Eu sei, eu sei, eu sei que um homem, aos 50 anos, tem sempre as mãos limpas e eu lavo-as duas ou três vezes por dia mas é quando vejo as mãos sujas que me recordo do tempo de garoto.
O AR
O ar é aquela coisa leve, que está à volta da tua cabeça e se torna mais clara quando ris.
CEDO CAI A NOITE
Agora estou sempre em casa e disponho as cartas ou olho para além dos vidros da janela as amêndoas secas presas aos ramos que chegam cá acima e parecem pingentes nas orelhas de gente que não existe mais. Ou estou sentado numa cadeira perto do borralho e cedo cai a noite com a luz a morrer atrás das montanhas e vou para a cama com vontade de sonhar os dias em que a neve caía em Moscovo, e eu estava apaixonado.
Tonino Guerra (1920-2012), Itália, tradução de Nuno Dempster
Pobres palavras Molhadas de lágrimas, molhadas de amargura Este é o seu segundo baptismo. Os pássaros que inventam as asas Põem-se a voar, põem-se a cantar E as palavras que escondemos São as da liberdade As suas asas são espadas Que rasgam o vento
4. POVO
O povo humilde luta sem espadas nem balas Pelo pão de todos, pela luz e pelo canto Cala na garganta os gritos De alegria e de tristeza Porque se os soltasse As pedras fendiam-se
9. LITURGIA (Celebração)
Sob os choupos Pássaros e partisans Reúnem-se no mês de Maio Para celebrar a sua liturgia As folhas brilham como círios Na terra do país natal E no céu, uma águia lê o Evangelho
10. A ÁGUA
Um pouco de água numa rocha Um pouco de água purificada pelo silêncio Pela vigilância do pássaro, pela sombra do loureiro Os partisans bebem-na em segredo Como o pássaro levantam a cabeça E abençoam a sua mãe miserável, a Grécia
Yannis Ritsos (1909-1990), Grécia, tradução, a partir do francês, de Soledade Santos
Tudo quanto – apenas porque um dia foi chama e canção e nos deu alegria – julgámos que voltaríamos a fazer, a ser, a revisitar, aconteceu essa única vez; nenhum início abriu uma sequência, um desenvolvimento: o maravilhoso aconteceu nas nossas vidas, a sua ausência não ensombra o resto delas: mas não esperemos que um dia regresse. O que vier será único, como único foi o que antes houve. Aceitemos a próxima canção, no seu material halo de chamas, como absolutamente presente, agora ou nunca mais.
Denise Levertov, 1923-1997, EUA, tradução de Soledade Santos
Oh, fim prático da minha poesia! Por isso não sei vencer a ingenuidade que me retira prestígio, por isso
a língua me rebenta nesta ansiedade que devo sufocar falando. Procuro, no coração, só o que nele há!
A isto estou reduzido: quando escrevo poesia é para me defender e lutar, comprometendo-me, renunciando
a toda a minha antiga dignidade: aparece assim, indefeso, aquele coração triste de que me envergonho, e cansada e vital
a minha língua reflecte uma fantasia de filho que nunca será pai… Pouco a pouco, entretanto, perdi a companhia
de poetas de faces nuas e áridas, de divinas cabras, com a testa dura dos antepassados de Pádua, em cujas magras
fileiras contam somente as puras relações de paixão e pensamento. Levado pelos meus obscuros
problemas. Ah, recomeçar do zero! Sozinho como um cadáver na sepultura! E assim, eis a manhã em que não espero
que na luz… Sim, na luz que desvela com felicidade primaveril os dias desta minha Canossa.
Aqui estou eu no esplendor de um velho abril a confessar-me de joelhos até ao fim, até morrer.
Pensemos nessa luz a dar-me alento, a sustentar o fio de sol e ouro perfumado, sobre um mundo, como a morte, renascido.
