28 de dez. de 2009

defectiva

não
não me falta o verbo

falta-me a vontade
de conjugá-lo

26 de dez. de 2009

humanidades

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mais uma vez

minha alma oscila: - entre céu e inferno
doçuras e amargores

- descrenças e esperanças, delícias e dores

mais uma vez

agradeço a meu Deus por sua humanidade
- e pela minha

22 de dez. de 2009

feliz! feliz! feliz!!!

feliz! feliz! feliz!!!
que seja o seu Natal!

Cora Coralina

19 de dez. de 2009

tsurus de papel

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íbis caminha sobre as águas
aves raras, não as vemos

aves cinzentas proliferam

deixam mais cinza o asfalto
e o céu, já encoberto de fumaça

em algum lugar
um rouxinol se esconde

um colibri insiste e faz seu ninho
em um arranha-céu

andorinhas outra vez fazem verão

tsurus de papel sinalizam:
ainda há esperança

*Depois de ler Gisele e Henrique, me lembrei deste poema.

17 de dez. de 2009

milagre

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Polly Wreford

nasceu
de goiaba um pé

entre o tijolo do muro
e o concreto
do chão do meu quintal

cresceu

nele meu cão se abriga
do calor do verão

único verde
a humanizar do cinza
a aridez — milagre

de passarinho

15 de dez. de 2009

estio

pousa tão leve
borboleta amarela
o sol nas asas

águas do céu dão trégua
quem tiver asas, voe...

Tem um poema meu hoje, no POESIA DIVERSA. Obrigada, Hilton!

14 de dez. de 2009

mal ou bem - dito

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hoje eu não tinha mesmo nada a dizer

busco palavras - onde as encontro? todas tão gastas, puídas, todas
tão - sinônimas

manifesto verbal ou escrito. fonemas sem nexo, vocábulos. busco
articulado som. onde?

o silêncio se impõe. o silêncio é estado de quem se cala. a ausência
é estado de não presença

o estado é modo de estar ou ser. unidade dividida. falada língua. mãe
nação. onde?

soberania - extensão considerável. lagos, rios, solos – o chão. baias
geografias

geo - metrias, centrias, fasias – engulo terra. vomito palavras. tantas
jogo sujo. onde?

salvos pelo verbo, campo minado – território sitiado: minha pátria
língua. derrotado silêncio

quando não se tem o que calar, melhor falar. fica assim então o dito
pelo não. ou quase - mal ou bem. dito

12 de dez. de 2009

velhas árvores

observando a velha árvore pude ver tão claro (manifesto)
que ela tem corpo e alma (como tudo que vive)

tronco (matéria) que se eleva rumo ao infinito (sol)
galhos (braços) que se estendem sobre a avenida (vida)

e a alma
sob

(raiz)

10 de dez. de 2009

improvável sol

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wishful-thinking


o pássaro que mora em mim insiste e canta
pressentindo sóis

nascentes

tolo, não se deu conta ainda, de que a noite
abissal em que vive

nunca amanhece

8 de dez. de 2009

um texto de Sylvia Plath

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E quando finalmente você encontra alguém a quem sente poder derramar sua alma, você pára, em choque, sem palavras - estão tão enferrujadas, tão feias, tão sem sentido e frágeis, por terem sido guardadas no escuro, pequenas, sufocadas dentro de você por tanto tempo.
Sylvia Plath

6 de dez. de 2009

contexta-me

Contextar = alguma coisa entre a contestação
e a necessidade de compreender o contexto.
Nina Castro

poetiza-me palavra
sentimenta-me
volátil
transfigura-me

sonoriza-me palavra
metrifica-me
rítmica
encadeia-me

expressa-me palavra
verbaliza-me
criativa
extrapola-me

contexta-me palavra
versa-me
fática
transcende-me

5 de dez. de 2009

overmundianas I

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boy-with-elephant - Vintage Photographs

elefantes azuis

o tempo não pára mesmo. ele não tem mais jeito. desandou a correr, ultimamente. desembestou. estouro de boiada. manada
__ de elefantes azuis

lava que escoa. corredeira. maremoto. cachoeira. avalanche. batedeira
__desertos

nós, surfistas sobre ondas instáveis. cabelo parafina, pele dourada
__sob o sol que agoniza

nós, turistas num safári no Quênia. sobrevoando baixo, sobre a boca vermelha
__de algum vulcão

escalando Everests, enfrentando Saaras, tempestades de areia
__insolação

ao longe a vida: miragem. oásis
__onde?

