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Bothrops

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Image Nota: ""Jararaca"" redireciona para este artigo. Para outros significados, veja Jararaca (desambiguação).
Como ler uma infocaixa de taxonomiaBothrops
Bothrops lanceolatus
Bothrops lanceolatus
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Subfilo: Vertebrata
Classe: Sauropsida
Subclasse: Diapsida
Superordem: Lepidosauria
Ordem: Squamata
Subordem: Serpentes
Infraordem: Alethinophidia
Parvordem: Caenophidia
Superfamília: Colubroidea
Família: Viperidae
Subfamília: Crotalinae
Género: Bothrops
Wagler, 1824.
Espécie-tipo
Coluber lanceolatus
Bonnaterre, 1790
Espécies
Ver texto.
Sinónimos
  • Bothriopsis Peters, 1861
  • Bothropoides Fenwick, Gutberlet, Evans & Parkinson, 2009
  • Rhinocerophis Garman, 1881

Bothrops é um gênero de serpentes peçonhentas pertencentes á subfamília Crotalinae, da família Viperidae. Popularmente, as espécies são denominadas de jararacas, caissacas, cotiaras e urutus. São endêmicas da Região Neotropical, habitando primariamente a América do Sul, alcançando a América Central e o sul do América do Norte (em Tamaulipas, México).[1] Ao longo de sua faixa de distribuição são recorrentes causadoras de acidentes ofídicos, classificadas como serpentes de interesse médico de maior importância, com altas taxas de morbidade e mortalidade anuais.[2] A maioria das espécies de Bothrops apresenta um canto rostral bem definido e um focinho não elevado, exceto em B. barnetti, que possui um focinho ligeiramente curvado para cima e B. ammodytoides, que possui um apêndice nasal. O poro nasal é profundo nas narinas, não sendo visíveis externamente. As diferentes espécies de Bothrops apresentam grande variabilidade, principalmente nos padrões de coloração, porte, ação da peçonha, dentre outras características. Atualmente, 48 espécies são reconhecidas, mas é consenso dentre os pesquisadores que a taxonomia e sistemática deste grupo está não está bem resolvida.[3]

Etimologia

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O termo Bothrops deriva do grego βόθρος (bothros) que significa "buraco" + ὄψ (ops) que significa "olho" ou "face", uma clara alusão as fossetas loreais, orgãos térmicos típicos dos crotalíneos.[1]

Os nomes comuns aplicados localmente ás serpentes deste gênero têm origem em línguas ameríndias, especialmente do tronco Tupi-Guarani. A palavra "jararaca" (e seu equivalente espanhol yarará) vem do termo tupi îara'ra (que agarra ou prende muito) + aka (presa ou colmilho) = (serpente) com presa que agarra/prende muito; "caiçaca" ou "caissaca" provém do tupi kaîa (arder/queimar) + (s)aka (colmilho/presa) = presa (dente) que arde, em alusão a sensação de ardência após a picada da serpente; "cotiara/quatiara" ou "boicotiara" vem do tupi mbóî (serpente) + kwatiara (desenhada, manchada) = serpente manchada, desenhada em referência a coloração de algumas espécies; “urutu”, de origem guarani, deriva de u(r)u (“atacar”, “picar”) + utú (“arremesso”) = a (serpente) que pica por arremesso, geralmente atribuído a Bothrops alternatus, em refrência ao botes ágeis e desordenados da espécie [4][5][6].

Taxonomia e filogenia

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O gênero foi descrito por Johann Georg Wagler em 1834.[7]

