• Image

    Acompanhou-me durante anos. Diariamente, era aí que tomava café, mesmo não sendo um vício. Era um hábito, uma oportunidade. De encontros, de socializar, de conversar, discutir à mesa os problemas da cidade, daquela Praia que víamos definhar e que tardava a reerguer-se. Tardou, mas não se reergueu. Amarrada a um passado que se idolatra, vive num marasmo permanente, expectante do próximo navio e da festa que nos ilude ano após ano.

    Já quase não vou à rua de Jesus. Não há nada para lá fazer. Atravesso-a de quando em vez ao deslocar-me de um dos seus flancos ao outro, vindo da escadaria, refúgio de indigentes, esquecida, para a Praça ou para o Largo João de Deus e regresso. Ainda assim, bastantes são as vezes que atalho pelo adro da Matriz, sob os plátanos a rarear, descendo os degraus junto aos Paços do Concelho. Não fosse a cancela listada de vermelho e branco e os carros em estacionamento de mau gosto, seria esse um dos mais belos circuitos da cidade. É pena. Sim, é pena, mas tem sido assim a Praia. 

    Aguarda-se ansiosamente pelas festas. Por aquele engano ilusório que, aos olhos de quem nos visita, dá ares de que a cidade vive pujante e cosmopolita. Não vive. Ainda assim, parada no tempo, o café expresso já se vende a um euro em alguns estabelecimentos, acompanhando as tendências das grandes urbes, o progresso e as novas tendências. Que grandiosos somos. Que modernos vamos sendo.

    Os novos mastros metálicos já se instalaram nas ruas principais da Praia. A festa está quase aí. Está aí quase o Capote e a enchente de visitantes trazidos da diáspora pela comitiva de promoção das festividades. Como somos empreendedores e empenhados em causas nobres. A nobreza do arraial, da semana que nos faz sentir vivos. Da semana em volta da qual tudo orbita. Quantos serão aqueles que nos visitam em relação direta com a promoção anacrónica? E se não tivesse havido promoção? A cidade ficaria às moscas?! Tenho dúvidas.

    Há quase dez anos que escrevo, entre outras coisas, sobre a rua de Jesus. A rua foi mudando e as causas da decadência vão cambiando em função do desgaste da desculpa anterior: a rua fechou, os americanos foram embora, os serviços fugiram, a internet roubou os clientes, as grandes superfícies, o centro comercial, as urbanas, os praienses, os parquímetros… e um projeto? E uma ideia? E um pacto entre todos, não eleitoralista, para que se construa um rumo? Um projeto de futuro construído de forma arejada, com cabeça, tronco e membros, ouvindo, estudando, participando, debatendo de forma humilde.

    Quero voltar à rua de Jesus. Mas para fazer o quê?

  • Image

    Conta-se que as casas foram demolidas enquanto os seus moradores assistiam à missa. Ouvi esta versão da história naquilo a que se poderia chamar uma tertúlia informal sobre a pista, os seus terrenos ocupados, as rendas por pagar, as searas e o celeiro da ilha. Os bandidos dos estrangeiros falantes de inglês teriam esperado que os bugienses e demais habitantes da planície do Ramo Grande se deslocassem à igreja para que, à falsa fé, deitassem as suas casas ao chão e pudessem estender chapas esburacadas e construir a “nossa” pista. Malditos estrangeiros que só para cá vieram para nos estragar a vida e nos abrir os olhos!

    Tenho dúvidas de que “a coisa” se tenha passado com tão simples linearidade. Duvido, ainda mais, que o processo de arrasamento de toda uma espécie de aldeia – as Bugias – tenha ocorrido nas costas dos seus habitantes. Quase posso afirmar que não, uma vez que essas famílias haviam sido realojadas em duas outras “aldeias” construídas propositadamente para o efeito: a Aldeia Nova das Lajes e a Aldeia Nova do Juncal. Aliás, foi precisamente para a Aldeia Nova das Lajes, bem em frente ao chafariz evocativo da presença britânica na ilha, que foi viver a minha tia Aurélia, irmã da minha avó Izilda, e a sua família, vindos das Bugias.

    A minha tia fazia costura e, com a chegada da Royal Air Force à ilha, havia necessidade de encontrar, na mão de obra local disponível, quem tratasse do fardamento. Remendar, manter, reparar, cortar, fazer aqueles pequenos retoques de agulha e dedal para que as fardas estivessem sempre impecáveis. Isto para não falar das lavadeiras, claro, que as mantinham asseadas, cheirosas e escasqueadas. A tia Aurélia tornou-se, assim, uma das primeiras costureiras da Base, ainda no tempo dos ingleses. Não sabia uma única palavra de inglês, nem tão pouco lia ou escrevia em português, algo bastante comum naqueles tempos.

    Por entre as entregas das calças, das camisas e dos bivaques para reparo, as tropas britânicas foram também dando a conhecer a sua terra, através das imagens impressas nos jornais e revistas que recebiam de Londres. A jovem Aurélia, juntamente com as irmãs – Iracema e Izilda – maravilhava-se a ver essas fotografias, principalmente as das princesas Isabel e Margarida. As irmãs Pacheco, as das Lajes, teriam mais ou menos a mesma idade que as irmãs Windsor, as de Inglaterra. Talvez por isso se identificariam com as inglesas. Eram lindas, com roupas maravilhosas, coroas brilhantes, a viverem em palácios, princesas de verdade, de carne e osso em fotografias provavelmente a preto e branco. Mas era o quanto bastava. Todo um novo mundo parecia estar mais próximo.

    Sem que eu saiba como, as três irmãs foram acompanhando a vida das princesas. Alguém lhes havia de traduzir o que vinha escrito nas revistas. A ligação à distância entre os dois grupos de irmãs foi tal que, muitos anos depois, a minha avó me contava ao detalhe os amores, desamores e desventuras da princesa Margarida, como se a conhecesse de perto, amiga íntima e confidente. Aos seus olhos, Margarida era uma vítima às mãos do rigor da corte de Londres. Admirava aquela mulher, mais ainda que a irmã, a futura rainha Isabel II. Uma injustiçada que não casou com o homem que amava. Nem Diana, nem Meghan, nem Camila. Para ela, Margarida, essa sim, foi quem revolucionou a Monarquia inglesa. Todas as gerações têm a sua Diana…

    A vinda dos ingleses precipitou a vinda da Força Aérea portuguesa. Ainda hoje, por vezes, parece que uns só cá estão porque os estrangeiros também vieram. Nesse primeiro contingente militar luso veio o meu avô, Vitor. Tenho, por essa via, uma dívida de gratidão para com a Royal Air Force. Não fosse Churchill, a tropa portuguesa também não teria vindo. Logo, não teria Vitor chegado à Terceira, conhecido a Izilda, com quem casou. Não teria nascido a minha mãe: Anete, um nome inglês de que a minha avó gostara muito, assim que o ouviu pela primeira vez.

  • Image

    Também sabíamos serem irreverentes. Não querem ser como os outros, só porque sim. Destoam. Recusam ser certinhos. Arrumadinhos. De calças de ganga rasgadas, mini saia, meias de rede ou T-shirt preta exibindo a iconografia das grandes bandas de rock, nacional e internacional, esgadelhados e livres, cantaram Queen, David Bowie, Xutos, Guns n Roses e Lennon no Encontro de Coros da Ilha Terceira, que aconteceu em Angra, no passado fim de semana. Gente doida. Desinibida. Descomplexada. Por instantes, lembrei-me do Geokids. Que saudades…

    Um conceito de liberdade. De liberdade individual. De descoberta de si próprio. Poderem ser crianças. Sem trabalhos de casa. Na rua. Sujos. Descalços, se assim se sentirem mais confortáveis. Com chuva ou Sol. Não há doença que lhes pegue. Sem brinquedos, quando um pau, uma pedra, pedrinhas, folhas e pauzinhos fazem um lugar. Quando uma mata organizadamente desarranjada é o melhor pátio de recreio. Quando coelhos, galinhas, patos e pintos deixam de ser animais e passam a ser companheiros de brincadeira.

    Entre teatro, dança, desporto, música ou artes plásticas é possível educarem-se crianças, meninas e meninos, adolescentes com espaço para serem eles próprios. Quem quiserem ser. O que quiserem ser. Tanto tempo terão para serem adultos. Porra! Deixem-nos serem crianças!

    Liberdade… palavra gasta que vai entendendo que a democracia é seguir o padronizado. O que todos fazem. O que todos aceitam, tantas vezes por medo e insegurança, numa busca frenética se não caírem no rótulo de “excluídos”. Uma perpetuação da estagnação e da incapacidade de criar, contradizer ou argumentar. Deixem esses rapazes serem livres. Deixem essas pequenas serem livres. Deixem-nos serem crianças.

    Está aí a chegar o primeiro de junho. Insufláveis. Pinturas faciais. Antecipo-me. Ainda não é neste fim de semana. Mas já vejo o filme todo. Tudo direitinho. Muito direitinho. Camisa branca. Calças azuis. Sapatos pretos.