2 de dez. de 2009

assim

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Shoes - Matthew Darkins

menina, levanta!
ordenou-me a poesia

(me segurando pela mão)

levantei-me
e me pus a caminhar

30 de nov. de 2009

o pássaro

o pássaro
com seus olhos de céu
----.---.---.---..me olha
buscando em mim
as asas
-.-.---que já não tenho

28 de nov. de 2009

o vento

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Enjoy the Wind - Floriana Barbu

o vento

so
pra da minha mão
a folha de papel

o vento


veio me dizer
que ninguém está

27 de nov. de 2009

palabares

dançam

em nossas mãos
palavras

desafiando

o frágil equilíbrio
do sentido

no limiar

entre silêncio
e som

entre música
e ruído

25 de nov. de 2009

dois haicais de lírica

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1.
papel de seda
palavras mágicas
música de passarinho

2.
em dia de verão
canta o canarinho
na varanda do sonho

*Hilton Valeriano publicou hoje alguns textos meus no Poesia Diversa, um blog de divulgação da poesia brasileira em sua diversidade, que com certeza vale a pena conhecer. Obrigada Hilton!

22 de nov. de 2009

das dores do poeta

--- ((para o poeta Julio Rodrigues Correia)

o poeta está triste

pesam-lhe sobre os ombros
as dores do seu povo

e a insensatez do seu tempo

na sua humanidade, o poeta
— que não crê

transcende e toca o céu

olhando a cidade

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'Man with Guitar, Paris' by John Cuthbertson

19 de nov. de 2009

eu e a cidade

---- (para o poeta da cidade que desaparece)

sempre
-------andei pela cidade
me sentindo invisível

agora
------que ela desaparece
encontrei meu lugar

finalmente-posso tocá-la

uma fresta

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Andrei Baciu

18 de nov. de 2009

clarão

pequeno - meu horizonte - tão limitado
- (uma fresta)
mas nele cabe - (imenso) - o mesmo sol
- que aquece
e tinge - (de vermelho) - a terra inteira

17 de nov. de 2009

o mesmo céu

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H. Armstrong Roberts - gettyimages

16 de nov. de 2009

...

chuva e escuridão
o mesmo céu da infância
... sem lamparinas

14 de nov. de 2009

dos sentires do tempo - III

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Venus at Antique Mall in Powell, Ohio Matt McCaw

há um tempo na vida em que o melhor lugar
é o colo.
depressa vem o tempo da rua. intenso, breve
ele passa.
chega o tempo da casa. doce que parece ser
eterno.
— não é
chega enfim (cruel) o tempo em que nada
nos comporta.
— poesia
único refúgio (meu) neste tempo absurdo
sem lugar.

13 de nov. de 2009

percussiva

tudo é preto tudo é branco
tudo é não sim

onde se esconderam as verdades
que moravam em mim?

tudo pode ser nada
nada pode não ser tudo assim

nada de poder tudo ou não
pode tudo nada tudo se danar

preta branca verdade
tudo se esconde

nada branco pode preto sim
tudo não haver danado ser onde?

sonora mentira

2.

as flores secas
os pássaros se foram

sequer há vento
a soprar as cortinas

12 de nov. de 2009

1.

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dança na janela
vermelha e branca – asa
pássaro é flor

11 de nov. de 2009

ando assim

"ventos fortíssimos por dentro
e a calma da água no pote"

by Lalo Arias

10 de nov. de 2009

cristaleira

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Paris 1964 - Lady / Window - Jon Goell

cristaleira, meu coração
prateleiras
---------------------muitas taças
vazias, translúcidas, solitárias
desparceiradas
------potes de mel, chás, aveia
gergelim,pistache
bombons, biscoitos finos
-------------------------amaretos
vinhos, absintos, licores
águas ardentes
------------------------------
litros
-------------desbotadas as cores
no solo instável em que habito
tremores constantes
-------------------a todo instante
um deles transborda
e a cristaleira tange
------------a canção dos cristais
à espera
do grande terremoto
-----que engole transparências

sonhos e cacos

9 de nov. de 2009

dois poemas de Víctor Rodríguez Núñez*

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ANTIPOEMA

A ponto de escrever
“o estado natural do homem é a tristeza”
tu te apresentastes
------------- --------- quase resplandecente

Pensava continuar
---------------- ------ “e tudo o que eu faça
será para alcançar a alegria”
e te vejo nua — como não te havia visto antes —
sardenta magríssima chorando

E talvez concluir
“o belo é a manha da morte”
para beijar teus ossos
para beijar na pele
----------------- ----- o ponto mais feliz

Tudo
---------mulher
---------------- ------ para ficar sozinho
no fim de um poema que se engana.