Na década de 2000, estudos moleculares demonstraram que o gênero Bothrops no sentido tradicional era parafilético, sendo subdividido em até cinco gêneros distintos: Bothrops, Bothriopsis, Bothrocophias, Bothropoides e Rhinocerophis.[8][9] Em 2010, um estudo rejeitou o uso de Rhinocerophis por falta de caracteres morfológicos exclusivos.[10] Em 2012, um novo estudo molecular mais abrangente demonstrou que o Bothrops sensu stricto continuava sendo parafilético e retificou o arranjo taxonômico mantendo o gênero Bothrocophias como distinto, e sinonimizando Rhinocerophis, Bothriopsis e Bothropoides com Bothrops.[11] Um dos maiores problemas relativos à sistemática de espécies do gênero surgiram no complexo B. neuwiedi, um conjunto de populações de jararacas-pintadas que ocorrem no leste e centro da América do Sul. Até recentemente, essas populações eram atribuídas unicamente à espécie B. neuwiedi e até 12 subespécies foram reconhecidas para esta espécie. Uma revisão deste complexo relizada em 2004, com base em características morfológicas o dividiu em 7 espécies.[12][13]: O número de espécies e subespécies em Bothrops têm sido objeto de debate há décadas. Atualmente de 48 espécies são reconhecidas para este gênero.

Espécies reconhecidas:

Imagem[3] Espécie[3][14] Nome popular[14] Distribuição geográfica[2][14]
Image B. alcatraz Marques, Martins & Sazima, 2002 Jararaca-de-Alcatrazes Ilha de Alcatrazes, estado de São Paulo, Sudeste do Brasil.
Image
B. alternatus

