quinta-feira, 16 de julho de 2026

Folhas de gladíolos

 

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Não têm civilidade nem beleza.

Atropelam-se, as palavras,

contradizem-se, desdizem-se, agridem-se,

atraem-se, repudiam-se,

juram, negam, batem-se, beijam-se.

Usam espadas, não folhas de gladíolos.

Estão por nós? Contra nós?

 

São como gladiadores em novíssimos Coliseus

de onde a coragem e a glória se evadiram,

ficando somente o pão e o circo

como alimento de tolos muito inteligentes.


Lídia Borges



segunda-feira, 13 de julho de 2026

Se...

 

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Se casualmente, entre as pessoas,

distinguires olhares que se cruzam como os nossos,

alegra-te. 

Demos-lhes espaço e tempo para crescer,

deixemos que se reconheçam verdadeiros e iguais,

que prenunciem sem palavras

o que máquina alguma jamais poderá pronunciar.


Lídia Borges

sábado, 4 de julho de 2026

Em flor (À conversa com Maria Ondina Braga)

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"Os dias de verão são sem nenhuma piedade. O sol abre cedo, penetra as persianas meio cerradas, aquece as paredes, aflige homens e bichos, queima as plantas melindrosas. Na rua, nas lojas, no metro, as pessoas transpiram, resmungam, olham-se com desgosto. Há uma infelicidade própria dos dias de verão na cidade."



Maria Ondina Braga, in A personagem.

Obras completas de Maria Ondina Braga - Rom_,ances,

Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2026:p.109)

 


Há uma infelicidade própria

dos dias de verão na cidade

É uma letargia que alastra, morrente

por dentro de homens e bichos.

Abandonadas à fúria do astro-rei

estiolam as casas.

No seu interior a obscuridade,

manta de frescura que aconchega.

É neste remanso onde

senhora de mim me vejo,

sem marcas nem desassombros,

que voltas a acontecer-me.

 

E de novo, com tintas de bem-querer, te pinto

sem pressas, preceitos ou enganos.

Enchem-se as entrelinhas deste tempo parado

de palavras cálidas, lembranças futuras de hoje

que reescrevo tranquilamente,

à margem de ventos e ecos outonais.

 

O teu sorriso (saberás ainda sorrir?)

transforma em pó a distância 

incapaz de nos fazer mal.

É verão, não vês?

Há muito tempo agora para regar

as solidões em flor nos vasos das varandas,

à noitinha de preferência

quando a canícula esmorecer,

sangrando no horizonte.


Lídia Borges 


(imagem daqui )





sexta-feira, 26 de junho de 2026

As árvores que me rodeiam

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 Elas


Elas vieram devagar,
um braço que se alonga, outro,
uma mão de dedos finos, vegetais.
Abeiraram-se das janelas
abusivamente
[se um advérbio me é consentido].

Tão perto ficaram que é possível
captar-lhes o ritmo da respiração
mesmo com os vidros fechados.

Deliram.
Exibem gorjeios com impudicas vaidades.

A magnólia a figueira a ameixoeira?
Qual a preferida
dos pássaros que gorjeiam?

As árvores deliram.
Elas mantêm o sol preso
no rendilhado da folhagem.
Elas são as cortinas, verde sombra
das minhas janelas de verão.


Como se pode ver, não possuo
de momento
nenhuma ideia luminosa
sobre o mundo.

***

Lídia Borges

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Le Déserteur

 


Senhor Presidente,
Escrevo-lhe uma carta,
Que o senhor talvez leia
Se tiver tempo.
Acabo de receber
Os meus papéis militares
Para partir para a guerra
Antes de quarta-feira à noite. 
Senhor Presidente,
Não quero ir,
Não estou na Terra
Para matar a pobre gente.
Não é para o ofender,
Tenho que lhe dizer:
A minha decisão está tomada,
Eu vou desertar.
Desde que nasci
Vi a minha mãe sofrer,
Vi os meus irmãos partirem,
Vi os meus filhos chorarem.
A minha mãe morreu de tanto sofrer,
Os meus já não falam de mim
E os meus filhos foram embora.
A minha vida foi arruinada.
Amanhã de manhã
Fecharei a minha porta
Na cara dos anos mortos.
Eu irei para as estradas,
Vou mendigar
Pelas estradas da França,
Da Bretanha à Provença,
E direi às pessoas:
Recusem-se a obedecer,
Recusem-se a fazer a guerra,
Recusem-se a partir.
Se for preciso derramar sangue,
Derramem o vosso,
O senhor é um bom apóstolo,
Senhor Presidente.
Se me vierem procurar,
Avisarei os seus guardas
Que não levarei armas
E que eles podem disparar.


terça-feira, 23 de junho de 2026

Diálogos



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São os meus passos pela casa

os últimos a recolher-se.

O gato questiona-me ainda

sobre a quantidade de comida 

que tem no prato.

Teme que não lhe chegue

para a solidão da noite.

Retifico os secos, renovo-lhe a água.

Desde que envelheceu

nasceu-lhe uma incontrolável

tendência para o protesto.

 

II

Verifico as portas

Fecho o livro. Ficam pendentes

os labirínticos diálogos

de kafka, Borges e dos dois

com Pessoa.

Apago todas as luzes.

Reparo que no escuro

torna-se mais visível

a linha curva de um sorriso

entre a ficção e a realidade.


Lídia Borges 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Raízes

 

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Inscrevi-me decididamente

do lado das raízes.

Dizem-me  que o tempo é de altitudes

não de profundidades.

Por isso falho. Sou altamente falível.  


 

Lídia Borges



terça-feira, 16 de junho de 2026

EPICÉDIO

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Que escreva um elogio último

Para homenagear, na despedida, alguém

Não muito próximo, não muito distante

Precisamente a meio caminho

Entre o sim e o não.

 

Um texto destes não pode ser escrito

Com uma caneta bic tradicional

Nem com a caneta de tinta permanente

Que o pai venerava.

 

Que dilema! Escrever um elogio fúnebre

Sem ter à mão um sorriso aberto

Um olhar, ainda que vago, um movimento súbito

Da memória que ria ou chore.

 

Sinto-me a IA dos textos fúnebres:

Usar lamentos que rimam com pouco

E dons únicos, comuns a todos os que acabam de morrer.

Como se a Poesia desconhecesse as virtudes pessoais  

Que todos ou quase todos os vivos guardam em si. 

 

Que escreva um elogio póstumo

 

A lápis, no topo da página grafo a negrito:

Código de Conduta – Art.º n.º 1

Não arremessar, sem direção precisa,

Palavras, pétalas ou pedras

A menos que seja

Em (i)legítima defesa.

 

Lídia Borges

(imagem Google)