CRÔNICA

Talvez comer pão
esférico e dourado
depois de uma sopa lívida
com vísceras de frango.
Escovar os dentes bem devagar
garoar no espelho
com espuma de rosas e claro perfume de menta
arrumar o cabelo
a camisa e as unhas.
Descer os degrau
--------que às vezes ninguém limpa.
Subir em um ônibus que vem do inferno
cumprimentos
----avenidas
------empurrões
--------semáforos
cruzando velozmente
e chegar tarde no cinema
essa jaula com sonho e mundo retido.
E lendo o jornal
ver coisas com estas:
--------duas naves vão a Vênus
--------“a estrela d’Alva”
--------e morreu Boumediene
--------presidente da Argélia.

Depois
---provar os versos
alegres
---atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
------vagabundo.
E finalmente o filme
“retângulo amoroso
------tema social”
com Fellini e De Sica na tela.
Caminhar rua abaixo
------entre álamos adormecidos
policiais acordados na frente das embaixadas
padarias abertas
----gatos que se suicidam
três bancos solitários com cheiro fresco de sêmen
latões de lixo
sonâmbulos que bebem aguardente e silêncio
----até a madrugada.
Subir os degraus
que de vez em quando alguém limpa
-- -- encurvada
------redonda --
e trancar-se no quarto azul
----desarrumado
onde escrevo e transcorro.
Então o amor
------e estas palavras.

*Nascido em La Habana, Cuba - 1955. Poeta, jornalista, crítico e professor de literatura hispânica em Kenyon College. Alguns de seus livros: Con raro olor a mundo (Premio David, 1981), Noticiario del solo (Premio Plural, 1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), El último a la feria (Premio EDUCA, 1995) y Oración inconclusa (Premio Renacimiento, 2000).

7 de nov. de 2009

in memoriam

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jon goell - 1964

meus vivos meus mortos
já não os distingo

e eles me olham
com a habitual indiferença

mais um porta-retrato
em preto e branco

na prateleira da memória

e o pó
nas molduras

sequer
o vento sopra

faz sol e ainda é cedo

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abro meus olhos e as janelas do dia. abrirei portas.

café com pão sagrados. respiro fundo, pé na estrada. já de saída, três vira-latas na festa da rua. é muito azul e verde, a liberdade plena - há que celebrar. sinto pena do meu cão atrás das grades. sigo em frente.

um sapo - estatelado no asfalto, seco - vira pedra. um pássaro de peito amarelo e mudo - ainda é um pássaro. um bem-te-vi cinzento quase arrebenta garganta e arame farpado.

um guard-rail metálico, que violenta a mata, corre - ao lado da cicatriz de concreto. mais um passo. em pencas, a natureza - mãe - se vinga - flores vermelhas que se atiram suavizando cinzas e metais.

olho a montanha. quase encoberto por árvores imensas, velho chalé resiste. fumaça... chego ao imenso portal que dá no nada. chegadas e partidas são só pedaços. o mesmo trem, se houvesse. dou meia volta. feliz hoje retomo minha caminhada.

amanha já não sei. ninguém sabe amanhã. e a tarde quem sabe? lembro-me do sonhos da noite. apesar da lembrança que engoliu a saudade que engoliu a tristeza que quase me engoliu, a manhã está clara.

faz sol e ainda é cedo. eu, outra vez no caminho.

5 de nov. de 2009

anǐma

soprei

versos
sem alma

que andam
por aí

feito zumbis

até

que o corpo
se desfaça

ou a vida
retorne

3 de nov. de 2009

minguante

a lua era cheia
andei delirante
caí na real minguante

2 de nov. de 2009

um poema de Aramis Quintero*

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a Cesar Vallejo

Enquanto Fala

Um homem morto lá em seu pé repousa,
e com sua mão livre nos cumprimenta
enquanto a outra arranha tristemente a terra.

Como nos amou então seu cabelo.
Como nos ama agora. Quanto sente
cumprimentar-nos assim, sem o lenço.

Como nos diz agora que já volta,
que não demora, só
o que gasta para ver como está seu pessoal,
tomar café, se for o caso, e estar de volta.

Como nos diz agora que já volta, e sabe
que para nós dava no mesmo, e não sabe
como agora queríamos
que secasse sua mão, a que arranha,
e com as duas nos abraçasse, e depois
reunidos, comemos alguma coisa e olhamos
como se já não fosse embora e amanhã
voasse para Lima ou Paris. Quase o vemos
lá outra vez, amando-nos.

E, enquanto fala, cai
um distante pó de biscoitos.

