idade, deambula pela América do Sul, com especial regularidade pelos portos das cidades brasileiras. Estrela Faria abrilhanta os almoços e jantares com ilustrações de temática tropical, retratando vários clichés de paisagens e costumes brasileiros, e uma evocação portuguesa num quadro de varinas lisboetas. A mão segura da pintora revela-se num clássico jogo de impressão em três cores diretas complementares e na composição de manchas de cor que não carece de traço de contorno. As requintadas refeições do Pátria merecem acompanhamento musical: as ementas trazem ainda, na última página, o «programa do Concerto» que, acreditamos, teria execução ao vivo por uma pequena orquestra.

Gradualmente, os navios de carreira vão perdendo passageiros para o avião. O Pátria será fretado pelo Estado a partir de 1962 para  transportar contingentes militares para a guerra colonial em África e, em 1973, fará a sua viagem final, já sucata flutuante. Parte de Lisboa para Singapura onde será desmantelado.  

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Estrela da Liberdade Alves Faria (Évora, 1910-Lisboa, 1976) deve o seu exótico nome aos ardores republicanos do pai e à coincidência do seu nascimento com a recente implantação da República, cinco dias antes. Artista plástica pertencente ao Segundo Modernismo português, cumprirá o destino de tão auspicioso nome e terá obra relevante na na pintura mural, cerâmica, ilustração, decoração, joalharia e cenografia. Numa entrevista à RTP em 1968, afirma: «O meu estilo de trabalho é mais pintura mural, frescos ou outro género mais moderno. Prefiro pintura figurativa, porque sempre me habituei a pintar assim, embora lhe dê o meu cunho pessoal.» Do seu extenso legado avultam uma pintura mural no antigo cinema lisboeta Alvalade, em 1953, um painel em azulejo de temática bíblica no Tribunal de Évora e Bailarinos, escultura em cerâmica para o Hotel Ritz, de 1958. Na sua faceta de ilustradora, destaca-se a sua presença regular em magazines, colecionáveis de literatura universal e séries de postais de Boas Festas dos CTT. Familiares e historiadores de arte realçam a sua coragem e independência, capaz de rasgar convenções, e como figura inspiradora para as mulheres e artistas do seu tempo. Na extensa biografia ilustrada que a revista A Magazine lhe dedica sublinhamos as palavras de Raquel Henriques da Silva: «Foi uma mulher comprometida com a sua vocação e profissão, ela escolheu ser pintora e percebe-se que é uma questão fundamental para ela e que é a vida dela.»

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As mulheres de Sarah

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Será a primeira mulher a frequentar o café A Brasileira, no Chiado, então reservado apenas a homens. Aluna de Columbano, que influencia o tema das suas obras iniciais, dedicadas ao retrato, e com as inevitáveis passagens por Paris, onde chegará a colaborar com a pintora Sonia Delaunay e, simultaneamente, num ateliê de alta costura. Nunca terá sucesso público com a sua pintura e acentuando a sua já longa dedicação à costura, ao bordado e à decoração de ambientes domésticos, Sarah Affonso (Lisboa, 1899-Lisboa, 1983) imprimirá as premissas do movimento modernista, explorando a iconografia religiosa popular oriunda do Minho (onde viveu grande parte da infância e juventude) com os seus presépios, procissões e oratórios de culto às almas do purgatório, as célebres alminhas. O relevo dado à tradição rural portuguesa fica refletido, não só na sua obra de pintura, mas também na ilustração, muitas vezes em traço rápido, roçando o naïf. Registo que também aplicará em inteligentes bicromias nas capas da revista semanal Eva, entre 1931 e 34.

Ao número 291 de 6 de dezembro de 1930, Helena e Màmía, filhas do aguarelista Alfredo Roque Gameiro, assumem a direção da revista feminina Eva, ocupando o lugar de Helena de Aragão, que resigna a seu pedido e irá liderar a nova revista Femina, no início do ano seguinte. Com as irmãs Roque Gameiro, as capas da Eva abandonam os retratos a sépia de jovens talentosas e respeitáveis matronas da sociedade chic e são substituídas gradualmente por ilustrações de flores e motivos vegetais bordados. Helena e Màmía dirigem a revista até ao número 338 e a sua passagem fugaz pela Eva introduz em larga escala a ilustração  editorial na revista que, durante muitos anos, estará nas mãos de um escol quase exclusivamente feminino onde pontuam Maria Adelaide Lima Cruz, Clementina Carneiro Moura, Laura Costa, Ofélia Marques, Maria Vasconcellos, Aurora Severo e, naturalmente, as irmãs Màmía e Raquel Roque Gameiro, e as filhas desta, Manuela e Guida Ottollini. Este episódio é um dos pedaços mais emocionantes da história da ilustração portuguesa.

