domingo, 12 de julho de 2026

Pirilampos na Noite Escura

 

        Apazigua-nos, é dever cumprido deslocarmo-nos a lugares onde alguém discorre sobre gente das letras que admiramos. Vale em dobro se se evolou a presença física do homenageado e só na obra está presente. Que ao leitor apenas a obra interessa; a relação entre ele e o escritor é o livro. Segui a regra: vivi uma relação feliz com Lobo Antunes por mais de quarenta anos; guardo de todas as obras a boa lembrança de encontrar alguém que entende a dor, que sabe da amálgama de que somos feitos e a entende sem julgar. Guardo alguns episódios comuns que ele esqueceu e em mim foram importantes: o que marca o leitor, não tem de deixar vinco no escritor - no leitor a relação é de um para um; no escritor de um para inúmeros. Portanto, compareci numa das sessões de poesia a que José Anjos preside anualmente no Âmbito Cultural do El Corte Inglês. Receava não poder comparecer, a selecção da assistência, cada vez mais apertada, impediu-me a frequência de várias conferências e cursos no presente ano. Quis a boa sorte que, ora, estivesse presente.

        Durante a sessão ouvi ler crónicas que conheço e tenho em casa; versos de fados; poemas breves e mais longos, alguns com a verve satírica que lhe vivia na mente; entrevistas sérias e contundentes ou quase em carne viva. A meu lado uma jovem senhora bebia tudo de enfiada, o corpo inclinado para a frente; não me olhou uma única vez, não contemplou a ampla assistência; mãos no colo apertando uma malinha jovem, esguia, cabelo liso, fino e castanho a bater nos ombros, tez pálida, boca pequena e delgada que se não descerrou. Uma Nossa Senhora dos tempos modernos. Seria uma leitora voraz do autor, tanto parecia beber as palavras que escreveu. Desejei que não lhe esteja a fazer falta vê-lo, ou que apenas queira vê-lo ali, no que escreveu. Mais que ouvir o conhecido, foi ela a comover-me. Contudo, não foi sentimento geral. Quando algum público se compenetrou do “em que consistia a homenagem”, foi saindo. Há factos que me fogem ao entendimento. O que esperavam?! Uma reencarnação? Os irmãos que restam e nem sei quem sejam? A mulher se a tinha? Pelos vistos não lhes bastava a apresentação que foi fiel ao próprio Lobo Antunes “ a melhor biografia de um escritor são os seus livros”.

        E lembrei-te no confinamento a que te obrigou a doença, a cama de onde saíste para a morte, uma visita ou duas por semana. E isto durante mais de cinco anos. Vizinhas que nunca te visitaram e lá estavam no funeral, amigos impressionáveis que não puseram pé em tua casa, querendo ignorar a alegria que sentias quando e se o fizessem; família que ia ver-te uma vez no ano ou nem sequer isso, primas que nunca pisaram o teu chão. Parentes que vieram para assistir ao transporte do teu corpo sem vida. Vieram a quê?! Talvez a seres filha única e herdada. Não escreveste nada, apenas viveste. Não casaste. Não tiveste filhos. Escolheste por tutor um amigo de infância.

        É isto a vida. Também.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Requiem

 