    O dia de domingo passado terminou no Auditório do Ramo Grande. O Coro da Escola Francisco Ornelas da Câmara, tal como o fizera em Angra durante a tarde, apresentou-se roqueiro. Com ele, apresentou-se também o Coro dos Pequenos Cantores da Maia, aquele que, em dezembro último, os recebeu na sua cidade. Foi uma noite memorável. Uma viagem pela música. Os nossos virados para o rock. Os da Maia mais virados para a música ligeira nacional, visitando os êxitos de sempre, os que todos sabemos cantarolar. E cantarolámos.

    Para o final, a organização preparou-nos uma surpresa. Os dois grupos, em conjunto, no palco do Ramo Grande, na Praia, entoaram as “Ilhas de Bruma”. À partida, parece uma coisa de somenos importância.

    – Ah! As Ilhas de Bruma…

    – Já ninguém pode.

    – É o que todos fazem.

    Sim, muitos fazem-no. Só que estas crianças, dos coros da Escola Francisco Ornelas da Câmara e da Maia fizeram-no bem. Afinadinhos, compenetrados na sua missão, e acompanhados à guitarra por um dos seus intérpretes originais, o Luís Gil Bettencourt. No momento certo, o Luís também cantou. A sua estrofe de sempre. Um privilégio ouvi-lo. Um privilégio para estas crianças partilharem o palco e a voz com um Músico de verdade. Um dos grandes. Um momento único. Obrigado, Luís. Obrigado às professoras de música da escola Francisco Ornelas da Câmara, em particular à Paula Moniz. Vamos todos sentir a tua falta!

  • Image

    Costumávamo-nos sentar em cima da casa da água a ver os aviões. Daquele ponto, avistava-se toda a pista, ou quase toda. Fora do alcance ficaria a ponta junto ao Posto 1, a virada para o lado da Praia. Mas essa, também não era a mais interessante. Não era daquele lado que estacionavam os aviões que iam ou vinham da guerra. Sempre muitos. Sempre a fazerem muito barulho. A interromper as aulas. A obrigar os professores mais experientes a calarem-se, enquanto os que estavam só de passagem, os do continente, de outras ilhas, ou mesmo de Angra, prosseguiam a conversa, aumentando o tom da voz, gritando aos berros, na esperança de se fazerem ouvir, de vencer o som estridente produzido pelas máquinas de guerra voadoras. Ninguém vence essas máquinas de guerra. Eles não sabiam.

    A casa da água ficava por detrás do Azória. Não era bem atrás. Atrás, atrás ficava a paragem da urbana e a escada da cantina, quase encostada. Dava acesso à parte de baixo, ao bairro de oficiais, à escola primária, à dita cantina (que era um supermercado de grandes dimensões para os padrões da época) e ao parque infantil. Era aí que me encontrava no dia em que o chão me começou a tremer debaixo dos pés. Estava com o Xana, o meu vizinho, e não fazíamos ideia do que se estava a passar.

    De carro ou a pé, sem ser pelas escadas, para ir do bairro de oficiais para o bairro de sargentos, é preciso seguir a estrada que vem desde a rádio Lajes, que passa junto ao campo de futebol da escola, depois atravessa por entre o parque infantil e o clube de oficiais, seguindo em frente, virando à esquerda na curva dos carrinhos de ladeira, seguindo a rua principal sem virar para o lado dos comandantes, passar pela subida das árvores, escura, sempre em curva, e, quando acabam as árvores e já se vê o céu, tomar a decisão. Seguir em frente, para o lado da minha casa, bem ao lado do cinema, ou virar à direita, numa curva muita apertada, a caminho da capela. É precisamente nessa curva apertada, nesse gancho, que fica o reservatório da água.

    A cobertura é plana, como se fosse um terraço. Em rigor, são dois terraços, já que existe uma parte mais alta e outra mais baixa, meia dúzia de centímetros, formando uma espécie de banco corrido, ideal para nos sentarmos a ver os aviões. Um dia, até vimos o Concorde. Noutra ocasião, foi o local de ajuntamento de muitas pessoas para, com bocados cortados de radiografias, poderem observar um eclipse do Sol. Não me lembro de mais nenhum. Para mim, quando se fala de eclipse, aquele foi o eclipse.

    Para quem viveu na Base naqueles anos, sabe que aviões de combate, reabastecedores e muitas outras categorias de pássaros de ferro militares eram uma constante. Muitos aviões. Sempre muitos, com muito barulho e muita vibração que até as vidraças das janelas estremeciam. Estávamos habituados a dormir com aqueles estrondos noturnos. A sentir o cheiro do fuel. A ver tropa americana por tudo quanto é lado. A guerra sempre à porta. Tínhamos medo de ser atacados. Sabíamos que, num qualquer ponto do mundo, alguém estaria a ser bombardeado, mas nem sempre conhecíamos o país, a cidade, o alvo, quem. A informação era escassa e muito mais contida. Não era censura, não era ditadura, era contida sem a preocupação de causar impacto, drama, horror, dar audiências. Ninguém queria saber se era o maior ataque de sempre, se o número de aviões nas Lajes era como nunca antes visto…

    Tínhamos medo.

  • Image

    Fosse o homem dito de direita, ou aparentado, e a família unida, a subir a rampa, rumo ao palácio, seria a manifestação de conservadorismo da pior espécie traduzido nos saudosos valores da família, algo bafiento com aromas de Estado Novo. Nem os dourados corações de Viana, a adornarem o vestido da esposa do Presidente, em filigrana, provavelmente de Gondomar, escapariam. Seriam o regresso aos símbolos nacionais da propaganda de António Ferro, da virginal noiva, da beleza do orgulho no povo honesto e trabalhador, qual Aldeia da Roupa Branca, valores pátrios, a tradição saudosa de um tempo em que a simplicidade do Portugal profundo era a exposição do Mundo Português, do saudosismo do Império, representado na cerimónia pelo Chefes de Estado das Colónias, em coabitação com o Reino de Espanha, parceiro de todas as lutas, desgraças e ambições fatídicas, separados em Tordesilhas, unidos na sina de um triste fado com melodrama de flamenco. Agora, a comunicação social fica lá longe, sem direito a estar próxima, um ciclo que se fecha, uma distância que se amplia. Fosse o homem dito de direita e os comentários seriam outros.

    Foi a Mourísia, ao interior profundo, nas faldas da serra do Açor, mas sem Açores. Nem no discurso, nem num sequer anúncio de visita. Aí, beijou velhinhas, abraçou velhinhos e tirou selfies. Mudar para que tudo fique na mesma. Afinal, não são tão grandes as ruturas. E se quer que sejam, não será fácil mudá-las. É um homem de boas intenções. Um homem que se preocupa com tudo o que os outros se preocupam. Nada diferente. Nada de novo. Quer estabilidade. Quem não quer? Quer convergência. Quem não? Quer consensos. Quem? Inócuo o discurso. Não rasga. Não traz nada de novo. Não dissolverá o Parlamento por dá cá aquela a palha. Quem o faz? Sampaio?!… Só me lembro de Sampaio…

    A partir de hoje, António José Seguro já estará a pensar no retrato que o imortalizará no Museu da Presidência. Marcelo foi buscar um artista da rua, já galerizado, que se habituou a picar pedra ou a escavar a madeira na busca da sua essência, representando a humanidade, os seus rostos, mais ou menos conhecidos, figuras públicas ou ilustres anónimos. Marcelo arriscou. Arriscou no criador, arriscando na técnica: jornais escavados, ocados, revelando a imagem do Presidente do Afetos. À luz do conservadorismo demonstrado por estes dias, não se espera tamanha ousadia por parte do atual Presidente. Será, na melhor das hipóteses um regresso ao clássico óleo. Temo, no entanto, que com tanta paixão pelos tempos idos e pelos símbolos da cultura popular, não se vá lembrar de homenagear o lugar onde escolheu viver…

  • Image

    Se o problema são as taxas da Ana, podemos sempre optar pelas não taxas do Artur. Para quem andar mais distraído, passo a explicar: a Ryanair vai deixar de voar para os Açores devido ao aumento das taxas aplicadas pela Ana/Vinci no aeroporto de São Miguel. Com este argumento, a transportadora salvação do nosso turismo incorre no erro costumeiro regional: se há um problema com São Miguel, em Ponta Delgada, logo, há um gravíssimo problema açoriano que, não solucionado para a capital da cultura portuguesa 2026, se transforma em algo não resolúvel e sem alternativa. Sem que se procure alternativa. Acontece que, sendo real o argumento low-cost, não colhe. Infelizmente, interessa que não colhe. Já cansa esta priorização imperial. Já cansa esta secundarização de tudo o demais que não seja a pátria regional do extremismo de direita.

