17.7.26

cinematográfica

Não sou adepta de pornografia.
Enjoa-me ou impacienta-me, sobretudo porque deparo quase sempre com mulheres perto da violação, mal tratadas, abusadas, “objectificadas”, muitas vezes espancadas, ignoradas perante o soberano prazer dos homens envolvidos, que fingem, algumas de modo patético, sentir um prazer descomunal com todo o aparato erguido em nome de um macho, não raro de um grande macho frustrado.
Esta aversão teve início já no fim da minha adolescência. Consumia, aos dezasseis anos, doses maciças de pornografia. Sentia que tinha de me informar, de me instruir, de me documentar, fosse como fosse. Acreditava que a pornografia me fornecia alguns dados capitais acerca das matérias que, tinha decidido, iriam fazer parte integral da minha vida.
Este consumo exagerado finalizou por me causar náuseas e uma profunda repulsa por tudo o que soe, ainda que deliciosamente para outros, a pornografia. Descobri bem cedo que a minha aprendizagem não se faria com a visão caótica de pénis e de vaginas alheias misturadas com cenários imbecis. Compreendi com facilidade que tinha de ser eu a realizadora e que a produção, o elenco e os cenários, tinham de passar pelo meu aval.
Gosto apenas da forma como passaram por mim os filmes porno: inutilmente nauseabundos.

16.7.26

Bathhouses

São-me indiferentes os homens que no interior das revistas femininas mais ou menos eróticas (sobretudo menos, já que o erotismo também é uma questão de inteligência) abrem as pernas e publicitam os pénis retocados e falsamente flácidos.
Não fico impressionada com os recortados e modelados abdominais ou com as coxas de deus grego que passa pela brisa da tarde.
Folheio e aborreço-me.
São os homens desprevenidos, comuns, banais e quotidianos que me incendeiam. São os que distraídos tomam duche depois de se terem esgaçado nas braçadas de piscinas que não aguentam ou que procuram escaldar a pele num balneário qualquer sem perceberem que, numa das sombras mais discretas, uma fêmea de tigre distende as garras, curva o corpo e procura a posição de ataque.

“la petite mort”

Os franceses chamam ao orgasmo “la petite mort”
É extraordinária esta expressão! Acaba por qualificar de modo certeiro o que ocorre.
Raríssimos são os que sorriem durante o orgasmo. Quando o fazem passam por idiotas e nunca são credíveis. A expressão é quase inevitavelmente a mesma que surge quando existe dor, como se houvesse uma entranhada morte subtil no prazer absoluto.
Não gosto dos raros homens que sorriem durante o orgasmo. Gosto dos dolorosos, daqueles em que ejacular é próximo do desfalecer e mesmo que não se inscrevam na lista dos inolvidáveis, mesmo que não passem de bonecos que manipulo e desfaço, gosto de os ver morrer dentro de mim.

Matinal

Não gosto de passar a noite em casa dos meus amantes esporádicos. Normalmente saio depois de adormecerem.
Abro uma ou outra excepção quando me prometem que apenas me acordarão quando tiverem o duche tomado, os dentes perfeitos e o pequeno-almoço pronto a ser consumido logo depois de eu ter confirmado as aptidões do cozinheiro, demonstradas na noite das fornadas.   

15.7.26

Podologia

Gosto dos homens que têm um fetiche desesperado pelos pés.

