Três poemas de Tonino Guerra

Image

SAUDADES

Eu sei, eu sei, eu sei
que um homem, aos 50 anos,
tem sempre as mãos limpas
e eu lavo-as duas ou três vezes por dia
mas é quando vejo as mãos sujas
que me recordo do tempo
de garoto.

O AR

O ar é aquela coisa leve,
que está à volta da tua cabeça
e se torna mais clara quando ris.

CEDO CAI A NOITE

Agora estou sempre em casa
e disponho as cartas ou olho
para além dos vidros da janela
as amêndoas secas presas aos ramos
que chegam cá acima
e parecem pingentes nas orelhas
de gente que não existe mais.
Ou estou sentado numa cadeira
perto do borralho
e cedo cai a noite
com a luz a morrer atrás das montanhas
e vou para a cama com vontade de sonhar
os dias em que a neve caía em Moscovo,
e eu estava apaixonado.

Tonino Guerra (1920-2012), Itália, tradução de Nuno Dempster

Continuar a ler

Quatro Canções da Pátria Amarga

Image

1. O SEGUNDO BAPTISMO

    Pobres palavras
    Molhadas de lágrimas, molhadas de amargura
    Este é o seu segundo baptismo.
    Os pássaros que inventam as asas
    Põem-se a voar, põem-se a cantar
    E as palavras que escondemos
    São as da liberdade
    As suas asas são espadas
    Que rasgam o vento

    4. POVO

      O povo humilde luta sem espadas nem balas
      Pelo pão de todos, pela luz e pelo canto
      Cala na garganta os gritos
      De alegria e de tristeza
      Porque se os soltasse
      As pedras fendiam-se

      9. LITURGIA (Celebração)

        Sob os choupos
        Pássaros e partisans
        Reúnem-se no mês de Maio
        Para celebrar a sua liturgia
        As folhas brilham como círios
        Na terra do país natal
        E no céu, uma águia lê o Evangelho

        10. A ÁGUA

          Um pouco de água numa rocha
          Um pouco de água purificada pelo silêncio
          Pela vigilância do pássaro, pela sombra do loureiro
          Os partisans bebem-na em segredo
          Como o pássaro levantam a cabeça
          E abençoam a sua mãe miserável, a Grécia

          Yannis Ritsos (1909-1990), Grécia, tradução, a partir do francês, de Soledade Santos

          Continuar a ler

          UMA ÚNICA VEZ

          Image

          Continuar a ler

          A REALIDADE

          Image

          Oh, fim prático da minha poesia!
          Por isso não sei vencer a ingenuidade
          que me retira prestígio, por isso

          a língua me rebenta nesta ansiedade
          que devo sufocar falando.
          Procuro, no coração, só o que nele há!

          A isto estou reduzido: quando
          escrevo poesia é para me defender e lutar,
          comprometendo-me, renunciando

          a toda a minha antiga dignidade: aparece
          assim, indefeso, aquele coração triste
          de que me envergonho, e cansada e vital

          a minha língua reflecte uma fantasia
          de filho que nunca será pai…
          Pouco a pouco, entretanto, perdi a companhia

          de poetas de faces nuas e áridas,
          de divinas cabras, com a testa dura
          dos antepassados de Pádua, em cujas magras

          fileiras contam somente as puras
          relações de paixão e pensamento.
          Levado pelos meus obscuros

          problemas. Ah, recomeçar do zero!
          Sozinho como um cadáver na sepultura!
          E assim, eis a manhã em que não espero

          que na luz… Sim, na luz que desvela
          com felicidade primaveril
          os dias desta minha Canossa.

          Aqui estou eu no esplendor de um velho abril
          a confessar-me de joelhos
          até ao fim, até morrer.

          Pensemos nessa luz a dar-me alento,
          a sustentar o fio de sol e ouro
          perfumado, sobre um mundo, como a morte, renascido.