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Destacam-se pela sua frescura e ingenuidade gráfica cinco ilustrações para capa de Sarah Affonso, resistindo bem melhor ao tempo que o perfeccionismo cinematográfico de uma Raquel Roque Gameiro, de longe a ilustradora mais prolífica da revista. As mulheres imaginárias que protagonizam estas capas, entre a sofisticação dernier cri dos ditames da moda parisiense, ou os ecos da vida campestre, manifestam um óbvio empoderamento feminino, sem o artifício e a pose que, alguns anos depois, serão recorrentes na ilustração da Eva, já sob a direção de Carolina Homem Christo, nas glamourosas cenas galantes que representam a alta sociedade portuguesa, intercaladas por figuras femininas de atavio folclórico. Juntamente com outras revistas, como a Modas & Bordados, Femina e Portugal Feminino, a Eva integra uma frente importante de afirmação e emancipação das mulheres portuguesas, mesmo quando os seus conteúdos textuais e gráficos parecem estar subordinados às chamadas «prendas femininas». Na verdade, as correntes modernistas que se sucedem a partir de meados dos anos 10 do século passado têm no seu progama estético as artes decorativas e os costumes de raiz rural. Apesar das contingências da sua educação escolar e familiar, e do expetável papel que a sociedade patriarcal lhes reserva, muitas mulheres conseguem afirmar uma carreira como ilustradoras editoriais, realizar uma obra inspirada nas vanguardas dos movimentos estéticos e lutar por um papel igualitário na sociedade do seu tempo.

Os desenhos de Sarah na revista «Eva» enquadram-se facilmente na apreciação que críticos e historiadores de arte colam à sua obra total. Dirá Diogo de Macedo: «Sarah Affonso não vê a vida senão pelo lado infantil, pelo mais puro, pelo mais ingénuo. A sua arte é alegre, sem sombras, sem dostoievskismos assustadores.» Sarah fará ainda duas outras capas para a Eva sem figuração feminina evidente. Uma cesta com flores no número 364 de 30 de abril de 1932, e a última de todas, publicada a 17 de março de 1934. Duas mãos, femininas, seguram duas pombas, simbolismo recorrente na sua obra gráfica. Neste mesmo ano, Sarah Affonso vai casar com Almada Negreiros. O percurso artístico como pintora e ilustradora vai extinguir-se gradualmente. Desfazendo a impressão generalizada de que Almada teria anulado a sua carreira, de que até o próprio pintor se penitenciava, Sarah dirá mais tarde que a apatia do público e da crítica e a ausência de encomendas é que a afastaram irremediavelmente dos pincéis e das telas. Só muito mais tarde, a partir de 1955, o seu trabalho de ilustradora voltará a ser impresso, em contos avulsos da revista Menina e Moça e, em 1958, no livro de Sophia de Mello Breyner Andresen A menina do mar.

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Boa é a vida, mas melhor é o vinho*

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Em 28 de maio de 1937, a edição 52 do jornal Acção comemora «o ano XI da Era Revolucionária», ou seja, a implantação da Ditadura a 26 de maio de 1926. A edição, mais volumosa que o habitual, publica uma inusitada campanha de seis anúncios dedicada à produção comercial do vinho. O apelo dos anúncios «Consultai os Serviços Técnicos da Federação» passa pelo uso, corrente na propaganda oficial, do verbo na forma imperativa. A Federação a que os anúncios se referem é a Federação dos Vinicultores do Centro e Sul de Portugal, organismo corporativo do Estado Novo, criado por decreto-lei em 1933. Pelos seus quadros dirigentes vão passar três futuros ministros da Economia e dois ministros da Agricultura. A Federação será extinta ainda em 1937 e dará lugar à Junta Nacional do Vinho, que vai concretizar os mesmos desígnios da antecessora: regulação e regulamentação destinadas a estabilizar o mercado vinícola, fixar quotas de produção, fomentar a colaboração entre produtores e modernizar práticas de viticultura para a qualificação dos vinhos portugueses. A importância estratégica do vinho no fomento da agricultura e indústria portuguesas ficará bem expressa num cartaz posterior, de 1938, desenhado por Mário Costa, já editado pela JNV, que afirma que «Beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses», slogan que faz parte do anedotário sobre o Estado Novo.