* Nascido em Cuba, 1948, reside no Chile. Poeta, narrador e ensaísta, licenciado em Língua e literatura hispânica, pela Universidade de Havana.

ritual

mais cedo
que de costume

acordo

e entre ciprestes
cumpro

o ritual da saudade

o pássaro
leva nas asas

o abraço e a prece

30 de out. de 2009

espelho d’água

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Helder Afonso - Olhares

dérmicas escamas
sopradas pelo vento

barbatanas

revérbero dos peixes
e outros seres do abismo

mundo invisível
onde a luz é apenas
uma miragem

quem?
habita meus olhos
onde?
a máscara do sol

quem?

sabe dos sonhos submersos
das camadas da pele
do sal dos olhos míopes

cristalinas águas a se perder
contidas

pelas ásperas bordas do vazio

28 de out. de 2009

memória silenciosa

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Tomasz Gudzowaty - Jovem Jóquei da Mongólia

nos olhos do cavalo
- um brilho
reflexo vítreo
de sílicas epidermes
- verdes
e o cavalo galopa
- sem saber que brilha
sem saber que o pássaro
olhos de nuvem
- espia
nos seus
olhos de pássaro
- um brilho

nos olhos do menino
- faíscas
a voar dos cascos
sob a luz vermelha
- do sol
dos nossos olhos
- um flash
e o instante retido
- memória silenciosa
na prata do papel
- o verde
em preto e branco
- um brilho

27 de out. de 2009

ser enquanto ser

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gato no telhado
- tantra
cão no quintal
- quasar

sapo no mangue
- mantra
boi no pasto
- prana, paz

eu
- tanto faz

26 de out. de 2009

um poema de Abel G. Díaz*

SENTIDO

Caminho passando a língua pelo tempo
ficando sem lábios
sem mãos para pôr sobre a toalha da casa
e sem casa onde meter minha única viagem

Não levo guarda-chuva nem esparadrapo
unicamente esta noite viúva de parágrafos
estas gavetas sem vida privada
esta incursão solene e futura

Avanço até a porta
são cinco horas
despeço uma mulher

tomo a vela e rezo:
“Pai meu — digo
Pai meu, obrigado
os galos me enchem as mãos de suor
e a salvação é uma dor de cabeça cheia de pássaros,
ao centro a aspirina de teus olhos”

e digo bom dia
e que em paz descanse o que eu disse

* nascido em Morón, Cuba - 1952

24 de out. de 2009

hortelã

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chaleira antiga sobre o fogão
a água ferve

na louça branca a erva fresca
- espera

em breve vai arder e liberar
sabores e aromas

o que então era incolor e frio
- vai colorir de verde

este raminho de hortelã, ser
queria tanto


* este chá foi parar no balaio

22 de out. de 2009

aniz estrelado

aniz estrelado
tisana
adoçada com mel

perfumada estrela
semente
fruto da terra

da minha boca
o céu
adoça e ilumina

21 de out. de 2009

nydianas

Convido vocês a conhecer as NYDIANAS.

19 de out. de 2009

dois poemas de Romério Rômulo

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abertura, 1*

1. é louco ser solene.
é lúcido ser louco!

2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.

3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.

4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!

5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!

6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.

*do livro “Per Augusto & Machina”, que acaba de ser lançado.


para renata**

eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã, fel em mim,
entope minhas veias.

quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.

**um dos poemas de Romério que mais gosto, dedicado à poeta Renata Nassif

"Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. Com a coragem dos que querem aquela lucidez, não trapaceia com a realidade". Trecho do prefácio de Augusto & Machina, por Maria da Conceição Paranhos.

17 de out. de 2009

...

queria fazer
um poema feliz

queria
- um poema feliz

um poema feliz
um poema

- não fiz

16 de out. de 2009

um poema de Mario Benedetti



Papel Mojado

Con ríos
con sangre
con lluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado

Mario Benedetti

15 de out. de 2009

atávico

em nossos olhos - brilhos - dos primeiros sóis - nascentes
delírios - da primeira lua – maré cheia

quando vier o último dos sóis – poente e a lua decrescente
no céu de faz de conta que em contas se desfaz

fundo azul - tatuagem ancestral - cristalinas águas - sal
atávico - além do véu do tempo - o brilho

13 de out. de 2009

do sentimento das coisas

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Alex Axon

I - O POÇO

Lá fora a noite
é um poço antigo quase
- estéril.

Os limos secos agarram-se às paredes
que de tão cansadas e esquecidas
- desmancham.

Nas poucas águas que restaram
refletidas luas e estrelas – azuis
- lembranças.

As cordas - por um fio - ainda tangem
a canção secular do atrito das roldanas
- lamentos.

Tremem ao toque das mãos rudes - vento
e à visão dos lábios e dos olhos
- sedentos.

Lá fora a noite
é um poço louco que delira
- e transborda.