Então… ah, no sol está a minha única alegria… aqueles corpos, com calças de verão um pouco coçadas nas virilhas por absorta carícia
de mãos rudes sujas de poeira… O suado grupo de machos adolescentes, na orla dos campos, sob a fachada
das casas, nos crepúsculos abrasadores … O orgasmo da cidade em festa, a paz da terra reflorida…
E eles com as faces de luz ou negras de sombra como crias de lobo, em indolentes correrias, em lasciva
ingenuidade… As nucas! Os sombrios olhares! Aquela necessidade de sorrir ora das sua falas, um pouco estúpidas,
de inocentes, ora como desafio ao resto do mundo que os acolhe: FILHOS. Ah, que Deus os guia
assim seguros, ao longo das ruas mortas, para os Castelos, as Praias, as Portas da cidade no previsto, antigo desejo
de quem sabe já que vai morrer depois de verdadeiramente ter vivido: que a vida que têm em sorte
é a justa, e nada terá perdido. Humildes, claro. E o que será o modo vil de então se terem cumprido
a si mesmos (o seu destino é a cobardia) é ainda um quase alvorecer sobre árvores desconhecidas, em que
a natureza só tem pedras preciosas, num êxtase de pureza suprema, de coragem. Oh, decerto, agora são invadidos
pelo mal que recebem como herança dos pais – a minha escura raça coeva. Mas que esperam? Que feixe
de luz lhes banha o rosto onde o topete de cabelo na testa, os tufos, as ondas são graça
mais que corpórea?…. Docemente rebeldes, e, ao mesmo tempo, satisfeitos com o futuro dos pais: eis o que os torna tão belos.
Também os sombrios, também os tristes, também os ladrões têm nos olhos a doçura de quem sabe, de quem percebeu: grupos
ordenados de flores no caos da existência. Na realidade, eu sou o rapaz, eles, os adultos. Eu, que por excesso da minha presença,
nunca cruzei o espaço entre o amor pela vida e a própria vida… Eu, sombrio de amor, e, em volta, o coro
dos alegres, cuja realidade é amiga. São milhares. Não posso amar só um. Cada um tem a sua nova, a sua antiga
beleza, que é de todos: moreno ou loiro, leve ou pesado, é o mundo que amo nele – e partilho
partilho – visão de amor infecundo e puríssimo – as gerações, o corpo, o sexo. Afundo-me
de cada vez – em doces efusões, em bafos de genebra – na história que é sempre viva em cada
dia, em cada milénio. O meu amor é só para a mulher: criança e mãe. Só por ela empenho todo o coração.
Para eles, os da minha idade, os filhos, em bandos maravilhosos dispersos por planuras e colinas, por vielas e largos, só
arde em mim a carne. Porém, às vezes parece-me que nada tem a admirável pureza deste sentimento. Antes a morte
que renunciar a tal! Devo defender este exagero de desesperada ternura que, igual a todos, tive quando nasci.
Talvez ninguém tenha vivido com tamanho desejo – ansiedade fúnebre que me enche como o mar a sua brisa.
As encostas, as colinas, a erva milenar, a queda de flores ou de lixo, os ramos secos ou cintilantes de orvalho, a atmosfera
das estações com os muretes velhos ou recentes ao sol… tudo isto me esconde a mim (ride!) e aos amigos jovens
nos quais nenhum acto é desonesto, porque é sem tragédia o desejo deles: porque o seu sexo é integro, fresco.
De contrário, não poderia. Só se leve, dentro da norma e sadio o rapaz pode fazer-me nascer o pensamento
escuro e deslumbrante: só assim me pareço com ele na constatação infinita de um segredo que está no baixo-ventre impuro como um lírio.
E é de repetir mil vezes este acto: porque, não o repetir, é experimentar a morte como uma dor frenética,
que não há parecida no mundo essencial… Não o escondo, se nunca escondi nada: o amor, não reprimido, que me invade,
o amor de minha mãe, não dá lugar à hipocrisia e vileza! Não tenho razão para ser diferente, não conheço
o vosso Deus, sou ateu: prisão só a do meu amor, no resto livre, em cada juízo, em cada paixão minha.
Sou um homem livre! Ingénuo alimento da liberdade é o pranto: pois bem, chorarei. É o preço do meu «líbito far licito»,
está certo: mas o amor vale tudo quanto tenho. Sexo, morte, paixão política são os simples estados a que entrego
o meu coração melancólico… A minha vida não tem outro… Poderei amanhã, nu como um monge, deixar o jogo
mundano, ceder aos infames a vitória… a minha alma nada perderia de certeza!