A.M.C. Duméril, Bibron & A.H.A. Duméril, 1854

Urutu-cruzeiro, urutu, yarará crucera, víbora de la cruz Sudeste do Brasil, Paraguai, Uruguai e norte da Argentina (nas províncias de Buenos Aires, Catamarca, Córdoba, Corrientes, Chaco, Entre Ríos, Formosa, La Pampa, Misiones, San Luis, Santa Fe, Santiago del Estero and Tucumán.
Image B. ammodytoides Leybold, 1873 Yarará ñata, yarará patagónica Argentina inas províncias de Buenos Aires, Catamarca, Córdoba, Chubut, La Pampa, La Rioja, Mendoza, Neuquén, Río Negro, San Juan, San Luis, Santa Cruz e Tucumán
Image B. asper (Garman, 1884) Terciopelo, Fer-de-lance (comumente usado, porém incorreto) Leste costeiro atlântico do México e América Central, includindo Guatemala, Belize, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá com uma população disjunta ocorrendo no sudeste do México(Chiapas) e sudoeste da Guatemala; norte da América do Sul na Colômbia e Equador e oeste dos Andes, na Venezuela, e em Tumbes, Peru.
Image B. atrox (Linnaeus, 1758) Jararaca-do-norte, surucucu, barba amarilla, caissaca Norte da América do Sul, região amazônica a oeste dos Andes, incluindo sudeste da Colômbia, sul and leste da Venezuela, Trinidad, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, leste do Equador e Peru, norte da Bolívia e norte do Brasil.
B. ayerbei? Folleco-Fernández , 2010 Cacica, Equis Patiana Cauca, Colômbia
Image B. barnetti Parker, 1938 Macanche, san carranca, zancarranca Noroeste do Peru, ao longo da costa do pacífica, em baixas altitudes.
Image B. bilineatus (Wied-Neuwied, 1825) Jararaca-verde, cobra-papagaio, loromachaco (Peru), lorito o papagayo (Equador) Amazônia da América do Sul: Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Brasil, Equador, Peru e Bolívia. Uma população isolada é conhecida na costa atlântica do sudeste do Brasil.
Image B. brazili Hoge, 1954 Jararaca-vermelha, rabo de ratón (Colômbia), cascabel, jergón (Peru), mapanare (Venezuela), Florestas equatoriais do leste do Peru, leste do Equador, Venezuela, Brasil e norte da Bolívia.
Image B. caribbaeus (Garman, 1887) Santa Lúcia, Pequenas Antilhas.
Image B. chloromelas (Boulenger, 1912) Região central andina do Peru.
Image B. cotiara (Gomes, 1913) Cotiara, quatiara, boicotiara, yarará de vientre negro (Argentina) Sul do Brasil nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, nordeste da Argentina em Misiones
Image B. diporus Cope, 1862 Jararaca-do-Chaco, jararaca-do-rabo-branco, jararaca-pintada, jararaca-pintada-argentina, jararaca-pintada-do-sul Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e noroeste do Rio Grande do Sul; Argentina em La Rioja, La Pampa, Córdoba, San Luis, Mendoza, Catamarca, Santiago del Estero, Tucumán, Jujuy, Salta, Formosa, Chaco, Santa Fé, Corrientes e Misiones, Rio Negro e Neuquén; Paraguai e Bolívia.
Image B. erythromelas Amaral, 1923 Jararaca-da-seca Nordeste do Brasil, nos estados do Alagoas, Bahia, Ceará, extremo oeste do Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Image B. fonsecai Hoge & Belluomini, 1959 Cotiara, urutu-serrana Sudeste do Brasil nos estados de São Paulo (nordeste), sudeste do Rio de Janeiro and extremo sul de Minas Gerais
B. germanoi Barbo, Booker, Duarte, Chaluppe, Portes, Franco & Grazziotin, 2022 Jararaca-da-Moela Ilha da Moela, São Paulo, Brasil
Image B. insularis (Amaral, 1922) Jararaca-ilhoa Ilha de Queimada Grande, São Paulo, Brasil
Image B. itapetiningae (Boulenger, 1907) Cotiarinha Sudeste do Brasil, nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso, São Paulo e Paraná.
B. jabrensis Barbo, Grazziotin, Pereira-Filho, Freitas, Abrantes & Kokubum, 2022 Jararaca-de-Jabre Nordeste do Brasil, estado da Paraíba.
Image B. jararaca (Wied-Neuwied, 1824) Jararaca, jararaca-da-mata, jararaca-do-campo, yarará (Peru), yararaca, yararaca perezosa (Argentina) Sudeste do Brasil, nordeste do Paragual and nordeste da Argentina (Misiones)
Image
B. jararacussu Lacerda, 1884 Jararacuçu, surucucu-tapete, urutu-dourada, urutu-estrela, patrona; yarará-cussu, yarará dorada, yarará-guasu (Argentina e Paraguai); yope pintada, yoperojobobo (Bolívia) Leste e sudeste do Brasil (da Bahia até Santa Catarina), Paraguai, sudeste da Bolívia and nordeste da Argentina (Misiones)
Image B. jonathani Harvey, 1994 Yoperojobobo Altiplano andino, em Cochabamba, Santa Cruz and Tarija, Bolívia e no noroeste da Argentina em Jujuy e Salta.
Image B. lanceolatusT (Bonnaterre, 1790) Fer-de-lance Martinica, Pequenas Antilhas
Image B. leucurus Wagler, 1824 Jararaca-de-rabo-branco, cabeça-de-patrona, caissaca, jararaca, jararaca-baiana, boca-podre Sudeste nordeste do Brasil nos estados do Espirito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Ceará e Paraíba
B. lutzi (Miranda-Ribeiro, 1915) Jararaca-pintada Nordeste do Brasil, no norte do estado do Piauí.
B. marajoensis Hoge, 1966 Caissaca-de-Marajó Norte do Brasil, nas savanas da ilha de Marajó e possivelmente nas planícies costeiras do Delta do Amazonas, estado do Pará.
Image B. marmoratus Silva & Rodrigues, 2008 Jararaca-pintada Brasil, estado de Goiás
Image B. mattogrossensis Amaral, 1925 Jararaca-pintada, boca-de-sapo Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul, Amazonas, Rondonia, Goi´ss, Tocantins e São Paulo), Bolívia, Argentina (Salta) e Peru
B. medusa (Sternfeld, 1920) Viejita, veinticuatro (Venezuela) Venezuela, em Aragua, Carabobo e Caracas.
B. monsignifer Timms, Chaparro, Venegas, Salazar-Valenzuela, Scrocchi, Cuevas, Leynaud & Carrasco, 2019 Bolívia, em Santa Cruz e no sul do Peru.
Image B. moojeni Hoge, 1966 Caissaca, caicara, jararacão, jararaca-do-cerrado, jararaca-de-vereda Centro-oeste e sudeste do Brasil, leste do Paraguai, nordeste da Argentina (Misiones) e Bolívia
Image B. muriciensis Ferrarezzi & Freire, 2001 Jararaca-de-Alagoas, Jararacuçu Nordeste do Brasil, na Mata de Murici, estado do Alagoas,
Image B. neuwiedi Wagler, 1824 Jararca-pintada, jararaca-do-rabo-branco,jararaca-cruzeira, cruzeira, malha-de-sapo, rabo-de-osso América do Sul, incluindo Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina até o nordeste na Bahia, Ceará, Paraíba), Argentina (Jujuy, Salta, Formosa, Chaco, Tucumán, Santiago del Estero, Catamarca, Córdoba, La Rioja, San Juan, San Luis, La Pampa, Mendoza, Santa Fé, Entre Rios, Corrientes, Misiones)
Image B. oligobalius Dal Vechio, Prates, Grazziotin, Graboski & Rodrigues, 2021 Sul da Colômbia e Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Brasil (Amapá)
B. oligolepis (F. Werner, 1901) Peru (lado oriental dos Andes, Cordilheira Central), Bolívia
Image
B. osbornei Freire-Lascano, 1991 Oeste do Equador, noroeste do Peru
B. otavioi Barbo, Grazziotin, Sazima, Martins & Sawaya, 2012 Jararaca-de-Vitória Ilha Vitória, no arquipélago de Ilhabela, São Paulo, Brasil
Image B. pauloensis Amaral, 1925 Jararaca-pintada Brasil, Paraguai e Bolívia
Image B. pictus (Tschudi, 1845) Peru, nos montes da região costeira do Pacífico, até aprox. 1800 m de altitude.
B. pirajai Amaral, 1923 jaracuçu-tapete, jararaca, jararacuçu Brasil, no centro e sul do estado da Bahia e possivelmente, em Minas Gerais
Image B. pubescens (Cope, 1870) Jararca-pintada, jararaca-do-rabo-branco, jararaca-do-sul, yarará (Uruguai)