        Pouco sabia de ti antes da doença. Foi o teu olhar meio perdido que me fez aproximar. Pedi o teu número, liguei. Aceitaste um chá. Encontrámo-nos algumas vezes. E depois sumiste. Não insisti, era a tua vida, tinhas os teus amigos de sempre. Passou talvez um ano e alguém me falou de ti, que entraras num processo de consulta atrás de consulta sem diagnóstico preciso. Ainda assim limitei-me a alguns sms a que respondias sem outra proximidade. Enviei-te um sms de Natal e respondeste com o nome da doença -PSP, filhos e sobrinhos (dois foram teus alunos) rapidamente procuraram na net, todos desconhecíamos o que fosse. Visitei-te no pós Natal e passei a fazê-lo semanalmente. Assisti às perdas de equilíbrio, às quedas, ao partir de alguns ossos, às nódoas negras. Mas nesse tempo ainda te deslocavas pela casa. Breve passaste ao andarilho e logo acamaste numa dificuldade progressiva de tudo, que desembocou na incapacidade: deixaste o telemóvel, a escrita, a leitura, a TV; tudo se foi tornando impossível: falar, deglutir, mexeres-te na cama sem cair. E sempre consciente da degradação. Tiveste uma cuidadora ímpar e com a força suficiente para te carregar em peso quando necessário. No último ano, a degradação era tão forte que as visitas me faziam sofrer antecipada e posteriormente. Por vezes adiava um dia ou dois, atardava-me cobardemente juntando coragem para ser bem disposta e te fazer rir; no íntimo, sabia que ia ver-te pior, em cada semana perdias alguma capacidade. Na passada semana desejei que morresses, te libertasses dessa amarra que te tolhia dos pés à cabeça. Tempos houve em que o suicídio te parecia a melhor solução, discutimos muito tema, esse foi um deles. Mas nada podias, perderas toda a autonomia. 

        Morreste por erro médico. Diz o ditado que Deus escreve direito por linhas tortas: foi o momento da libertação. Voaste.

sábado, 4 de julho de 2026

A Leveza da Vida

 

        Cheguei de férias e pensei postar sobre esse tempo que é inteiro lazer. Esqueço a casa e suas represálias, o portátil faz retiro espiritual e o tlm cinge-se ao uso mínimo, que é como quem diz, só para filhos. Saiu um post diferente. Parece-me que o motivo é má consciência – tanta guerra inútil, mas que mata, derruba casas, destrói vidas e haveres. Tanto mal reunido na mente dos homens com poder, esses que deviam ser exemplo; e a voracidade do fogo a ajudar, comendo hectares de vida. Dói abrir a TV e assistir a tanta chama enraivecida, verificar ao minuto a violência progressiva desta máquina de destruição natural durante estes dias de sobreaquecimento. Portanto, não apetece contar de quartos limpos, varandas arejadas e viradas ao verde bem tratado onde quase ninguém passa e eu em leitura remansosa com paisagem ao fundo; e quase me envergonha descansar os olhos na horta cuidada e prolífica, antecipando o mar e uma praia em tudo semelhantes ao que considero minha pertença não exclusiva, excepto na tepidez da água que nos abraça íntima, gesto que repetimos a gosto.

        É verdade que não existem cardos do mar azulando pelas dunas, nem aquelas espantosas flores brancas que parecem açucenas e me sideram em cada vez que as contemplo enraizadas na areia, digo com os meus botões que quase flutuam por entre os grãos, sem água doce que lhes valha. Acredito que sejam tão lindas como as flores do deserto. Abismo nestas maravilhas improváveis da minha praia. Que ora nem vejo por ter encontrado caminho mais fácil e que não danifica a duna.

        Mas também é certo que me antecipo à multidão turística, e nas horas de calor intenso descanso no quarto e volto mais tarde para a encontrar igual, salvo a água mais longe ou mais perto, segundo o que a maré determina. É um lugar como tantos: vive da animação turística em época balnear. Tem bairros senhoriais que são casas de praia e ficam na sua maioria fechadas durante parte do ano. Uma pena! As ruas, a fachada e a pintura são iguais e com barras: brancas com barra azul, azul com barra branca, amarelas com barra branca e o inverso. Existe um passeio junto à linha da costa bordado pelo verde das árvores e onde passa o que suponho seja um riacho atravessado por várias pontes pequenas. Mais à frente, um enorme quadrado de água por certo marítima, surpreende. Apetece andar de bicicleta; neste lugar encontrei jovens e menos jovens pedalando.