Que a fatalidade de ser existência inalienável, raça, universo basta a qualquer: ainda que o mundo não tenha
fraternidade, porque diferente. Por isso os risos e as alusões dos pobres racistas, surgem através
da sua realidade como sons fictícios de mortos. No meu ser esta realidade tem sexo e paixões…
E, claro, não tiro alegria disso. Obcecadas são as suas predestinadas formas: «as repressões fazem de mim um SS
ou um mafioso…» e eu – é abominável , sei-o bem – sou-o: jovem filho inocente, santo anjo bárbaro, os passos
calcados que sigo há algum tempo e remetem à revolta reacionária (foi em épocas infames do grande
itinerário de uma vida em Itália), carrasco louro, ou ‘killer’ cor de lama, como um sequaz… do sanguinário
burguês Hitler, ou do poderoso filho de pobres Giuliano… – conformismo que me salvava, como um voo
cego. Tudo isso não passou de crisma, sombra que desapareceu da minha vida. Manteve-se a inclinação para o cisma:
uma necessidade natural de esgravatar na minha ferida sempre aberta. Um conciliar cada ligação com o mundo que a si me convida,
ao relacionamento do meu filial sado-masoquismo: para o qual não nasci, e estou aqui sozinho como um animal,
sem nome: consagrado por nada, não sendo de ninguém, livre de uma liberdade que me massacrou.
Donde não eu, mas aquele com que comunico tira a desesperada conclusão de ser o excluído de um encontro
de ‘outros: todos os homens’, sem distinção, ‘todos os normais’, a quem pertence esta vida. E busco alianças que não tenham outra razão
de ser, como vingança, ou contrapartida, salvo a diversidade, a brandura e a violência impotente: os Judeus… os Negros… toda a humanidade banida…
E este foi o caminho pelo qual eu, homem sem compaixão, súcubo inconsciente, ou espião, ou turvo caçador de boas-vontades,
tive tentações de santidade. Foi a poesia. A bruxa ‘boa’, que caça as bruxas por terror, conheceu a democracia…
Não foi um dom do céu! As ligações atrozes com os companheiros másculos, chantagistas inconscientes, as gargalhadas com que o monstro afirmava
saúde tranquila e amores seguros, pronto a torturar e matar outros monstros desde que não identificado – de repente
saiu tudo de mim (e vocês reconhecem agora os que me odeiam, facto público, os pobres fascistas), uma noite, nas florestas
de corte, quem sabe, entre manchas indissolúveis de violetas nas orlas, entre vinhas ou luzes crepusculares de aldeias, sob nuvens virgens,
(na Emília do meu destino, no Friuli dos meus deuses)… Foi o terror que venceu. Quero dizer, o terror da realidade e da solidão foi maior
que o da sociedade. Juventude amarga, presa dessa consciência incurável de não existir, que ainda é a minha escravidão…
Pois chegarei ao fim sem ter feito, na minha vida a prova essencial, a experiência
que une os homens, e lhes dá uma ideia tão brandamente definida de fraternidade ao menos em actos do amor!
Como um cego: a quem terá faltado, na morte, algo que coincide com a própria vida – luz contínua
sem esperança, e que, pelo contrário, a todos sorri, como a coisa mais simples do mundo ‒ uma coisa que nunca poderá repartir.
Morrerei sem ter conhecido o profundo sentido de ser homem, nascido para uma só vida, à qual, na eternidade, nada corresponde.
Na vida, um cego, um monstro nunca consola ninguém a sério, mas na altura vergonhosa e sem remédio, no terror da hora
em que tudo foi − vai ser cobaia não mais um homem! Absurdo − desde não poder suportá-lo, e gritar de raiva,
e gemer, como um animal, cujo grito é o grito de um inocente que protesta contra a injustiça na qual é títere −
e esta ordem pré-natal, esta predestinação, em que ele nada tem a ver, que nada tem a ver com a sua honesta −
alma antiga… Do ventre das mães nascem filhos cegos − plenos de desejo de luz, − aleijados,
− plenos de instintos felizes: e eles passam a vida no escuro e na vergonha. Podemos resignar-nos − e os fetos
vivos, pobres erínias, podem, a todas as horas da vida, calar-se ou fingir. Os ‘outros’ dizem sempre que não se deve ser um fardo para eles. E esses obedecem. Tinge-se assim toda a sua vida de cor diferente. E o mundo – o mundo inocente! – rejeita-os.
