EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos

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Imagem do filme Blade Runner

Há épocas em que a técnica lidera e a cultura segue. E há outras — as decisivas — em que a técnica corre tão depressa que só a cultura a consegue deter para lhe perguntar: “para onde?” A Inteligência Artificial (IA) instalou‑se como mito e como motor. Mas é precisamente por isso que o nosso presente — e o futuro que já se escreve à nossa frente — precisa mais de filósofos, escritores, poetas, professores e artistas do que de mais linhas de código. Porque a técnica, deixada a si mesma, não sabe o que fazer com o humano; limita‑se a fazê‑lo funcionar. Shoshana Zuboff, professora emérita da cátedra Charles Edward Wilson da Harvard Business School e professora associada do Berkman Klein Center for Internet & Society da Harvard Law School, autora do livro “A Era do Capitalismo da Vigilância”, avisa: a lógica que alimenta a IA “não se contenta em automatizar fluxos de informação sobre nós; o objetivo agora é automatizar‑nos”, deslocando o poder do conhecimento para a modelação do comportamento.

A pergunta, por isso, não é “o que a IA pode fazer?”, mas “o que a IA está a fazer-nos?” Yuval Noah Harari, professor israelita de História, autor do livro História Breve da Humanidade, chama‑lhe uma “inteligência alienígena” que pode capturar a linguagem — e com a linguagem a lei, a política e, portanto, o poder. Desde 2023 que alerta para o risco de a IA dominar o ecossistema simbólico humano sem precisar de consciência nem de braços, bastando‑lhe a captura da nossa comunicação. Se o terreno da disputa é a linguagem, então os guardiões da linguagem — escritores e poetas — tornam‑se, de súbito, a linha da frente.

Nick Cave, de dentro da oficina de músico, traduziu esse sobressalto: chamar “canções” aos artefactos gerados por IA é “uma grotesca paródia do que é ser humano”. Não é purismo romântico; é diagnóstico existencial. Cave teme a “humilhação” da espécie quando deixarmos de valorizar a luta criativa e aceitarmos o que a máquina nos despeja porque é rápido, convincente e “utterly banal”. O que está em causa não é a substituição do artista, mas o rebaixamento do nosso padrão de sentido — e com ele, a nossa ideia de pessoa.

Contra este empobrecimento, a filosofia recorda que pensar não é apenas calcular. Byung‑Chul Han, o ensaísta que pôs nomes ao nosso mal‑estar digital, insiste: a IA “é incapaz de pensar” porque lhe falta o estremecimento anímico, aquela Síndrome de Stendhal, a negatividade, a demora — aquilo que antecede o conceito e funda a experiência. A sociedade de desempenho que mede tudo transforma o sujeito em dados; a arte, ao contrário, é o lugar do que resiste à medida. E é nesse espaço irrepetível que o poeta continua insubstituível.

O jornalismo pede provas e a cultura pode dá‑las. A UNESCO soou o alarme: sem políticas robustas, a difusão de conteúdos gerados por IA empurrará milhares de criadores para quebras de rendimento significativas já até 2028, ao mesmo tempo que intensifica violações de direitos e agrava a opacidade algorítmica. Não é apenas um problema social; é também político: a própria UNESCO acentua que precisamos de enquadramentos éticos no setor cultural e criativo para que a inovação não se converta em predação do simbólico comum. Continuar a ler “EDITORIAL – OS ENGENHEIROS QUE ME PERDOEM: O SÉCULO DA IA PERTENCE AOS FILÓSOFOS, AOS ESCRITORES, AOS POETAS, AOS PROFESSORES E AOS ARTISTAS – por José Paulo Santos”

COISAS DO (I)MUNDO. UM GRITO UM CLARÃO ESTA ESTRIDÊNCIA – Por Adelina Andrês

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O Grito, by E. Munch (detalhe)

Grito!!! Declaro!!: eu quero um clarão nestas tenebruras do imundo mundo
Para limpar
Para ser um mundo não imundo
de Viver!!
VIVER quer dizer que é preciso clarear!
Clarear é dizer do coração
do umbigo não – por pouco ser para não ser!
Falar falarziiinho
desse umbigoziiinho para viverziiinho de certo errado jeitinho
pequeno
muito pequeno
pequenininho – que não é de criança pequena
Que É
Grande!
é outra coisa coisiiinha bajular bajulandiiinho.
Não! Não!! Não quero digo zangada. Não!! de zanga forte muito escuro
escuríssimo
e noite densa pesada sem estrelas a iluminar – não é a linda noite estrelada
que Van Gogh viu no escuro a brilhar intensamente a sentiu a existir
e a eternizar a pintou.
Tolos! Tolos!: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte…” é fala de tolos umbigos.
Umbigos de verdade não são esses
São aqueles centros lindos de corpos de dar trocar alimentar e bem partilhar
de mães terras crianças mundos limpos
a nunca precisar de limpar!
Em terra de cegos quem tem um olho é rei” – e vai cegar todos. Pode?! Ter poder de gostar de mandar o que é isso??!! Tolos tolos!!!
Jesus zangou-se no templo
com as vendas todas
vendas de vender negócios raseiros rasteiros negocioziiinhos
Levantou arrancou do chão as bancas de vender
das vendas
para tentar arrancar as vendas dos cegos
dos tolos
gente imunda
para limpar limpar esses imundos para serem!
Para serem mundos que é o que são!!
As pessoas são mundos
não são imundos
estão imundos!
É preciso limpar transparecer limpar corpos limpar tudo limpar olhos
Ver mundos!!…
Jesus zangou-se
ou quis mostrar zanga!? linguagem imunda
para os imundos do mundo olharem ouvirem entenderem
porque só se entende a mesma linguagem mostrada falada
E é preciso às vezes falar outra aquela língua imunda suja
com crostas de sangue seco parado peganhento que cola que se pega
do que se matou que se derramou
e a seguir secou.
Pena. Pena! Não leve, mas muita pesada pena
que sangue é vida limpa corrente a sempre correr a vivificar fazer viver
Sangue limpo a percorrer os íntimos lindos livres corpos mundos
de Viver.
Imundos para limpar não sabem não lembram?… Não entendem?!…
É a língua do imundo
imunda língua a gritar estrondar para parecer.
Tantos (i)mundos corpos parados presos a gritar para parecer!!
Triste triste coisa que só parece viver.
Tanto tanto escondido apertado parado vendado
a querer vendar só para não ver.
Para impedir para não deixar outros limpar.
Para não deixar mundos aparecer.
Para impedir a vida de ser!!
É preciso gritar para não deixar para se fazer entender?!!…
Gandhi calou calou
e depois gritou para viver.
Para viver calou calou e gritou e sacrificou se sacrificou…
Eu não quero mais menos precisar gritar calar e sacrificar.
Quero vassouras detergentes carpex para limpar.
Limpar sem aspirar
aspiradores de inalar o sujo não!! Para não deixar o sujo entrar a conspurcar.
Quero arrancar crostas sujas paradas velhas! Velhas!
Velhas não são antigas…
As antigas de verdade são lindas
São as antigas de tempos idos que vieram antes
e invisíveis agora e sempre estão estarão sempre aqui.
Venham tempos da não história
Venham apareçam se desvendem se revelem se mostrem mundos
os mundos limpos
corpos mundos não maculados da não história
Venham todos os mundos deste mundo não contado não gritado não ouvido
Venham contar essas essa história
Venham todos ou alguns desde que sejam mundos contar!
Contem as histórias a história que não ensinam nesta escola
Venham outras escolas sem escola contar estas outras histórias da árvore das coisas da vida antes de arrancar a maçã para guardar para si para não dar aos outros “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte”?!!…
Um burro é uma coisa mundo vida linda
e por estar neste aqu(i)mundo
se contagia imundo
porque está sujo porque é animal domesticado não livre.
É bom ser burro não imundo ser mundo!!
E arte é coisa linda porque é criar ser criador é criação
por isso é bom ter arte Arte
não arte daquela que não é Arte
mas é artifício manha perfídia
sem ser de serpente
Porque serpente é ser mundo!!
Quando a Eva ou quem quer que a quis colheu a maçã
começou aí a história contada
porque roubou retirou privou de todos a maçã.
A maçã fruto proibido é o mundo roubado colhido depravado
Privado
só para poucos muito poucochinhos
só para um e dois e três…
Os outros mundos todos ficaram proibidos ficaram sem maçã
ficaram imundos
e a Eva e o Adão também ficaram.
Porque partiram e repartiram e acreditaram que ficaram com tudo com a melhor parte
mas ficaram como os outros a quem privaram
Ficaram igual.
Todos mal mal.
Todos rotos corrompidos sujos por dentro e por fora!…
Mas um bocado um bocadinho muito lá dentro
limpos
porque muito muito lá dentro
bem guardado lá nos fundos fundos fundos
continua a haver há sempre mundos mundos mundos.
E a serpente nua enrolada
com a cabeça para cima
para o alto
com dois olhos de brilhar
de olhar
mais alto
muito muito muitíssimo mais mais alto
que a altura da árvore da vida do mundo da maçã,
e que estava lá,
não sabemos bem como disse como falou como fez
– se disse gritou imundo, ou se calou apenas mundo.
E isso porque a história contada gritada por todos
para todos os (i)mundos
é a história única escrita legitimada ouvida reproduzida ensinada.
E todos quase todos dizem pensam creem não duvidam
até matam queimam esfacelam e esfolam quem duvide
e portanto por tanto por tão pouco mesquinho de medo incessante miudinho
ninguém duvida ninguém diz.
Mas esta é só a história depois do mundo,
do (i)mundo sujo por isso condenado
condenados os mundos depois imundos Eva e Adão
“parirás os teus filhos com dor” e
“comerás o pão com o suor do teu rosto”.
Passaram então estes antes plenos mundos
a depois tristes imundos
condenados a sofrer a fazer sofrer e a sofrer mais por isso.
Porque ficaram todos com crostas de sujo imundo
que cobriram taparam vedaram e vendaram um olho. A todos.
E como quem tem um olho só pode ser rei ter esse poder de mandar
se os outros todos forem todos cegos todos todos
logo alguns poucos se gastaram se esgotaram e desonrosamente se finaram
a tentar cegar os outros muitos.
E a história escrita nos livros contada e ensinada em tudo e na escola
mostra como tem sido sempre assim neste (i)mundo, até hoje:
uns poucos que têm um olho que querem ser reis de mandar
lutam lutam com muitas todas as armas todas as forças
para cegar o olho dos outros muitos todos.
E incessantemente se batem em angustiante sempre vigilante desespero
tanto afã tanta infatigável incansável ingloriosa canseira
para os outros muitos todos não lhes cegarem o olho único deles
se não não poderão estar reis de mandar.
Neste (i)mundo a história conta ensina estes e outros falsos feitos heróicos
e até o alimento (im)porta para a vida
se for duro duro sofrido muito penosamente conseguido “com o suor do rosto”
E o humano corpo quase todo (i)mundo
que devia todo todo ser mundo
se elogia se venera e se enaltece porque é “muito tão trabalhador”
que quer dizer
sofrido sofrido pesado pisado sacrificado mortificado dorido.
Quando outra porta se abre
para outra vida humana munda um mundo entrar neste (i)mundo,
logo se inicia o sofrimento enganado acreditado venerado “parirás com dor”
A mulher grita dor! Dor!! Dor!!!…
contorcida alto forte insuportável insuperável demorado demorado lancinante
e fica dias dias longos longos a sofrer a suportar a padecer.
A criança munda entra a não reconhecer a (des)conhecer o mundo
a conhecer o (i)mundo
e a (des)aprender a vida de verdade de fruir usufruir se deleitar e criar.
Quando for grande
só até ao umbigo de medir contar contabilizar contabilizarziiinho
aquele umbiguinho de viverziiinho de certo errado jeitinho
que não é o umbigo de Vida de verdadeiramente Viver
este de unir ligar alimentar e creScER.
Quando for assim grande tão anã tão pequenina
irá final(mente) em verdade (i)merecidamente descansar
a enterrar a incinerar a sair partir pessoa inteira ir embora
E outros a assistir a ficar
a chorar porque ainda imundos porque ainda a penar
E todos a dizer a esforçar e a acreditar louvar:
foi um bom trabalhador de suar suar suar!!
Tão certa tão pouco acertada certeza tão errada erradíssima neste (i)mundo
e tanto tanto muito muito
a lamentar
no caminho meta da Vida
cegamente a acreditar a fazer acreditar numa outra enganada poderosa
meta pequenina
possuir toda a maçã
que é a melhor parte
e com lutas manhas artifícios
proibir aos outros
nunca partilhar
porque é o fruto proibido legitimamente anunciado
e tão reconhecidamente acreditada nunca duvidada a inevitabilidade de parirás os teus filhos com dor e trabalharás com o suor do teu rosto o pão que o diabo amassou.
Isso é o que a história conta. Diz que é o início.
E é o início do (i)mundo…
Antes não seria assim…!!?…
E quem conhece a história do antes toda, porque a-final estava lá, é a serpente!!…
Qualquer dia, um destes dias, ela vai contar…