O Sr. P. ofereceu-me propositadamente uma pulseira de pequeninos brilhantes que devo colocar no tornozelo apenas quando o recebo. Obedeço , até porque não tenho a ousadia de dar nestes casos passadas muito brilhantes.
Sei que me devo despir, mas ficar com os meus sapatos pretos de tacão agulha, perigosos no jogo que ele gosta que inicie.
Deita-se na cama, nu e fica à espera.
Não é feio. Tem um corpo musculado, ainda jovem e definido, mas traz entranhado o perfume da mulher, Givenchy, que me enjoa e me agonia.
Pede para que o calque.
Confesso que receio que a agulha do tacão se entranhe na carne e o apunhale. Diz que é rijo e que aguenta. É “couro curtido pelo sol” e eu avanço pelo deserto, pouco convencida.
Procuro pousar apenas a sola do sapato. Geme enquanto o sangue lhe invade o pénis grosso e curvo. Nunca percebi se aquela excitação se deve ao cravar do meu pé sobre o abdómen, ou se é a visão privilegiado do meu rabo que lhe provoca o inferno no meio das pernas.
Suplica-me que lhe esmague o pénis, devagar.
Às vezes, há dentro de mim, qualquer bicho a sorrir que imbeciliza a situação que o homem exige que recrie.
Piso-lhe o tronco duro, a latejar, os testículos volumosos e atractivos, até o sentir começar a arfar, quase a ganir, quase a chiar, como se sofresse de uma qualquer patologia respiratória.
Sei que nessa altura tenho de me apressar, baixo-me e ofereço-lhe a vagina aberta e húmida, levanto-lhe o pénis a ferver e cravo-o dentro de mim até ao fundo.
O homem ejacula de imediato. Um jacto de esperma quente e poderoso que me encharca, invade, enche e escorre devagar e espesso pelos dois testículos já pendentes.

É um cliente fácil e muito despachado.

O primeiro brilho

Aos dezassete anos percebi que me podia vender caro e obter de forma simples aquilo que as outras apenas se permitiam vir a sonhar ter no futuro.
Lembro-me que o meu primeiro cliente foi um amigo do um pai. Um senhor respeitável e elegante, alto e magro, de olhos tristes e escuros, de barba rasa e grisalha,  brasão no anelar, junto à aliança grossa que rodava no dedo fino.
Ofereceu-me uns brincos com brilhantes pequeninos e justificou a oferta com a proximidade do meu aniversário. Acreditaram.
Fez sexo comigo com desvelo no quarto em que dormia separado da mulher, matrona anafada que nunca se apercebeu que a menina de olhos cinzentos trazia o veneno da mais descontrolada ambição a correr-lhe no sangue, mesmo o falso que fingi ter manchado o lençol e que foi lavado à pressa pelo homem escanzelado, no WC da suite, enquanto a putinha roía as unhas e esperava a recompensa.
Ainda tenho os brincos com pequenos brilhantes. Guardo sempre um vestígio dos que por mim cavalgam. Tristes e torcidos troféus. Equívocos que quero lembrar, porque me ajuda a manter de pé a ilusão de ser a predadora.
Durante um semestre foi amante dele e coleccionei às escondidas as pequenas jóias com que me comprava.
Depois, cansei-me.
Choramingou o abandono. As lamentações e o choradinho enfastiavam-me.
Ameacei revelar ao meu pai que o recebia confiante e com ele discutia mulheres, futebol e carros, as sucessivas “violações” de que era “vítima”.
Voltou a chorar. Desta vez alto e ofereceu-me, na despedida, o meu primeiro colar de pérolas.
Ainda o uso. Não é troféu. Gosto da tonalidade cremosa que ganhou e sei que as pérolas devem ser usadas para se preservarem.
Às vezes, mordo-o.

14.7.26

Manual da puta - O esvaziamento

 Aprender a masturbar um homem é um dos passos essenciais da aprendizagem da puta.