………………………………………………………………………………………
Mas falo… do mundo – e deveria, em vez disso – falar de Itália, aliás, de ‘uma’ Itália, de onde és filho
como eu, leitor dos meus versos: história física em que te envolves. Chamei ‘inocente’ ao mundo, eu,
eu, enquanto cego, filho martirizado. Mas se olho em volta estes restos de uma história que durante séculos pariu
apenas servos… esta Aparição em que a realidade não tem outro indício senão o seu brutal repetir-se…
que cena… expressionista! Penso num julgamento enfrentado sem sentido… as togas… as tristes autoridades do Sul… atrás do rosto dos juízes – em que o vício
é um vício de dor, que desvela ambientes miseráveis – não se via mais que impotência para sair de uma obscura realidade de famílias, de uma
moralidade grosseira, de uma inexperiência provinciana… Aquelas testas de Teatro dell’ Arte, aqueles pobres olhos de onagros obedientes…
teimosos, as orelhas baixas, as palavras que, afim de mascarar o vazio, se inflavam para representar papéis
de ameaça paterna, de florida, artificial indignação! Ah, não sei odiar: e sei portanto que não posso descrevê-los com a ferocidade exigida
à poesia. Só direi com pena daquele rosto de calabrês, com traços de criança e de caveira, que falava em dialeto
com os humildes, escolástico com os grandes. Que escutava atento, humano e, enquanto isso, na inefável e nefasta
caverna interior, incubava o seu plano de tímido que o medo torna impiedoso. Em cada lado, outros dois rostos bem reconhecíveis,
rostos que na rua, num bar superlotado, são os rostos débeis, enfermiços, dos precocemente envelhecidos, dos doentes
do fígado: dos burgueses cujo pão por certo não sabe a sal, não ignóbeis, não, não de todo desprovidos de aparência humana
no pungente negro dos olhos, na palidez dos rostos atormentados antes da cruel velhice… Um quarto enviado do Senhor
com certeza casado, com certeza protegido por um círculo de respeitáveis colegas na sua cidade de província – hirto num sopro
de mal dos intestinos ou do coração – estava sozinho num banco: como está quem prepara um desamor premeditado.
E diante deles, o campeão: aquele que vendeu a alma ao diabo, em carne e osso, Personagem clássica! Eu tinha-lhe visto o rosto
alguns meses antes: e era outro: o rosto de um rapaz de pele grosseira, rural, fontes sem cabelo e pálido
de dignidade profissional. Agora uma chama o desfigurava: como uma velha crosta roxa
na pele. A luz perversa dos olhos era a de quem está em falta. O ódio dele pela minha pessoa era ódio
pelo objeto dessa culpa, ou seja, ódio pela sua consciência. Não foi desonesto o bastante. A fantasia
não chega para imaginar uma experiência de ignorância e chantagem. A burguesia é o diabo: vender-lhe a alma sem
contrapartida? Oh, certamente não: é preciso adoptar a sua cultura, recitar como um Padre Nosso a vergonha
do exórdio puramente formal, da cláusula mistificadora… E ser retórico significa odiar,
ser inculto significa haver perdido deliberadamente todo o respeito pelo homem. O velho amor pelo ideal reduz-se
a fingir em desespero consigo mesmo, a acreditar no que mentindo se diz. Mas o brilho do olhar permanece, obcecado,
acusador! Ali, naquela gota de luz, na expressão astuta, lívida, culpada – estava a vossa verdade.
A minha relação convosco conduz-me, eu sei, a um desejo interior. Mas isso é segredo do eu,
ou Deus, como vós dizeis. A vós se dirá: «Não contais, sois símbolos de milhões de homens: de uma sociedade.
Esta condena-me, não a vós, autómatos. Assim seja: sou feliz com a minha monstruosidade. Ou queremos enganar o espírito? Homens
que condenam homens em nome de nada: porque as instituições nada são, desde que perderam toda a força, a força jovem
das revoluções – porque nada é a moral do bom senso de uma comunidade passiva, sem mais realidade.
Vós, homens formais – humildes por cobardia, obsequiosos por timidez – sois pessoas: em vós e em mim consome-se
a relação: em vós, de ódio árido, em mim, de conhecimento. Mas à sociedade, de que sois rapsodos inexpressivos,
tenho a dizer algo bem diverso: não mais como marxista, ou ainda, mas por um instante, se o arrebatamento dos autores
do Apocalipse fabuliza num fogo intemporal: os meus amores – gritarei! – são uma arma terrível:
Porque não a uso? Nada é mais terrível que a diversidade. Exposta a cada momento – gritada sem fim – excepção
incessante – loucura desenfreada como um incêndio – contradição pela qual toda a justiça é dessacralizada.
Ah negros, judeus, pobres multidões de marcados e diferentes, nascidos de ventres inocentes, em primaveras
infecundas, de vermes, de serpentes, horrendos sem o saber, condenados a ser atrozmente mansos, puerilmente violentos,
odiai! atormentai o mundo dos homens bem-nascidos! Só um mar de sangue pode salvar o mundo dos sonhos burgueses
destinados a torná-lo um lugar sempre mais irreal! Só uma revolução que massacre esses mortos pode desconsagrar o mal!
