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domingo, junho 07, 2026

A invisibilidade

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Os momentos mais solitários da minha vida aconteceram quando me encontrava rodeado de gente. 

Estavam todos presentes menos eu. Apenas o meu corpo, em representação da minha pessoa, dava a ilusão de também estar ali.

Contudo, a diferença entre mim e ninguém, era, unicamente, o meu espírito distante a observar aquela multidão da qual não fazia parte.

Havia uma conversa, onde era incapaz de escutar, ou sequer mesmo fingir prestar atenção. Em vez disso gritava silêncio na tentativa infrutífera de calar todas as bocas.

Era fantasma sem voz, sem capacidade de me firmar entre os restantes. 

Eu não pertencia ali! 

Eu não queria estar ali! 

Nada de mim se encaixava ali!

A solidão dói quando há tanta companhia. Os outros, era como se me batessem com a sua existência, a exibirem os rostos, as palavras, os sorrisos e gestos. 

Já eu, só podia retribuir com vazio. Era um eco calado num espelho onde me via invisível.

Estava sempre longe. Muito longe.

Seria eu o problema? Não. 

Seriam os outros o problema? Não. 

Simplesmente, é assim que as coisas são. 

Algo no meu esboço foi desenhado sem as medidas corretas para ser como os demais. Aceitei isso. Pouco mais havia a fazer, se a minha índole é diferente e segue num caminho alternativo devido a algum desígnio Cósmico.

Assim sendo, fiz de mim a minha própria companhia.

Aos outros descendentes de Adão e Eva, virei-lhes as costas. Filtrei as suas vozes como ruído e fui embora mesmo estando ali.

Digo o que penso sem levar em conta o julgamento alheio. 

Então, sempre que falo neste assunto, lá aparece alguém a lembrar-se da minha existência. Umas quantas almas caridosas, prontas a salvar-me desta solidão inaceitável segundo os padrões sociais. 

Depois, parece uma competição de bons samaritanos.

Querem todos resgatar-me. Abeiram-se de mim com frases feitas, lidas nas redes sociais, as quais parecem dar um mestrado nesta ciência complexa do existir. 

Sou incapaz de assimilar esta poluição literária a contaminar a internet. Muito menos, proferidas por vozes sem alma.

Calem-se! 

Estejam calados! 

E mantenham-se calados!

Enxoto estas criaturas com o desdém próprio de quem já foi rejeitado e não acredita em promessas mentirosas. 

Xô! 

Fora daqui! 

Ide-vos! 

A visão da vossa figura já é penitência em demasia. Deixem-me estar com a minha própria companhia!

Outros como eu? 

Existem, com toda a certeza. Já encontrei alguns. Mas, iguais a mim, andam entretidos com a sua própria solidão. 

Ocasionalmente, encontramo-nos por aí. Trocamos umas quantas palavras sobre isto e aquilo e depois vamos à nossa vida sem grandes amarras.

Talvez seja um espírito livre. Um filho da natureza. Um entendedor das manhas do mundo. Seja o que for, não me entendo eu, estando no meio dos outros.

Sou assim e pronto. Nada mais há a dizer, ou fazer. 

As engrenagens da sociedade continuam a rodar. Cada qual no seu lugar.

As mentes das pessoas continuam a pensar. Cada uma com o seu julgar. 

À volta do sol o planeta continua a orbitar. Cada dia com o seu rodar. 

E aqui, debaixo do céu, estou eu a divagar sobre a solidão e a angústia de socializar.


terça-feira, abril 22, 2025

Só mais algumas palavras de desabafo

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Escrevo estas palavras com tristeza. Solidão, saudade, melancolia. Adjetivos nefastos, todos a orbitar a mesma estrela decadente.

Não sei quem sou. Ou talvez seja exatamente o contrário. Reconheço em mim um desânimo próprio de quem se entrega à letargia e por isso incomoda-me ser gente.

Posso ainda ser um reflexo do mundo que me acolhe como um ventre amaldiçoado. Vejo os outros e não me encontro. Não há vozes de alento, nem rostos de gentileza. 

Procuro, mas não descubro uma resposta digna da minha atenção. É sempre o mesmo. Repetido até à exaustão. Dito com frases diferentes para parecer novo. Não há alma nas coisas iguais.

Mas procurar cansa. É mais fácil desistir. Encontra-se algum conforto quando se está a dormir. Não vale a pena perder tempo quando há falta de esperança.

Sobra uma fome de companhia impossível de saciar. Um apetite esquecido no passado de quem já tentou sonhar. Não há alento no vazio e por isso rimo sem amar.

Escrevo estas palavras com dureza. Fadiga de fim do dia. Desabafo sem alegria. Cansaço de quem não consegue descansar. 

No fundo, ainda acredito no amanhã. Nascer do sol a raiar. Primavera a florir. Depois, ao acordar, isto possa ser apenas mais um poema, fruto de um momento frágil, onde me deixei desmotivar. 


domingo, abril 20, 2025

A arquitetura dos glúteos

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Dentro da minha mente existe uma dimensão compacta. Nela encontram-se espaços tridimensionais em tudo semelhantes à nossa própria realidade. No entanto, libertos do tempo linear como o conhecemos. É aí, onde guardo inúmeros museus, cada um de grandes dimensões, dedicados às mais diversas formas de arte. 