          Então… ah, no sol está a minha única alegria…
          aqueles corpos, com calças de verão
          um pouco coçadas nas virilhas por absorta carícia

          de mãos rudes sujas de poeira… O suado
          grupo de machos adolescentes,
          na orla dos campos, sob a fachada

          das casas, nos crepúsculos abrasadores …
          O orgasmo da cidade em festa,
          a paz da terra reflorida…

          E eles com as faces de luz
          ou negras de sombra como crias de lobo,
          em indolentes correrias, em lasciva

          ingenuidade… As nucas! Os sombrios
          olhares! Aquela necessidade de sorrir
          ora das sua falas, um pouco estúpidas,

          de inocentes, ora como desafio
          ao resto do mundo que os acolhe:
          FILHOS. Ah, que Deus os guia

          assim seguros, ao longo das ruas mortas,
          para os Castelos, as Praias, as Portas
          da cidade no previsto, antigo desejo

          de quem sabe já que vai morrer
          depois de verdadeiramente ter vivido:
          que a vida que têm em sorte

          é a justa, e nada terá perdido.
          Humildes, claro. E o que será
          o modo vil de então se terem cumprido

          a si mesmos (o seu destino é a cobardia)
          é ainda um quase alvorecer
          sobre árvores desconhecidas, em que

          a natureza só tem pedras preciosas, num êxtase
          de pureza suprema, de coragem.
          Oh, decerto, agora são invadidos

          pelo mal que recebem como herança
          dos pais – a minha escura raça coeva.
          Mas que esperam? Que feixe

          de luz lhes banha o rosto
          onde o topete de cabelo
          na testa, os tufos, as ondas são graça

          mais que corpórea?…. Docemente rebeldes,
          e, ao mesmo tempo, satisfeitos com o futuro dos pais:
          eis o que os torna tão belos.

          Também os sombrios, também os tristes, também os ladrões
          têm nos olhos a doçura
          de quem sabe, de quem percebeu: grupos

          ordenados de flores no caos da existência.
          Na realidade, eu sou o rapaz, eles,
          os adultos. Eu, que por excesso da minha presença,

          nunca cruzei o espaço entre o amor
          pela vida e a própria vida…
          Eu, sombrio de amor, e, em volta, o coro

          dos alegres, cuja realidade é amiga.
          São milhares. Não posso amar só um.
          Cada um tem a sua nova, a sua antiga

          beleza, que é de todos: moreno
          ou loiro, leve ou pesado, é o mundo
          que amo nele – e partilho

          partilho – visão de amor infecundo
          e puríssimo – as gerações,
          o corpo, o sexo. Afundo-me

          de cada vez – em doces efusões,
          em bafos de genebra – na história
          que é sempre viva em cada

          dia, em cada milénio. O meu amor
          é só para a mulher: criança e mãe.
          Só por ela empenho todo o coração.

          Para eles, os da minha idade, os filhos, em bandos
          maravilhosos dispersos por planuras
          e colinas, por vielas e largos, só

          arde em mim a carne. Porém, às vezes
          parece-me que nada tem a admirável
          pureza deste sentimento. Antes a morte

          que renunciar a tal! Devo defender
          este exagero de desesperada ternura
          que, igual a todos, tive quando nasci.

          Talvez ninguém tenha vivido com tamanho
          desejo – ansiedade fúnebre
          que me enche como o mar a sua brisa.

          As encostas, as colinas, a erva milenar,
          a queda de flores ou de lixo, os ramos
          secos ou cintilantes de orvalho, a atmosfera

          das estações com os muretes
          velhos ou recentes ao sol… tudo isto
          me esconde a mim (ride!) e aos amigos jovens

          nos quais nenhum acto é desonesto,
          porque é sem tragédia o desejo deles:
          porque o seu sexo é integro, fresco.

          De contrário, não poderia. Só se leve,
          dentro da norma e sadio o rapaz
          pode fazer-me nascer o pensamento

          escuro e deslumbrante: só assim me pareço com ele
          na constatação infinita de um segredo
          que está no baixo-ventre impuro como um lírio.

          E é de repetir mil vezes este acto:
          porque, não o repetir, é experimentar
          a morte como uma dor frenética,

          que não há parecida no mundo essencial…
          Não o escondo, se nunca escondi nada:
          o amor, não reprimido, que me invade,

          o amor de minha mãe, não dá lugar
          à hipocrisia e vileza! Não tenho razão
          para ser diferente, não conheço

          o vosso Deus, sou ateu: prisão
          só a do meu amor, no resto livre,
          em cada juízo, em cada paixão minha.