    No aeroporto das Lajes, o da Terceira bairrista, festeira e que só quer toiros e carnaval, as taxas são controladas pelo Governo dos Açores. É o Governo dos Açores, sediado em Ponta Delgada, com a Vice-Presidência em Angra, que tutela as Lajes. Em bom rigor, é a própria Vice-Presidência que tem à sua responsabilidade o aeroporto terceirense. Logo, nas Lajes, as taxas aeroportuárias são aquelas que nós quisermos. Assim sendo, se a Ryanair não quer taxas ou se as acha demasiado elevadas, tem alternativa, boa e barata. Tem uma porta para a região, escancarada na dimensão que nós quisermos. Um hub, como é conveniente dizer-se. Uma plataforma giratória capaz de distribuir passageiros, turistas, consumidores e tudo o que seja possível transportar num avião azul e amarelo, a vender raspadinhas, para todas as restantes oito ilhas do arquipélago.

    Bem sei que, para o passageiro habituado à etiqueta PDL na bagagem, fazer escala numa qualquer ilha é algo de humilhante. Habituados a ligações diretas para o mundo, olham para esta possibilidade como um retrocesso civilizacional. Não foi para isso que construíram a Autonomia face a Lisboa. A Autonomia não lhes custou os olhos da cara para terem de se sujeitar a Lisboa e, muito menos, para ficarem dependentes de qualquer uma das outras ilhas. Serviu, serviria, isso sim, para se tornarem centrais. O centro dos aviões, o centro da governação, o centro do ensino superior, o Hospital Central dos Açores, mesmo que tanto nos tenham dado a garantia de que isso nunca iria acontecer.

  • Image

    O Convívio Anual de Presidentes de Câmara dos Açores decorreu, como é hábito, em Lisboa. Foi no passado fim de semana que, na capital nacional, os dezanove edis ilhéus da bruma se encontraram para, em amena cavaqueira, descontraírem dos afazeres locais. Pausa. Digo dezanove, mas não os contei. Mas, se não foram os dezanove, foram, pelo menos, muitos, acompanhados de largas comitivas. Pensei, inclusivamente, que fosse, já, a tomada de posse do novo Presidente, mas não. O atual, para não variar, por lá também andou, não fosse ele, que tal, um entusiasta desta política entretenimento de redes sociais para a qual e em função da qual se faz a ação política deste século XXI. Fotos a rodos, brindes e convívio em fartura, até daqueles que tanto criticam o sistema. Não faltaram, claro está, os ilustres membros do Governo que em todo o lado estão, menos onde é preciso. A contabilidade deste convívio tem sido avançada por aqui e acolá. Fala-se nos muitos milhares de euros despendidos neste evento por parte do Governo dos Açores. Ainda assim, não vi, em lado nenhum a quantificação dos gastos realizados por cada município. Seria interessante apurar-se toda essa quantia: gastos do Governo somados aos gastos municipais. Depois, tentar-se fazer um estudo sério ao retorno desse investimento. Pelas imagens que vi, o pessoal divertiu-se. As comitivas, divertiram-se. Nem que seja por isso, terão valido a pena os milhares de euros investidos na festa. Melhor dizendo, no destino Açores… e mais além. Parabéns! A Região e cada qual ficaram certamente mais ricos. Só é pena esse dinheiro não ter ido para onde mais é preciso. A isso chamam-se: prioridades. Que sejam.

    Enquanto isso, enquanto os responsáveis políticos locais e regionais de divertiam em Lisboa (peço desculpa se estiver a ser injusto, mas foram essas as imagens que fizeram questão de publicar nas redes sociais), os Açores e as Lajes, em particular, andavam nas bocas do mundo, e de graça. Com um simples telemóvel, imagens da guerra com a Marca Açores, enxameavam as redes sociais, noticiários televisivos, programas de comentários em canais especializados em notícias. Nem as promoções turísticas chegam a tanto, nem os serviços secretos do Irão precisam investir em espionagem atlântica. Não é preciso, nós próprios, em vez de nos protegermos, escancaramos as portas, as janelas, e mostramos tudo. É aqui. É aqui que tudo acontece. Foi daqui que tudo aconteceu. “9 Naturally Surprising Islands”… “Descubra Nove Ilhas Naturalmente Surpreendentes”…

  • Image

    Paralelogramo, retângulo, quadrado, losango. Um paralelogramo é um quadrilátero em que os lados opostos são paralelos e têm o mesmo comprimento. Ou seja, os lados opostos são congruentes e os ângulos (opostos) são iguais somando 360º. Um retângulo, por sua vez, é um paralelogramo com todos os angulo internos retos. O quadrado, também. Só que este, é um paralelogramo, que é um retângulo, com os lados também iguais. Um losango é quase a mesma coisa. É um paralelogramo com os lados todos iguais. Mas com ângulos não retos, iguais dois a dois. Basicamente é tudo a mesma coisa. Tudo quadriláteros.

     Há, ainda, o pi. Que nada tem que ver com esta família.

    Para facilitar, na aplicação humanoide, optamos por chamar quadrado a tudo quanto não vê para lá do óbvio. Mas porquê? Que culpa tem a mais perfeitinha das figuras quadriláteras, para definir o que é obtuso? A opção pelo losango seria mais óbvia. Afinal de contas é esta a figura definidora de Arlequim, o personagem da commedia dell’arte, que em nada se aparentará com os bailinhos de Carnaval terceirenses, mas que é também ele, o Arlecchino, um símbolo do Carnaval e personagem vilã de Batman. Talvez “o” símbolo. Desejava Colombina que o amava. Pierrot, o fofinho, quase Calimero, amava Colombina. Pobrecito. Arlequim, malandro, brincalhão, astuto, ambíguo, é tudo menos quadrado. Logo, um losango não é um quadrado. Este é reto, aquele é o que bem quiser. Arlequim será o “fora do quadrado”. Talvez, por isso, seja um símbolo da malícia contra os poderosos, contrato a inércia do sistema, a ambiguidade entre o aparentemente leviano e o cinismo que faz girar o mundo.

    Nunca será uma dança de espada.

    O homem dos losangos não é superficial. Vai ao fundo. Lá bem fundo onde o bem e o mal se confundem, onde as pessoas não são engavetadas em padrões rígidos. É um personagem colorido de várias personas. É a verdade que se é. É meigo se assim lhe convier, a perverso se ao momento melhor se adequar. É conquistador, mas é distante. É dependente, mas é dono de si. Busca a quadratura do círculo onde pi se confunde com um quadrado. E isso existe? Não. Pelo menos no nosso universo da matemática escolar, não existe. Mas, se formos livres o suficiente para que possamos definir o nosso próprio universo, bem podemos relacionar pi com quadrados, losangos, paralelogramos, retângulos, até triângulos ou trapézios.

    Arlequim é quem quiser.

  • Image

    Parabéns! Ao que respondo: obrigado, mas porquê? Pelo cargo novo, dizem-me.
    Como se fosse um prémio ou a concretização de um objetivo, sou parabenizado. Prémio de quê? Não me propus a nada, nem me parece que uma carga de trabalhos e de problemas constituam um “prémio”. Um desafio, quanto muito. Mas, prémio?! Prémio seria algo que não desse chatices, um passeio no parque, sem horários, sem exposição, com muitas mordomias e sem responsabilidades a que responder. Isso é que era vida. Algo do género “este voo vai para Zanzibar…”. “A criar excêntricos!” Nada disso. Mas não quero ser mal-agradecido. Obrigado. Mas guardem os parabéns para o fim. Para o momento da saída e dizerem: parabéns, fizeste um excelente trabalho. Adeus!
    Está a ser uma nova vida. Agora, com horários. Com “patrão”. Há mais de dez anos que não sabia o que isso era. Parabéns! Tinhas uma vida linda, para que te foste meter nisto? Nem eu sei, se querem que vos diga. Convite feito, uma volta de 180º, convite aceite. Aqui estou eu, fazendo algo que nunca na vida imaginei. Desafio. Só pode ter sido isso. Um desafio. Sair da caixa, da zona de conforto, embora aqui e ali as minhas competências técnicas se cruzem com a missão desta nova função.
    A gestão do tempo alterou-se radicalmente. Padecem as crianças e a vida familiar. Tudo se resolve, tudo se arranja. Dá trabalho e a ginástica é contorcionada. Por que não? Vamos lá a levantar o rabo do sofá, sair da rotina costumeira e fazer algo de diferente. “Muda de vida se…” Não será tarefa fácil. Se o fosse, também não teria graça. Desafio. Um grande desafio. Uma oportunidade para olhar o mundo numa outra perspetiva e de compreender o que antes desconhecia.
    Em tão curto espaço de tempo, já aprendi muito. Já percebi muito. Já admiti como tantas vezes foram infundadas as minhas queixas, as minhas reclamações. A máquina vista por dentro assume nova roupagem. É desafiadora e por vezes tenta triturar-te. Aprendes que pode ser diferente. É uma aprendizagem. Um desafio. Sempre a superação. Foi isto que me fez aceitar.
    De qualquer forma, parabéns, só no fim do jogo. Ainda assim, obrigado. Não tem de quê.