Não é tão simples como aparenta. Poucos são os homens que o sabem fazer e raros são os que conseguem prolongar a masturbação até a um estádio de quase suplício, de quase transe.
O segredo está em impedir que o homem controle o acto. Podemos atar-lhe as mãos, convencendo-o que é seguro. Normalmente, resistem durante uns minutos, mas não conseguem suportar a atracção pelo perigo e a excitação que é sentirem-se domados e indefesos.
Após ter atado o homem, podemos percorrer com os dedos o algodão das cuecas. Sentir-lhe o pénis endurecer, percorrendo os caminhos que desenha. Ligeiras pressões são aconselhadas, mas de breve duração. Os testículos podem ser apalpados e enquanto vamos caminhando pela erecção devemos estar atentas ao latejar da glande. Fazer com a glande surja do interior das cuecas ou dos boxers é o início da aventura. Afagamos o cetim quente de forma muito suave, até conseguirmos que o prepúcio desça por completo. Temos a glande toda inteira. É necessário que saibamos contornar-lhe o meato, acariciando ao mesmo tempo a superfície lisa. A polpa dos dedos é usada neste processo, mas a nossa palma da mão aberta pode deslizar rodando sobre a glande até a sentirmos demasiado rija.
Podemos agora libertar o pénis todo.
A ajuda do lubrificante natural masculino é favorável, mas tardia. Devermos ter um óleo próximo para que consigamos que o atrito deixe de existir e que a nossa mão fechada desça e suba lentamente quase sem tocar o corpo do pénis. O ritmo tem de ser lento e o movimento não pode ser uniforme. O pulso pode orientar a direcção em que o pénis é manobrado. De acordo com a minha experiência, quatro ou cinco investidas rápidas devem ser seguidas de outras tantas vagarosas e mais apertadas em que a glande é coberta por completo. Os testículos devem ser manuseados sem um cuidado exagerado. Podemos apertá-los ou fazê-los subir com a mão livre, rodá-los ou apenas acariciá-los. São os seus movimentos interiores que nos avisam do estado de excitação do homem. Quando os testículos sobem em demasia, aproxima-se o orgasmo e é chegado o momento de abrandarmos. Quando o latejar insistente do pénis acalmar, podemos voltar à tarefa, usando desta vez as duas mãos.
Nesta operação não podemos esquecer que a glande é um alvo privilegiado. Podemos concentrar toda a nossa atenção aqui. Neste processo, não há qualquer restrição aos movimentos. Estão focados na glande e é permitido rodar a mão fechada sobre a sua superfície, exercer pressões diferentes e percorrer-lhe todo o formato. Não podemos esquecer também que o freio é um dos pontos chaves desta manipulação. Um dedo insistente nesse recanto, proporciona um prazer substancial.
É incrível a sensação de masturbarmos um homem que tem as mãos atadas. Excita-nos de uma forma brutal. Podemos e devemos prolongar o acto até que ouvir súplicas e gemidos desesperados. O número de manobras das nossas duas mãos oleadas (é um erro pensar que só devemos usar uma) é infindável e vai desde um acelerado ou demorado desce e sobe, até a um rodopiar do nosso punho sobre a glande ou sobre o corpo todo do pénis que não pode ser poupado, por alguns movimentos, à dor de se sentir completamente esgaçado. A alternância do movimento lento e do movimento rápido, as diversas pressões sobre a erecção e sobretudo a amplitude do masturbar, que pode ir da completa exposição da glande até ao seu desaparecimento tapada pelo prepúcio, são manipulações que exigem treino e sobretudo atenção á textura e comportamento dos testículos. São eles que ditam o momento do orgasmo e nos avisam que é tempo de deixar que as golfadas de esperma esvaziem o homem. O períneo e mesmo o anûs podem ser do mesmo modo acariciados. Por muito que os ouçamos ganir, todos os homens acabam por se contorcer de prazer e a erguer o rabo quando são bem manobrados.
A masturbação não acaba aqui. A ejaculação é apenas um dos últimos momentos que é bom provocar. O esperma é, sempre foi, um belíssimo lubrificante. Podemos continuar até ao esvaziamento total a manipular o pénis.
Não esqueçamos:
O homem, masturbado por nós, tem de sentir que já nada tem para dar a não ser aquele perfume que tanto desejamos e que nos parecu demasiado caro.