        Talvez por ser madrugadora, em qualquer hotel, entro na sala de pequeno almoço no primeiro quarto de hora de abertura. Ali, os ingredientes apresentavam extensa variedade, possibilitando pequenos-almoços de natureza diversa: do muito frugal ao mais pesado, com bife, feijões, ovos com bacon e sem, ovos estrelados na hora, etc, etc. Havia pouca gente, quase toda portuguesa, e demorava-me a olhar os comensais ocupados a encher pratos sobre pratos e a digeri-los com afã digno de nota. Havia neles um isolamento de tudo, eram eles e o alimento; não levantavam os olhos dos pratos e, pressurosos, devoravam-lhes o conteúdo como se disso lhes dependesse a vida (em parte dependia). Eram tão velhos como eu, alguns um bocadinho mais. O que leva alguém a alimentar-se com tamanha sofreguidão?! Não é nada poética a imagem mais nítida que me ficou das férias, mas gravou-se-me aquela pressa na mastigação e o vaivém de pratos que os funcionários iam retirando e eles repondo. Encerrado o expediente, levantavam-se prestes e abandonavam o que me convenço hoje ser o seu santuário. Isto porque, logo que a sala de almoço abria portas, era vê-los, formiguinhas afadigadas. E eu que me considero pessoa de “boa boca” e não debico, pergunto-me como e onde encontravam o apetite para almoçar. Era refeição em que não os seguia, estava acompanhada e o restaurante repleto. Quem sabe comiam apenas uma saladinha e estou eu aqui numa de má língua...

domingo, 28 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

         Hoje somos diferentes: Gozamos períodos de férias, quase não há as tabernas de antigamente e o mundo português encheu-se de cafés - é de bom tom haver uma taberna de degustação cuja não é sequer parente afastada das tais alumiadas a petromax, com as pipas à vista e um cheiro a vinho tinto que se incrustava nas paredes e revolvia o estômago, de mistura com a saturação de suores múltiplos e de vários dias, que o banho era graça de dia santo. Hoje, tomam-se os banhos que cada um entenda, escolhemos a bebida, petiscamos ou fazemos refeições completas. A vida quotidiana mudou. As mulheres e alguns homens sentem-se gratos às máquinas que lhes poupam trabalho, saem a sós se assim o entenderem, ganham a sua subsistência, caminho de cada um para ser dono de si. Que bom podermos escolher o que desejamos para o almoço ou o jantar. Que gosto ter profissão que assegure cuidados que antes nem havia. E que supremacia se, profissionalmente, fizermos o que gostamos.

        A escolaridade obrigatória foi prolongada, portanto, a dependência dos pais existe até mais tarde, a juventude começa cedo a sair à noite e prolonga manhãs na cama quando as noites esticaram ao extremo. Aos fins-de-semana e noites de festa, distribuídos democraticamente entre os dois sexos, os cômas alcoólicos tornam-se corriqueiros em hospitais e centros de saúde. E apesar dos preservativos e da pílula do dia seguinte, continuam a surgir mães adolescentes. São em menor número e, na maioria dos casos, os motivos da gravidez diferem dos antigos. A solução também pode diferir, o aborto foi legalizado. Não há dúvida que as mulheres são quem mais beneficiou do regime democrático. Contudo, a morte por violência doméstica continua a aumentar. Pergunto-me se o álcool anda metido nas brigas entre pares; se será por ausência de barreiras no respeito que é devido ao outro seja ele quem for; se são mentes frágeis que se deixam contagiar por filmes e redes sociais; se há muita energia que não se liberta por uso excessivo de telemóveis e outras conexões nas quais se gastam horas e horas; depois falta paciência para os da casa e o disparate sai agressivo à menor contrariedade.

        O que mais se verifica é que, antigamente, no tempo das tabernas, o mal era quase sempre de raiz exterior: a miséria, a falta de instrução, a falta de cuidados de saúde… a taberna era o limbo dos homens e o castigo de muita mulher. Hoje o mal vem de dentro, é individual e comum de muitos. Somos mais instruídos, mas nem por isso melhor formados; temos excesso de informação e raro sabemos distingui-la ou sequer pô-la de lado. Todos sabemos ler, mas interpretar continua a ser função de alguns.

        E eu que vinha para contar do mar e das férias, dou por mim neste atoleiro tão questionante como questionável. Fica para uma próxima.