Os seis anúncios onde se promove a qualificação sanitária e tecnológica de várias fases da produção do vinho tem excelentes ilustrações que estão em linha com a produção mais interessante da época. O traço caligráfico e o chiaroscuro, o teor claramente narrativo, a cinematografia expressa nos enquadramentos cortados e o rebatimento artificial da perspetiva, são atributos da segunda geração modernista, de qualidades semelhantes aos desenhos de um Tom ou de um Bernardo Marques. A assinatura das ilustrações é equívoca mas, pelos olhos vazados das figuras e o tratamento de volumes, julgamos tratar-se de Arlindo Vicente (Troviscal, 1906-Lisboa, 1977) que, por estes anos, desenha cartoons de cariz político e social neste jornal anticomunista e anticapitalista, claramente inspirado no Fascismo italiano. Futuro dissidente do Estado Novo e defensor da democracia (ver https://almanaquesilva.wordpress.com/category/arlindo-vicente/), Arlindo Vicente junta-se a José de Lemos e Manuel Ribeiro de Pavia, este último um referencial ilustrador neorrealista, colaborando, em fases iniciais das suas carreiras, na cruzada nacionalista do jornal Acção contra a União Soviética e os Republicanos da Guerra Civil Espanhola.

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Filed under: Arlindo Vicente

Whodunit?

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Um chapéu de chuva, cinco caixas, uma luva cinzenta e um copo de cocktail são as pistas dadas por Cândido Costa Pinto na capa do livro de Carter Dickson 5 Caixas = Morte, a partir da lista mais generosa arrolada pelo editor da «Vampiro», que faz parte de um extenso texto que brinda os leitores, no fecho do número anterior, o número 74, com o método para desenhar as surrealistas capas da coleção. 

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Protagonizado por crónicos detetives amadores que suplantam com a sua perspicácia e criatividade a ronceira polícia britânica, o whodunit, uma elisão coloquial de «Quem fez isto?» é uma variedade sofisticada do romance policial com foco nas pistas sobre o caso, um crime de sangue, para o qual o leitor é também convidado a deduzir a identidade do criminoso, antes de o enredo a revelar num clímax final. O whodunit é essencialmente britânico mas americanos como S. S. Van Dine, Ellery Queen e John Dickson Carr vão também imitar o estilo. Durante a Idade de Ouro da ficção policial, entre as duas guerras mundiais, o género whodunit tem a curiosidade de ser dominado por escritoras, como Agatha Christie, Christianna Brand, Dorothy L. Sayers, Gladys Mitchell, Josephine Tey, Margery Allingham e Ngaio Marsh.

O termo «whodunit» tem paternidade incerta. Terá sido criado por Donald Gordon, articulista do News of Books, em 1930, numa recensão do romance policial Half-mast murder, escrito por Milward Kennedy. Mas o jornalista Wolfe Kaufman jura que a palavra whodunit é sua invenção para um artigo de 1935, da revista Variety. Para complicar, a primeira aparição da nova palavra na revista acontece antes, em 28 de agosto de 1934, grafada por Abel Green logo no título de um comentário à adaptação cinematográfica da peça Recipe for murder: «U’s Whodunit: Universal is shooting ‘Recipe for Murder, peça de Arnold Ridley».

Cândido Costa Pinto assinará as primeiras 112 capas da «Vampiro», entre 1947 e 1956, ilustrando 40 autores diferentes onde abundam os escritores referenciais do whodunit: treze livros de Ellery Queen, 13 de Erle Stanley Gardner, onze de Agatha Christie, sete de S. S. Van Dine, sete de Georges Simenon, seis de Dorothy L. Sayers e cinco de John Dickson Carr (incluindo o pseudónimo Carter Dickson).

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Cândido Costa Pinto (Figueira da Foz, 1911-São Paulo, 1977 ) vai operar uma verdadeira revolução no design do romance policial em Portugal, restaurando a reputação literária do género. A milagrosa receita resulta num discutível Surrealismo que Costa Pinto provavelmente cumpre melhor no seu ofício de pintor. Se a gramática está lá, pontuada até por objetos pictóricos gratos ao movimento, como relógios e chaves, falta o automatismo onírico caro aos surrealistas. A surpreendente novidade desencadeada por Cândido no arranque da coleção, em 1947, cumpre também o tom claramente dedutivo de clássicos ingleses (e americanos) a que a «Vampiro» dedicou muitos dos seus volumes.