11.7.26

Manual da puta - 1.ª parte

A primeira fase da aprendizagem é sempre a mais penosa.
É preciso que nos concentremos no estudo do corpo masculino, excluindo dele o prazer. Necessitamos de o perscrutar, de perceber os mecanismos que o levam ao orgasmo e de aprender como reage ao nosso toque.
Difícil é o necessário controlo sobre a excitação que sentimos. É fácil montar e desbravar um homem até à exaustão do nosso desejo, mas resistir à inconsciência provocada pelo prazer exige tenacidade. Conhecer um pénis erecto, o contorno dos testículos, as suas veias, o seu pulsar, o modo de latejar quando lhe tocamos com a língua, a rigidez que anuncia os jactos de esperma ou o modo como a glande se contrai no apertar dos nossos dedos, sem pedir para o ter cravado em nós a destruir-nos pelas labaredas, é imprescindível à nossa arte.
Comecemos cedo a tentar reconhecer o caminho.
A tarefa é facilitada quando somos capazes de fingir inocência. Podemos ser tímidas e ingénuas, temerosas perante a força do macho erguido. Se o convencermos disso, colabora mantendo uma atitude incestuosamente paternal de quem se deixa ser o primeiro chão que exploramos. Deixemos que pense que é ele que dança a coreografia que acredita que é dele.
Não é certo, é mesmo desaconselhável, que nestas primeiras incursões tenhamos o orgasmo merecido, mas o que retemos é suficiente para nos saciar, pelo menos temporariamente, a urgência de sermos perfeitas.

10.7.26

O “Silvo da Serpente”

A lentidão, o retardar propositado de sensações, o prolongar exaustivo do prazer, o tantricamente cansativo amor, o “nem se vem, nem sai de cima”, nunca foram do meu agrado.
Existe aquilo que, simplificando, chamo o “silvo da serpente”.
É o instante brevíssimo em que o orgasmo se torna avassalador, impaciente, inevitável e impossível de se retardar, de se adiadar.
O “Silvo da Serpente” é o instante em que o meu corpo arqueia e fica rouco, é o instante em que fico menor que o sexo que faço e ultrapasso o paraíso atropelando os anjos.
Não se adia o meu orgasmo. Não se atrasa o jacto (falo de aviões) que me leva rumo à mais perfeita das inconsciências.
Se ultrapassam o “Silvo da Serpente”, usando estratagemas para prolongar a noite e a nudez que ofereço, o meu cérebro invade as sensações que até ali lhe eram vedadas.
Racionalizo tudo.
Todos os meus poros se transformam em receptores de informação clara, nítida, “computorizada”, matemática, crua e nua, isenta de prazer e desconfortável para o meu parceiro.
Se ultrapassam o “Silvo da Serpente” prolongam pela noite dentro, horas a fio, a erecção, arriscam a minha ausência de prazer e abrem o palco à comédia que vejo nos esforços, agora inúteis, do parceiro extenuado, quase morto de tão gasto.
Todo o orgasmo deverá ser Wagneriano e chegar no momento em que se abre o pano e se ouve aplaudir. Não adianta cantar árias de ópera bufa, mesmo quando sabemos que, se cantarmos muitas, podemos retardar o fim do espectáculo.

9.7.26

Manual da puta - manufaturas

Por norma, uma puta tem de ser indiferente ao formato dos homens que com ela vão para a cama sabendo que o custo da proeza será muito bem cobrado. São homens que raramente lhe dão prazer sexual digno de registo, mas que conseguem como nenhum dos outros fornecer-lhe ferramentas que permitem que usufrua de todos os outros prazeres que existem.
É também normal que aceite as fantasias de cada um. Embora selectiva, uma puta tem de ser flexível. Pode recusar as exigências que implicam uma farda ou máscara, mas tem de ser benevolente em relação às outras.
As que não incomodam, nem perturbam fisicamente, devem ser rentabilizadas.
É essencial que se aprenda a gostar do cliente que suplica que o amarrem, nu, à cama e que o masturbem de modo tão lento quase até à agonia. Aproveitemos a conta bancária e as transferências de somas que vamos insinuando.
Exige apenas a paciência e a perícia. Nada mais do que isso.
As proezas que nos incomodam, podem ser substituídas por manobras de diversão e é por isso que há que aprender muito cedo a masturbar os homens e aperfeiçoar a técnica. Temos de elevar a masturbação a um nível inimaginável. O prazer que é causado deve ser idêntico ao das orgias mais perversas. Se conseguirmos retardar-lhes o orgasmo durante tempo suficiente, ejacularam como bichos acossados, ganindo e uivando. Depois não pedem mais nada. 
Aborrecem, mas viciam-se.