O profundo desgosto que sinto, quotidianamente e completamente desumano, ao sair de casa e olhar para a indigência mental, cultural, social, ambiental – de sujidade inqualificável - do Largo de Camões, para não falar dos ruídos estridentes no Largo do Chiado e nas manifestações impróprias e barracas indigentes ao ar livre, apenas encontra um adequado relato nas palavras de António Mega Ferreira.
A saber:
“Só regressei a Pompeia mutos anos depois, nos anos finais do século passado. O sítio «disneylandizara-se»: para aproveitar a massificação do turismo favorecida pela redes industriais low-cost, a administração dos beni culturali italianos transformara Pompeia numa espécie de parque temático do Império romano, cuja porta de entrada, a Porta Marina, se encontrava sitiada por barracas de souvenirs, roulottes que vendiam panini e refrigerantes, vendedores ambulantes e guias de ocasião, autocarros de turismo e automóveis de aluguer, tudo numa algazarra que, aos meus ouvidos formatados para o silêncio dominante de vinte anos antes, me pareceu uma feira invadida por hordas de turistas sequiosos de qualquer coisa (não há pior que um turista sequioso de qualquer coisa, que se traduz, normalmente numa fotografia desenquadrada), andando de um lado para outro, olhando para tudo e não vendo nada, obstruindo o caminho e trocando dichotes em alegre gritaria. Pompeia já não era o que fora.”
Ora, o residente ficar confinado a sair de casa entre as 9.00 e às 10.00 horas, para encontrar o centro da capital de um país, num sossego aceitável, não me parece, DE TODO, saudável.
Contrariamente a umas promoções de uma espécie
de MAGAZINS, utilizando uma falsa diversidade das cidades, especificamente
Lisboa, para apoiar manifestações culturais – normalmente indigentes, ruidosas
e até escabrosas no centro da cidade – não parece, sequer, que o seu “logo” represente a
cidade. Um friso de energúmenos sem graça, nenhum dos facinórios encontra
alguma parecença com um residente REAL, NORMAL. Qual a intenção, o propósito para além da degradação ?
No fundo é a negação da cidade para os residentes, promovendo as actividades dos prevaricadores como o fim último da existência, abrindo o espaço a manifestações sem critério, nem regra.
É também por isso, que os direitos dos residentes – ao sossego e à sua identidade – não costumam fazer parte das notícias.
Infelizmente sinais do tempo.