12 de out. de 2009

um poema de Alex Fleites

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Danusia Necula - Foto Jurnal

A Dois Espaços

Nada é meu, nem mesmo a parábola do vento.
Como outros reúnem estrelas, caracóis,
juntei palavras que outros inventaram
para estar depois do sono e da vigília.
Assim entrei pela palavra porta
buscando de minha mãe o intrincado coração
e ali fiquei agachado,
deixando-me ir na maré de seu sangue.

Janela e amor me conduziram
à abismal tristeza desta mulher de respiração cansada
que espera de meus versos sabe-se lá que milagres.

Com a palavra canção menti com ternura aos amigos,
contei histórias de moças
que me chamavam na chuva,
quando na realidade era a combustão do vento
entre galhos.

Em papel almaço, a dois espaços,
durante anos armazenei
verazes notícias incríveis
e sonhos irrealizáveis que acontecem todos os dias.

Por isso é bom ir arrumando manuscritos,
deixar claro que porta serve, no máximo,
para tocar o coração da casa,
e que amor e janela existem para que a gente veja,
entre outras coisas,
como se afasta esta mulher com minha bagagem,
tal como se eu mesmo me afastasse.

Juntar palavras é um delito nobre.
Se fosse minha a parábola do vento
poderia hoje mesmo começar um grande poema.

Alex Fleites, 1954

11 de out. de 2009

do fim, da linha

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linha
tece bordado fino
sutura
ferida aberta
prumo
nas mãos do pedreiro
trilho
onde corre o trem
pipa
nas mãos do menino
traço
na folha de papel
destino
na palma da mão
vertigem
no cirque du soleil
trilha
por onde anda o verso
rumo
no mapa do céu
e tudo
sempre chega
nada
ao fim da linha

9 de out. de 2009

presente

no momento que passa, um presente
de valor inestimável

pacote embrulhado em papel fino
cordão dourado

laço de fita que se desfaz
ao ser tocado

8 de out. de 2009

um poema de Reina Maria Rodríguez*

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A Ponto
a ponto de escrever
"o estado natural do homem é a tristeza"
tu apareceste

Victor Rodriguez Nuñez - poeta cubano

A ponto de parir meu terceiro filho
olho meu mamilo escuro
e a pele tensa do ventre.
a ponto de cumprir 28 anos
alguns homens -- suas histórias
com medo da esperança
como tantas vezes
faço lista de preços
compro mapas -- seus acordes o tempo
lugares onde amar
busco uma casinha os pães no forno
e o amor.
a ponto de perder-me no quadro de alguma exposição
que nunca sonhei
e ficar imóvel
somente olhando para você
me abandono nos parques com o guarda-chuva
tão verde.
as formigas sobem outra vez ao coração
e me apaixono
por teus olhos caramelo quebrado.

Perco os dias
na estrada de San Francisco encruzilhada
buscando uma liteira
onde encontrar-te.
a ponto de perder a loucura
espero um telefone público
onde soam tuas palavras
entrecortadas sem graça monossilábicas
que caçoam da distância
enquanto eu faço os minutos.
a ponto de assaltar as pequenas ratoeiras
onde o amor dormiu
e crescer definitivamente
com meus monstros joviais.

Eu te amando
é junho
e vovó trouxe melaço em folhas de laranja.
como nos tempos pequenos
me deixou a boca doce.
já não sou o quebra-cabeça de teu livro de histórias
pode tocar-me
tenho a carne morna
e o demônio azul de uma mulher.
esta noite chove não há notícia
e voltaram outra vez os cupins
a queimar suas asinhas para sempre.

*Reina Maria Rodríguez - Poeta Cubana

6 de out. de 2009

sentidos

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The Bird Watcher's Muse (collage art print)
Stiletto Heights

o pássaro
dos sete cantos
voa
com suas sete asas
- e sob a luz do sol
cintila
em suas sete cores
reflexas
- eu
com meus parcos
sextos
e outros primitivos
sentidos
- jamais
pude alcançar
o sétimo som
- sequer
voar além do básico
sexto céu
- no horizonte
raso
dos meus pares
- vermelho
ainda não surgiu
o sétimo sol
- silencioso e branco
o pássaro
em minhas mãos
espera

5 de out. de 2009

estigma

do amor inventado
arranca a pele
e sopra

- dói

mas se refaz

em amor de verdade
refeito em pele
nova

- viva

ou

- cicatriza

a solidão em paz

4 de out. de 2009

são francisco

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Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
E o Deus menino
Tão pobrezinho
Leva comida
Pros passarinhos


Vinícius de Moraes/Paulo Soledade

3 de out. de 2009

antologia bloética: poemas e poetas

Antologia Bloética é uma página que se propôs a compilar poetas que divulgam exclusivamente seus poemas em blog. Autores que possuem obras publicadas em livro, mas que também publicam na blogosfera, poderão ter seus poemas selecionados. Todos convidados a conhecer o blog dos "bloetas", aqui.