          Sou um homem livre! Ingénuo alimento
          da liberdade é o pranto: pois bem, chorarei.
          É o preço do meu «líbito far licito»,

          está certo: mas o amor vale tudo quanto tenho.
          Sexo, morte, paixão política
          são os simples estados a que entrego

          o meu coração melancólico… A minha vida
          não tem outro… Poderei amanhã,
          nu como um monge, deixar o jogo

          mundano, ceder aos infames
          a vitória… a minha alma
          nada perderia de certeza!

          Que a fatalidade de ser existência
          inalienável, raça, universo
          basta a qualquer: ainda que o mundo não tenha

          fraternidade, porque diferente.
          Por isso os risos e as alusões
          dos pobres racistas, surgem através

          da sua realidade como sons
          fictícios de mortos. No meu ser
          esta realidade tem sexo e paixões…

          E, claro, não tiro alegria disso. Obcecadas
          são as suas predestinadas formas:
          «as repressões fazem de mim um SS

          ou um mafioso…» e eu – é abominável ,
          sei-o bem – sou-o: jovem filho inocente,
          santo anjo bárbaro, os passos

          calcados que sigo há algum tempo e remetem
          à revolta reacionária
          (foi em épocas infames do grande

          itinerário de uma vida em Itália),
          carrasco louro, ou ‘killer’ cor
          de lama, como um sequaz… do sanguinário

          burguês Hitler, ou do poderoso filho
          de pobres Giuliano… – conformismo
          que me salvava, como um voo

          cego. Tudo isso não passou de crisma,
          sombra que desapareceu da minha vida.
          Manteve-se a inclinação para o cisma:

          uma necessidade natural de esgravatar na minha ferida
          sempre aberta. Um conciliar
          cada ligação com o mundo que a si me convida,

          ao relacionamento do meu filial
          sado-masoquismo: para o qual não nasci,
          e estou aqui sozinho como um animal,

          sem nome: consagrado por nada,
          não sendo de ninguém,
          livre de uma liberdade que me massacrou.

          Donde não eu, mas aquele com que comunico
          tira a desesperada conclusão
          de ser o excluído de um encontro

          de ‘outros: todos os homens’, sem distinção,
          ‘todos os normais’, a quem pertence esta vida.
          E busco alianças que não tenham outra razão

          de ser, como vingança, ou contrapartida,
          salvo a diversidade, a brandura e a violência impotente:
          os Judeus… os Negros… toda a humanidade banida…

          E este foi o caminho pelo qual eu, homem sem
          compaixão, súcubo inconsciente, ou espião,
          ou turvo caçador de boas-vontades,

          tive tentações de santidade. Foi a poesia.
          A bruxa ‘boa’, que caça as bruxas
          por terror, conheceu a democracia…

          Não foi um dom do céu! As ligações atrozes
          com os companheiros másculos, chantagistas inconscientes,
          as gargalhadas com que o monstro afirmava

          saúde tranquila e amores seguros,
          pronto a torturar e matar outros monstros
          desde que não identificado – de repente

          saiu tudo de mim (e vocês reconhecem
          agora os que me odeiam, facto público,
          os pobres fascistas), uma noite, nas florestas

          de corte, quem sabe, entre manchas indissolúveis
          de violetas nas orlas, entre vinhas ou luzes
          crepusculares de aldeias, sob nuvens virgens,

          (na Emília do meu destino, no Friuli dos meus deuses)…
          Foi o terror que venceu. Quero dizer,
          o terror da realidade e da solidão foi maior

          que o da sociedade. Juventude amarga,
          presa dessa consciência incurável
          de não existir, que ainda é a minha escravidão…

          Pois chegarei ao fim sem
          ter feito, na minha vida
          a prova essencial, a experiência

          que une os homens, e lhes dá
          uma ideia tão brandamente definida
          de fraternidade ao menos em actos do amor!