A Biblioteca Silva apresenta 12 originais da sua coleção de capas da «Vampiro», obras de Cândido Costa Pinto em guache e colagem. Uma delas, a Mão decepada, é um curioso plágio de uma edição inglesa de 1945 e que, prudentemente, Cândido não assina. Poderá ter sido imposição do editor da Vampiro», Sousa Pinto, cujo faro comercial tem prova certa no teor de uma carta que lhe será endereçada em 1965 por Lima de Freitas, onde o artista, que substituirá Cândido nas coleções «Vampiro» e «Argonauta», dá conta de três novas capas para a coleção: — «Espero que o estilo utilizado seja do seu agrado — procurei inspirar-me de algumas capas que me mostrou este ano, feitas na Inglaterra para os romances de A. Christie; se gostar fico muito satisfeito por assim ter podido corresponder aos seus desejos.»

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«Um homem complicado», um autorretrato de Cândido Costa Pinto, de 1947, pode bem ser um título justo para a sua vida e obra. Aos 18 anos, uma saúde frágil será marcada pela tuberculose que o atormentará durante 10 terríveis anos. Será revertida por um colete, adquirido a um refugiado polaco, adornado de símbolos mágicos de todas as religiões do mundo, em zinco e cobre, que terão uma ação benfazeja sobre os bacilos da doença e o tornarão um místico versado nos princípios de Krishnamurti e praticante de yoga. Cândido, estudioso apurado da técnica de pintura a óleo, vai publicar no Primeiro de Janeiro, em 1949, a solução para o conhecido «problema de Van Eyck», a saber, a «reconstituição da matéria pictural do genial criador da Escola Nederlandesa, depois de se terem frustrado as experiências e estudos de pintores de todo o mundo.» Associado à terceira geração modernista, Cândido pertence a um dos dois grupos surrealistas, o mais antigo, onde pontuam António-Pedro e Vespeira. Mas é repudiado pelas duas facções à conta da sua participação em exposições e prémios do SNI. A colagem ao Estado Novo é intolerável para os pressupostos revolucionários do Surrealismo português e o incompreendido e rejeitado Cândido acabará por se exilar no Brasil em 1962.

Cândido assegura ainda as capas da Vampiro Magazine, uma pequena revista mensal influenciada pela referencial  Ellery Queen’s Mystery Magazine e que apresenta contos policiais e uma miríade de ensaios, recensões, notícias internacionais e desafios ao leitor, à volta do universo da literatura policial. Sairão 24 números, entre março de 1950 e fevereiro de 1952. Além da sua colaboração gráfica com a editora Livros do Brasil, que inclui as 32 primeiras capas da lendária «Colecção Argonauta», Cândido tem obra gráfica de particular interesse para o Almanak Silva. É um prolífico criador de selos para os CTT. Desenha 29 séries, entre 1949 e 1972, colaboração intensa que fica a dever-se, também, à admiração e amizade que Martins Barata, diretor artístico dos Correios, lhe dedica. Na revista Vida Mundial Ilustrada, entre 1941 e 1942, fará a caricatura dos figurões da política mundial num registo que, segundo o historiador de desenho humorístico Osvaldo de Sousa, combina o grotesco e o onírico, esbatendo as fronteiras entre a sua pintura e o desenho de humor. Terá sido dele a última caricatura de Salazar, autorizada pela Censura.

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A «Página Infantil» marcará uma das mais frutuosas colaborações de José de Lemos no Popular, iniciada a 8 de outubro de 1942, duas semanas depois do arranque do jornal. Herdeira direta das experiências do artista no suplemento «Acção Infantil», datado do ano anterior, a nova página para crianças será presença regular do Popular durante décadas. José de Lemos (Lisboa, 1910-1995), um dos mais fascinantes e prolíficos ilustradores e cartoonistas portugueses, tem um papel relevante na literatura e ilustração para crianças. Trabalhará ininterruptamente no vespertino Diário Popular, desde o primeiro número, de 22 de setembro de 1942 até ao derradeiro, de 28 de setembro de 1991. Em entrevista à escritora Soledade Martins, incluída no livro Inquérito ao Livro Infantil, em 1980, Lemos contará:

A ausência de paternalismo e propaganda ideológica da «Página Infantil» vai apresentar uma salutar alternativa ao escapismo bedéfilo ou ao proselitismo nacionalista das revistas infantojuvenis e às tolas histórias da Editorial Majora que ganham, ao longo dos anos quarenta, uma asfixiante preponderância na edição de livros para crianças.