  • Image

    Pareceu-me que a terra estava a tremer. Um susto. A cadeira mexia. A água no copo não se manteve quieta. Não estava acostumado nem àquele espaço, nem àquela cadeira. Com rodas, reclinável. Confortável. Olhei em meu redor e ninguém acusou qualquer reação. Foi impressão minha, pensei. Minutos depois, outra sacudidela. Por formação profissional, preocupei-me de imediato com a estabilidade do edifício, um imóvel com quase seis século de história com vida, às vezes. Desta vez, perguntei: é normal este chão tremer desta maneira? Impávidos e serenos respondem-me: não senti nada. Ainda bem, antes assim. Terá sido impressão minha. A água no interior da garrafa estava em movimento. A água não se move por vontade própria. É necessária uma ação externa. Calei-me. Não quis dar ar de picuinhas.

    Fiquei a aguardar a mensagem da Proteção Civil, da App. Não chegou. Em vez disso, mais um alerta, Vermelho para agitação marítima. Qual o problema? Nenhum. Não tenho barco, nem sequer vou à pesca. Os demais alertas eram Amarelos. O costume. Mas já ninguém se importa com isso. Há de vir um ventinho, uma chuva mais ou menos forte. Estamos nos Açores, o que estão à espera. Já nem devia era haver avisos. Assim com’assim nunca batem certo.

    O vento soprou forte, caíram troncos de árvores e, por um triz, não se espatifou o vidro do carro. A chuva entrou por debaixo das portas. Valeram-nos as toalhas de praia que, mesmo a cheirar a mofo, acudiram a nossa súplica. Na rua, um lamaçal intransitável e as almofadas das cadeiras do jardim ficaram ensopadas daquela água de daquela lama. Isto para não falar do portão da entrada. Com a força do vento, salto da calha e embateu contra o motor. Deve ser à prova de bala e resistiu mais esta vez. Nenhuma telha voou, o que é bom, pois uma telha esvoaçante nunca avisa onde vai cair. Foi a oportunidade de arrumar a iluminação de Natal que sobrava na rua. Limpou-se e arrumou-se.

    Se a terra tremeu? Não consegui confirmar. Se a água se mexeu, isso mexeu, tanto com a cadeira onde o meu rabinho de sentava. Foi sismo. Só pode ter sido sismo. Um camião não faz estremecer tanto.

  • Image

    São resoluções de Ano Novo ou apenas um nome que arranjámos para adiar, por mais três centenas de dias, um projeto que sabemos nunca o iremos concretizar? O problema não é o ano ser novo ou ser velho. O problema é nosso e temos medo de o assumir. Sinal de fraqueza? De falhanço? Frustração contínua? Seja aquilo que for, não é um novo ano, as badaladas da meia-noite ou o fogo-de-artifício a queimar alguns milhares de euros no ar que vão fazer a diferença.

    Ainda assim, dois mil e vinte e seis traz consigo algumas novidades. Para começar, e por ser tema já abordado nesta coluna, uma nova Diretora Regional da Cultura. É sabida a minha ligação pessoal e de amizade com a Judite (Parreira) e qualquer comentário a seu respeito será, por essa circunstância, isento de imparcialidade. Fiquei feliz pela nomeação. Feliz por ela e feliz pela Cultura. A Judite é uma mulher de Cultura, da Cultura, a que tem dedicado grande parte da sua vida. E, se alguma coisa me faria votar contra esta nomeação, seria o facto de, com este novo cargo, ela ter de deixar as aulas de Expressão Dramática que lecionava aos meninos e meninas do Primeiro Ciclo da Escola Francisco Ornelas da Câmara. Tenho a certeza de que, para ela, este foi um passo difícil. Ela ama aquelas crianças. As crianças adoram-na. Ao ler isto, a Judite deixará cair uma lágrima, eu sei. Mas também sei que me perdoará esta pequena maldade. Boa sorte, Judite! Que te deem as condições para trabalhar, é o nosso desejo. Todos beneficiaremos com isso.

    Este também será um ano em que Portugal terá um novo Presidente da República. É já no domingo que iremos às urnas escolhê-lo. O mais certo é não ficar decidido de imediato e que tenhamos de partir para uma segunda volta, provavelmente mais interessante do que esta primeira com o risco de ficarmos sem saber o que fazer, tapar a fotografia para fazermos a cruzinha e optar pelo mal menor do mal menor. É uma eleição que entusiasma pouco, quase se assemelhando àquelas em que o Presidente em funções se recandidata. Algo, contudo, se deveria ter tornado o motor da mobilização: combater um candidato em particular. Infelizmente, o que se tem verificado, é a luta pelo estatuto de seu adversário na segunda volta, dando-lhe passadeira de entronização. Onde é que isto vai parar? É imprevisível. Votar contra, aqui, é votar em seu favor. Muito mau.

    E depois há o subsídio de mobilidade com desastrosas e humilhantes novas regras para os açorianos. Pese embora as posições tornadas públicas pelos responsáveis políticos regionais e pelos nossos representantes na Assembleia da República, o processo avançou e avança sem quaisquer impedimentos ou resistência formal. Poderão dizer-me: que mecanismos, para além das afirmações e alegadas negociações à porta fechada, ou bateres de pé em praça pública existem? Sugiro um. Que os deputados eleitos pelo círculo eleitoral dos Açores votem CONTRA todas e quaisquer propostas apresentadas pelo Governo da República no parlamento nacional, incluindo, principalmente, aquelas em que a estabilidade governativa possa ficar em causa. Somos pequenos, mas temos algum poder. O poder de votar de contra.

  • Image

    Na praça Francisco Ornelas da Câmara ouve-se o estridente pipilar dos pardais. É cedo e ainda não terão tido o tempo necessário para decidir qual a casa, sementeira (em novembro?) ou árvore de fruto a vandalizar. Estão numa acesa discussão e, pelo tom, o pardal-mor já terá caído do galho. Galamba! Melhor dizendo, caramba!, bem que o Marcelo da Palestina me tinha avisado. Presumo que os pardalecos habitem as árvores ali plantadas há uns anos, no consulado do Monteiro, aquando da inoportuna e desajeitada intervenção no seu pavimento, rebaixando-o. Rebaixou-se a Praça. A Praia. Foi um mau momento. Quem não o tem?! Estragou-se a Praça, aplainou-se o que não fazia sentido aplanar e desapareceram os passeios, um verdadeiro incómodo para os automóveis e carros alegóricos em dias de cortejos festivaleiros. Consumiu-se a sua alma, a da Praça. Não mais foi a mesma. O que ali foi feito, talvez tenha sido o prenúncio do que viria mais adiante. Melhor dizendo, não se tratou de um prenúncio, antes, o princípio de uma descida vertiginosa que, ainda hoje, estamos a pagar a irresponsabilidade. Até quando?

    Quando ontem, escrevo à quarta-feira, ouvi a notícia da demissão de António Costa, fiquei surpreso. A que respeito o homem resolve sair, agora? Não seria mais sensato esperar pelas eleições europeias, quando fosse ocupar o grande cargo europeu? A notícia vi-a no rodapé do serviço noticioso televisivo. Estava a almoçar. Por essa razão, não soube das explicações. Pelo menos, naquele momento. Só mais tarde. Metia Galamba, chefe de gabinete, amigos de faculdade… E aí, tudo passou a fazer sentido! Só falhando o timing, por tardio. Mais uma vez, preferiu proteger o homem da pancadaria no ministério. De uma coisa Galamba se pode gabar, não foi demitido. Estarão a rir Marcelo, Sandra Felgueiras, Cavaco e Sócrates. Marcelo, juntamente com a Sandra Felgueiras, porque andavam mortinhos por ver de patins o senhor do lítio, sendo que Marcelo também salivava sempre que pensava em vingar-se de Costa e fazer esquecer a palhaçada que foi o fim de semana em guerra contra a Faixa de Gaza; Cavaco, porque nunca gostou do Costa e este ameaçava retirar-lhe o recorde de permanência no cargo de primeiro-ministro e Sócrates, numa risada de orgulho, estará a pensar: afinal aprenderam alguma coisa!

    Quando se pensa que o caso A ou o caso B são, unicamente, questões pontuais, da conjuntura, começa-se a desconfiar que, infelizmente, se vai fazendo escola à conta de todas estas trapalhadas. A irresponsabilidade e o sentido de impunidade instalaram-se na máquina socialista e não exclusivamente ao nível da República. Quem acompanha ou acompanhou a história recente da Praia da Vitória, sabe que chegámos ao estado em que chegámos pela irresponsabilidade exclusiva do Partido Socialista, da sua gestão baseada nas redes sociais, na procura permanente de manter o poder a qualquer custo e na incapacidade de antecipar as consequências das suas decisões. Mais triste, ainda, é ver os seus atuais responsáveis orgulhosos desse passado desastroso, cavalgando uma conquista que não é sua (a internalização promovida pelo Bloco de Esquerda), colocando-se ao lado daqueles a quem ludibriaram ao longo do tempo, fazendo-se passar por seus salvadores. Não é sério. Não é honesto. Galambeano… Socrático… Socialista!