          Como um cego: a quem terá faltado,
          na morte, algo que coincide
          com a própria vida – luz contínua

          sem esperança, e que, pelo contrário,
          a todos sorri, como a coisa mais simples do mundo ‒
          uma coisa que nunca poderá repartir.

          Morrerei sem ter conhecido o profundo
          sentido de ser homem, nascido para uma só
          vida, à qual, na eternidade, nada corresponde.

          Na vida, um cego, um monstro nunca consola
          ninguém a sério, mas na altura vergonhosa
          e sem remédio, no terror da hora

          em que tudo foi − vai ser cobaia
          não mais um homem! Absurdo
          − desde não poder suportá-lo, e gritar de raiva,

          e gemer, como um animal, cujo grito
          é o grito de um inocente que protesta
          contra a injustiça na qual é títere −

          e esta ordem pré-natal, esta
          predestinação, em que ele nada tem a ver,
          que nada tem a ver com a sua honesta −

          alma antiga… Do ventre
          das mães nascem filhos cegos
          − plenos de desejo de luz, − aleijados,

          − plenos de instintos felizes:
          e eles passam a vida no escuro e na vergonha.
          Podemos resignar-nos − e os fetos

          vivos, pobres erínias, podem, a todas
          as horas da vida, calar-se ou fingir.
          Os ‘outros’ dizem sempre que não se deve
          ​​
          ser um fardo para eles. E esses obedecem. Tinge-se
          assim toda a sua vida de cor diferente.
          E o mundo – o mundo inocente! – rejeita-os.

          ………………………………………………………………………………………

          Mas falo… do mundo – e deveria,
          em vez disso – falar de Itália, aliás,
          de ‘uma’ Itália, de onde és filho

          como eu, leitor dos meus versos:
          história física em que te envolves.
          Chamei ‘inocente’ ao mundo, eu,

          eu, enquanto cego, filho martirizado.
          Mas se olho em volta estes restos
          de uma história que durante séculos pariu

          apenas servos… esta Aparição
          em que a realidade não tem outro indício
          senão o seu brutal repetir-se…

          que cena… expressionista! Penso num julgamento
          enfrentado sem sentido… as togas… as tristes autoridades do Sul…
          atrás do rosto dos juízes – em que o vício

          é um vício de dor, que desvela
          ambientes miseráveis – não se via mais que impotência
          para sair de uma obscura realidade de famílias, de uma

          moralidade grosseira, de uma inexperiência provinciana…
          Aquelas testas de Teatro dell’ Arte,
          aqueles pobres olhos de onagros obedientes…

          teimosos, as orelhas baixas,
          as palavras que, afim de mascarar
          o vazio, se inflavam para representar papéis

          de ameaça paterna, de florida, artificial indignação!
          Ah, não sei odiar: e sei portanto que não posso
          descrevê-los com a ferocidade exigida

          à poesia. Só direi com pena daquele rosto
          de calabrês, com traços de criança
          e de caveira, que falava em dialeto

          com os humildes, escolástico com os grandes.
          Que escutava atento, humano
          e, enquanto isso, na inefável e nefasta

          caverna interior, incubava o seu plano
          de tímido que o medo torna impiedoso.
          Em cada lado, outros dois rostos bem reconhecíveis,

          rostos que na rua, num bar superlotado,
          são os rostos débeis, enfermiços,
          dos precocemente envelhecidos, dos doentes

          do fígado: dos burgueses cujo pão
          por certo não sabe a sal, não ignóbeis, não,
          não de todo desprovidos de aparência humana

          no pungente negro dos olhos, na palidez
          dos rostos atormentados antes
          da cruel velhice… Um quarto enviado do Senhor

          com certeza casado, com certeza protegido por um círculo
          de respeitáveis ​​colegas na sua cidade
          de província – hirto num sopro

          de mal dos intestinos ou do coração –
          estava sozinho num banco: como está
          quem prepara um desamor premeditado.