Um deles tem como tema fundamental a anatomia feminina, com foco principal no traseiro. Tendo em conta o facto de tudo poder e dever ser analisado por um ponto de vista artístico, não podia deixar de edificar um monumento capaz de enaltecer esta característica da qual tanto sou apreciador. Assim o fiz!

Fadado pela minha heterossexualidade, não posso impedir os olhos de se fixarem nos glúteos mais arredondados. Suponho eu, ser a natureza a orquestrar os seus desígnios para a continuidade da espécie. Mas como posso eu limitar esta sensualidade a meros impulsos biológicos se a humanidade não me basta?

Encorajado pela minha memória fotográfica, guardo as nádegas mais perfeitas que observei até hoje. Seja em fotografia, escultura, pintura, poesia, mas principalmente, movimento. Uma mulher com rabo grande, sem passar das medidas exageradas e curvas bem desenhadas, é uma obra de arte viva. Merecedora de grandes multidões e todos os aplausos. 

Eu, sem querer ser arrogante mas sendo, considero-me um apreciador exímio de traseiros delineados com mestria. E faço questão de o mostrar ao mundo sem qualquer pudor! Até mesmo com a intenção de elevar este estilo de voyeurismo à categoria de contemplação plena desta majestosa obra prima, que é o cu de uma mulher!


domingo, setembro 08, 2024

S. Paio dos augados

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Uma mulher passou por mim e deixou-me curioso. Conduzia, decidida, uma pick-up. Foi uma visão demasiado fugaz para conseguir perceber mais pormenores. Apenas o suficiente para ler a linguagem corporal. 

Não reparei na idade, nem tão pouco nos pormenores do rosto. Apenas, pela sua postura, assumi ser alguém pertencente a um meio onde a subsistência provém do trabalho agrícola. Seria bom, poder fazer-lhe paragem para lhe perguntar: "Quem és tu? De onde vens? Fala-me de ti! Eu sou este que tu vês. Tenho tanta coisa dentro de mim". 

É um pouco triste, após estes encontros breves, não poder abordar ninguém na rua dessa forma sem parecer bizarro, ou ser confundido com um tarado.

Os outros, passam com roupas compostas dentro dos seus carros. Vão esvaziando a vila a caminho do S. Paio dos augados. À noite vão à festa ver um artista pimba qualquer, a dançar, ou com um copo de cerveja na mão, enquanto celebram o fim do Verão. 

Os jovens, esses, desinibidos pelo álcool, fazem amor pela madrugada dentro. Despedem-se assim do fim da despreocupação das férias grandes. Na próxima semana começa a labuta para todos e com ela as responsabilidades adjacentes.

Depois, sobro eu. Uma criatura observadora destas lides da gente banal. Sigo na direção oposta em busca de outra festa, onde não exista música popular, ou falta de sobriedade. Amaldiçoo e abençoo esta minha índole solitária. Encaro mais um dia nesta busca perpétua sobre o significado de existir no meio dos outros. Perdido. Em busca de me encontrar. Embora, com uma certeza firme, disso nunca vir a acontecer.

Passou a mulher da pick-up e já vai longe. Passou o Zé Povinho para o arraial e deixei-os ir. As ruas ficaram nuas, sem o som dos automóveis a poluir o asfalto, nem passos apressados na calçada ao lado. A estrada está assim despida. Ao ponto de se poder caminhar sobre ela sem o perigo do atropelo. Por aí continuo esta minha reflexão ocasional e sigo o meu caminho sem rumo.


quarta-feira, julho 10, 2024

Encontro casual entre dois conhecidos

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– Noutro dia cumprimentei-te e não me ligaste nenhuma!

– É porque estava distraído.

– É mais porque estavas noutro mundo! Diz antes assim.

– Eu estou sempre noutro mundo.

– Não estás nada, porque estou a olhar para ti.

– Estou lá, mas aqui sou só uma ilusão, criada de forma a ser perceptível pelos sentidos humanos. Uma mera projecção quadrimensional de algo incompreensível para a pequenez da nossa mente.

– Dizes cada coisa! Valha-me Deus!

– Digo o que preciso de dizer.

– Tu és mas é maluco. Olha, para mim, só existe este mundo.

– A teoria de existir só este mundo não é satisfatória. Isto de ser de carne e osso não faz sentido. Nascer, crescer e morrer, com algum entulho pelo meio é estúpido.

– Não sejas assim! A vida não é só isso, também amamos, temos trabalho e família.

– Não posso negar a importância dessas coisas. São boas e faz sentido cultivar. No entanto, como disse, são entulho para nos iludir!

– Irra, tu és impossível! Então, nós somos o quê?

– Simples engrenagens numa máquina, à qual chamamos sociedade. Somos educados para fazer parte deste sistema, tão antigo quanto os primeiros grupos organizados de seres humanos. Somos redundantes, substituíveis e irrelevantes, sem termos noção disso.

– E continuas com essa conversa.

– Claro. Fazem-nos acreditar no contrário, na nossa importância e capacidade de chegarmos ao topo. E nós, bem-mandados, acreditamos. Além de sermos apenas isso, também educamos as gerações seguintes para fazerem igual. Por isso, a simples existência deste mundo tão básico, não me convence. Tem de haver mais. Portanto, estou sempre aqui e lá, naquele outro mundo incompreensível onde só se chega através da fantasia.