Isto pode gritar-se, um profeta que não tem força para matar uma mosca – o vigor dele está na sua diversidade degradante.
Só dito isto, ou gritado, a minha sorte poderá libertar-se: e começar o meu discurso sobre a realidade.
Pier Paolo Pasolini, Itália (1922-1975), tradução de Nuno Dempster
Quando fores velha, cheia brancas e de sono, E, cabeceando à lareira, pegares neste livro, Lê-o devagar, e sonha com o olhar doce Que os teus olhos tinham e suas fundas sombras.
Quantos te amaram os momentos de suave graça, Amando de verdade ou com falso amor a tua beleza, Mas só um amou em ti a alma peregrina, Amando as mágoas do teu mutável rosto;
E, pendendo a cabeça para as brasas vivas, Murmura, um pouco triste, que o Amor se foi E caminhou pelas montanhas acima E a face escondeu num mar de estrelas.
William B utler Yeats, Irlanda, 1865-1939, Traduzido por Nuno Dempster.
Estavas a meu lado
e mais próxima de mim que os meus sentidos.
Falavas do íntimo do amor
armada com a sua luz.
Nunca palavras
de amor mais puras respirara.
Estava a tua cabeça suavemente
inclinada para mim.
O teu longo cabelo.
e a tua alegre cintura.
Falavas do centro do amor
armada com a sua luz,
numa tarde cinza de qualquer dia.
Memória da tua voz e do teu corpo
a minha juventude e as minhas palavras sejam
e esta imagem de ti me sobreviva.
José Angel Valente, Espanha (1929-2000), tradução de Nuno Dempster.
Todavia tenho quase todos os dentes
quase todos os cabelos e pouquíssima brancas
posso fazer e desfazer o amor
subir degraus de dois em dois
e correr quarenta metros atrás do autocarro
ou seja não deveria sentir-me velho
mas o grave problema é que antes
não reparava nestes detalhes.
Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009,traduzido por Nuno Dempster.
Alegra-te comigo, celebremos a sorte
de partilhar a mesma cidade, o mesmo século,
a bênção do sol dourado de Inverno,
a cerveja e sua espuma nos lábios.
Brindemos contra o tempo de obscuras ameaças,
toquemo-nos, ousados, riamos, satisfeitos,
esconjuremos os monstros da dor e da culpa,
calemos a nossa imensa solidão.
Que o dom da embriaguez nos banhe ao meio-dia.
Amalia Bautista (n. 1962), tradução de Soledade Santos
Acredito que às vezes nos contemplam
pela frente por trás pelos lados
uns olhos rancorosos de galinha
mais terríveis que a água podre das grutas
incestuosos como os olhos da mãe
que morreu no patíbulo
pegajosos como um coito
como a gelatina que os abutres devoram
acredito que hei-de morrer
com as mãos afundadas no lodo dos caminhos
acredito que se me nascesse um filho
ele quedar-se-ia a olhar eternamente
as bestas que copulam ao entardecer.
Luís Buñuel, Espanha, 1900-1983, traduzido por Nuno Dempster.
As garças procuram dias claros
para voar nos binóculos
que as observam. Sobrevoam
a baixa altura o bosque
e planam ao longo das margens,
perto dos juncos, passe-partout entre moldura
e desenho.
Submergem até meio
das pernas e o bico inteiro
nas águas, avançam
devagar, traçam círculos
perfeitos à superfície
e provocam um leve chapinhar
que só os silêncios do rio
escutam quando o leito
confunde o que flui
com o que permanece.
E em tamanha quietude
imprimem no ar ameno
o ronco destemperado
do seu grasnido. Nada se compreende
então. Assim actua
a realidade.
José Ángel Cilleruelo, Barcelona (n. 1960), tradução de Soledade Santos (primeiro publicada no Poesia, vim buscar-te
Onde está agora o ramo dourado
que levei para o corpo dela?
Onde está o sabor a água doce
dividido nas nossas bocas? E porque é que
as aves canoras nunca mergulham
na água ou caçam a partir da montanha?
Escuta: o balido do pato selvagem,
o queixume do mergulhão e o crocitar da garça,
os falcões que uivam como lobos e as águias-marinhas
que relincham como cavalos, a tagarelice das gaivotas,
e a pequena coruja a latir na luz do dia:
como ossos na garganta as suas próprias
questões indestrutíveis.
Robert Bringhurst, EUA, 1946, tradução de Nuno Dempster.