        Divirtam-se.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

 

        O povo de que nasci não conhecia férias, nesse tempo não havia pausas. Entristece-me saber isto e mais que sabê-lo, ter assistido a essas vidas de trabalho que, sobretudo nas mulheres, era por demais intenso. A pausa, a existir, denominava-se mudança de uma função a outra. Alguns homens também entravam neste rol; chegavam a casa, comiam uma bucha e iam semear e vigiar o crescimento do plantio e, se necessário, regavam a horta que ajudava a sustentar a família. A horta era o lugar sagrado onde à força dos braços juntavam a fé cega na terra; iam buscá-la não se sabe onde, que ela, pobre e esfarelada, parecia ingrata aos que a não conhecessem, não a eles que lhe sentiam a miséria dos nutrientes e a vontade de germinação. Desconheciam o termo resiliência, mas tentavam sempre, puxavam por ela com carinho e velavam o canteiro de nabiça ou a couve tronchuda quase com o mesmo empenho com que ensinavam os filhos pequenos a dar os primeiros passos. Era admirável vê-los debruçados sobre a terra, aqui um montinho de hortelã, ali um rego de cenouras, uma correnteza de cebolo e outra de alhos; além, salsa e coentro a vicejar. E punham canas no feijão de trepar e sacudiam caracóis e outra bicheza, as galinhas de olho no verde hortícola e enxotadas na tardinha quando enfim o galinheiro se abria à liberdade breve de ciscar no lusco-fusco. Passava-se isto um nadinha antes de engolfarem no poleiro onde, por misericórdia divina, se equilibravam até o dia clarear e  haver os gritos de um galo esparvoado; mal soava o clarinete do macho sobranceiro, surgiam estremunhadas e prestes, pata aqui, pata acolá, sacudindo o sono, carraça pegadiça que se escondera nas asas. 

        Contudo, a maioria masculina, suada e suja, barba a sombrear empoeirados vincos do rosto, negava-se ao lar e parava na taberna em busca de alegrias avinhadas que caíam mal na carteira e não poucas vezes eram rastilho traiçoeiro em família. Ser taberneiro era um posto: atrás do balcão, o taberneiro sentia-se alguém, aviava copos de cinco e de dez, uma aguardente ou outra em copinhos pequenos e ia limpando com um trapo descolorido de tão surrado, os círculos arroxeados do fundo dos copos. Torneiras de água corrente não havia. Atrás do taberneiro, ao lado das pipas de vinho, um alguidar cheio de água que manhãzinha era limpa e à noite tinha a cor do vinho tinto, era serventia da casa. Havia muito menos higiene, lavar os copos era "passar por água". Os mais inveterados iam ficando e só desencostavam do balcão renitente à invectiva do taberneiro, “ já não avio mais nada, tudo p’ra casa, já passa das dez, passa aí a Guarda e ainda levo com uma multa”.  E havia quem, para desanuviar, jogasse o chinquilho e o dominó entre rodadas pagas à vez. Com a TV ninguém sonhava; lá bem no alto, o som do rádio abafava na algazarra. Fazia-se um silêncio de respeito para ouvir Amália, o conjunto Maria Albertina e a acordeonista Eugénia Lima, que se apanhavam já a meio por via da desatenção geral e mercê de alguém que conseguia destrinçá-los e gritava, “deixem ouvir, porra!”.  E então ia-se fazendo um silêncio geral e só faltava que os homens tirassem o boné como à passagem dos funerais. Em vez disso ouvia-se uma voz ou outra a traduzir a unanimidade, "é uma artista!". Ou, "sim senhor, isto é que é cantar/tocar!". E mal cessava a função retomavam o chinquilho, colocava-se outra pedra no jogo do dominó, pedia-se ou escorropichava-se a bebida. Era um mundo de homens onde o mulherio não tinha cabimento . Havendo novidade séria, as mulheres enviavam os filhos e esperavam fora que os seus homens viessem para lhes dar a má nova - morrera a mãe, o pai, um irmão, sabe Deus quem; um filho fora hospitalizado; a filha fugira de casa com o namorico; regressara o filho emigrante; a mulher morrera num repente, de um ar que passou por ela; o filho mais novo, gatinhara e fora encontrado a boiar na presa de regar a horta. Era quase sempre fatídico sinal um homem ser retirado às pressas desse mundo macho. Com as devidas diferenças, a taberna figurava  na miséria portuguesa o que os clubes ingleses representavam na classe superior: um apharteid masculino.