– Valha-me Minha Nossa Senhora! Não percebo nada do que estás para aí a dizer. És mesmo maluco. Olha, até logo.

– Até logo.


Baseado numa conversa real.


domingo, abril 02, 2023

Que as mulheres não me interpretem mal...

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As mulheres que amei quando era jovem estão todas velhas!

Não me refiro àquela velhice decrepita, cheia de rugas profundas e deformações corporais. Nada disso. A beleza física mantém-se, mesmo a rasar a meia idade. Silhuetas firmes bem delineadas, a servir de guarida a uma pele macia e bem cuidada. Aparência irrepreensível, como se quer numa mulher moderna e dona de si. Nada contra, pelo contrário.

Falo da vulgaridade do dia-a-dia. O espírito de aventura foi trocado pelo zelo do lar. As corridas na natureza substituídas pelo exercício no ginásio da moda. As conversas flutuam entre o preço das compras, as mazelas que vão aparecendo aqui e ali, ou o enredo da novela. Tudo nelas gira em torno de rotinas mundanas. Nada mais, só isso. São de uma banalidade violenta, chata, enfadonha, deixando-as completamente desinteressantes.

Olho-me ao espelho e reflicto. Talvez o meu género masculino não tenha deixado crescer o petiz dentro de mim. Uma criança endiabrada a fugir das responsabilidades adultas. Também as tenho, mas não sou dominado por elas. Se calhar o erro está em mim, ou não. Abomino a ideia de seguir o caminho que a maioria segue. Eu amo o infinito. As incógnitas escondidas do Universo. Preciso de inquietude para saber quem sou.

A mudança é inevitável. O tempo traz consigo as escolhas que nos transformam. Cada um de nós percorre um caminho diferente. O que para mim é tédio, para os outros pode ser infinitamente gratificante. Olho para os homens com quem elas decidiram partilhar a vida, no conforto da família. É possível terem encontrado um equilíbrio. Ou simplesmente encontraram uma satisfação acolhedora.

Dou por mim a fazer comparações. Sem julgamentos. Apenas uma certa necessidade de compreender o crescimento humano. Sou diferente deles, com certeza. Na minha natureza observadora não deixo de sentir simpatia por quem faz o que é suposto fazer. A sociedade tradicional assim manda. Afinal de contas somos bichos e até os animais se confortam entre si. Ainda bem que assim é.

Deixo o meu enigma para depois. Tenho outros amores à minha espera. Seja nas palavras que escrevo, nas cores da natureza, na arte que consumo, ou nos corpos de outras mulheres que me cativam com o seu próprio mundo. Ofereço-lhes também um pouco do meu, nestes encontros de quem não tem amarras. Cada um leva um pouco do outro. Talvez seja outra forma de criar pontes. De viajar. Ou até mesmo de crescer.

Ironicamente, ao ler o texto do início, não me parece assim tão original. Já houve alguém que escreveu sobre isto e chegou a conclusões semelhantes. Paciência. É sinal que não estou assim tão à parte. Mas não devemos ser muitos. Uns nas ciências, outros das letras, todos com as suas utopias. Deduzo ser algo natural, haver quem se ocupe dos mistérios da existência. Mesmo sendo inútil fazê-lo.


segunda-feira, agosto 29, 2022

A superioridade do polegar oponível

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Gosto de ver a vizinha estender roupa. Fá-lo com gestos ágeis a denunciar uma mestria natural. Os pequenos pormenores tornam o processo hipnótico. Desde a sacudidela energética nas vestes, sempre acompanhada de um baque abafado, até à forma quase mecânica como coloca as molas na corda. Em pouco tempo fica tudo ao penduro, à espera que sol cumpra a sua função. Há uma pureza cativante em tudo isto.

É uma jovem adulta e mãe recente. Tem cabelo arranjado e usa um vestido fino de Verão que lhe facilita os movimentos despachados com faz a lida da casa. O visual dela é completamente moderno, no entanto, faz-me lembrar as mulheres de outros tempos. Aquelas que lavavam no rio, de lenço na cabeça, avental e saia comprida, como se vê nos grupos etnográficos, ou até mesmo como via a minha avó na labuta caseira.

Tudo completamente fascinante para um curioso do inútil como eu. Observo-a, sem qualquer malicia. Vou reflectindo sobre as suas acções. O porquê de tanto zelo na limpeza da roupa? Do cuidado nos afazeres que a habitação obriga? Isto, ao mesmo tempo que mantem a jovialidade, ao brincar com a criança ou no namoriscar do seu marido. Uma engrenagem fulcral no funcionamento da família, entre a mocidade e a responsabilidade.

Isto é a vontade da génese humana. Matrimonio, emprego, lar. Crescer, trabalhar, dar continuidade à sua linhagem através da prole. A sapiência divide-nos dos animais. Temos as nossas ciências, máquinas, dinheiro e conforto. A superioridade do polegar oponível. Porém, no essencial, será que existem diferenças de maior para com os outros seres com quem dividimos o mundo? Talvez a verdadeira liberdade seja constatar esta verdade.