♦♦♦

ImageAdelina Maria Granado Andrês nasceu no norte do país e aí vive,  em vizinhança próxima com o mar de Gaia e pelo interior transmontano. É docente do ISCAP-P.Porto. Os seus interesses focam-se no pensamento e na obra de Agostinho da Silva e para além do ensaio, dedica-se a outros tipos de escrita, sendo autora de livros infantojuvenis, poesia e prosa poética.

MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes

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Jesué Pinharanda Gomes no Centro de Estudos com o seu nome, em Sabugal (Foto CMS)

– trajectória mística carmelitana e aristotélica-tomista

“(…) não será esta a experiência essencial do pensamento como da escrita, a da meditação escutante (…) do seu dito e do seu não-dito (…)”

Fernando Belo, Heidegger pensador da terra, APF, Coimbra,1992, 32.

 «O Novo (Testamento) está oculto no Antigo, e no Novo o Antigo se torna patente»

Sto Agostinho, Quaestiones in Heptateucum, 2, 73, PL 34, 623.

1. Duas tendências se evidenciam muito cedo no percurso especulativo de J. Pinharanda Gomes (1939-2019) – a mística carmelitana e o aristotelismo-tomista – que (re) colocamos em discussão. Ora, a obra do nosso autor é, definitivamente, o exemplo maior da meditação “escutante”. Mas desde já devemos interrogar-nos sobre o exprimir teológico (“theologikos”) ou perguntar-nos acerca do “silogismo” teológico. Apraz-nos sublinhar – sumariamente – que a tradição metafísica portuguesa, como tantas vezes já foi dito, desenrolou-se fundamentalmente à sombra do “magistério” aristotélico-tomista. Torna-se claro, a partir dos primeiros enfoques literários-filosóficos de J. Pinharanda Gomes, numa espécie de criação isolada e testemunhal, a interpelação por uma muda vox Dei, sendo evidente a sintonia com o depositum fidei  – na reverência romano-católica –  sobre o pano de fundo da kenosis –  morte da cruz e encarnação. Já no relevo da mensagem e da tradição cristã –  e, por sua vez, do vínculo à filosofia moderna portuguesa – decididamente – na assimilação dos exemplos significativos da tradição da  “Escola Portuense” (a aliança de Bruno (José Pereira de Sampaio)  e da geração do 57 achar-se-á através do “mestrado” dos discípulos de Leonardo Coimbra. Também com um empenhamento público –  frutuoso – com o carmelitismo laico (V. Manual da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços, Edições Carmelo, 1983).  Mas como interpolar num curto excurso o escritor eclesial, o filósofo e o hermeuta, na sua generalidade, aqui subentendido, o teólogo sob o signo da metanóia centrada no homem do VIII dia? E quem ignora esse seu pendor de doutrinário e de historiador-sistemático da filosofia portuguesa e entre essas duas vertentes primaciais: a consideração de um filosofar metafísico ou situado e o confluir ou desembocar numa teologia do mysterium crucis e de busca da “presença divina”? Apoiando-se, no sentido mais restrito e gradual, na filosofia bergsoniana – da apreensão do “vir-a-ser” de “Pensée et le Mouvant” – e mais sistematicamente ou persistentemente da influência da “Razão Animada” de Álvaro Ribeiro  – é muito significativo a este respeito o livro “Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Filosofia Ascética)” (Lello & Irmão- Editores, Porto,1974) que trouxe à superfície a  problemática da principialidade da filosofia. A preocupação básica foi a de mostrar o nexo entre culto e cultura e do circuncrever, necessariamente, a “visio compreensionis” e a “visio cognitionis”? Um mês antes de falecer,  a 27 de Julho de 2019, J. Pinharanda Gomes lançou, na cidade do Porto,  o livro “Leonardina – Estudos acerca de Leonardino Coimbra” (Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 2019) onde reuniu os seus escritos em torno do filósofo de “A Alegria, a Dor e a Graça”, com quem estava intimamente familiarizado. A filosofia do autor de Notas sobre a abstracção científica e o silogismo surge-nos caracterizada – como foi parcialmente sugerido, validamente, – por uma polaridade essencial ou duplicidade de dons –  coincide com o acráta  e o metafísico  –  o precursor do “existencialismo” cristão ou o formulador (no sentido distintivo do termo) do  “nocionismo”. Ainda mais apreciada é a centralidade da crítica e denúncia do positivismo que se abstrai sistemáticamente das consequências da cousificação e através da assunção do conceito de “vício cousista”. Relevo também e sobretudo para a vertente da “filosofia religiosa” assente fortemente – no entender de Sant`Anna Dionísio – num optismo levitante (Leonardo Coimbra, Pensamento e Drama, Lello & Irmão- Editores, Porto, 1983, pág.39). “A filosofia ciacionista – escreveu ainda Delfim Santos – não é só teoria e crítica do conhecimento, mas exigência de promoção valorativa do concreto, cujo mais alto nível é a pessoa” (Prefácio XII in O Criacionismo (Síntese Filosófica), Livraria Tavares Martins/Porto, 1958). Continuar a ler “MEDITAÇÃO “ESCUTANTE” EM J. PINHARANDA GOMES (1939-2019) I – por Alexandre Teixeira Mendes”

O ERRO SISTEMÁTICO – por A. DASILVA O.