2 de out. de 2009

néctar

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Lost In Words - Stiletto Heights

poesia
flor de primavera

nós
ávidos beija-flores

1 de out. de 2009

diversos e afins

Acaba de sair uma nova leva do Diversos e Afins, um espaço super especial, onde Leila Andrade e Fabrício Brandão, em palavras, imagens e outros tantos signos, fazem um belo trabalho. Tem um poema meu lá, hoje. Apareçam. Serão todos muito bem vindos.

30 de set. de 2009

galeria stiletto heights

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8 - Stiletto Heights

29 de set. de 2009

dos gritos, dos silêncios

gritam
silêncios
antigos
querem
ser
ouvidos
pobres
não
sabem
que já
não há
palavras
pois já
não há
ouvidos

um poema de abdur rahman

A sorte é como um oleiro — molda e quebra
Muitos, como você e eu, ela criou e destruiu.

*Abdur Rahman, poeta afegão

27 de set. de 2009

foz

por favor não me venha, com teus olhos de mar
que meus olhos de rio vão querer desaguar
nestes olhos de amar

26 de set. de 2009

grous

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crase
me contraio em vogais

com(n)_ fusão de dois
a(i)s

asas são duas – opostas
eqüidistantes

ases são poucos
e loucos

frases são gruas
e voam

fases são bandos
de grous

migração em V.
flutuam

ritual da paixão
dançam

tsurus humanos

25 de set. de 2009

"landays" de sayd bahodine majrouh

Ontem à noite estive com o meu amado
uma noite de amor que não se repetirá.

Como um guizo, com todas as minhas jóias
tini em seus braços até ao fundo da noite.

Meu amor, para lá das montanhas, contempla a lua
e verás que te espero, de pé, sobre o telhado.

Dá-me a tua mão, amor, vamos para os campos
para nos amarmos ou cairmos juntos apunhalados.

Pousa a tua boca na minha
mas deixa a minha língua livre para te falar de amor.

Amanhã os famintos do meu amor serão satisfeitos
porque quero atravessar a aldeia com o rosto descoberto e os cabelos ao vento.

Os poemas (landays) foram recolhidos por Sayd Bahodine Majrouh, poeta afegão e traduzidos por Ana Hatherly. O livro se chama O Suicídio e o Canto (A Voz Secreta das Mulheres Afegãs), publicado pela Cavalo de Ferro. Ousados, curtíssimos e brutais, permitem traçar o perfil da mulher afegã, que apesar dos riscos, canta o desespero, a paixão, o despeito, num canto puro e belo.

24 de set. de 2009

o grilo, a gota

há dias - muitos
em que
a minha poesia
tem a força de um grilo

e a fúria de uma gota

grilo
que já não pode cantar
g
o
t
a
prestes a despencar

a minha poesia agoniza

23 de set. de 2009

um poema de sherko bekas




Tenho pousado o ouvido sobre o coração
da terra.

Tenho falado de amor, do seu amor
pela chuva,

à terra.


*Sherko Bekas, poeta da resistência curda.

22 de set. de 2009

o jardim de um estranho

Meu coração é como uma criança: ele chora e exige
flores do jardim de um estranho.

Poeta afegão
*Minha Guerra Particular - Masuda Sultan

havia um sol

Image
Mississippi Queen - Stiletto Heights

no mar do tempo
somos barcos

olhos no horizonte
que não se vê

coração ancorado
no cais que se desfez

entre brumas espessas
a viagem

na memória ancestral
havia um sol

por ele navegamos

20 de set. de 2009

um poema de julio rodrigues correia

POEMA QUASE ADEUS PARA UM RIACHO

No ciclo de minha infância
havia um riacho de águas
claras e piscosas
que serpenteava
pelo ventre da cidade
e chegava impávido ao rio.
Dele o peixe sadio
nos almôços de sábado
nele o banho suave
nas manhãs dominicais.
Um dia chegaram os homens
com seus apetrechos
de fúria e ganância,
( agentes da destruição)
toldaram as águas
sufocaram cardumes
apodreceram suas margens.

E o riacho de minha infância
hoje está assoreado e morto
mas ainda corre
límpido e soberano
nos labirintos de minha memória.

Julio Rodrigues Correia, jornalista, sociólogo e poeta, Publicou quatro livros: "No Silêncio das Horas", "A Hora Noturna", poesias, " Crônicas Sem Tempo",crônicas e "A Ceia dos Imorais", teatro. Prepara o lançamento de "Degraus do Silêncio". Atualmente reside na cidade de Fortaleza,Ce.