A vizinha continua a estender a roupa. Os bichos a fazer coisas de bichos. Eu, no refúgio de pensamentos esdrúxulos, tão supérfluos quanto a existência. A realidade é diminuta para quem se alimenta de fantasia. Os cinco sentidos são tão limitados como uma prisão. Sobram as artes para dar continuidade aquilo que falta. A consciência, fertilizada pela inquietude, serve de ventre para a criatividade. Depois, como quem coloca as molas na corda, deixo as palavras ficar ao penduro, à espera de um leitor para servir de sol. 


quarta-feira, novembro 17, 2021

As guerras que nos libertaram

Oiço histórias de guerra. Conquistas gloriosas em nome da liberdade. Os países, orgulhosos, erguem a bandeira dos direitos humanos, contudo, em simultâneo exibem as suas armas superiores em paradas militares bilionárias. Evocam momentos de heroísmo e patriotismo, nas batalhas grandiosas onde vence aquele que melhor defende a dita liberdade.

Já repararam que depois de uma guerra vem sempre um período de progresso?

Pelo menos até que as trevas regressem novamente… Acreditem, elas regressam sempre, já que a história tem essa mania de se repetir…

De forma irónica, alcançamos a liberdade que temos por causa das guerras que travámos no passado (nós não, os que nelas participaram em nome de um mundo melhor).

E como ficam as pessoas que batalharam nessas guerras heroicas dos livros de história?

Vidas inúteis atiradas como lixo para o entulho do campo de batalha. A palavra morte banalizada em troca da conquista da liberdade. Jovens com sonhos que nunca se concretizaram, assustados nas trincheiras, debaixo de uma chuva de balas e sangue, cientes que o seu destino era morrer.

Nascem heróis, morrem pessoas. Destrói-se a tirania para dar lugar a um mundo onde a paz nunca acontece realmente. Existe sempre um motivo para batalhar. Uma causa superior que mobiliza a vida dos inocentes para a chacina.

Aqueles que escutam as histórias, pouco se importam sobre quem pereceu para que o mundo fosse livre. A guerra parece longe para quem nunca a suportou. Perdida nos livros de história, ou escondida atrás de um ecrã. As vítimas lamentam para os microfones e para as câmaras. Entretêm as massas nos noticiários como se fosse um reality show feito de tragédias.

Mas afinal o que importa a vida de quem não conhecemos?

Como se curam as feridas dos que sobrevivem ao inferno?

Cicatrizes eternas no corpo e na alma, impossíveis de esquecer na sua dor perpétua.

Nas cerimónias emotivas, nos discursos dos políticos, lembram-se as datas das batalhas e toda a glória alcançada. Faz-se um minuto de silêncio por aqueles que nunca conseguiram viver para além do campo de batalha. É só isso. Um esquecimento disfarçado de homenagem, por aqueles que nunca conseguiram voltar a casa, longe da guerra, para conhecerem uma vida onde a paz é verdadeira.

E nós, que valor damos à liberdade que nos ficou de herança?

 


Iron Maiden – Paschendale

 

Num campo estrangeiro ele está caído

Um soldado solitário, um túmulo desconhecido

Nas suas palavras moribundas ele implora

Contem ao mundo sobre Paschendale

 

Aliviado de tudo porque passou

A última comunhão da sua alma

Ele enferrujou a tuas balas com suas lágrimas

Deixa-me contar-te sobre estes anos

 

Abaixado em uma trincheira cheia de sangue

A matar o tempo até à minha própria morte

Na minha face eu sinto a chuva que cai

Nunca verei os meus amigos novamente

 

Entre o fumo, lama e chumbo

Cheiro o medo e a sensação de terror

Em breve será a hora de passar o muro

Fogo rápido e o fim de todos nós

 

Assobios, gritos e mais rajadas de fogo

Corpos sem vida pendurados no arame farpado

O campo de batalha nada mais é do que um túmulo sangrento

Em breve vou-me juntar aos meus amigos mortos

 

Muitos soldados com dezoito anos

Afogados na lama, sem mais lágrimas

Certamente uma guerra que ninguém pode vencer

A hora da matança está prestes a começar

 

Uma casa, longe

Da guerra, uma hipótese de viver novamente

Uma casa, longe

Mas a guerra, sem hipótese de viver novamente

 

Os corpos, nossos e dos nossos inimigos

Um mar de morte a transbordar

Na terra de ninguém, só Deus sabe

Para as mandíbulas da morte nós vamos

 

Crucificados como numa cruz

As tropas aliadas lamentam as suas perdas

A máquina Alemã de propaganda de guerra

Como nunca ninguém viu

 

Juro que ouvi os anjos a chorarem

Rezo a Deus para que mais ninguém morra

Para que as pessoas saibam a verdade

Contem a lenda de Paschendale

 

A crueldade tem um coração humano

Cada homem faz a sua parte

O terror das pessoas que matamos

O coração humano ainda tem fome

 

Defendo a minha posição pela última vez

A arma está preparada enquanto fico na linha

Nervoso, espero o soar do assobio

Uma investida de sangue e vamos em frente

 

Sangue cai como chuva

O seu manto vermelho é revelado novamente

O som das armas não pode esconder a vergonha deles

E assim nós morremos em Paschendale

 