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by Şahin Doğdu

Estou farto de fazer contas à vida
Pelas horas mortas
Todos rezam ninguém tem acção
A moral dum homem estátua

Sentado numa praça pública observo uma gaivota a esventrar o cadáver
dum sem abrigo

Um quebra ossos tenta pousar na minha cabeça mas pica-se nos implantes espinhos  de aço

Os transeuntes em choque vomitam vídeos nas redes sociais
Alguém diz que a culpa é da IA

♦♦♦

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a. dasilva o., 1958, poeta e editor em extinção. Da vasta obra, basta destacar as publicações: Poeta bom é poeta morto-vivo, Ed. Mortas, 2020; Canção Inóspita, Eufeme, 2020; FOIOQUEUDISSE; Diários Falsos de Fernando Pessoa, Ed. Mortas, 1998; Correspondência Amorosa Entre Salazar e Marilyn Monroe, Ed. Mortas, 1997. Criou e editou várias revistas como: Arte Neo e a revista Filha da Puta. Criou e realizou em dose dupla As Conferências do Inferno; Os Encontros com o Maldito em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Co-fundou e dirigiu a Rádio Caos onde realizou entre outros programas: A. Dasilva O. Fala ao País. Edita atualmente a revista Estúpida.

BAÚ DA POESIA – de Antero de Quental

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Antero de Quental (1842- 1891)

Na Mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente! Continuar a ler “BAÚ DA POESIA – de Antero de Quental”

O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso

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O objetivo dos Governos é sempre o mesmo: limitar o indivíduo, domesticá-lo, subordiná-lo, subjugá-lo.

Max Stirner

Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.

Agostinho da Silva

Não há dúvida que o indivíduo, por si só, não tem qualquer hipótese de sobreviver, morrerá poucas horas após ter olhado o lugar que passa a ser seu. Não há qualquer dúvida, também, que com a massificação das democracias de tipo ocidental, o Estado passou a ser, em nome de um bem maior que tarda a perceber-se qual seja, o “pai omnipotente” de todos e todas. Não podemos escolher como nascer nem como queremos ser educados. Não podemos escolher o que fazer com o nosso único bem, o nosso corpo. Não podemos escolher como morrer. Para tudo o Estado impõe uma maneira própria, universal, de nos entendermos e nos resolvermos, individual e coletivamente. O Estado em prol da liberdade que não nos consente, obriga-nos a ser submissos a um conjunto de normas e valores que decreta, diz, em nome do bem comum. Continuar a ler “O ESTADO NÃO É MEU DONO – por Artur Manso”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

 

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COMBATE DE DOMINGO À NOITE

vesti-me a rigor
calcei os sapatos mais elegantes para os meus pés
algum pó-de-arroz – no convite dizia ser necessário disfarçar
a escorregadia humanidade – e finalizei com o
batom vermelho e impostor
a horas quase no ponto e
a sala de combate cheia
um assento bastante enfeitado
para meu lugar – há sempre um tolo que desconhece o fingimento humano –
e no ringue dois lutadores
meus conhecidos
corei assim que os vi – bendito pó-de-arroz a encobrir o meu próprio desleixo –
no canto direito
a montanha de mil toneladas
com o seu cume irrompendo geometricamente o céu
centímetros e mais centímetros de ascensão lógica
o topo brilhando de ideias e reminiscências
atacava com interrogações da existência e
defendia-se com lanças carregadas de verdade
num golpe mais ousado gritou – Sein und Zeit – mas
imediatamente se desfez num deserto longínquo e inanimado
– fosse a cena diferente e diria: Heraclito, estavas coberto de razão –
e o árbitro apitou o final do primeiro round

a sala de combate cheia
silenciosa
à espera
gotas de suor resvalavam pelas faces sérias

iniciou-se o segundo round
o lutador dos mil tentáculos manteve-se
firme à esquerda
pediu ao adversário que se levantasse – não contava ganhar tão facilmente –
mas já eu aplaudia o vencedor
perguntei ao homem sentado ao meu lado – porquê tanto espanto?
e digo-te mais Wittgenstein: o meu mundo não tem limites –
ou não vês como são infinitas as minhas palavras? –

a sala de combate vazia
somente eu aguardava o vencedor
limpei dos lábios o batom vermelho
e mostrei todas as minhas imperfeições

saio esplendorosa na fotografia
tirada ao combate do último domingo à noite. Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

RESENHA de Claudia Vila Molina do livro “Solo el Naufragio”, de Carlos Roberto Gómez Beras –

Reseña del libro de poemas Solo el naufragio (2018) de Roberto Gómez Beras

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Somos habitantes de la soledad

 

El libro Solo el naufragio está compuesto por diversas secciones y contempla diferentes temáticas y ellas son: Los naufragios, La pirámide saqueada, Ese otro cólera, Mi hija conversa con su destino, Suite japonesa de siete movimientos, Seis Antipoemas para una poeta y mediante ellas, el poeta Roberto Gómez Beras expresa su sentimiento y formas de expresión lírica.

En Los naufragios se entreve una imagen del ser humano con su propia tragedia a cuestas. Esto implica la tragedia de existir; porque el hombre, a pesar de ser bendecido por una vida plena con diferentes tipos de afectos; en primera instancia, él está profundamente solo.  En vista de esta afirmación, el poema que abre el libro, titulado “Solo el naufragio” alumbra a los lectores como un faro e indica, en mayor o menor medida, el desarrollo de la postura poética de Gómez Beras; sobre todo cuando señala: “A la deriva de las promesas incumplidas/ de las amenazas que fueron apenas/ espuma y aullidos en la boca de un paria” (19). En estos versos predomina el sentimiento de un transeúnte de la vida, que ha sido golpeado por ella y trata, por todas las vías posibles, de defenderse de ese exterior que simboliza un peligro o sea el hablante es vulnerable frente a “eso” externo que lo deprime. Del mismo modo, Gómez Beras expone un hablante lírico ajeno y solitario, en una determinada noción de estructura socio histórica y cultural, por esta razón se defiende por medio de su palabra y para ello adquiere un tipo de animalización que se concentra en el aullido. En el mismo verso, la espuma es un elemento cercano a lo evanescente o a aquel significado imposible de asir.

En El regreso a Ítaca y Los náufragos emerge una idea central que sobresale en todo el poemario Solo el naufragio y está constituida por la noción de la vida y la muerte, como dos ámbitos que se atraen y se repelen, por ejemplo, en los versos siguientes: “Vivir la muerte”: “Vivir la muerte… /para que sienta lo que es dejar atrás todo/ lo que nos extrañará y preguntará por nosotros/cuando la última de las alegrías nos secuestre” (Gómez Beras, 22), o en “Un hombre muere”: “un hombre se ausenta y con él, algunos, moriremos también pero no de abismo sino de aceptar que algo, como la piedra milagrosa lanzada por una honda, no volverá nunca más pues hay ciertas cosas que no conocen su origen” (25). En el limbo existente entre ambos aspectos, las representaciones de la vida y de la muerte son imágenes potentes, por esta razón, el acto de sobrevivir se convierte en una tarea compleja, dentro de toda esta debacle.

En otras palabras, en esta propuesta del oxímoron, el poeta atraviesa estos dos territorios y se alberga, finalmente, en un “no lugar” incierto y peligroso. Así se demuestra en el poema Uno de Los Náufragos: “Como un barco que se aleja/ la vida sigue su rumbo cierto al azar/ mientras nos distancia de nosotros mismos” ( Gómez Beras, 121) o “Somos los testigos impávidos de todo lo que nos pertenece/ pero al alcanzarlo ya no lo poseemos” (121). Es decir, el hombre está cercano al abismo, en un terreno cenagoso que nosotros como seres humanos no podemos precisar y por lo tanto, nuestro avance por estos caminos se define mediante la indeterminación. La dualidad comentada forma una imagen que avanza tanto desde la palabra, como desde los silencios y alumbra ciertos sectores borrosos, nublados o entrevistos para que nosotros como lectores, quizá algún día logremos asir.