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O percurso editorial e gráfico da «Página Infantil» é riquíssimo. Há o Doutor Sabichão, o crónico cientista distraído da época, abundante nos primeiras edições. Há «As aventuras do saloio Matias e do cigano careta», tira cómica dos primeiros tempos. E largas centenas de textos e bonecos de uma das suas mais felizes rubricas, «Hoje há palhaços», onde Lemos escreve e desenha pequenos episódios em que um par ou trio de palermas de nariz vermelho e nomes carregados de aliterações desfiam historinhas absurdas que alternam entre a cândida tolice e a malícia espertalhona. E há colaborações de escritores e poetas de nomeada como Leonel Neves ou Else Trindade. Maria da Luz Ribeiro Moita, jornalista e sua colega no Popular, e com quem fará o seu último livro ilustrado, Histórias de Criar Bicho, escreverá cerca de trezentas histórias na «Página Infantil», com vários pseudónimos.

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A posição da «Página Infantil» no jornal é bastante irregular, trocando de dia e de suplemento com frequência. Inicia-se ao número 16 do Popular, ainda em 1942. Sai à sexta-feira nos anos 50, fixa-se às terças no suplemento «Volta ao Mundo» a partir de 61, e andará pelas quartas-feiras em meados da década. Reaparece na última página do «Sábado Populaem 1980, já sem o esplendor antigo: sobram os desenhos dos pequenos leitores («Artistas de palmo e meio») e falta Lemos, reduzido à ilustração de um conto, geralmente escrito por Else Trindade. Pelo meio, a «Página» mudará de nome: o distraído Doutor Sabichão volta, repescando os miúdos já graúdos e dá nome a suplemento de quatro ou oito páginas, a partir de 7 de janeiro de 1972. As histórias de primeira página são escritas por Magda Sobral, Else Trindade, Luísa Ducla Soares e António Torrado, ilustradas, rotativamente, por Lemos e Emundo Tenreiro, diretor gráfico do Popular. No cabeçalho do suplemento há espaço para uma assinatura de posse, sinal para o colecionismo e a memória futura, palpável, de um passado feliz.

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Em 1985, primeiro como suplemento de 16 páginas, mais tarde como página única, vai chamar-se «Pimba!», rótulo ingrato para os pergaminhos da «Página» e onde Lemos já não tem a mão vigorosa de outrora. Inventará regularmente rubricas interativas, das que apelam ao lápis do leitor para unir pontos e revelar imagens misteriosas, ou para apontar diferenças em bonecos aparentemente iguais. Com a simplicidade de sempre, os desenhos são também exemplo do fantástico jogo de linha e mancha que marca toda a obra do artista. A meio dos anos 70 Lemos alterará o registo das suas ilustrações para os contos. Os densos guaches cinzentos dos anos sessenta são agora vibrantes cores de mancha solta, ainda em guache, acompanhadas irregularmente pela tinta da china. O amor devotado pelo artista aos seus «bonecos» para crianças revela-se numa entrevista de 1988. Ao ser inquirido sobre os seus trabalhos preferidos, Lemos aponta três páginas do Diário Popular, datadas de 1955, 1956 e 1957. Ainda a preto e branco, são todas exemplares da «Página Infantil». 

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O senhor da Gleba

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Capista acidental de temas e autores ao longo das décadas de 20 e 30, João Carlos (Ílhavo, 1899-Lisboa, 1960) seria artista «residente» das Edições Gleba na década seguinte. Entre 1942 e 1948, a sua produção espalha-se por várias coleções da editora, como a «Colecção Romances Célebres» (onde deixa os seus melhores trabalhos) a «Coleção Contos e Novelas», a «Romancistas de Hoje» e outras que se seguirão a meio da década, como a «Colecção Homo», dedicada a memórias e biografias, «Obras de Oscar Wilde» e as «Novelas Policiais Gleba».

As portentosas composições da «Coleção Romances Célebres» e «Romancistas de Hoje» contrastam bastante com o desenho linear que celebrizou o artista. Na realidade, a linha continua lá, nos degradês em que a mancha de cor pura faz a transição para a cor seguinte. À maneira de muitos ilustradores da época, João Carlos é exímio na modelação de volumes através do contraste cromático, onde o branco do papel joga especial relevo, mas apresentará uma gramática tipográfica bastante heterogénea no design das capas. Embora não assinadas, as capas das «Novelas Policiais Gleba» podem ser-lhe facilmente atribuídas pelas semelhanças de composição, desenho e jogo de cores. 