          E diante deles, o campeão: aquele que
          vendeu a alma ao diabo, em carne e osso,
          Personagem clássica! Eu tinha-lhe visto o rosto

          alguns meses antes: e era outro:
          o rosto de um rapaz de pele grosseira,
          rural, fontes sem cabelo e pálido

          de dignidade profissional.
          Agora uma chama o desfigurava:
          como uma velha crosta roxa

          na pele. A luz perversa
          dos olhos era a de quem está em falta.
          O ódio dele pela minha pessoa era ódio

          pelo objeto dessa culpa, ou seja,
          ódio pela sua consciência.
          Não foi desonesto o bastante. A fantasia

          não chega para imaginar uma experiência
          de ignorância e chantagem. A burguesia
          é o diabo: vender-lhe a alma sem

          contrapartida? Oh, certamente não: é preciso
          adoptar a sua cultura, recitar
          como um Padre Nosso a vergonha

          do exórdio puramente formal,
          da cláusula mistificadora…
          E ser retórico significa odiar,

          ser inculto significa haver perdido
          deliberadamente todo o respeito pelo homem.
          O velho amor pelo ideal reduz-se

          a fingir em desespero consigo mesmo,
          a acreditar no que mentindo se diz.
          Mas o brilho do olhar permanece, obcecado,

          acusador! Ali, naquela gota de luz,
          na expressão astuta, lívida,
          culpada – estava a vossa verdade.

          A minha relação convosco conduz-me,
          eu sei, a um desejo interior.
          Mas isso é segredo do eu,

          ou Deus, como vós dizeis. A vós se dirá:
          «Não contais, sois símbolos
          de milhões de homens: de uma sociedade.

          Esta condena-me, não a vós, autómatos.
          Assim seja: sou feliz com a minha monstruosidade.
          Ou queremos enganar o espírito? Homens

          que condenam homens em nome de nada:
          porque as instituições nada são, desde que
          perderam toda a força, a força jovem

          das revoluções – porque nada
          é a moral do bom senso de uma
          comunidade passiva, sem mais realidade.

          Vós, homens formais – humildes
          por cobardia, obsequiosos por timidez –
          sois pessoas: em vós e em mim consome-se

          a relação: em vós, de ódio árido,
          em mim, de conhecimento. Mas à sociedade,
          de que sois rapsodos inexpressivos,

          tenho a dizer algo bem diverso: não mais
          como marxista, ou ainda, mas por um instante,
          se o arrebatamento dos autores

          do Apocalipse fabuliza num fogo
          intemporal: os meus amores –
          gritarei! – são uma arma terrível:

          Porque não a uso? Nada é mais terrível
          que a diversidade. Exposta a cada momento
          – gritada sem fim – excepção

          incessante – loucura desenfreada
          como um incêndio – contradição
          pela qual toda a justiça é dessacralizada.

          Ah negros, judeus, pobres multidões
          de marcados e diferentes, nascidos
          de ventres inocentes, em primaveras

          infecundas, de vermes, de serpentes,
          horrendos sem o saber, condenados
          a ser atrozmente mansos, puerilmente violentos,

          odiai! atormentai o mundo dos homens bem-nascidos!
          Só um mar de sangue pode salvar
          o mundo dos sonhos burgueses

          destinados a torná-lo um lugar sempre mais irreal!
          Só uma revolução que massacre
          esses mortos pode desconsagrar o mal!

          Isto pode gritar-se, um profeta que não tem
          força para matar uma mosca – o vigor dele
          está na sua diversidade degradante.

          Só dito isto, ou gritado, a minha sorte
          poderá libertar-se: e começar
          o meu discurso sobre a realidade.

          Pier Paolo Pasolini, Itália (1922-1975), tradução de Nuno Dempster

          Continuar a ler

          When you are old…

          Image

          Quando fores velha, cheia brancas e de sono,
          E, cabeceando à lareira, pegares neste livro,
          Lê-o devagar, e sonha com o olhar doce
          Que os teus olhos tinham e suas fundas sombras.

          Quantos te amaram os momentos de suave graça,
          Amando de verdade ou com falso amor a tua beleza,
          Mas só um amou em ti a alma peregrina,
          Amando as mágoas do teu mutável rosto;

          E, pendendo a cabeça para as brasas vivas,
          Murmura, um pouco triste, que o Amor se foi
          E caminhou pelas montanhas acima
          E a face escondeu num mar de estrelas.