La idea mencionada, igualmente, se identifica con ese sujeto que interiormente está pregonando ciertas verdades incómodas que fracturan, justamente, el exterior o lugar en que el hablante se siente amenazado. En los versos que siguen:” ¿Quién vengará nuestros sueños?/ Quién ordenará nuestro crimen/ Quien pulirá nuestras dos fechas?” (Gómez Beras, 19). El ser humano frágil, observado desde la vulnerabilidad descrita, busca a un otro o un espacio místico apropiado. Así, salta a la vista el llamado interior que surge desde la profunda humanidad del hombre desbastado, hacia un espacio místico y espiritual que pueda brindar nuevas posibilidades, dentro del entorno complejo donde este vive.  Dicho de otra manera, el hombre necesita que alguna entidad mística actúe sobre este orden socio cultural e histórico inseguro y sea capaz de transformar nuestra noción compleja de realidad.

Sin embargo, del mismo modo, el aspecto nietzscheano encontrado en el poemario anula toda posibilidad de un presente y futuro más auspicioso; por el contrario el ser humano debe contentarse con la realidad que le ha tocado asumir y debe sobrellevarla de alguna manera o dejarse imbuir en la tragedia de la vida: “Han pasado algunos años desde la muerte de mi madre. Despedirse es siempre una gesta que no termina” (Gómez Beras, 107). En este derrumbe, la imagen controversial de Dios se quiebra; tal como se percibe en PATER NOSTRUM: “Padre que no estás en el cielo ni en la tierra sino en el mar sin dios de la nostalgia. Sólo recuerdo tu nombre secreto cuando el puñal de una melodía se me clava lentamente en un costado” (Gómez Beras, 20). El ser humano no logra encontrar respuestas y en torno a ello, la palabra como tal es insuficiente o no logra satisfacer del todo al hombre agónico, frente al desconsuelo.

Igualmente, los cuestionamientos que expresa el hombre (en sí mismos) conforman una quebradura o tensión en nuestra vida; por esta razón, el poeta pregunta al aire, al vacío, sin esperar respuestas y ello se observa en Ícaro: “¿Qué es caer?/¿Hasta dónde cae el cuerpo?/¿Hasta el pudor?/ ¿Hasta dónde cae el alma?/  ¿Hasta el olvido? /¿Cuál de los dos toca suelo primero? /¿Caemos desde la carne o desde el deseo?” (Gómez Beras, 62). Estas interrogantes inmensas aluden, en principio, a un complejo concepto del vacío o también referido como “no lugar”, porque cuando caemos nos apartamos de un terreno seguro e identificado para hallarnos en una región desconocida, espacio o mundo difícil de reconocer. Por esta razón, la caída supone un movimiento y ese tránsito es indefinible por sí mismo, a la vez, estas preguntas se asocian con diversas regiones o pulsaciones del hombre y se mencionan a través de los vocablos: “cuerpo”, “pudor”, “alma”, “olvido”, “carne” y “deseo”. Siguiendo este razonamiento, el deseo transita junto con la muerte, es decir, al pie del deseo la muerte lo espera, como diciendo que desde el éxtasis de la vida surge la aniquilación.

Según este punto de vista, podríamos estar aquí en la vida o allá en la muerte. Dörr señala que: “La raíz etimológica de thanatos es tha y la única otra palabra griega con la misma raíz es thalamon, el tálamo nupcial. El thalamon es el lugar de la casa donde habita la esposa y es la habitación más central, pero también la más oscura. Thanatos o la muerte aparece vinculada entonces, por un lado, a la oscuridad y al encierro y, por otro, a la mujer y al amor” (190). Es decir, el devenir del hombre siempre está unido a estos dos conceptos ( vida y muerte) y él está obligado a transitar por estos dos ríos caudalosos y turbulentos. Esencialmente, el acto sexual constituye un ritual profundamente místico y paralelo a la creación del mundo, con relación a la capacidad de generar vida humana. Al mismo tiempo, nuestra delicada existencia es proclive a la muerte y en este aspecto, el ser humano es una entidad frágil necesitada de respuestas y apoyos divinos, debido a todos los vacíos e incongruencias de la vida.

En concordancia con lo anterior, el poeta inventa una nueva noción de “dios” y esta imagen es visible, sobre todo en El regreso a Ítaca, pues el nuevo arquetipo suple a la concepción perfecta, inmaculada e inalcanzable del Dios histórico y bíblico. Esto significa que, al hablante de Solo el naufragio le es más sencillo entablar una relación con otro tipo de entidad, mucho más cercana a él; y apegada a nuestra naturaleza humana insuficiente y perfecta a la vez, o “dios primitivo y sediento” diría en “Alejandría”: “Ahora tu cuerpo sin manchas/será ofrenda y carroña/ para esta nueva fe/ de un dios primitivo y sediento, /pero sabemos que no te irás/ porque una vez nos dijiste /que los astros más distantes /sólo muestran sus presagios /a través de la oscuridad /de los espesos siglos” (Gómez Beras, 116-117). En los versos citados, existe un reemplazo de la imagen de Dios mencionada, la cual se alza sobre la existencia del hombre y de la mujer y esto resulta en una representación de un “dios” sensorial vinculado con el deseo y la carnalidad, con lo pedestre, cotidiano y agónico.

Referencias bibliográficas

Otto, Dörr. “Eros y Tánatos”. Salud Mental, No. 3, 2009, pp. 189-197.

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Claudia Vila Molina, poeta, profesora de lenguaje y Magíster en Literatura Comparada

Uma aproximação a O Último Século Humano, de César Alves – por Fernando Martinho Guimarães

Uma aproximação a O Último Século Humano, de César Alves#

 

O Último Século Humano é a estreia literária de César Alves. E é um livro de ficção científica.

O prefácio que abre o livro diz-nos que se trata de um “romance distópico que atravessa cinco gerações de uma família portuguesa”: Tiago, que nasce em 1974 e vive em Braga; Lucas, o seu filho, cresce entre ecrãs e algoritmos; Daniel, neto de Tiago, vive num mundo em que o virtual se confunde com o real; Liam, o bisneto, é o último nascido fora da rede; por fim, Noah, o trisneto, é o resultado da manipulação genética. Continuar a ler “Uma aproximação a O Último Século Humano, de César Alves – por Fernando Martinho Guimarães”

UM ESTRANHO ASCETISMO, por GILLES DELEUZE – TRADUÇÃO DE FRANCISCO TRAVERSO FUCHS

 

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Um estranho ascetismo, por Gilles Deleuze