«Romances Célebres» terá sido a primeira coleção, iniciada ainda no mesmo ano da fundação da editora, por Aurélio Cruz, Lobo Vilela e Isolino Caramalho. Em contra-corrente à política e cultura oficiais do Estado Novo, a Edições Gleba irá publicar obras do movimento neorrealista, clássicos russos e revelar autores desconhecidos da Europa do Leste como os romenos Cezar Petrescu e Liviu Rebreanu. Na década de 50, a Gleba iniciará uma emblemática coleção de livros de bolso, «Os Livros das Três Abelhas», dirigida por Aurélio Cruz e Victor Palla. A coleção solicitará grandes artistas gráficos da época como Palla, António Domingues ou Sebastião Rodrigues, mas já não contará com João Carlos, que fecha esta seleção de trabalhos com o livro Vem aí a guerra, da Gazeta do Sul Editora, da qual foi colaborador regular nos anos que antecederam a Gleba. Nas fantasmagóricas cenas que podemos aparentar ao chiaroscuro da Art Déco, João Carlos constrói uma das mais sólidas identidades visuais da edição livreira dos anos 40. 

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Cão versa

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«A Siné, que sugeriu este livro». A dedicatória, na página 3 do livro Cão Pêndio, confirma a influência e a afinidade concetual com as obras do cartoonista francês Siné (1928-2016) que publica vários livros, como Portée de Chats e The French Cat, datados de 1956 e 1958, com trocadilhos à volta do seu animal predileto, o gato (chat/cat). Ao contrário de Siné que flagela a classe política e os costumes franceses com plena liberdade de expressão, Tóssan (Vila Real de Santo António, 1918- Lisboa, 1991), cuja repulsa pela ditadura é bem conhecida, evita o olho vigilante da censura portuguesa com trocadilhos de caráter lúdico, embora em alguns desenhos se vislumbre o comentário político, caso do «Cão pitalista». À volta da mistura das idiossincrasias caninas e humanas, Cão Pêndio cumpre um salutar intervalo na rotina do humorista Tóssan em revistas e jornais, uma oportunidade para esmiuçar variações possíveis sobre um tema único, prática comum a grandes humoristas gráficos como Siné, Ronald Searle ou Ralph Steadman.

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A deliciosa coleção de 54 trocadilhos foi editada na Portugália Editora com direito a campanha publicitária no «Magazine» do Diário de Lisboa onde, desde há dois anos, Tóssan se multiplica em ilustrações para os suplementos «Juvenil» e «Magazine». Tóssan é um excelente ilustrador animalista, mas reduz os canídeos do seu Cão Pêndio a um híbrido de raça indefinida, num traço rápido e anatomicamente descuidado a que raramente acrescentará atributos ou artefactos humanos.

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Almeida Santos, que virá ser um destacado político do Partido Socialista, exerce advocacia em Lourenço Marques, mas conta com amigos em Lisboa para as suas aventuras editoriais. Num cartão de 1959, dirigido a Tóssan, comenta com amargura e humor as peripécias do seu censurado livro Rã no Pântano e augura sucesso a Cão Pêndio. Ilustrados por Tóssan, são ambos publicados no mesmo ano.

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Em 1985, uma efeméride redonda da Companhia de Seguros Fidelidade, a que o cão do símbolo dá pretexto ideal, traz de volta o compêndio canino. A 26 anos de distância, Tóssan redesenha para Fidelidade 1835 as velhas piadas da edição original do Cão Pêndio e acrescenta outras tantas que o ar dos tempos reclama, focadas agora na libertinagem amorosa e na consciência de fenómenos ambientais como a poluição. Desde meados dos anos 70 Tóssan mostra, nos seus livros para crianças com textos do amigo Leonel Neves, uma representação gráfica mais sofisticada, mas os desenhos de Fidelidade 1835 mantêm-se fiéis aos grafismos de 1959. Numa «Introdu cão» manuscrita que não constará na publicação, Tóssan explora exaustivamente o filão canino em trocadilhos fáceis que relembram a sua produção literária, habitualmente carregada de aliterações.

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Com outro formato e grafismo, a Bruaá Editora reeditará em 2015 a versão original da Portugália onde consta um poema-prefácio de Tóssan:

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