O ensino serve para garantir a continuidade de certas práticas entre gerações. Como isso é feito? Numa sociedade democrática, cada instituição tem supostamente autonomia e, enquanto tiver alunos, pode decidir o melhor modo de o fazer.
Na realidade, é mais complicado.
O ensino de uma disciplina como o design cumpre várias funções. A mais evidente é garantir um padrão de formação a quem vai exercer a profissão. Quem decide esse padrão? Numa área como a nossa, todo o mundo e ninguém. As diferentes escolas têm autonomia, criando uma grande amplitude de interpretações. De forma geral, o que sucede é um ensino que, seguindo tradições vindas da Bauhaus, transmite convenções formais agregadas a uma deontologia (como se fala do trabalho, como se lida com clientes, etc.). Este ensino foi sempre pensado para ser completado “em serviço”. Pode dizer-se que o mercado delega no Estado e nas instituições privadas a parte mais básica da formação. Isso aconteceu porque os próprios designers o exigiram como forma de consagração. Num livro de história do design vemos não só empresários, mas empresários que dão aulas e escreveram livros. Ser professor fazia parte desse percurso.
Nas últimas décadas, isto alterou-se porque o ensino do design se profissionalizou. As exigências de carreira tornaram-se tais que é quase impossível gerir um estúdio e dar aulas em simultâneo. Isso tem vantagens e desvantagens. Por um lado, o ensino deixa de ser feito apenas pela óptica dos interesses do estúdio, permitindo mais tipos de práticas e de praticantes. Surgem novos formatos de design e de pedagogia, como quem ensina gestão de design através do TikTok ou Instagram. Por outro lado, a universidade aproxima-se de uma empresa, e a carreira de professor torna-se cada vez mais administrativa. A investigação tende a ser simbólica, uma formalidade que legitima quem gere. Nesse sentido, a universidade transforma-se também numa escola de gestão. A supremacia de áreas como a curadoria afina os melhores alunos para funções de gestão ou apoio a estruturas institucionais.
Vejo isto sobretudo sob a óptica do crítico ou historiador. Os meus interesses não são, nem podem ser, os de um designer em prática. Tento assumir que, se o sistema funciona, é porque cumpre funções que beneficiam mais do que um tipo de pessoa. Ou seja, o sistema faz o que faz — não necessariamente o que se acha que deveria fazer.
(isto foi uma espécie de resposta a um comentário do Hugo Ribeiro no Fu)
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