Em minha opinião, Julio é um dos nossos mais brilhantes poetas contemporâneos. Mantém o blog acroatico, onde publica sua magnífica poesia.

Hoje foi o dia das surpresas. Julio me dedicou este poema, Cirandeira e Gisele - Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, publicaram dois textos meus em seus blogs. Convido vocês a conhecerem estes três espaços, todos muito especiais.

19 de set. de 2009

culpa

atropelei um pássaro na rua hoje
e ele era branco
- doeu em mim

pedi perdão à natureza

ela me respondeu, num vento
ameno
- me isentando de culpa

continua doendo mesmo assim

crepúsculo

olhando as cidades, percebendo as trevas*

não terão de mim mais
que meus parcos [par c’os]
versos [universos]

que escapam

pela fenda [senda] dos olhos
pelo corte [sorte?] no peito
feito à lança

[perfume]

diante das dores
pusilânimes e intensas
da cidade que grita [late]

e agoniza

crepúsculo escarlate
do fim da raça [caça]
do que um dia julgamos

fosse [fosso] humano

* depois de ler: Dark Age Ahead de Jane Jacobs

17 de set. de 2009

retinas de sonhar

que faço eu com esta brisa tardia, que chegou de repente e soprou meus cabelos que querem se enlaçar. ela contou segredos aos meus dedos - agora em busca da trama colorida de outras mãos. brisa quente, trouxe calores à minha pele branca - que insiste em viver de rubores. brisa suave, tocou meus olhos, agora madrepérolas, translúcidas e ávidas - retinas de sonhar. e ao meu coração, revelou os mistérios, do renascer das cinzas - pássaro enlouquecido que só pensa em voar.

Obs: meu aniversário é só na próxima semana, mas ganhei dois presentes adiantados:
de Cecile - Poesia Nômade

flor do sol

no meu quintal
um girassol
- um só
e ele gira
gira
em busca do sol
- é único
mas não é só
o sol lhe basta
- é sina
de girassol
- me ensina
girassol
a não ser só
baste-me o sol
- e a vida
enquanto
houver o sol
- e a vida

15 de set. de 2009

do sol do rio

Image
WangNong_MistyWhereRiverTurns_L

Havia um rio
na minha infância.
Ainda há.

Corre lento agora.
Posso ouvi-lo cantar.

Segredos
que já não mais
podemos decifrar.

E quando eu já não for
ele ainda será.

Até
que o sol esfrie
ou arrebente.

imensos tantos

Imensos
os caminhos - tantos.
E levam.
Só não sei se chegam.

14 de set. de 2009

outro poema de marina tsvétaïeva

À Vida

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.

1924
Tradução de Haroldo de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985


À Vida

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel

Árabe

1924
Tradução de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985

13 de set. de 2009

fach

quem me vê cantar, não sabe - do tom grave do meu olhar sobre a vida. dos agudos, das descabidas aflições, dos semitons cromáticos - não sabe. do cansaço vocal, das dissonâncias extremas, da rouquidão antiga. das asperezas da garganta, do gengibre mascado, do coração desafinado, do mel - não sabe. sabe só, da melodia que escapa, pela fresta do verso - semi-aberta janela - única. onde tudo mais é silêncio.

Fach: A classificação alemã em "fach", foi criada pelas casas de ópera da Alemanha para definir estritamente os papéis aos quais um cantor poderia se dedicar, sendo assim mais que uma categoria de voz, mas também de repertório.

12 de set. de 2009

amorados

quero escrever
um poema vermelho
vindo
não do meu velho
coração
vermelho sangu
e
mas
dos meus dedos
manchados
da minha língua
rubra
dos meus olhos
molhados
que
de tanto
colher comer olhar
amoras
amorados estão

11 de set. de 2009

do que cantamos

poeta de verdade, não canta
a penas
suas próprias dores

canta as dores do mundo
e segue
acreditando na impossível cura

10 de set. de 2009

dos fazeres poéticos

Estava trabalhando nas provas de um de meus poemas quando resolvi tirar uma das vírgulas, mas à tarde voltei e a coloquei de volta.