    Enquanto os passarinhos se vão mantendo a cantar, num coro desencontrado, mas afinado, a Praça mantém-se praticamente deserta. Meia dúzia de pessoas na esplanada do Santa Cruz, algumas a entrarem na farmácia, o contido movimento nos correios, uma administrativa que sai do arquivo e se dirige à secção de obras, os taxistas. Juntamente com quem me acompanha no café, damos por nós a imaginar como poderia aquela Praça ser diferente. Dir-se-ia: um vício. Não conseguimos deixar de pensar na nossa cidade e no seu rumo. As ideias foram muitas, variadas e, algumas, até utópicas. Entretanto, dois jovens aproximam-se de nós. “Estamos a fazer uma atividade”, diz um deles. E perguntam-nos: “Onde fica a câmara municipal?” e “o mercado principal?”. Sim, chamou-lhe “principal”… Pouco depois, veio o senhor Francisco e falou connosco.

    Image
  • Image

    A iniciativa partiu do Bloco de Esquerda. Mas, antes de desenvolvermos o assunto, será bom perceber-se o que é, na prática, e na eficácia, um projeto de resolução. De acordo com o glossário apresentado na página da Assembleia da República: “projeto de resolução é uma iniciativa de deputados ou grupos parlamentares, que não deva revestir depois de aprovada a forma de lei e que é, em regra, de cariz político.”  Em português corrente, poder-se-ia dizer que se trata de uma recomendação ao governo com origem num partido ou deputado, manifestando uma posição política sobre um determinado tema. Não é, por isso, uma lei, mesmo que a maioria, incluindo o governo, concorde com essa preocupação. Tal como a iniciativa é política, a forma de votar, também o é.

    Reconheço a bondade da iniciativa. Contudo, tenho de o dizer, a sua aprovação reveste-se de algum cinismo. Passo a explicar: em primeiro lugar, quem aprovou esta resolução sabe (e se não sabe devia saber) que a Assembleia Regional e o Governo não têm competência para interferir nas decisões internas dos Municípios. Este é, aliás, um princípio sagrado do municipalismo português que garante a sua independência relativamente às outras instâncias de poder. Logo, aquilo que a ALRAA fez não passou de uma manifestação política que, estranha-se, teve a aprovação dos mesmos partidos que sustentam o executivo camarário praiense. Por outro lado, a iniciativa do BE pode considerar-se injusta. Digo isto, consciente do alcance das palavras e de que os visados poderão não compreender. Apesar disso, não seguirei pelo caminho do mais fácil e do discurso que agrada, embora sabendo da sua inconsequência. Estas pessoas já foram enganadas demais.

    Porquê, então, injusto? Infelizmente, os funcionários da Cooperativa Praia Cultural, agora despedidos, não são as únicas pessoas que, nos Açores, ficaram ou ficam sem trabalho. Não são as únicas que tinham vínculos precários ou se sujeitavam a baixos salários. Infelizmente, existem mais, quer estejamos a falar do setor público, quer se esteja a falar do setor privado. Precariedade é precariedade e desemprego é desemprego, independentemente da natureza jurídica do patrão. As palavras, ditas ou escritas desta forma, parecem números. São frias. Mas são o que são e de pouco serve doirar a pílula quando se sabe que continuará cinzenta ou mesma negra. Pergunta-se, pelos motivos expostos, irá o Bloco apresentar uma resolução por cada pessoa despedida nos Açores, e propor que o Governo lhe dê emprego? Sei que a ideologia do BE dará uma resposta afirmativa a esta questão. Porém, dirijo a questão aos que aprovaram a resolução-mote desta crónica: irá o parlamento açoriano aprovar todas as resoluções apresentadas para que o Governo absorva todos os desempregados dos Açores? Estou convicto que não. Assim sendo, expliquem-me se acreditam mesmo que tal é possível, garantindo justiça e equidade relativamente a todos os açorianos?

    Não é sério continuar a prometer-se o impossível, principalmente quando a solução não passa pela suposta boa vontade do prometedor. O prometedor, o Governo dos Açores, no caso, compromete-se a abrir concursos. No entanto, não há lei que possibilite a abertura deste género de procedimento com nomes previamente definidos. Sabe-se ser uma prática corrente, mas não é legal. Por outro lado, para que estas pessoas possam candidatar-se a essas vagas, têm de ser “readmitidas” na autarquia e, depois de o serem, também não há lei que as obrigue a candidatar-se ao que quer que seja para sair da câmara e ir para outro lado qualquer. Por isso, anda-se, mais uma vez, a brincar com a vida destas pessoas, a usá-las como arma de arremesso político e todos, mas todos, vão procurando garantir o seu voto. A promessas impossíveis, a cinismo de esperança, dá-se um nome: populismo. Por tudo isto, e antes de se fazerem promessas que se sabem impossíveis de cumprir, pede-se aos intervenientes, aos autores de tais mecanismos, particularmente ao BE, PS e Governo que expliquem como tudo poder será feito de forma a garantir-se justo trato, legalidade e equidade. Da câmara, por seu turno, fica-se a aguardar o rol dos critérios que presidiram à seleção dos colaboradores em excesso a demitir. São muitas as dúvidas…

  • Image

    A tenda voou e ficou em frangalhos. Muitos viram este episódio como a demonstração do estado de declínio do destino praiense, uma espécie de indício da terceira anunciada caída, algo que, em definitivo, nos atira para o abismo. Recordo, apesar deste desastre, que não é a primeira vez que tal acontece. Pela minha contabilidade, será a terceira vez que uma barraca pública vai ao chão. Porém, desta vez, a conjuntura é substancialmente diferente. As causas da destruição são, evidentemente, as mesmas. Apesar dos avisos de mau tempo, anunciados pela própria autarquia, acreditou-se que a sede da feira de gastronomia era à prova de intempéries. Apesar de, pelos mesmos dias, a autarquia alertar a população para a necessidade de se tomarem medidas para se minorarem os efeitos de catástrofes naturais, a dita nada fez. Sem querer ser repetitivo, recordo, não é a primeira vez que tal acontece. Repetindo, a conjuntura não é a mesma.

    Este episódio, que levou ao cancelamento da feira EXPOPRAIA, acontece num momento de particular sensibilidade no município praiense, enquadrando-se no cenário de crise, falência, assistência financeira externa, despedimentos, ausência de investimento público, onde até a derrocada de um muro no miradouro do facho, ocorrido há pouco tempo, passa a assumir uma relevância não tida noutro contexto. Por outro lado, a comunicação, quer da instituição município, quer dos seus protagonistas, falha em toda a linha, revelando aquilo que, na aparência, se pode chamar insensibilidade ou total alheamento. Não se compreende por que razão, na página do município não haja qualquer comunicação ou imagem por parte de qualquer membro da vereação relativamente ao sucedido no passado fim de semana. Há simplesmente um comunicado a cancelar a feira, sem rosto. Aquilo que se vê são simplesmente imagens da presidente, no continente, a promover produtos locais. Fomos do oito ao oitenta. Quem consultar as redes sociais da câmara, fica com a sensação de que existem duas Praias, a da internet e a da vida real. Tal como o derrube da tenda das feiras não foi caso primeiro, a governação para a cidade idílica do Facebook também não o é e o resultado está à vista.

    O declínio não é de hoje, nem de hoje é o abeirar do precipício. No tempo em que o povo da nossa Praia vivia em anestesia induzida, crónica ou de simpatia, alguém ousou, através da expressão artística, gritar bem alto que a cidade se estava a afundar, de que era precisa ajuda, preferencialmente a dos praienses. Não consigo determinar o ano. Testemunho, no entanto, que nos finais de 2016, quando o retratei, o mural de Luís Brum já lá estava. Nas palavras do encomendador da obra, não do autor: “Representa a Praia da Vitória e a esperança no futuro. Numa Praia da Vitória meia à deriva, as suas gentes ao darem as mãos podem renovar e recriar a mesma e criar um novo, mas diferente porto seguro.” Era um discurso de esperança, apesar dos rabiscos na parede evidenciarem declínio e pedido de socorro. Os coelhos do Luís Brum quase que adivinhavam resignação.