Brasil (Rio Grande do Sul) e Uruguai (Artigas, Rivera, Tacuarembó, Cerro Largo, Treinta y Tres, Lavalleja, Maldonado, Canelones, Rocha e San José).

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B. pulcher (W. Peters, 1862) Encostas orientais dos Andes no Equador e na Colômbia, em altitude de 1000 a 2000 m.
Image B. punctatus (García, 1896) Equis orito, equis rabo de chucha, vibora chocoana Sudeste do Panamá, oeste da Colômbia (Valle del Cauca), noroeste do Equador.
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B. sanctaecrucis Hoge, 1966 yoperojobobo pintada, yoperojobobo venenosa, jobobo venenosa (Bolívia) Bolívia, nas terras baixas amazônicas dos departamentos de El Beni e Santa Cruz.
B. sazimai Barbo, Gasparini, Almeida, Zaher, Grazziotin, Gusmão, Ferrarini & Sawaya, 2016 Jararaca-dos-franceses Ilha dos Franceses, Espírito Santo, Brasil
B. sonene Carrasco, Grazziotin, Santa Cruz-Farfán, Koch, Ochoa, Scrocchi, Leynaud & Chaparro, 2019 Madre de Dios, Peru
Image B. taeniatus Wagler, 1824 Comboia, japoboia, jararaca-cinza, jararaca-cinzenta, jararaca-estrela, jararaca-musgo Amplamente distribuída nas florestas equatoriais da América do Sul, ocorrendo no Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Brasil, Peru e Bolívia.
Image B. venezuelensis Sandner-Montilla, 1952 Tigra-mariposa, barriga-morado, terciopelo, rabo-candela (Venezuela) Norte e centro da Venezuela, incluindo a Cordillera de la Costa e os estados de Aragua, Carabobo, Distrito Federal da Venezuela, Miranda, Mérida, Trujillo, Lara, Falcón, Yaracuy e Sucre
T. Espécie-tipo

?Bothrops ayerbei Folleco-Fernández, 2010 e Bothrops rhomboatus García, 1896, são um nome não disponível e um nomen dubium, respectivamente[15]