                                      (cont.)


domingo, 14 de junho de 2026

História de Verão

         Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação do trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o seu mel?

                                                                                      Eugénio de Andrade


Nota: este blogue regressa ao activo depois de dia 23. Entretanto, tenham uma óptima semana.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Voltas do Bem-Me-Quer

 

        Lisboa está repleta de jacarandás. Mas são os do Parque Eduardo VII que mais me encantam. Vejo-os apenas de ano em ano, na Feira do Livro, e sinto por eles um carinho inexplicável. Se um dia mudam a Feira não sei que faça, talvez viaje até ao parque só para fruir a visão de uma rua atapetada em lilás e onde caminho sentindo-me a herege que pisa território sagrado. E que vai ser do prazer que me agarra nos semáforos da Rotunda do Marquês, eu desvanecendo nesciamente à visão daquelas nuvens azuladas em que os meus olhos batem até sem propósito?! Não. A Feira tem de conservar o endereço. Além do mais, os livros condizem com os jacarandás, têm tudo a ver, mesmo sendo relação que não sei explanar.

        Portanto, mais uma vez por lá andei no encantamento do costume.

        Mas estou de mal com os livreiros que na Hora H faziam 50% de desconto em livros com mais de três anos de edição. Este ano, pelo menos na Relógio d’Água, tudo mudou: só alguns livros assinalados - e eram relativamente poucos – beneficiavam de desconto de 30%. De modos que foi a última vez que comprei na dita editora; exceptuo o livro do dia caso me interesse, e se continuar com boa promoção. Mas enchi-me de livros na mesma porque fui cedo e comecei pelos alfarrabistas onde li praticamente todos os títulos expostos nos primeiros quatro postos de venda. E comprei vários. E desisti de outros tantos.

        No dia seguinte saio cedo, o Metro vem à cunha, o rosto dos lisboetas é triste e amarfanhado. A maioria viaja no desencanto de um trabalho onde. Alguns já apanharam dois transportes até ali; outros terão ainda de chegar à outra margem; muitos descem na estação de Entrecampos, Sete Rios, Restauradores e correm para comboios e autocarros. A garota a meu lado puxa de um estojo de maquilhagem e, dois dedos enfiados no cetim da esponja, vai pondo no rosto alguma coisa que não identifico. É jovem e de boa pele, mas, paulatina, passa a esponjinha por todo o rosto, embebendo-a no redondo do estojo a cada retoque. Terminada a operação, puxa de um espelhinho que abre com um clique e mira-se em ângulo de cento e oitenta graus; após novo clique, desaparece tudo no interior da mala de mão, corre o fecho e sai aprumada e altaneira que nem juíza em tribunal. Não me deitou um soslaio, estava só, concentrada em si. Era uma manhã friorenta e um ar de tristeza emanava da carruagem: ombros descaídos, semblantes neutros, mãos ao telemóvel mais hábito que interesse. Nas horas matutinas manda o egoísmo sonâmbulo: ninguém dá lugar a ninguém, não se olha o vizinho. Mas já ali estive noutras manhãs e havia sempre alguém contente e conversando com entusiasmo. Lembro a jovenzinha de cabelo azul, uma Menina do Mar em tamanho natural que deixou o interlocutor - e até quem os olhou – bem disposto e agradado.

         Pergunto-me agora se teria sido defeito dos meus olhos; se eu mesma teria aquele ar de frete, do que se faz por dever e não por gosto. O que é que os portugueses perdem que assim os desalenta. Ou terei sido eu que perdi a capacidade de vê-los realmente.