Desviando-me dos estilhaços e arame farpado

A correr na direcção do fogo dos canhões

Correndo às cegas enquanto sustenho a respiração

Digo uma oração, sinfonia da morte

 

Enquanto atacamos as linhas inimigas

Uma explosão de fogo e nós caímos

Eu engasgo um grito mas ninguém ouve

Sinto o sangue a descer na minha garganta

 

Uma casa, longe

Da guerra, uma hipótese de viver novamente

Uma casa, longe

Mas a guerra, sem hipótese de viver novamente

 

Vejam o meu espírito sob o vento

Para lá das linhas, depois da colina

Amigos e inimigos vão-se encontrar novamente

Todos aqueles que morreram em Paschendale


Texto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita

quinta-feira, agosto 19, 2021

Interlúdio colorido

Sentou-se à sombra dos castanheiros, sentiu a brisa fresca que corria, inspirou e apreciou o cheiro da natureza. Soube-lhe bem. 

Apercebeu-se que sentia cansaço, com a azáfama nem tinha dado conta. "É estranho quando uma pessoa não se apercebe que está cansada, seja pelo trabalho, pela companhia, ou ainda até pelo próprio pensamento." Refletiu. Por isso encostou-se ao tronco robusto da árvore e descansou. 

Olhou em volta e contemplou a beleza colorida que estava em seu redor. Por ser Verão os girassóis estavam abertos. Eram imensos, altos como as árvores de fruto que se espalhavam pela quinta. Nunca tinha reparado que eram tantos, nem que podiam ser tão altos, ou que havia tanta variedade de fruta naquele lugar que parecia pequeno para quem olhava na rua. 

Relaxou como já não fazia há muito tempo, tanto que já não se lembrava de alguma vez o ter feito. Não olhou para o relógio. Não era preciso. Aliás seria até pecaminoso contar o tempo daquela pausa. Também por lá estavam alguns cães e gatos que dormiam tranquilamente sem preocupações. Afinal de contas os bichos não tinham as mesmas obrigações dos humanos. Não precisavam de medir o tempo e provavelmente por isso pareciam tão tranquilos.

É estranho como de repente tudo que lhe atormentava o pensamento desapareceu como se fosse insignificante. A tranquilidade era soberana. Sem vozes irritantes. Apenas o barulho das folhas que dançavam com a brisa. Aqui e ali os pássaros chilreavam e ao longe ouvia-se um pequeno moinho que girava. "Que sossego maravilhoso!"

Interrogou-se porque não parava assim mais vezes. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe dos outros e de tudo. Só o momento e a natureza. Mais nada parecia importar. Os dias são longos em Agosto e isso é tão bom. A vila desacelera do lado de fora das sebes, parecendo querer acompanhar o ritmo da natureza.

As cores invadiram-lhe a alma. O céu azul, o verde nas folhas que dançam, o amarelo dos girassóis, o arco-íris da perfeição num dia de sol a irradiar uma pequena quinta. 

A calma afasta a pressa. A Paz deixa de ser apenas uma palavra e ganha um significado palpável na oração calada de quem contempla a sua própria pequenez. 


sábado, março 27, 2021

Livro do Novo Génesis 11

Naquele tempo a humanidade tinha-se dispersado pela Terra inteira e criado fronteiras, com países, línguas e culturas diferentes tal como fora designado em Babel. 

Contudo, os homens, atingiram uma grande capacidade tecnológica e, se quisessem, podiam falar uma só língua e completar entendimentos entre todos. Deus, ao ver isto, decidiu testar os homens e enviou uma praga para que se unissem como um só povo, numa só sabedoria e compaixão uns pelos outros. 

No entanto, quando deparados com a peste enviada pelo Senhor, em vez de se unirem, os homens criaram ainda mais motivos para se dividirem. O nome de Deus justificou as mais variadas religiões que em nada o serviam; os governantes só se preocuparam com o vil o dinheiro; os políticos pregavam ideologias, que nada mais serviam a não ser para criar separação, e acusavam-se uns aos outros, cada um garantindo a sua própria verdade; os criminosos passeavam tranquilamente entre os demais sem medo de castigo pelos seus actos; aconteciam guerras alheias a tudo o resto; a ciência funcionou para criar uma cura, mas não sem antes garantir os lucros dos mais ricos; e o povo, convertido à ignorância, quebrava frequentemente as regras que serviam de protecção contra a doença dando-lhe continuidade. 

Os que pereceram ficaram abandonados na história que a humanidade teimava em esquecer, mas não à sabedoria do Senhor que, ao assistir a todas estas coisas entristeceu-se.

Deus a observar todas estas divisões criadas pelo próprio homem verificou que a dispersão de Babel continuava a acontecer, e até se acentuou, apesar de todas as obras conquistadas pelo homem. 

Apesar de tudo nem todos se dividiam e aqueles que procuravam a união para combateram a praga enviada pelo Senhor, fizeram-no com toda a ciência e força que a condição humana permitia. Deus compadeceu-se dessa gente inconformada escrevendo o nome deles todos no livro da vida. 