O cladograma abaixo é baseado nas análises moleculares de Wuster et al (2002)[16], Carrasco et al. (2012)[17], Carrasco et al (2023)[18]:

Bothrocophias

 incertae sedis 

Bothrops medusa

Bothrops lojanus

Bothrops andianus

Bothrops

Bothrops pictus

 gr. alternatus 

Bothrops ammodytoides

Bothrops cotiara

Bothrops fonsecai

Bothrops itapetiningae

Bothrops alternatus

Bothrops jonathani

Bothrops jabrensis

Bothrops monsignifer

  gr. jararaca 

Bothrops alcatraz

Bothrops germanoi

Bothrops insularis

Bothrops jararaca

Bothrops otavioi

Bothrops sazimai

 gr. neuwiedi 

Bothrops erythromelas

Bothrops lutzi

Bothrops marmoratus

Bothrops neuwiedi

Bothrops mattogrossensis

Bothrops diporus

Bothrops pubescens

Bothrops pauloensis

Bothrops sonene

Bothrops venezuelensis

 gr. taeniatus 

Bothrops chloromelas

Bothrops oligolepis

Bothrops pulcher

Bothrops bilineatus

Bothrops taeniatus

 gr. jararacussu 

Bothrops sanctaecrucis

Bothrops brazili

Bothrops oligobalius

Bothrops jararacussu

Bothrops muriciensis

Bothrops pirajai

Bothrops barnetti

  gr. osbornei 

Bothrops osbornei

Bothrops punctatus

 gr. atrox 

Bothrops caribbaeus

Bothrops lanceolatus

Bothrops asper

Bothrops moojeni

Bothrops leucurus

Bothrops atrox

Bothrops marajoensis

Descrição

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Possuem numerosas escamas pequenas na coroa da cabeça de proporção e formatos variados, incluindo diversas escamas quilhadas na região frontal. As escamas frontais são planas ou viradas lateralmente, sendo mais longas do que largas; a borda da cavidade da fosseta loreal suavemente curvada. O número de escamas interorbitais (ao redor do olho) varia entre 3 a 14. Usualmente, ao redor da boca estão presentes entre 7 e 11 escamas supralabiais e entre 9 e 11 escamas sublabiais.

Ao longo do corpo possuem entre 21 a 29 fileiras de escamas dorsais tipicamente quilhadas e não tuberculares; de 139 a 240 escamas ventrais e 30 a 86 escamas subcaudais geralmente divididas, com espinho terminal simples. Variações nos números e disposição de escamas dentro de uma mesma espécie são frequentes.[1][19][20]

A coloração base das escamas é geralmente marrom ou cinza. A maioria das espécies apresenta marcas trapezoidais ou triangulares marrom-escuras com bordas claras em ambos os lados das costas, com suas bases largas voltadas para baixo, apontando para o ventre. As marcas podem se encontrar em seus pontos no meio das dorso, criando um padrão em forma de "X" bastante marcante, ou podem estar parcial ou completamente deslocadas umas das outras. Na cauda, ​​esse padrão geralmente se torna cada vez mais estreito e consiste principalmente em linhas cinza-claras sobre um fundo escuro. Algumas espécies diferem disso, exibindo marcas mais intensas e contrastantes, além de listras marcantes na cabeça (faixa pós-ocular).

Hemipênis

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O hemipênis evertido de Bothrops é bilobado com comprimento de 8-11 escamas subcaudais na maioria das espécies, onde o sulco espermático se bifurca próximo à base do órgão e segue até o topo de cada lóbulo. O formato dos lóbulos varia entre subcilíndrico (em B. atrox, B. alternatus) e moderadamente atenuado (B. asper, no complexo B. neuwiedi) ou fortemente atenuado (B. brazili), apresentando espinhos concentrados na metade proximal e cálices com microornamentações variáveis (papiladas, espinuladas ou cristadas) na porção distal. Em B. alternatus e espécies relacionadas o órgão apresenta uma base excepcionalmente longa, se dividindo ao nível da subcaudal 7-8, com bifurcação tardia e um sulco basal lateral liso.[1]

Comprimento

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As víboras do gênero Bothrops variam no porte, de relativamente esbeltas a robustas; as menores espécies medem entre 30-70cm enquanto as maiores atingem próximo de 2.5m no comprimento total (incluindo a cauda). Exibem claro dimorfismo sexual, onde as fêmeas são maiores e mais pesadas que os machos[21].