    Infelizmente a ajuda não vem de dentro. Nem as soluções. Uma empresa externa determina o que fazer ao excedente de funcionários e que medidas devem ser tomadas a nível financeiro. Todo o apoio jurídico também é feito por prestação de serviços externos e a feira do livro do Outono Vivo também é feita por ajuste direto, sem qualquer tipo de concurso público (aliás, uma raridade neste executivo), por um valor que ainda não foi divulgado. O Terceira Tech Island deixou de ser gerido pelo governo, no tempo da anterior vereação, para passar para as mãos da autarquia que, agora, o cedeu à Câmara do Comércio de Angra (CCAH), a mesma que faz – alguém tem de fazer esse papel – a defesa da Praia e da ilha Terceira, a mesma que reivindica, a mesma que organiza a feira de atividades económicas do concelho, a mesma que agora defende a reabertura do curso de gestão e a criação de uma licenciatura/mestrado em economia no polo da Terceira da Universidade dos Açores. A CCAH torna-se, assim, a substituta da Câmara da Praia e uma espécie de Secretaria Regional para os Assuntos da Terceira. A gestão municipal baseada nas belas imagens das redes sociais, com sabor a postal e família feliz trouxeram-nos ao estado em que estamos hoje. No início do texto chamei-lhe declínio, mas, por vezes, desconfio que já tenhamos batido no fundo. Há muito tempo… A verdade, porém, tem demonstrado que quando pensamos não poderem as coisas ficar piores, há sempre uma tenda que voa, há sempre uma fotografia publicada no momento errado, uma celebração quando ela não deve acontecer. Dizia-me há uns anos uma autarca do partido socialista: se bateu no fundo, agora só existe um caminho, voltar a subir…

  • Image

    É já sábado que, nas Lajes, se vai debater “arquitetura do Ramo Grande”. Em primeiro lugar, claro, perceber se existe mesmo uma forma distintiva de construir e organizar o espaço característica desta parte da ilha. Saber em contexto se terá desenvolvido. Qual o momento histórico que espoletou esta forma de apresentar e conceber as habitações. Falar-se-á certamente de terramotos, grandes catástrofes naturais, de resistência, resiliência e capacidade de superar dificuldades. Procuraremos definir as suas características e perceber por que razão muitas dessas casas vão sendo demolidas e património vai sendo perdido. Isto é, claro, como referi no início, se existe mesmo algo que mereça e deva ser preservado.

    O que pode ser feito? Promovido por quem? Haverá necessidade de se proceder à sua classificação? Obrigar as pessoas a reconstruir ou remodelar nos moldes e parâmetros que essa classificação venha a definir? Haverá lugar à inovação em simbiose com esse modelo antigo? Quem paga e quem apoia? Que a mão de obra especializada em métodos de construção tradicionais é escassa e pouco acessível financeiramente. Só resta uma solução: mandar ao chão. É sabido que é muito mais barato deitar abaixo e fazer de novo, mesmo fazendo algo que, sob o ponto de vista exclusivamente visual, é muito aproximado do que lá estava. Existe, no entanto, um detalhe: não é o que lá estava. Será uma cópia. Um neo-Ramo Grande. Poderemos já falar da existência desta nova linguagem arquitetónica? O que pensam os especialistas sobre este assunto? Os historiadores? Os arquitetos? O turismo? Será que o turismo se contenta com este regionalinho de fachada?

    Como se pode ver, à volta da temática “arquitetura do Ramo Grande” muitas são as questões a debater, as dúvidas, as incertezas, as respostas a serem dadas, os conceitos a clarificar. Existirá mesmo uma arquitetura do Ramo Grande? Ou isto é só prezamento bairrista?

    Este debate, que terei o privilégio de moderar, está inserido na programação da Bienal Ibérica de Património Cultural – tecnologia e património – que tem lugar entre os dias 12 e 15 de outubro, em Angra. A Direção Regional dos Assuntos Culturais dos Açores, parceira do evento, em boa hora, teve a iniciativa de incluir no programa este debate que será antecedido por uma visita guiada a alguns exemplos daquilo a que chamamos “arquitetura do Ramo Grande”. O painel de convidados para a conversa é composto pelo Arquiteto João Vieira Caldas, pela Dra. Assunção Melo, pelo Arquiteto Fernando Costa, pelo Dr. João Pedro Meneses e pelo mestre Paulo Cardoso. Estou certo que, com estes convidados e com a participação do público, a abordagem a este tema não mais será a mesma. Para já, já estamos a bienal ibérica!

  • Image

    Atrás do tribunal da Praia costumavam estar estacionados dois elétricos. Daqueles amarelos, da Carris, que nos habituámos a ver circular pelas ruas de Lisboa. São, diga-se de passagem, a sua imagem de marca. Não me recordo quanto tempo lá estiveram, se terá lá embarcado algum passageiro, nem que destino estava registado na frente do veículo.

    A Francisca vai casar.

    No Poço da Areia, em vez de elétricos amarelos, estava estacionado um autocarro. Uma urbana, das mais antigas, grafitada. Esse não era o tempo da grafitagem ser considerada arte. Daí que, aquele mono azulado com letras não sei quais, causava estranheza a quem por lá passava ou a quem por cá residia.

    O bolo pesa 150 quilogramas e usou 250 ovos.

    No largo do Mira-Mar, para mim terá sempre essa designação, existiu, bem ao centro, um moinho de madeira. Não era um moinho verdadeiro, mas dava-se ares disso, batizando, inclusivamente a praia defronte. Para os da minha idade, aquela era a praia do moinho.

    A cerimónia será no convento de Mafra, o tal do Memorial e das ratazanas cegas.

    A presença daqueles elétricos foi causa de desconfiança coletiva. Digamos que andava a fazer “espécie” na cabeça dos praienses. Qual seria a sua finalidade? Para que os estacionaram ali? Quem o fez? À época, ninguém falava em sustentabilidade, nem ambiental, mobilidade elétrica, utilização de transportes públicos ou trotinetes (não é inocente a referência a este meio de locomoção). Estaria a Praia destinada a ter elétricos a circular pela cidade? Talvez não. É óbvio que não.

    Diz que é infanta de Portugal. Julguei que os infantes eram filhos de Rei. Só que não há Rei.

    A urbana grafitada do largo da batalha (a de 11 de agosto) era um bar e tinha esplanada. Não me recordo de alguma vez ter lá entrado. Lembro-me de pensar que não seria ambiente para mim. Não sei se isto foi coisa da minha cabeça ou se alguém me incutiu esta ideia. A verdade é que não me lembro de alguma vez lá ter entrado. Não podia ser coisa de gente séria. Um autocarro velho… pintado a latas de spray… não podia…

    Vai usar uma tiara da rainha Dona Amélia.

    Uma tasca? Um café? Um quiosque? Um bar de praia? Talvez fosse um pouco de tudo isso o bar do moinho. Também já ali não está, faz tempo. Contudo, as memórias de por quem ali se arrastou, se estatelou nas cadeiras da esplanada ou roçou calças e calções na muralha, ficaram como saudosa recordação de uma idade que nos marca a pele e nos molda o espírito. Onde nos encontramos, mesmo sem combinação prévia? Certamente no bar do moinho. No Mira Mar? Ou será no Papagaio?

    São dois bolos. Um para o povo que vai assistir à cerimónia, no adro da Basílica, e outro para o banquete, em Sintra.

    O projeto dos elétricos adivinhava-se muito mais ambicioso. À frente do seu tempo. Hoje, teria direito a reportagens televisivas ou destaques em sites especializados e, muito provavelmente, seria premiado. Sustentabilidade e inovação. Esses amarelos da Carris terão lá estado alguns meses? Alguns anos? Não tenho memória para responder. O que sei é que tão depressa ali estacionaram como, sem se dar conta, dali desapareceram.

    O bolo terá uma cobertura em royal frosting (deve ser coisa chique), com artefactos alusivos à filigrana.

    Quem haveria de dizer?! Naquele tempo, grafitis, pinturas murais, letras desenhadas com tinta de spray eram tudo, menos arte. E os seus autores, ao invés dos artistas plásticos que hoje são, eram vândalos, delinquentes, marginais de uma sociedade que se queria limpinha, a parecer limpinha. Hoje, as obras desses writers, street artists valem dinheiro e são cobiçadas pelas grandes galerias de arte e museus do mundo. Quando tudo parece estranho, por vezes, só o é porque apareceu antes do seu tempo.

    Serão 1200 convidados, o que, de acordo com o chef, vai dar cerca de 100 gramas de bolo por pessoa.

    Arriba! E lá começámos nós a beber tequila, a chupar limões e a lamber sal… Mas isso não era no mexicano?! Tal mistura…

    A propósito, quem é a Francisca?

  • Image

    De todas as decisões e opções que fiz ao longo da minha atividade política, mais ativa ou menos ativa, mais pública ou menos pública, só me arrependo de uma. E não, não foi ter aceitado o convite da Vânia para ser seu mandatário. Fi-lo com gosto, embora não acreditasse na vitória. Isso era algo a que não estava habituado, nunca havia vencido uma eleição. Ainda assim, não havia razões para não aceitar o desafio. Muitos, aliás, me perguntaram, na altura, se não tinha vergonha de ser mandatário de uma lista como aquela. A resposta é óbvia: claro que não. Como poderia aceitar eu um lugar de que me envergonhasse? Ver o meu nome associado a um projeto com o qual não me identificasse? Mesmo que hoje discorde com muitas das opções que têm vindo a ser tomadas – assumidas publicamente – essa não é razão para arrependimento, limpeza de fotografias ou renegar o passado. Não é o meu estilo. Sei que seria muito mais fácil fazer de conta que nada tenho a ver com isto (nos momentos maus) ou, pela inversa, colar-me ao poder, fazer de conta que concordo com tudo, o que, diga-se, seria muito mais rentável a vários níveis.