Tradução de Francisco Traverso Fuchs

Nietzsche sabia bem, por tê-lo vivido, o que constitui o mistério da vida de um filósofo. O filósofo apodera-se de virtudes ascéticas — humildade, pobreza, castidade — para fazê-las servir a fins inteiramente particulares, inauditos, muito pouco ascéticos na verdade.[1] Ele faz delas a expressão de sua singularidade. Elas não são para ele fins morais, nem meios religiosos para uma outra vida, mas antes os “efeitos” da própria filosofia. Pois não há, em absoluto, outra vida para o filósofo. Humildade, pobreza e castidade tornam-se, a partir de agora, os efeitos de uma vida particularmente rica e superabundante, potente o bastante para ter conquistado o pensamento e subordinado qualquer outro instinto — o que Spinoza chama de Natureza: uma vida que já não é vivida a partir da necessidade, em função de meios e de fins, mas a partir de uma produção, de uma produtividade, de uma potência, em função das causas e dos efeitos. Humildade, pobreza e castidade são a maneira característica do filósofo de ser um Grande Vivente, e de fazer de seu próprio corpo um templo para uma causa demasiadamente orgulhosa, rica e sensual. […] É nessa perspectiva que a solidão do filósofo ganha sentido. Pois ele não consegue integrar-se em nenhum meio, ele não serve para meio algum. Não há dúvida de que é nos meios democráticos e liberais que ele encontra as melhores condições de vida, ou melhor, de sobrevivência. Mas esses meios são, para ele, apenas a garantia de que os maus não poderão envenenar nem mutilar a vida, separando-a da potência de pensar que conduz um pouco mais longe do que aos fins de um Estado, de uma sociedade e de todo meio em geral. Em toda sociedade, mostrará Spinoza, trata-se de obedecer e nada mais: eis porque as noções de falta, de mérito e de demérito, de bem e de mal, são exclusivamente sociais, dizendo respeito à obediência e à desobediência. A melhor sociedade será, portanto, aquela que isenta a potência de pensar do dever de obedecer, e se abstém, em seu próprio interesse, de submetê-la à regra do Estado, que só vale para as ações. Enquanto o pensamento é livre, portanto vital, nada é comprometido; quando ele deixa de sê-lo, todas as outras opressões são possíveis, e já realizadas, qualquer ação torna-se culpável, e toda a vida, ameaçada. É certo que o filósofo encontra no Estado democrático e nos meios liberais as condições mais favoráveis. Mas em nenhum caso ele confunde seus fins com os fins de um Estado, nem com os propósitos de um meio, uma vez que solicita no pensamento forças que se furtam à obediência como à falta, e erige a imagem de uma vida para além do bem e do mal, rigorosa inocência sem mérito nem culpabilidade. O filósofo pode habitar diversos Estados, assombrar diversos meios, mas à maneira de um eremita, de uma sombra, viajante, locatário de pensões mobiliadas. Por isso não se deve imaginar Spinoza rompendo com um meio judeu supostamente fechado para entrar em meios liberais supostamente abertos, cristianismo liberal, cartesianismo, burguesia favorável aos irmãos de Witt… Pois, para onde quer que vá, ele não pede, ele não reivindica, com maior ou menor chance de sucesso, senão ser tolerado, ele mesmo e seus fins insólitos, e julga por essa tolerância o grau de democracia, o grau de verdade, que uma sociedade pode suportar, ou então, ao contrário, o perigo que ameaça todos os homens. […] É preciso compreender como um todo o método geométrico, a profissão de polir lentes e a vida de Spinoza. Pois Spinoza faz parte dos viventes-videntes. Ele mesmo diz que as demonstrações são os “olhos do espírito”.[2] Trata-se do terceiro olho, aquele que permite enxergar a vida para além das falsas aparências, das paixões e dos mortos. Para uma tal visão são necessárias as virtudes, humildade, pobreza, castidade, frugalidade, não mais como virtudes que mutilam a vida, mas como potências que a esposam e a penetram. Spinoza não acreditava na esperança e nem sequer na coragem; ele só acreditava na alegria e na visão. Ele deixava os outros viverem, desde que os outros o deixassem viver. Ele queria somente inspirar, despertar, fazer ver. A demonstração como terceiro olho não tem por objetivo comandar, e nem mesmo convencer, mas apenas fabricar a luneta ou polir a lente para essa visão livre inspirada. «No meu entender, vejam, os artistas, os sábios, os filósofos parecem muito ocupados em polir lentes. Tudo isso são vastos preparativos visando um acontecimento que não se produz jamais. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia nós todos perceberemos claramente a assombrosa, a extraordinária beleza deste mundo…» (Henry Miller).

♦♦♦

DELEUZE, Gilles. Spinoza, Philosophie pratique. Paris, De Minuit, 1981 (1970), pp. 9-11/23-24. Tradução minha. Versão revisada da colagem de três trechos do primeiro capítulo que publiquei pela primeira vez em 13 de maio de 2004.

♦♦♦

Sobre o tradutor:

Francisco Traverso Fuchs formou-se em História pela UFF, é mestre em Filosofia pela UFRJ e atua como pesquisador independente. Em setembro de 2025 lançou o site ponto cinza, onde tem um blogue e está começando a reunir sua produção.

[1] Nietzsche, A genealogia da moral, III.

[2] Tratado teológico-político, cap. 13; Ética, V, 23, escólio.

METEOROLOGIA – por Henrique Miguel Carvalho

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CIÊNCIA

da história
………………os círculos
tocaram de perto
………………..o que sou,
………………..em um apogeu

de profecia —
………………..alcançou-me
o futuro
……………..onde previsto
……………..eu era estar

ermo, na praia,
……………….frente
à bruma,
………………por sobre
………………o mar

— ainda o vi,
……………….onda breve
que se anunciara,
mas só
……………….nos olhámos
……………….de relance

as mãos
……………… abertas,
de par em par
— sabia
……………….o que o esperava,
……………….ciente

habitual
………………do que viria —
que eu partia,
………………por passos
………………de areia

longe, de novo,
………………a divagar,
por passos
de areia,
………………que a maré
………………há de apagar

— e os
……………..distraídos,
as mãos
……………..pendendo
……………..dos braços

absortos
…………….por saber
se o Sol,
…………….indução perfeita,
continuará
…………….a erguer-se
…………….de manhã

com se
…………….por hábito
adquirido
— que eu,
……………por minha sorte,
……………sigo, lateral

ao destino,
……………em dunas
varridas
de vento,
…………..alto, por sobre
…………..o tempo

vendo
…………..e revendo
o que é
…………..e de igual não é —
numa simultaneidade
…………..estranha,
convoluta,
de que falara
………….o filósofo
………….enlouquecido

e o que
………….soube
desaprendi,
………….pelo ser
………….impredicado

liberto
…………..de contingências,
e livre,
…………..finalmente,
…………..de certezas Continuar a ler “METEOROLOGIA – por Henrique Miguel Carvalho”

PARTES E PARTIDAS – por Jaime Vaz Brasil

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Partes e Partidas

 

Uma parte me renasce depois de cada partida. Outra morre mais pouco no colo das despedidas. Parte de mim se partiu e me guardou em pedaços. (Como se um quebra-cabeça fosse o mapa dos meus passos.)

São partes, bem mais que duas
no mesmo corpo escrevendo

um verso dentro do outro
em língua que não entendo.

Parte do que sou, partiu
pra longe de mim, um dia.

(Mas seu olhar, no adeus
me avisou que voltaria.)

Uma parte, sempre parte.
Outra parte, vai ficando:

uma sempre faz a cama,
a outra ensaia seu quando…

São partes, bem mais que duas
mais que duas, muito mais

compondo dentro da gente
diferenças tão iguais…

Por isso tudo se encontra
em cada parte perdida.

(Aprender nessa procura
é o trabalho de uma vida.)

Por isso, aos poucos, o tempo
nos desenreda e nos faz

abraçar parte por parte,
deixá-las juntas e em paz.

♦♦♦

Image Jaime Vaz Brasl–Poeta gaúcho, com 7 livros publicados e vários prêmios, dentre os quais: Açorianos, Felipe d’Oliveira e Casa de Las Americas (finalista). Atua também como compositor, tendo vários poemas musicados e interpretados por vários parceiros, dentre os quais Ricardo Freire, Flávio Brasil, Zé Alexandre Gomes, Nilton Júnior, Vitor Ramil e Pery Souza.

A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo I – por Júlio Amorim de Carvalho

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[NOTA: publicado pela primeira vez na revista Nova Águia (n.° 37, 1.° semestre de 2026), este estudo é aqui apresentado com alterações no título, no texto e no aspecto gráfico]

Desviando-me dos habituais assuntos a que me tenho dedicado [i], abordarei aqui o caso duma entidade que, pelas prόprias características da sua fundação, do seu funcionamento e da sua organização interna, se apresenta como facto muito original, único, nesta faixa litorânia de Entre-Minho-e-Guadiana e suas adjacências: refiro-me à CASA AMORIM DE CARVALHO, sediada na cidade do Porto. O objectivo da presente exposição é o de levar melhor e mais vasta informação, a seu respeito, a uma elite, aos espíritos cultos e inteligentes, aos que se sentem naturalmente interessados pela temática que nestas linhas será desenvolvidamente tratada.

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I. Enquanto imόvel, a casa provém de família originalmente estranha à de Amorim de Carvalho; fôra adquirida em 1920 pelo então ainda alferes Antόnio Rodrigues casado com Ilda dos Santos Dias, pais de Ester Rodrigues, única sobrevivente e herdeira na imediata descendência do casal Rodrigues-Dias. Órfã de pai desde 1938, residindo com a mãe na casa por ele comprada, a Ester conheceria Amorim de Carvalho em finais de 1940 e casar-se-ia com ele em dezembro de 1943. Foi durante esses três anos de namoro que Amorim veio a conhecer a residência da noiva que seria, quatro décadas mais tarde, a Casa que receberia o nome do intelectual. Mas, morrendo Amorim de Carvalho em abril de 1976, sobrevivendo-lhe a sogra e a esposa, pode-se considerar que ele nunca foi proprietário natural da referida casa [ii].

O prédio comporta três níveis: um subsolo sobre-elevado com largas janelas que dão, por um lado, para a rua e, pelo lado oposto, para o pátio; uma escada interior dá acesso ao rés-do-chão que se prolonga, para as traseiras, num alpendre envidraçado permitindo a passagem ao pátio que logo chama a atenção pelo antigo tanque de pedra inteira e pelo canteiro aproximadamente semi-circular plantado de belas essências florais, algumas exόticas; dado o alto pé direito do térreo, ascende-se por íngreme escada à galeria central do andar superior que comunica com outros compartimentos, com especial relevo para o oratόrio e o salão. O interior do imόvel apresenta-se-nos judiciosa e agradàvelmente mobilado, assim facilitando o bom ordenamento na exposição do seu recheio além de facultar espaços de habitação com suas comodidades. Construída em pedra, oferecendo-nos fachada em grande parte revestida dos simples azulejos geométricos a duas cores muito em voga no bairro portuense em que fôra edificada nos finais do século XIX, a casa dá para uma curta artéria da freguesia do Bonfim. A porta de entrada em madeira maciça trabalhada é sobrepujada por larga bandeira de artístico gradeamento em ferro; as janelas e as portadas interiores são daquele mesmo madeiramento, de excelente qualidade.