Distribuição geográfica e habitat

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Víboras do gênero Bothrops habitam amplamente a parte austral e central do continente americano, ocorrendo da Argentina ao sul do México. Além do continente, algumas espécies ocorrem em ilhas ao longo da costa atlântica, como em Santa Lúcia e Martinica das Antilhas e na ilhas de Queimada Grande, Alcatrazes, Franceses, Vitória, Moela e Ilha de Santa Catarina no litoral do Brasil, nos estados de São Paulo e Espírito Santo e Santa Catarina respectivamente. Os membros deste gênero incluem muitas espécies euritópicas que ocupam uma ampla gama de habitats desde regiões secas ao nível do mar á florestas nubladas localizadas a 2.500m de altitude, além de áreas antropizadas. No entanto, a maioria das espécies de Bothrops ocorre primariamente em planícies com altitudes de até 1.500 metros acima do nível do mar.[1]

Comportamento

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Bothrops são serpentes tipicamente noturnas, como os demais viperídeos, embora haja algumas espécies diurnas nas altas altitudes e regiões insulares. São primariamente terrestres, com algumas espécies semi-arbóricolas, principalmente na fase juvenil. Espécies essencialmente arborícolas incluem B. bilineatus, B. chloromelas, B. pulcher, B. taeniatus e B. insularis.[1]

Relacionamento com seres humanos

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Peçonha e epidemiologia

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As espécies de Bothrops são responsáveis pela maioria dos acidentes ofídicos nas Américas, assim como pela alta mortalidade decorrente do envenenamento. As espécies mais representativas são B. asper (América Central e norte da América do Sul), B. atrox (Norte da América do Sul, na região amazônica) e B. jararaca (centro-sul do continente).

A peçonha deste gênero apresenta forte ação proteolítica, coagulante e citotóxica. A região da picada apresenta dor e edema, por vezes acompanhado de manchas arroxeadas (equimose) e sangramento local, gengival, mucosas e em casos tardios, ocorre necrose tecidual. Outros sintomas incluem dor intensa, tontura, náusea, vômitos. Complicações frequentes incluem comprometimento do membro afetado e, em último caso, amputação. Em casos mais graves, a morte ocorre por hipotensão provocada pela hipovolemia e falência renal. O tratamento do acidente é realizado mediante a administração de soro imunobiológico antibotrópico.

Uso medicinal

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A partir de estudos do farmacologista Sérgio Henrique Ferreira, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, São Paulo, com proteínas da peçonha de Bothrops jararaca, foi desenvolvido o Captopril, um dos medicamentos mais utilizados para tratamento de hipertensão.