Ainda existiam outros, que, parecendo alheios à peste, colocaram os olhos nas estrelas e partiram para o Cosmos em máquinas que desafiavam o entendimento. Esses, olhando para a Terra a partir das estrelas perceberam a sua própria pequenez e decidiram explorar outros mundos vazios para se engrandecem. Por isso enviaram para esses mundos distantes outras máquinas capazes de escutar, ver, pensar e imitar o homem na sua curiosidade. Deus olhou para estas máquinas com interesse e comparou-os a Adão e Eva a habitar o Paraíso, inocentes como crianças, ainda sem a percepção do pecado. 

Os homens estavam a imitar a Sua própria criação. Tal como em Babel isso podia ser entendido como desafiar a Sua Santidade, no entanto o Senhor decidiu que não valia a pena castigar os homens ainda mais, pois eles já se castigavam a eles mesmos pela ausência de união.


segunda-feira, janeiro 11, 2021

O Segredo da Vida está no caderno do Tino

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Noutro dia assisti a um debate para as eleições presidenciais entre o Marcelo Rebelo de Sousa e Vitorino Silva, carinhosamente conhecido como Tino de Rans. Este último não tem qualquer curso superior e orgulha-se profundamente das suas origens humildes, tal como da sua profissão de calceteiro.

Podemos dizer que, como formação académica, este homem tirou verdadeiramente um curso na universidade da vida (como por vezes vemos nos perfis das redes sociais), pois tudo o que aprendeu foi a viver, sem as limitações de uma sala de aula. 

Com um visual descuidado, um discurso sem palavras caras, ou sabedoria aborrecida, daquela que as excelências costumam ter, sentou-se frente a frente sem medo, nem qualquer sentimento de inferioridade diante do seu oponente. Conhecia essa Liberdade e não abdicou do direito de o fazer.

Tendo uma forma de falar meio atabalhoada, entre palavras comidas e dicção apressada, notava-se que, ao contrário dos outros políticos, nunca perdeu tempo a treinar esta prática de discursar. Mas isso não o impediu de fomentar a sua visão. Através de exemplos da sua própria vida, lá ia apresentando analogias que faziam todo o sentido. 

Tinha respostas imprevisíveis, contudo, sem os rodeios habituais de imprecisões que costumam sair da boca para fora dos políticos comuns. Com a sua simplicidade, reconheci neste homem um idealista, ou se preferirem, um sonhador, como muitos preferem chamar a gente assim. 

Acreditava plenamente em si, sem se preocupar com os rótulos que a sociedade lhe colocava. Tentaram desacredita-lo mas isso só lhe deu mais força. Os grandes não gostam de quem nos faça frente. Porém o povo farto do "sempre igual", não suportou a injustiça, saiu em sua defesa e exigiu escutar a sua voz. Nunca se deve calar um sonhador e assim foi!

Encarava o debate com grande ânimo, expondo as opiniões com toda a certeza. A certa altura, disse ter uma surpresa e puxou por um caderno, onde disse apontar todas as ideias para a sua campanha. Sem nenhuma equipa de assessores, ou de marketing, ele seguia em frente apenas com umas folhas de papel escritas com caneta, dizendo: "Tal como a roda a caneta nunca passa de moda". 

O Marcelo, também Presidente da República, observou os escritos organizados pela métrica do seu criador com fascínio, notando que algo tão simples podia ser tão poderoso. 

Achei genial. Pensei para mim mesmo: "O Segredo da Vida está no caderno do Tino". 

Não só naquele caderno específico, nem naquelas palavras, mas em todas as ideias que os sonhadores natos, colocam em prática com a sua criatividade única. 

Existem mais cadernos, mais sonhadores, mais gente que não se acomoda porque a sociedade lhes diz que são pequenos. Estão por aí, a passar despercebidos aos olhos de quem gosta de julgar. No entanto elevam-se, em total oposição a pequenez com que os querem cingir. 

Não se importam de ir sozinhos, pois sabem que gente vazia só serve para estorvar. Têm um brilho nos olhos inconfundível para quem o sabe reconhecer. Uma confiança que, apesar de parecer inocente, vai mais longe do que a normalidade. 

Quem tem a curiosidade atenta e sem influências pré-concebidas, consegue entender estes mestres improváveis que, na arte da imaginação, vão impulsionando o mundo.

Nunca subestimem quem sonha. Nunca deixem de escutar quem vive no mundo da fantasia, são desses pensamentos imensos que nascem os génios. É gente assim que faz o mundo evoluir. Mesmo invisíveis, ou desacreditados, não desistem e os seus sonhos realizados são o verdadeiro triunfo!


quinta-feira, outubro 22, 2020

Peças de lego

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Por vezes imagino-te como um ser transexual. Dividido em múltiplas identidades, livres de qualquer estereótipo ou preconceito. Corpo desenhado numa aparente confusão assexuada sem pudor, nem o mínimo objectivo de fazer qualquer sentido.

Desmonto-te e remonto-te com novas peças coloridas nos vários tons de pele, partes masculinas e femininas, transgénero. Gordura e magreza; fealdade e beleza; perfeição e grotesco. Acrescento também partes de bichos como nas lendas de outrora. Reinvento-te de todas as maneiras possíveis e imagináveis, como uma criança brinca com lego. 