Posicionada na parte central dum estreito espaço rectangular delimitado pelas ruas originalmente denominadas da Firmeza, de São Jerόnimo (que sobe até ao Largo da Pόvoa e à igreja da antiquíssima confraria de São Crispim e São Crispiniano), do Monte Tadeu e da Companhia das Águas [iii], ‒ a casa situa-se muito prόximo da cidade baixa oitocentista.

O espaço urbano delimitado pelas citadas ruas era povoado, ainda nos meados do século XX, por uma burguesia média que residia em moradias de aspecto frequentemente comparável à que tenho vindo a descrever. Entre elas haviam-se fixado algumas pequenas lojas de comércio local e modestas oficinas artesanais. É, pois, lamentável que ao bárbaro processo de descaracterização toponímica, se  venha desde há pouco impondo outro mais agressivo, resultado da cumplicidade das últimas massificadas administrações municipais com os desalmados novos proprietários imobiliários, ‒ desse entendimento resultando a destruição acelerada das tradicionais moradias que vão sendo substituídas por prédios elevados, incaracterísticos, do pior gosto arquitectόnico e urbanístico, promovendo-se paralelamente a alteração social e étnica da população, nesta partícula do velho burgo nortenho, que ainda há poucos anos abrigava uma classe social com hábitos e tonalidades expressionais tão caracteristicamente portuenses. A pressão destruidora dos antigos prédios, toma actualmente tal intensidade que, a perdurar esse ritmo, a Casa Amorim de Carvalho será em breve o único vestígio do recente simpático passado desta zona citadina. Continuar a ler “A CASA AMORIM DE CARVALHO. No 50.° ano da morte do poeta e do filόsofo I – por Júlio Amorim de Carvalho”

UMA NUANCE NAS NÓDOAS XI (e último) – por Lúcio Valium

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©Lucio Valium/Paulo Lucio

Lábios

há uma cadeira vermelha aqui ao lado. Máquinas de teclar e grandes janelas. Três armários metálicos. Um relógio redondo. Quatro caixas com papelada em cima das mesas à minha esquerda. Nas folhas que estão à mostra pode ler-se no título LIV e por baixo Levantamento de Interesses Nacionais. Fico parvo e quase vomito o almoço. Uma canja em malga de alumínio e um rissol de atum. A mulher da cantina veio fazer-me queixa de uma rapariga com voz de trovão. Eu queimei a língua e olhei para o enorme cu horroroso de uma que estava a comer ao balcão. Daquelas que não se cala. Saí dali e fui para a biblioteca. Está um livro de Théophile Gautier exposto numa mesa à entrada. Chama-se Constantinopla. Apeteceu-me atirá-lo pela janela para as chuvas ácidas. Já naquele tempo escreviam livros de viagens. Escritores turistas. Eu até gosto dele porque gostava de um amigo que gostava dele. Já morreram os dois. Eu ainda estou vivo. Tenho livros dos dois. O outro jaz em Mangualde um dos sítios mais indecifráveis do planeta e chamava-se João Ulisses. Era um poeta das heroínas. Um escritor onírico e um homem de uma enorme finura. Bebemos juntos noites inteiras. Agora já não há disso. Faltam dez minutos para uma sessão terapêutica sobre o ser como espelho do outro. Vou buscar uma caneca de café. depois fico sentado no corredor a ouvir águas que escorrem por canos e telhados de latão. É boa música. Uma aula de estética. um levitar para zona inacessível a estes fantasmas demasiado normais. Aí encontrarei os teus beijos. Continuar a ler “UMA NUANCE NAS NÓDOAS XI (e último) – por Lúcio Valium”

MAIS TRÊS POEMAS INÉDITOS de Manoel Tavares Rodrigues-Leal

 

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Três poemas inéditos de Manoel Tavares Rodrigues-Leal

I

Veio o vulto despir ou desfolhar a sôfrega rosa, ela (quem?) precária e indefesa.

E, calidamente, a efémera rosa débil tombou da haste de beleza.

Lx. 16-1-77 – caderno Os Passos do Amor – segunda versão – geralmente as primeiras versões são mais sucintas.

II

Noite núbil e nua em que não avistei teu vulto

vítreo. Noite talvez revólver

de, em mim, jovem mulher jazer e, em a hera, me revolver,

desmanchada a cama a chama…) e do suor brando o surto,

mulher tão reclamada e amada e nem sequer as tuas rugas ou rosas de amor a moverem-se.

Lx. 28-1-77 – caderno Os Passos do Amor – dedicatória: “(à Graça)”

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III

mar de sexo ondas de ternura

são brancura em teu corpo acariciado…

se fosse corpo aceso, fecundado,

só cantaria rosas de saudade…

Lx. 24/1/81 – caderno Rumor de Inverno

♦♦♦

ImageManoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016) Estudou nas Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra, não tendo concluído o curso. Em jovem conviveu com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e princípios de 70”. Conviveu com Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. Publicou cinco livros de poesia de edição de autor. As suas últimas semanas de vida foram terrivelmente trágicas. Caído no quarto, morrendo absolutamente só no Natal e passagem do Ano 2015–2016.

OUTROS DESTINOS – por Monique Lima

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Outros destinos

i

— Mostra as mãos! O menino mostra as palmas, levanta os braços, vira de costas contra o muro para a averiguação “de rotina”. No caminho de volta da escola parou para jogar bola, relata. A mochila vai ao chão, a tela do aparelho quebra, os cadernos são vasculhados e gritam com ele. Com as mãos para o alto, escala o muro em um segundo. Ao chegar no topo, abre as suas asas e voa sobre as casas da cidade entardecida. Voa alto até encontrar outros iguais e passa a ir em bando, como as aves. Os pontos de luz, já distantes, são fábricas de dores de mães.

ii

A parede rabiscada leva o homem ao extremo. A criança assustada recua no canto da parede. Cabisbaixa, sussurra com lágrimas nos olhos e sorrindo: — giz de cera, papai. — arte!, aponta. Ele suspende a menina pelos braços e sacode o seu corpo frágil. Com uma das mãos, ela toca a sua face e, com a massinha colorida na outra, cria para o homem um novo coração.

iii

Vira os olhos para cima, o suor pinga na pálpebra. O tapa faz voar o boné, a enxada cai no chão. No saco, uma casca de árvore, um papel com um endereço anotado, farinha de mandioca amarela grossa, um pedaço de cana e um lápis.

O homem armado pergunta:

— O que você tem aí, velho?

Ele mostra as mãos com os olhos cerrados pelo reflexo do sol no chão da estrada de terra.

— Responde! Insiste com um grito.

Ele levanta as mãos com as palmas para cima e diz: — Isto é tudo o que tenho.

♦♦♦

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Monique Lima de Oliveira é escritora, letrista de música, educadora, pesquisadora, artista de rua, de cinema e de rádio. Nasceu na Baixada Fluminense (RJ) e foi criada na periferia carioca. É autora de alguns livros e de algumas letras de canções. Vende seus livros na rua e anda por aí “em rotação universal”.

Ig: @outrotempo_moniquelima

CÍRCULOS Y FUEGOS – por Raúl Alonso

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CÍRCULOS Y FUEGOS

CENTRO

Las mañanas están hechas para el engaño,
para este oscuro oficio de engañarnos.

Uno se despierta
como si el sol fuese
como si el sol hablara

y entonces creemos

que este día no va a doler en el mismo lugar
que las horas no van a caer
una sobre otra
como sangre lenta
en una herida abierta

en el medio del abdomen.

Los años pasan y, tarde o temprano, pesan.
Pero este día no formará parte de esos años
nos decimos con una sonrisa en el espejo;
de modo que ese día pasará, pero no pesará.
Por algunas horas nos sentimos aliviados
con la levedad de un mito
sí, creo que el sol es el que nos convence
y tan distintos caminamos por los adoquines
sintiendo la noche tan ausente y tan lejana
que no logramos entender cómo esos versos
que nos vaciaron el alma
pueden sobrevivir a nosotros / a nuestras arrugas /
a nuestros llantos.