    Era urgente desafiar o poder instituído, quebrar vícios, destapar e denunciar os poços sem fundo e descobrir os alçapões. A falta de critério na admissão de pessoal, nos ajustes diretos ou na definição de prioridades de investimento. Denunciar o círculo vicioso das nomeações, do amiguismo e da inexistência de um projeto para a cidade e para o concelho. Medidas avulsas, muitas vezes mal engendradas e não explicadas baseadas numa governação em que os likes, visualizações e imagem pessoal transmitida pelas redes sociais assumiam um papel fundamental, contrastando com alguma arrogância, falta de diálogo e cinzentismo da realidade. Há muito se sabia o caminho que estava a ser trilhado. Fui oposição na Assembleia Municipal durante doze anos – todo o consulado de Roberto Monteiro – e quem não percebeu o rumo que a “coisa” estava a tomar, das duas, uma: ou andava distraído, ou, pior, aceitou sem questionar. Mas não é para falar do Roberto, do Tibério, do Tiago ou do Berto Messias que destinei hoje escrever. Hoje, quero assinalar os dois anos da vitória da coligação PSD/CDS-PP nas eleições autárquicas realizadas a 26 de setembro de 2021. Não parece, mas já passaram dois anos.

    A imagem que acompanha este texto é bem reveladora do que naquela noite senti: Grande alegria e esperança. Alegria pela, para mim, inesperada vitória e esperança de que, finalmente, as coisas mudassem e a Praia ficasse melhor. Infelizmente, tem-se perdido demasiado tempo “desesperança”. Todo o discurso se condicionou à volta de dívidas, falta de dinheiro e despedimentos, perdendo-se a ligação com a realidade, o concelho, as pessoas que cá vivem, as suas necessidades e o facto de elas não serem as responsáveis por tudo o que tem acontecido. Os praienses não devem ser castigados e, se há dois anos, votaram pela mudança, foi pela mesma razão que aceitei o cargo de mandatário.

    Recordo-me perfeitamente da conversa que tive com a Vânia quando aceitei o cargo. Recordo-me, também, daquilo que lhe disse quando se soube da vitória e o que deveria ser o seu caminho, a sua atitude. Sabíamos ao que vínhamos. Sabíamos que o caminho seria bastante difícil. Não me arrependi. Mas espero recuperar a esperança…

    Ainda vamos a tempo! Da parte que me toca, mantenho o que disse há dois anos e o que vou dizendo nas raras ocasiões em que me posso manifestar. Com uma condição: não me peçam que deixe de pensar. Que deixe de dizer o que penso.

    Votos dos maiores sucessos para os próximos anos! Repito: ainda vamos a tempo!

  • Image

    Havia um tempo em que olhava para as urbanas e conhecia todos os condutores. Até pelo nome. Os condutores e os revisores, no tempo em que estes existiam. Diariamente, embarcava nos autocarros da EVT quatro vezes, o que não significava encontrar-me com quatro pessoas diferentes. Dependia do meu horário da escola. O mais comum era entrar no autocarro que saía da Base às seis e meia da manhã (nem sempre EVT, tantas vezes da Força Aérea), apear no largo da Luz, na Praia, e embarcar na camioneta da carreira, que saía às sete, para chegar a Angra, às oito, a tempo da primeira aula no liceu. Sonolento, despenteado, a viagem era longa e demorada, principalmente nos meses de inverno, em que se fazia de noite. De noite era, também, a maioria das vezes que se chegava a casa, na Base. Lá para fevereiro, março, início da primavera, ainda haveria sol, no momento em que a mochila era atirada para cima da cama e o cheiro a comida anunciava que o jantar estaria próximo. Depois disso, teria de fazer os trabalhos de casa, organizar os livros para o dia seguinte, ver a RTP Açores ou a televisão americana e, se alguma atividade extraescola houvesse, poucas, poderia ser que tivesse de concorrer no mesmo horário. O mais certo seria atirá-la para o sábado.

    O ano letivo começou há pouco mais de uma semana. Como numa formação relâmpago, penso que já poderia requerer uma licença de taxista ou agente uber, tantas já foram as voltas e voltinhas e horários a cumprir com meia-hora de intervalo entre o começa um, começa o outro, acaba um e acaba o outro, quando, na pior das hipóteses, e este ano é rico nisso, as atividades caem ao mesmo dia, à mesma hora, e a catequese ainda não começou. Primeiro que tudo, há que decidir: hoje é judo ou futebol? Já me esquecia! Hoje é dia de conservatório, primeiro é preciso levar a Amélia à escola… Ah, é verdade, a avó disse que é para lá irmos jantar. Ao menos isso, menos uma coisa para nos preocuparmos! Caso contrário, à hora em que nos despachamos das voltas todas, o melhor mesmo é passar no burger king ou encomendar uma pizza. Mas não pode ser sempre… a bolsa e as análises clínicas não estão pelos ajustes.

    Que mania esta de as crianças terem de ter muitas atividades! Lê-se nos posts dos especialistas da educação infantil. Eles precisam é de ter tempo para brincar e disfrutar de momentos de qualidade com os pais, em família, brincar, sair dos ecrãs. Continuam os mesmos experts… Mas depois, existem uns experts mais experts que os primeiros que fazem uns estudos muito aprofundados nas escolas e que, no fim do aprofundado e bué credível estudo, te entregam um papel a dizer: o teu filho é gordo e recomenda-se a prática de exercício físico… Mas como? Só se for depois da escola acabar! E, mesmo assim, só se for a faltar ao trabalho, sair mais cedo, uma vez que esta gente se esquece que nem todos os encarregados de educação são funcionários públicos. Aliás, a este propósito, ligação para o próximo parágrafo, a verdadeira razão que me fez escrever esta crónica.

    As crianças do 1.º ciclo saem das aulas às três da tarde. As crianças do 2.º e 3.º ciclos podem sair mais tarde, mas saem muitas vezes pela hora do almoço. O que fazer com elas? Vão para casa sozinhas? Ficam lá fechadas todo o resto da tarde à espera dos pais regressarem do trabalho? É bom lembrar que os horários dos pais estão muito longe de coincidir com os dos filhos, nem tão pouco se aproximam dos deles. Temos aqui um verdadeiro problema! Como se referiu, as crianças não podem ficar ao Deus dará, à conta do destino, nem ao cuidado se si próprias. Não têm idade para isso. É tudo menos aconselhável que o façam. Antigamente, ficávamos em casa sozinhos e não era por aí que o gato ia às filhoses. Como era bom antigamente… Já dei para esse peditório.

    ATL! A solução chama-se ATL. A maravilha da inovação educacional e de ocupação de tempos livres. Infelizmente, para que possamos entregar os nossos filhos ao cuidado dos outros (que o fazem com o maior dos cuidados, diga-se), é preciso desembolsar bom dinheiro, algo só ao alcance de alguns pais. Não existe oferta pública e este parece ser um assunto com dificuldade em estar na agenda política ou, pelo menos, é tema de adiamento contínuo. Se se quer tanto apoiar as famílias, como se ouve por todo o lado, poder-se-ia pensar em encontrar formas de minimizar os custos com a necessidade de se ocupar o tempo das crianças enquanto os pais estão a trabalhar. É bom recordar que, nos dias que correm, ter onde deixar os filhos depois das aulas se tornou um luxo, e isto para não falar nos períodos de férias e pausas letivas. O que fazer, então?

    Ai antigamente… quando as mães e as avós estavam em casa à nossa espera… belos tempos!

  • Image

    Aqui havia um coreto. Aqui havia também uma mercearia. Na casa em frente. Vendia-se de tudo. Farinha, cigarros, vinho ao copo, pão, pregos, chocolates, penicos, cântaros, arroz, caixões, esfregões da loiça, tira-nódoas… e havia o correio e o posto telefónico da aldeia. Tudo no mesmo pequeno espaço. O telefone estava ligado ao andar de cima onde viviam os meus avós. A avó Alzira e o avô Zeca. Ali criaram cinco filhos. Um já partiu. A casa era grande, com varanda sobre o largo onde havia o coreto. Ao lado, um grande quintal com latada, cabanal e uma oliveira lá bem ao fundo. Quando em criança lá ia de férias, por aquele terreno esvoaçavam e corriam as pitas e os parrecos. Algazarra. Sujidade pelo chão. Correria atrás deles. O quintal também confinava com o largo do coreto, em tempos, o centro da festa da aldeia.