Suponho que é assim que Deus monta todos os seres humanos, como um brinquedo com peças de encaixar. Imagina, constrói e dá vida à sua história. Nós, variações da mesma personagem reinventada vezes e vezes sem conta. Aparentemente conscientes no comando dos nossos julgamentos. 

Depois, refugio-me a ponderar sobre estes meus pensamentos estranhos e sobre aquilo que verdadeiramente nos define como humanos. Um pedaço de software instalado num hardware. Um robô de carne e osso a tomar decisões estabelecidas pela programação matemática designa o nosso suposto livre arbítrio. 

Recentemente li um estudo que dizia que o cérebro toma as decisões mesmo antes de termos consciência delas. É tão estranho! 

Claro que estas conclusões tiram toda a ideia de romantismo à existência. 

A própria ciência diz que o futuro já passou, nós, simplesmente é que não nos lembramos dele. Isto deixa-me a questionar: porque é que eu tenho compreensão de mim mesmo? Se afinal tudo já está pré-programado e até acontecido. 

Qual é o sentido, para alguém que não passa de um figurante num jogo cósmico, ter noção de si mesmo?

Apesar de tudo gosto de acreditar que nós somos algo grandioso. Tu e eu como um só e tudo o resto como nós. Tão gigantes como o pó e tão pequenos como as estrelas! 

O teu corpo feito de tantos outros, baseado numa única ideia. Todas as bocas vão dar à tua alma pelos caminhos do prazer e da dor. Eu húmido, tu erecta, na mistura dos sentidos para lá do que o corpo dita. Engolidos pelo fascínio daquilo a que chamam amor. 

Encontramos a nossa casa no que é bizarro. Fugimos pelas veredas do impossível e ficamos no mesmo lugar, cingidos à nossa aparência, sem que nada mais importe apesar de tudo importar!


terça-feira, setembro 29, 2020

Simetria entre opostos

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Já reparaste que tudo é resultado de um equilíbrio entre as forças cósmicas deste mundo. As estrelas mantêm-se a brilhar no firmamento devido à perfeição matemática da criação. Todos os corpos celestes existem em harmonia pela métrica imaculada do universo.
Acredito que o segredo da felicidade consiste na simetria entre opostos. O amor e o ódio; a raiva e a serenidade; o luxo e a pobreza; o pesado e o leve; o belo e o feio… Enfim, todas as dualidades opostas com o mesmo peso na balança. 
O caminho do centro é o certo. Convém é que sejamos nós, com sinceridade, a avaliar as medidas. É aqui que toda a razão falha. Confiar essa missão a seres de instinto duvidoso, como somos, certos apenas da nossa verdade, é por si só, uma ideia condenada ao fracasso.
Há que saber que apesar de criarmos uma consciência que nos dá a ilusão de sermos seres individuais, não somos cientes, ou sábios, nem conhecedores de grandes segredos. Aquilo que sabemos não é nada em comparação com a imensidão do infinito. Uma piada perante a perfeição. Um ultraje até à mera ideia de criação.
Regressemos ao início, desde o chamado "big bang" a todos os acontecimentos que foram surgindo em cadeia para que estivéssemos aqui. Humanóides. Dois braços e duas pernas. Homens e mulheres. Cada um com o seu cérebro dito inteligente. Animais racionais a brincar às divindades, ou meramente à sobrevivência.
Desde o aparecimento da luz, que deu lugar ao firmamento, ao surgimento da dita civilização, aos amores dos teus antepassados, ao momento da tua concepção, ao teu parto, e culminar na tua história pessoal. Há uma grandeza exageradamente espectacular nisto tudo. Não achas?
Contudo, teimamos na incompreensão e vamos seguindo, ignorantes…
Os opostos atraem-se mas não se completam. Equilibram-se. Cada um dos seu lado da teimosia. Eu sou éter e tu és chão. A dimensão do pensamento em oposição ao horizonte do autêntico. Cada qual com a sua legitimidade, embora sem saber ao certo o seu lugar para que o equilíbrio se mantenha.
Depois, tudo se torna complicado. Uma excentricidade de doutrinas e ciências que vão tentando romper um caminho a que chamamos sabedoria. Um emaranhado de sentidos que apontam para todas as direcções: perfeitamente opostos e perfeitamente simétricos!