El día nos obsequia una vida que parece nueva
un amor que nos aguarda hasta que la luz
se apaga despacio
y todo vuelve
al lugar donde guardamos
lo que no pudo ser. Continuar a ler “CÍRCULOS Y FUEGOS – por Raúl Alonso”

POLUIÇÃO SOBRE RODAS – por Ricardo Amorim Pereira

 

Poluição Sobre Rodas: O Crime Invisível dos Filtros de Partículas Removidos

A possível harmonização europeia das inspeções automóveis, atualmente em discussão no Parlamento Europeu, pode representar muito mais do que uma simples facilidade burocrática para os condutores. Pode — e deve — ser encarada como uma oportunidade para reforçar o combate à poluição automóvel, um dos problemas de saúde pública mais graves e mais banalizados das sociedades modernas.

Durante décadas, o automóvel foi associado à liberdade, ao progresso e ao crescimento económico. Contudo, essa mesma mobilidade teve um custo ambiental e humano gigantesco. A poluição atmosférica é hoje responsável por cerca de uma em cada seis mortes prematuras no mundo, segundo estimativas divulgadas pela comissão Lancet sobre poluição e saúde, enquanto dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde continuam a apontar para milhões de mortes anuais associadas à má qualidade do ar.

Não estamos perante um incómodo abstrato ou um detalhe técnico discutido apenas entre especialistas. Estamos perante um fator de mortalidade global comparável ao tabaco e que continua a ser frequentemente subestimado pela opinião pública. Continuar a ler “POLUIÇÃO SOBRE RODAS – por Ricardo Amorim Pereira”

CAPA EDIÇÃO Nº 35 E FICHA TÉCNICA

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EDIÇÃO E PROPRIEDADE: Pencil Box – Multimédia, Ldª-

 ISSN 2184-0709

DIRECÇÃO: Júlia Moura Lopes

DIRECTOR ADJUNTO – Artur Manso

Logótipo e SEO : David Fernandes

Email: revista.athena2017@athena

Paginação Web: Júlia Moura Lopes

Apoio Web: David Fernandes e Luís Guerra e Paz

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COLABORARAM NA EDIÇÃO Nº 35

MARÇO DE 2026

CAPA  – FOTOGRAFIA DE PAULO BURNAY
COLABORARAM:

ADELINA ANDRÉS, ALEXANDRE TEIXEIRA MENDES, ARTUR MANSO, AMORIM DE CARVALHO, CARLA PEREIRA, FERNANDO MARTINHO GUIMARÃES, CRISTINA COSTA, FRANCISCO FUCHS, JAIME VAZ BRASIL, JOSÉ PAULO SANTOS, LUCIO VALIUM, MARIA TOSCANO, MIGUEL IGREJA CARDOSO, MOISÉS CARDENAS, POMPEYO PEREZ DIAZ, RICARDO AMORIM PEREIRA.

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EDITORIAL – A ENERGIA NUCLEAR VOLTOU – E COM RAZÃO – por Ricardo Amorim Pereira

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A recente decisão do governo nipónico de reativar a central de Kashiwazaki-Kariwa, a maior central nuclear do mundo em capacidade instalada, representa muito mais do que um simples reinício técnico. É um sinal político e estratégico claro de que, perante a urgência climática e a instabilidade energética global, a energia nuclear voltou a assumir um papel central na discussão sobre descarbonização. Num contexto em que o mundo precisa reduzir emissões de forma rápida, consistente e em larga escala, o nuclear apresenta-se como uma das poucas tecnologias capazes de responder simultaneamente à segurança energética, à estabilidade do sistema elétrico e à neutralidade carbónica. Continuar a ler “EDITORIAL – A ENERGIA NUCLEAR VOLTOU – E COM RAZÃO – por Ricardo Amorim Pereira”

NA TAL BOLINHA AZUL… – por Adelina Andrês

 

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Lá tão longe e tão perto que até pode ser aqui, num sítio lindo lugar que não era não é só um sítio sítio lugar porque é onde quando e como todas as coisas dos mundos todos e de todas as coisas que não são mundos se anunciam e fazem acontecer e acontecem já está, e que são lindos lindos sempre porque nunca há feios sequer para comparar, há esferas bolinhas lindas de todos os tamanhos grandes e pequenas, pequeninas e tão minúsculas que servem todos os seres – pigmeus e gigantes, fadas e duendes… – que os habitam e visitam e que vão para lá, aqui, passear. Passear vadiar andar percorrer a pé e com asas e sem asas a voar, conforme o que de momento mais aprouver e deliciar!… Continuar a ler “NA TAL BOLINHA AZUL… – por Adelina Andrês”

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes

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“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO)PITAGÓRICAS

 – Trans (e) figuração e geometria secreta em António Telmo e Lima de Freitas

Pergunta – O que é a Ilha dos Bem-Aventurados?
Resposta – É o sol e é a lua.
P – O que é o Oráculo de Delfos?
R –  É a Tetractys.
P – O que é a Harmonia?
R – É o canto das Sereias.

François Millepierres, Pythagore, Fills D`Appollon, Gallimard, 1959, 119.

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1.1. O pitagorismo de António Telmo (1927-2010) e Lima de Freitas (1927-1998) merecem bem uma meditação prolongada. Ora, precisamente o que surpreende – à luz da doutrina pitagórica – é a nobilíssima clarividência hermética de ambos e a (in) excedível valoração da mística e ocultismo do número e a proporção áurea. Supõe a liturgia algorítmica e a “golden ratio”. O nosso próprio interesse – proeminente – pela ciência «acroamática» ou esotérica provém, afinal, aparentemente ou rigorosamente falando, das reflexões-tipo sobre os conceitos-chave de transcendência e de realidade absoluta (que chamamos “o divino”). Quando comparamos, no conjunto, as reflexões pitagóricas de António Telmo e de Lima de Freitas, verificamos que ambos se referem à descoberta da estética da sectio aurea e que comentaram pormenorizadamente a década que é a natureza essencial de todo número – uma mónada de no mínimo 10. É interessante notar que Teofrasto – filósofo grego da escola peripatética que escreveu no século IV a.C. as “Doutrinas dos Filósofos da Natureza” (Phusikon Doxai) –  apresenta-nos uma ideia pitagórica bastante interessante – que o número ideal não está necessariamente sujeito a uma progressão sequencial ou causal de um a dez, mas é, antes, uma unidade com dez qualidades essenciais e potenciais, simultaneamente presentes na Década ou Tetraktys (eis porque pode representar, porventura, tanto uma unidade mínima quanto uma maximalidade em dez). Após ter posto em relevo, no início, as minúcias do hermetismo –  de que um dos aspectos primordiais é a kabbalah –  não é irrelevante a atenção –  (des) concertante  – sem alarde – destes nossos autores às “vias” de iluminação e realização espiritual do ser humano. Tratou-se, nos casos, ainda de um aprofundar dos estudos sobre a  kabbalah teórica (maasé bereshit) cujo alcance se estende desde a concepção do infinito até o mundo físico de coisas e acontecimentos que experimentamos como independentes e separados, passando pelas diferentes configurações da “divindade”, a “Árvore da Vida”, os mundos e seus habitantes, as almas humanas e seu destino, a semântica do alfabeto hebraico, e um longo etecetera. De facto, esse é o significado profundo da palavra kabbalah, que provêm da raiz hebraica, QBL, da qual deriva o verbo “lecabel”, receber. Kabbalah significa recepção. Não é assim surpreendente que, do acervo das ideias dos autores de “História Secreta de Portugal” (Vega, Lisboa, 1977) e de “Pintar o sete – Ensaios sobre Almada Negreiros, o pitagorismo e a gemetria sagrada” (INCM, Lisboa, 1990)  façam parte acentuada – desde o início –  os escritos da kabbalah (adcionando a quota-parte do conjunto das doutrinas esotéricas e místicas judaicas). É lícito, entretanto, mencionar o método de técnica oculta da kabbalah que professa a revelação central do sentido oculto do divino? Continuar a ler ““EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes”

“BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho

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BALADA HERÓICA DA LIBERDADE[i]

Por altas horas da noite é suspeito quem não há-de
já dormir… Anda a polícia de ronda pela cidade…

Fogem sombras, correm sombras, umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Por altas horas da noite pus-me a pensar: Que sentido
de existência pode haver em se ter ou não nascido?

Que sentido tem o vôo dos homens que à Lua vão,
para quem o vê apenas das grades duma prisão?

Que sentido tem o oiro a arder, ao sol, na seara,
para a noite sem manhã daquele que o semeara?

Ó liberdade do mundo, mas liberdade sem fome!
Ó mundo só inda em alma e por isso inda sem nome!

Por altas horas da noite eu pensei, pensei que um dia
pelo milagre de todos esse mundo se faria…

Nisto ouvi bater à porta, ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrava, e entrou para me dizer

que não pensasse! Este mundo era como Deus o fez…
Desta vez me perdoavam, sem perdoar outra vez.