Ver também

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Referências

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  1. 1 2 3 4 5 6 Campbell, Jonathan A.; Lamar, William W. (2004). The venomous reptiles of the Western Hemisphere. Col: Comstock books in herpetology. Ithaca: Comstock Pub. Associates. p. 334. ISBN 978-0-8014-4141-7
  2. 1 2 McDiarmid RW, Campbell JA, Touré T. 1999. Snake Species of the World: A Taxonomic and Geographic Reference, vol. 1. Herpetologists' League. 511 pp. ISBN 1-893777-00-6(series). ISBN 1-893777-01-4(volume)
  3. 1 2 3 «Bothrops» (em inglês). ITIS (www.itis.gov)
  4. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.983
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  6. Amaral, Afrânio do (1973). «Ofionimia Amerindia na Ofiologia Brasiliense. Mem. Inst. Butantan, 37: 1-15, 1973.» (PDF). Memórias do Instituto Butantan. 37 (37): 1-15 via Biblioteca Digital do Butantan
  7. Wagler, J. 1824: Serpentum Brasiliensium species novae, ou histoire naturelle des espèces nouvelles de serpens. In: Jean de Spix, Animalia nova sive species novae. Natrix bahiensis: 27, Monaco, Typis Franc. Seraph. Hübschmanni, vii + 75 pp.
  8. CASTOE, T.A.; PARKINSON, C.L. (2006). «Bayesian mixed models and the phylogeny of pitvipers (Viperidae: Serpentes)». Molecular Phylogenetics and Evolution. 39: 91–110
  9. FENWICK, A.M.; GUTBERLET, R.L.; EVANS, J.A.; PARKINSON, C.L. (2009). «Morphological and molecular evidence for phylogeny and classification of South American pitvipers, genera Bothrops, Bothriopsis, and Bothrocophias (Serpentes: Viperidae)». Zoological Journal of the Linnean Society. 156 (3): 617-640
  10. CARRASCO, P.A.; LEYNAUD, G.C.; SCROCCHI, G.J. (2010). «Redescription of the southernmost snake species, Bothrops ammodytoides (Serpentes: Viperidae: Crota-linae)». Amphibia–Reptilia. 31: 323–338
  11. CARRASCO, P.A.; MATTONI, C.I.; LEYNAUD, G.C.; SCROCCHI, G.J. (2012). «Morphology, Phylogeny and taxonomy of South American bothropoid pitvipers (Serpentes, Viperidae)». Zoologica Scripta. 41: 1–15
  12. V. Xavier da Silva: The Bothrops neuwiedi Complex. In: Jonathan A. Campbell, William W. Lamar: The Venomous Reptiles of the Western Hemisphere. Comstock, Ithaca/London 2004, S. 410–422.
  13. Silva, V. X. da; Rodrigues, M. T.: Taxonomic revision of the Bothrops neuwiedi complex (Serpentes, Viperidae) with description of a new species. In: Phyllomedusa. Band 7, Nr. 1, 2008, S. 45–90 ([Predefinição:ReptileDatabase)
  14. 1 2 3 «Search results | The Reptile Database». reptile-database.reptarium.cz. Consultado em 12 de fevereiro de 2026
  15. Ramírez-Chaves, Héctor E.; Solari, Sergio (junho de 2014). «Bothrops ayerbei FOLLECO-FERNÁNDEZ, 2010 Y Bothrops rhomboatus GARCÍA, 1896 (SERPENTES: VIPERIDAE) SON UN NOMBRE NO DISPONIBLE Y UN NOMEN DUBIUM, RESPECTIVAMENTE». Boletín Científico. Centro de Museos. Museo de Historia Natural (em espanhol) (1): 138–141. ISSN 0123-3068. Consultado em 12 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 9 de julho de 2020
  16. W. Wüster, M. G. Salomão, J. A. Quijada-Mascareñas, R. S. Thorpe, B. B. B. S. P: Origin and evolution of the South American pitviper fauna: evidence from mitochondrial DNA sequence analysis. In: G. W. Schuett, M. Höggren, M. E. Douglas, H. W. Greene (Hrsg.): Biology of the Vipers. Eagle Mountain Publishing, Eagle Mountain, Utah, 2002, S. 111–128.
  17. "Phylogeny, taxonomy and distribution of South American bothropoid pitvipers (Serpentes, Viperidae, Crotalinae), with nomenclatural implications". Zootaxa, 3557(1), 57-68
  18. Carrasco, P., Scrocchi, G. J., Recco-Pimentel, S. M., & Venegas, P. J. (2023). "Total‐evidence phylogeny and evolutionary morphology of New World pitvipers (Serpentes: Viperidae: Crotalinae)". Cladistics, 39(2), 71-100.
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  20. Brattstrom, Bayard H (1964). «Evolution of the pit vipers». Transactions of the San Diego Society of Natural History. 13: 185–268. ISSN 0080-5947. doi:10.5962/bhl.part.9599
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Bothrops moojeni
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Bothrops erythromelas
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Bothrops bilineatus
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Bothrops oligobalius
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Bothrops asper
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Bothrops sanctaecrucis
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Bothrops pubescens
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Bothrops osbornei

Ligações externas

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