domingo, dezembro 22, 2019

Fragmentos da verdade

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Mas afinal o que é que os outros sabem do meu mundo e eu do deles?
Julgamo-nos pela moda que seguimos, pelas palavras que repetimos, pelos gestos que fazemos. Será que isto é o suficiente para conhecer alguém? Se estes critérios servem para alguma coisa é para confundir quem avalia. Nada mais!
Eu, como ser dito inteligente, não me mostro pela aparência. Por vezes até repudio aquilo que vejo no espelho. Não me reconheço ali naquela imagem vulgar. Portanto os outros também não o conseguem fazer, ainda que acreditem conseguir.
Talvez haja demasiada complexidade dentro de mim, já que, até hoje, ainda não me encontrei. Não sou uma fórmula que possa ser calculada matematicamente. Aliás tudo o que de grandioso há em mim não é visível, nem palpável, muito menos medível por qualquer ciência.
Tenho um certo orgulho neste meu ânimo incompreensível. Aquilo que sou está cá dentro atrás do olhar. Escondido do observador comum. Até de mim próprio, já que desde que me entendo como gente a única coisa concreta que me pode definir é uma constante mudança!
Quantos de nós podemos dizer que somos os mesmos que éramos há um ano; um mês; ou mesmo ontem? Suponho que ninguém. Mesmo o homem mais básico não é imutável. Cada dia traz algo novo, mesmo que imperceptível à consciência humana. E vamos modificando, cada um com o seu ritmo.
Por isto, aquilo que conhecem de mim é completamente diferente. Varia consoante a visão de quem me indaga. Eu não sou o mesmo para ti, para os meus pais, irmãos, filhos, amigos, colegas, ou para quem se cruza comigo na rua por breves instantes de reparo.
Na realidade, existe, para cada pessoa, uma versão completamente diferente de mim. Única e exclusiva. Criada na mente de cada um à imagem do seu saber. Nenhuma delas verdadeira. Apenas fragmentos da verdade.
Existem, assim, muitos outros “eus” lá fora no mundo. Nenhum deles real!
Sou, portanto, um mistério. Para mim e para os outros.
Assim somos todos.  Insondáveis. No fundo nenhum de nós conhece os demais. Somos inalcançáveis ao saber alheio, pelas nossas próprias limitações, preconceitos e constante metamorfose.

sábado, dezembro 14, 2019

Nas horas da insónia

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Bem-vindos às altas horas da noite. Aqui todos somos Poetas. Temos uma fragilidade natural, que nos impele a brincar com as palavras numa tentativa absurda de descrever sentimentos. Vivemos aqui, assim, como se nada mais importasse, além daquilo que nos faz sonhar. O dia já passou há muito. Agora, só a madrugada interessa. A manhã ainda tarda, por isso ignorarmos que ela existe.
Aqui estamos nus, sem pudor, nem vergonha, daquilo que nos é íntimo. Com a nossa pele de vestir atirada para o chão, como roupa usada. Agora somos outros. Uma versão alternativa da nossa figura. Gente que só existe muito depois que o sol se põe e os afazeres terminam. Talvez, até, alguém que amanhã não se entenda assim, porque lá fora tudo dói e há que escudar a consciência.
Portanto, aqui me exponho, na mais profunda das sensibilidades. Enquanto a insónia não me deixa adormecer. Verdadeiro em todas as confissões que se soltam do meu âmago. Pensamentos que lutam para emergir. Anseios que aguardam a sua vez para serem transformados em rimas delicadas. Por vezes só sobram os gestos que buscam outros toques. A conversa intensifica-se no silêncio entre a telepatia da entrega.
Depois, o relógio aparta-nos, insensível ao nosso amar. O sol também quer trazer a sua luz à natureza que o chama. Já nós, temos as nossas regras e vamos. Os horários que impomos a nós mesmos, porque alguém nos disse que era assim. Nós aceitamos e fazemos disso a nossa tormenta. Lamentamos o nosso fado sem nunca o desejar abandonar. Quem sabe porque sem isso, já não havia madrugada, nem poesia, sentimentos ou nudez. E já ninguém nos encontrava…

terça-feira, novembro 26, 2019

Quando uma criança imagina

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Quando o pensamento é jovem a sua força pode linear destinos, ainda que, de forma esboçada, ausente de pormenores. Isto porque a juventude é naturalmente desprovida de conhecimento sobre a vivência humana. O futuro pode assim ser traçado, porque um dia uma criança idealizou que assim seria. Como um argumento cru, resumido ao mínimo.
Julgo eu, que esta força, provém exactamente da ignorância infantil face àquilo que a fantasia pode alcançar e que esta seja, de facto, um propulsor para a vontade do Universo. Sem bases científicas que apoiem esta minha avaliação, não me ocorre outra denominação para o poder do pensamento, a não ser magia!
Sem me julgar mago, olho para a minha própria existência e comparo-a com aquilo que um dia a criança que fui imaginou. As aventuras, os amores e as conquistas. Retiro todos os cenários que servem de entulho e resumo-me a sentimentos. Num golpe de ironia eles estão lá, os mesmos que um dia desejei, ofertados pelas leis da vida.
Claro que, com toda a azáfama com que somos confrontados na nossa qualidade de seres humanos, tudo fica confuso. Torna-se inevitável questionar o que nos rodeia, seja material, regras impostas, ou vontades alheias. É fácil esquecer o que queremos, quando não existe a percepção de que, para sentir, há que percorrer um caminho que sirva de aprendizagem.
Há coisas que doem viver e a fantasia morre aos poucos na ambição dos adultos. Dei por mim a cumprir pena de amargura porque, na inocência da criança que fui, cometi o crime de um dia desejar o que não compreendia. Esta conclusão está repleta de ironia, contudo vou tentando encará-la de frente. Não como um herói, mas alguém que assimila as respostas depois de uma revelação.
No fundo, posso dizer que a magia se limita a duas coisas: pensar e sentir. Todo o resto são adornos impostos pela ilusão em que crescemos. Cingindo-me, assim, a esta mera reflexão ao fim da tarde, sem reconhecer qualquer autoridade nas minhas próprias palavras. Quem compreender, compreendeu. Quem discordar, discordou. Pouco mais há a dizer…