Corriam, fugiam sombras… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo pensar, fiz do pensamento um sonho.
Por altas horas da noite então a sonhar me ponho.

Pus-me a sonhar, a sonhar a mesma ideia querida:
tornar o mundo melhor para dar sentido à vida!

Por altas horas da noite ouvi à porta bater.
Era a polícia que entrou, entrou para me prender.

Eu lhes disse que era um sonho. Olharam-me face a face.
Não sabiam o que fosse; disseram que eu não sonhasse,

porque o mundo tinha, sempre, de ser como Deus o fez…
Mais uma vez perdoaram, sem perdoar outra vez…

Sombras na noite fugiam… Umas das outras se escondem…
Olhos invisíveis olham-se, interrogam-se, respondem…

Como faz medo sonhar, fiz do sonho uma canção.
Cantei-a numa voz alta, alta de revolução!

Não quero o mundo de Deus que fez o Bem com o Mal!
Que Deus se julgue a si próprio no Julgamento Final!

Eu quero o mundo do homem, mas que o homem, livre, o faça
universal como a luz e aberto como uma taça!

Eu não quero a cruz gamada nem o martelo com fouce:
porque este traz a polícia, e aquela a polícia trouxe.

Nem o martelo com fouce, nem a cruz gamada quero!
Quero o arco da aliança a cobrir o mundo inteiro!

Quero as suas sete cores, como bandeiras ao vento,
do amarelo das searas ao azul do pensamento!

Ó Sonho só inda em alma, e por isso inda sem nome,
de homens cidadãos do mundo, mundo livre mas sem fome!

Vamos dar um nome ao Sonho que na nossa alma vive:
a Liberdade no mundo, mundo sem fome mas livre!…

Por altas horas da noite, assim, assim cantei eu
a canção das sete cores, sete bandeiras no céu!

E a minha canção heróica, lívida, linda, suave,
saíu-me louca da boca e voou como uma ave!

Todos põem-se a cantá-la, aonde quer que ela fôr!
Essa canção do meu Sonho! Sonho do mundo melhor!

Já não há sombras que fogem, não há sombras que se escondem.
Mas homens que dão-se as mãos, corações que se respondem! Continuar a ler ““BAÚ DA POESIA”: DOIS POEMAS – de Amorim de Carvalho”

O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso

 

 

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“O que é a verdade?”Pilatos no julgamento de Jesus.

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete
Aristóteles

                                                Não há factos eternos, como não há verdades absolutas
F. Nietzsche

O físico John Wheeler (1911-2008) referiu que “vivemos numa ilha rodeada por um mar de ignorância. À medida que cresce a ilha do nosso conhecimento, também cresce a costa da nossa ignorância”. Nada melhor do que as palavras de um físico, preocupado com a universalidade das leis científicas para procurar o que significa e como se encara aqui e ali, a demanda pela Verdade. Se a resposta fosse fácil, não haveria tanto silêncio, incompletude e dissimulação acerca do assunto. Conjeturemos, então, um pouco sobre o tema em torno do legado da tradição ocidental marcada pelo conhecimento greco-latino: as origens, porque sei que o assunto é complexo e tem muitas e diversas abordagens ao longo dos tempos e das diversas culturas.

O Evangelho do discípulo filósofo, João 18: 39 traz enunciado a dificuldade sobre a matéria quando relata o interrogatório de Pôncio Pilatos, governador romano da província da Judeia, ao jovem intransigente Jesus que afirmava ter vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos sabedor disso, pergunta-lhe: “O que é a verdade?”. E a resposta surpreende porque é um tranquilo abaixamento do olhar de Jesus, mergulhado em silêncio profundo. Parte da questão, a mais especulativa, talvez possa ter correspondência na afirmação de Jesus relatada em uma passagem anterior a esta:  “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8: 32), porque daqui depreende-se que a verdade é o compromisso de cada um com a vida toda num caminho de autenticidade e partilha. A verdade é o encontro com o pleno da existência, no reconhecimento da sua incompletude e no desejo de querer ser mais, não de uma maneira egoísta, mas de ser mais uns com os outros, mover-se em conjunto na causa do amor ao próximo, porque o meu próximo não é aquele me rodeia e me ocupa, desviando a minha atenção no quotidiano, mas sim aquele de quem, livremente e por escolha própria, me aproximo. A sabedoria antiga no rigorismo da lei mosaica tinha estabelecido dez princípios para a vida. Não eram muitos, mas o transgressor Jesus sabiamente resumiu-os a um apenas: “amar Deus acima de todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo”. Para satisfazer agora os emergentes espirituais laicos, guiados pelo olhar estético e cultural, e não tanto pelos livros das religiões, os simples deste mundo podem rasurar a primeira parte e grafar apenas: “ama o próximo como a ti mesmo” porque a essência do mandamento permanecerá intacta. Continuar a ler “O QUE É A VERDADE? – por Artur Manso”

POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

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Tal qual uma folha

tornou-a de tom castanho o tempo
depois de a deixar viver com a cor das esmeraldas
viçosa, nascida anúncio de força com tamanho de vida
logo se juntou às aves, às flores e às ondas
cá dentro, desejo contido de a fazer minha
finjo de longe que lhe toco
e que a abraço no dia em que foi eleita rainha
agarra-se à cor que ainda lhe resta
sem temer o vazio do pó que a espera
mais fraca sou eu, é certo,
que nada sei da natureza e das suas leis
sou capaz, porém, de morrer de saudade
mesmo sem nunca me ter inteiramente pertencido

vejo-a cair
segue uma linha, destinada à passagem da
tonalidade da vida

cai sem pressa
ainda há beleza nos últimos segundos de vida

somente para ser pela natureza compreendida Continuar a ler “POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira”

NA PRIMEIRA PESSOA: 8 DE MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER – por Cristina Costa

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Mulher de Guerra, Mulher Inteira!

Sou fogo, mas também água
danço entre o turbilhão e a calma,
entre a chama que me arde no peito
e a maré que me devolve a alma.

Sou forte, mas também frágil
porque a força vive no gesto que treme
no silêncio que pede colo,
na coragem de admitir que dói.

Sou tão afável como indelicada
porque ser mulher é ser contraste,
é ser verdade
luz e sombra no mesmo instante.

Sou amiga do meu amigo
dando o que não consinto a mim mesma,
o meu coração é casa aberta
porque me esqueço da sua chave.

Sou carinhosa, por vezes indiferente
porque nem sempre,
o mundo cabe no meu abraço
mas quando se lhe ajusta, desabrocha.

Sou arrojada por objetivos
teimo, insisto, recomeço,
porque a vida não me ensinou a desistir
mas a levantar-me depois de cair.

Sou apego e paixão
sou vento livre quando preciso,
sou raiz funda quando quero
sou escolha, sou caminho, sou mudança.

Sou mulher e sinto-me feliz
com as minhas crenças e princípios,
com a verdade que carrego no peito
com a história que escrevo todos os dias.

Sou uma mulher de guerra
não pela violência,
mas pela força de existir inteira
num mundo que me pede metades.

Felizes dias para todas nós, mulheres
que somos fogo, água, resistência, fragilidade
e tudo mais que quisermos ser…

♦♦♦

Image Cristina Costa – mulher, trabalhadora, estudante, amiga, cúmplice. Interessada pela surpresa dos dias e pela beleza da vida. 

O 17 DE MAIO GALEGO – por Fernando Martinho Guimarães

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Há povos e países separados pela mesma língua. Portugal e o Brasil é um exemplo, ou os Estados Unidos da América e o Reino Unido. O mesmo se pode dizer da relação entre Portugal e a Galiza. Continuar a ler “O 17 DE MAIO GALEGO – por Fernando Martinho Guimarães”

QUANDO O ELOGIO DA IA GENERATIVA CONDUZ AO ANTI-INTELECTUALISMO – por Francisco Fuchs

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Quando o elogio da IA generativa conduz ao anti-intelectualismo

Em fevereiro de 2026 teve início uma controvérsia sobre uma colunista do jornal Folha de São Paulo que usa IA generativa para produzir seus artigos. Escrevi este texto para publicação naquele jornal e estive a um clique de enviá-lo, porém desisti ao ler os abusivos “termos para envio”, que me impediriam de republicá-lo onde bem entendesse. Menciono esse contexto porque ele explica a concisão e o caráter ao mesmo tempo polêmico e didático deste texto, no qual esforço-me para equacionar o problema diante de um público amplo e diverso. Equivocam-se apologistas e detratores do uso de IA generativa: estes não compreendem que também a produção textual é produção de mercadoria; aqueles manifestam uma concepção rudimentar (e nociva) do trabalho intelectual. Continuar a ler “QUANDO O ELOGIO DA IA GENERATIVA CONDUZ AO ANTI-INTELECTUALISMO – por Francisco Fuchs”