    A chegada ao Brinço era sempre motivo de celebração. Recordo a minha avó, com muita dificuldade, a descer as escadas de pedra até à rua. As pernas muito inchadas, o avental aos quadradinhos azuis e brancos, a larga saia, o cabelo apanhado para trás, a cara redonda, um sorriso muito aberto. Os filhos do Jorge… os que viviam longe. Vinham das ilhas. Como imigrantes de regresso à terra pátria. Abraçava-nos. Beijava-nos. Havia lugar a lágrimas. Vamos todos para o soto, o andar de baixo, de acesso direto ao caminho, a loja. Alguns fregueses estavam sentados, no lado de fora, na pedra de granito, à direita, já muito polida de tanto roçar de fundilhos de calças em horas de calor, forte, em tempos de agosto. Orgulhosa, apresenta-nos a esses homens. São os do Jorge! Ruços como ele era em garoto… Sentíamos-mos envergonhados, mas sem vergonha. Apenas aquela sensação de ficarmos sem saber o que dizer ou fazer. Esboçávamos um sorriso ou, mais frequente, desviávamos o olhar, tal era o constrangimento. O interior do estabelecimento era escuro, mas fresco. Do lado esquerdo, atrás do balcão, o meu avô. Óculos de massa, boné, magro, mangas arregaçadas, vestia de escuro. Servia um copo de vinho a um dos aldeãos. Atrás dele, a prateleira dos cigarros, os chocolates, os rebuçados e a porta para a adega onde se guardava o vinho, claro está, e o pão preto, o de centeio. E o outro… mas o preto era o meu predileto.

    Depois de refeito da contraluz que nos emoldurava à entrada da porta, assim que nos reconhecia, parava tudo. Sorria sem exuberância. Era tímido. Mas era evidente a alegria ao aperceber-se que o Paulo Jorge e a Carla Sofia estavam de chegada. Vinha ao nosso encontro, mas teria de aguardar pela sua vez. As senhoras sentadas no banco defronte do balcão da balança, à espera para serem atendidas, já se haviam levantado e começado a ladainha do “está tão grande”, “lembraste do dia em que…”, “é tal e qual…”. O Ti Zecas, como elas lhe chamavam, desistia da espera e, para compensar, lá ia ele buscar dois chocolates para nós os dois. Ao nos apercebermos disso, fugíamos daquelas mulheres “chatas” correndo ao seu encontro. Nisso, passos de corrida no andar de cima. Rapidamente, a descer a escada do alçapão, a minha prima, a do Porto. As de Vila Real chegariam mais tarde, mais próximo do dia da festa.

    Com a aparição da Ivone, começavam as férias. Nessa tarde, haveríamos de ir brincar para o coreto, ir a Macedo (de Cavaleiros), ao café, e depois, se o Tio Paulo para aí estivesse virado, haveria tempo para um mergulho no Tuela, o rio…

    O coreto, entretanto, foi deitado ao chão. Dizem-me que atrapalhava a manobra da carrinha de um dos moradores. A aldeia, perdeu gente. A procissão, brilho. As ruas deixaram de estar engalanadas. Os meus avós já lá não estão. A mercearia fechou. A festa mudou de lugar. A água já está encanada. Chama-se a isto, progresso.

  • Image

    Cruzei-me com o Joel na rotunda do aeroporto, a das palmeiras. Ia sentado no banco de trás da carrinha, orgulhoso e confiante, o que, nele, é bastante raro. Ao volante, a conduzir, como é, aliás, habitual (nem sei se o Joel tem carta de condução), vinha a Fernanda, a mulher, e, no lugar do pendura, alguém que não consegui reconhecer. Na caixa da viatura, ao sol, o tamanho, a quantidade e a cor das malas faziam adivinhar que o passageiro sem nome seria alguém vindo da América. Um familiar, o mais provável. Estaria aí a origem do sadio inchaço do Joel. Há vidas assim, sem outra razão para a alegria, vividas em profunda tristeza, só quebrada pelas histórias de felicidade e fartura trazidas do outro lado do oceano. Durante as poucas semanas que cá estão, ninguém será privado de nada. Haverá abundância, sonhos, esperança, ilusão de que aquelas vidas são as dele, a do Joel, apesar de tão contrastantes que o são com a sua. Viverá a vida da prima, da tia ou do irmão como se fosse a dele próprio. Contará aos amigos as conquistas, os prazeres e os sucessos como se fossem seus. Relatará o jantar na feira da gastronomia e comentará a existência de restaurantes e outros locais na ilha que só os conhecerá pela mão dos visitantes. Orgulhar-se-á desse feito. Ilude-se. Mas fica bem com isso.

    Desconheço o destino da carrinha do Joel, conduzida pela Fernanda. Viraram estrada 25 de abril abaixo, no sentido da Praia. Lá no fim da linha, haverá uma casa pintada de fresco, com cortinas novas, bem asseada e cuidada. Ainda no dia anterior à chegada, Fernanda terá ido à procura da toalha de renda que lhe ofereceram pelo casamento. Cheirava a mofo, de tanto tempo guardada que estivera na arca da mãe. Praguejou contra esta humidade e este tempo que deixa tudo molhado com aromas de bafio. Condicionantes desta realidade insular. Quem tivesse um ar condicionado!

    Nessa manhã, usou-se a sala. Toalha de renda, protegida por um plástico transparente, não vá algum pingo sujar o crochet. Encomendara-se bolos, rissóis, tartes variadas, folhados, donetes, massa sovada e até se descongelou uma alcatra que havia sido guardada da festa. O café foi comprado na loja americana e o queijo e a manteiga, esses então, são bem terceirenses. Açorianos, vá lá que o queijo deve ser de São Jorge! O pão, claro, será das Lajes. Não lhes pode faltar nada. Não pode parecer que nos falte alguma coisa. Uma mesa digna de príncipes. Uma receção de reis.

    A família estará à espera. Vindos de todo o lado, a chegada de família da América é sempre um acontecimento único. Momento de confraternização familiar, só comparado ao Natal ou a um batizado. Sempre assim foi. Mesmo naquele tempo em que o avião chegava às quatro da manhã e todos se deslocavam ao aeroporto na ânsia de os ver. De os ver como estavam, muito brancos de ausência de sol, roupas garridas, anéis a brilhar em todos os dedos, unhas compridas coloridas, malões carregados de lembranças que seriam muito mais do que isso. A necessidade de se colmatarem dificuldades perenes, de trazer modernidade e cor às vidas que se arrastavam. As cartas que encurtavam distâncias. Os dólares que escondiam. Os repastos da espera serviriam de agradecimento, de forma de retribuir as lembranças. A tradição, tornou-se tradição, ficou.

    O Joel e a Fernanda são terceirenses americanizados. São eles, somos todos nós que incorporámos hábitos, músicas, alimentos e nos indignamos quando alguém nos quer dar lições de coca-cola, barbie, donetes, levi’s, nike ou galinha frita. Quando alguém fala mal dos americanos, mesmo quando têm razão, como quando falam mal dos nossos familiares e nós não aceitamos, embora nós o possamos fazer. Eu posso falar mal deles, tu não, não tens esse direito. Há uma herança. Uma herança que nos moldou e nos acrescentou. Que nos faz diferentes entre os demais portugueses. Uma herança que, aos poucos, vamos deixando de ter vergonha de assumir. A isso chama-se maturidade e confiança.

    Este ano de 2023 é um ano de celebração. Foi há 80 anos que os ingleses, ainda antes dos americanos, aqui instalaram a base militar. Os Cães do Mar, na sua peça “Sarrado Grande”, contam-nos essa história. Uma história de alegria, lágrimas, estranheza e uma capacidade infinda de mudança e adaptação por parte de um povo. Para quem ainda não assistiu à peça, terá oportunidade de a ver na Entrada Geral, no dia 6 de agosto. Vale mesmo a pena.

    Também neste âmbito, as festas da Praia irão dedicar o seu cortejo de abertura ao tema, à História desta Base que se confunde com a História desta terra ao longo do século XX e já neste XXI. A tal herança que merece e deve ser contada e que a Judite Parreira, em boa hora, assumiu que este era o tempo de voltarmos a contar as nossas estórias, a nossa História, a mostrar quem somos e não ter vergonha de o fazer. E o que ainda haverá por contar? O que por aí andará escondido, não assumido?

    Duas dessas histórias já foram contadas no passado recente. Pela mão do Luís Bettencourt, com o selo da Filarmónica União Praiense, a Praia desceu a rua da Sé, em Angra, a contar aventuras de aviadores, amores e rainhas de Inglaterra ou feitas inglesas. Fizemos diferente, dançámos e cantámos diferente, vestimos diferente. E só uma razão houve para isso. Gostamos de o ser. Não temos vergonha de o ser. Orgulhamo-nos de quem somos. Que venha a terceira, Luís! Tenho a certeza que tens muitas estórias de ingleses e americanos para contar.

    Divirtam-se. Afinal de contas, que melhores festas existem do que estas? Perdoem-me os restantes, mas nenhumas conseguem bater as Festas da Praia! Venham elas!