          William B utler Yeats, Irlanda, 1865-1939, Traduzido por Nuno Dempster.

          Continuar a ler

          Estavas a meu lado…

          josé a v
          Xulio Formoso, José Angel Valente em Paris

          Estavas a meu lado
          e mais próxima de mim que os meus sentidos.

          Falavas do íntimo do amor
          armada com a sua luz.
          Nunca palavras
          de amor mais puras respirara.

          Estava a tua cabeça suavemente
          inclinada para mim.
          O teu longo cabelo.
          e a tua alegre cintura.
          Falavas do centro do amor
          armada com a sua luz,
          numa tarde cinza de qualquer dia.

          Memória da tua voz e do teu corpo
          a minha juventude e as minhas palavras sejam
          e esta imagem de ti me sobreviva.

          José Angel Valente, Espanha (1929-2000), tradução de Nuno Dempster.

          Continuar a ler

          Síndrome

          Image

          Todavia tenho quase todos os dentes
          quase todos os cabelos e pouquíssima brancas
          posso fazer e desfazer o amor
          subir degraus de dois em dois
          e correr quarenta metros atrás do autocarro
          ou seja não deveria sentir-me velho
          mas o grave problema é que antes
          não reparava nestes detalhes.

          Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009, traduzido por Nuno Dempster.

          Continuar a ler

          BRINDE

          images-48

          Alegra-te comigo, celebremos a sorte
          de partilhar a mesma cidade, o mesmo século,
          a bênção do sol dourado de Inverno,
          a cerveja e sua espuma nos lábios.
          Brindemos contra o tempo de obscuras ameaças,
          toquemo-nos, ousados, riamos, satisfeitos,
          esconjuremos os monstros da dor e da culpa,
          calemos a nossa imensa solidão.

          Que o dom da embriaguez nos banhe ao meio-dia.

          Amalia Bautista (n. 1962), tradução de Soledade Santos

          Continuar a ler

          Não me parece nem bem nem mal

          Acredito que às vezes nos contemplam
          pela frente por trás pelos lados
          uns olhos rancorosos de galinha
          mais terríveis que a água podre das grutas
          incestuosos como os olhos da mãe
          que morreu no patíbulo
          pegajosos como um coito
          como a gelatina que os abutres devoram
          acredito que hei-de morrer
          com as mãos afundadas no lodo dos caminhos
          acredito que se me nascesse um filho
          ele quedar-se-ia a olhar eternamente
          as bestas que copulam ao entardecer.

          Luís Buñuel, Espanha, 1900-1983, traduzido por Nuno Dempster.

           

          Continuar a ler

          Garças

          jac

          As garças procuram dias claros
          para voar nos binóculos
          que as observam. Sobrevoam
          a baixa altura o bosque
          e planam ao longo das margens,​
          perto dos juncos, passe-partout entre moldura
          e desenho.

          Submergem até meio
          das pernas e o bico inteiro
          nas águas, avançam
          devagar, traçam círculos
          perfeitos à superfície
          e provocam um leve chapinhar
          que só os silêncios do rio
          escutam quando o leito
          confunde o que flui

          com o que permanece.
          E em tamanha quietude
          imprimem no ar ameno
          o ronco destemperado
          do seu grasnido. Nada se compreende
          então. Assim actua
          a realidade.

          José Ángel Cilleruelo, Barcelona (n. 1960), tradução de Soledade Santos (primeiro publicada no Poesia, vim buscar-te

          Continuar a ler

          Parábola do Indestrutível

          Image

          Onde está agora o ramo dourado
          que levei para o corpo dela?
          Onde está o sabor a água doce
          dividido nas nossas bocas? E porque é que
          as aves canoras nunca mergulham
          na água ou caçam a partir da montanha?
          Escuta: o balido do pato selvagem,
          o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
          os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
          que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
          e a pequena coruja a latir na luz do dia:
          como ossos na garganta as suas próprias
          questões indestrutíveis.

          Robert Bringhurst, EUA, 1946,  tradução de Nuno Dempster.

          Continuar a ler