Oscar Wilde

9 de set. de 2009

solo

Image
solo som, solo chão
solo solidão

juntei
todos estes solos
e fiz
da vida uma canção

rebento solitário
que um dia
flor
será tocada

8 de set. de 2009

e por falar em setembros

me lembrei deste poema que fiz ano passado, nesta mesma época:

cinzas

a vida é mesmo rara
ave que canta breve
e logo voa

dente de leão
soprado pelo vento
bolha de sabão

fagulha de fogueira
cinzas nos olhos
depois do incêndio

bolhas que ardem
em nossas mãos vazias
de primaveras

poema publicado no Full of Crow

7 de set. de 2009

setembros tantos

os cães das horas uivam
prestes
a devorar mais um setembro

antes

deixem-me agradecer
por tudo
por todos, por tantos

agora sim, soltem os cães

6 de set. de 2009

do-in

Image

meus pés cansados
querem repouso e calma

tanto caminho andado

descalços buscam
as águas das nascentes

e rio acima seguem

areias, seixos rolados
mãos de cacau e o cheiro

pegadas

o céu, o sol, o rio, a trilha
chinelos de taboa

eu, outra vez no caminho

4 de set. de 2009

cavalos de terra

na parede branca do meu quarto, moram dois cavalos
há anos que me olham com seus olhos mansos e opacos

rédeas esticadas, empoeiradas , não os afetam
as folhas miúdas no alto relevo, não morrem

lembro das mão fortes do meu avô modelando o barro
sinto o cheiro da argila, dos panos molhados, da oficina

lembro dos arames, dos velhos cinzéis, das espátulas
vejo claramente o esboço desenhado no papel canson

relincham de saudades os cavalos de terra da minha infância
me agarro às suas crinas, deixo que me levem ao sabor do vento

3 de set. de 2009

rebentos

replantei gerânios
em minhas janelas
- das minhas flores
andei distante
- secaram
os galhos secos
esqueci de regá-los
- indiferente
andei assim
- quase sequei
de pétalas e folhas
me desfiz
- em galhos secos
perdi o brilho e o viço
desfeita
- quase morri
vieram as chuvas
que sempre vêm
- e eu renasci
quando vier o sol
dos meus gerânios
- virão rebentos

2 de set. de 2009

escolhas

Saramago desistiu: do blog. José Alencar não desiste: da vida. E nós? De que lado ficamos? Do lado dos que sabem que o tempo todo é preciso fazer escolhas.

1 de set. de 2009

álbum: alexander rodchenko - II

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“Pro eto. Ei i mne” de Vladimir Mayakovsky
(1923) - Ilustrado por Rodchenko

an anna blume, de kurt schwitters

de tempos em tempos é preciso reler anna blume
é este o tempo de reler anna blume
este é o dia de reler anna blume
e a hora de reler anna blume:
é agora

PARA ANNA FLOR
Poema Merz I
(1919)

Ó tu, amada dos meus vinte e sete sentidos, eu
lhe amo! — Tu teu te a ti, eu a ti, tu a mim.
— Nós?
Isto (aliás) não vem ao caso.
Quem és tu, dona inumerável? Tu és
— és? — Dizem que serias — deixa
que digam, eles nem sabem como a torre da igreja se sustém.
O chapéu sobre os pés, caminhas
sobre as mãos, com as mãos tu caminhas.
Olá, teus vestidos vermelhos, serrados em pregas brancas.
Eu amo Anna Flor vermelho, vermelho eu lhe amo! — Tu
teu te a ti, eu a ti, tu a mim. — Nós?
Isto (aliás) é coisa para a brasa fria.
Flor vermelha, vermelha Anna Flor, o que andam dizendo?
Responda e ganhe: 1. Anna Flor tem um macaco no sótão.
2. Anna Flor é vermelha.
3. Qual é a cor do macaco?
Azul é a cor do teu cabelo amarelo.
Vermelho é o chiado do teu macaco verde.
Tu, moça simples de vestido de chita, tu, doce
bicho verde, eu lhe amo! — Tu teu te a ti, eu
a ti, tu a mim, — Nós?
Isto (aliás) é coisa para o braseiro.
Anna Flor! Anna, a-n-n-a, gotejo o teu nome.
Teu nome pinga como tenra gordura bovina.
Sabes, Anna? Já o sabes?
Posso ler-te também de trás para frente, e tu,
a mais formosa de todas, serás sempre, de trás para frente e de
frente para trás: »a-n-n-a«.
Gordura bovina goteja acaricia minhas costas.
Anna Flor, tu, bicho gotejante, eu lhe amo!

Tradução: Fabiana Macchi

31 de ago. de 2009

solares

outra vez
me ronda a poesia

agora é assim

quase uma sombra
colada em mim

não

ela é o sol
eu
a sombra

poema publicado na ZUNAI

30 de ago. de 2009

álbum: alexander rodchenko

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Rodchenko e Stepanova 1922

Alexander Rodchenko é considerado um dos máximos expoentes da vanguarda soviética dos anos 30. Nasceu em São Petersburgo, em 1891. Sua familia mudou-se para Kazán, no Oeste de Rússia, onde Alexander estudou Historia da Arte. Posteriormente foi para Moscovo, onde continuou o seu estudo de arte. É, nesta altura, em 1915, influenciado por Malevich, que começou a pintar, com uma tendência abstracta. Alexander Rodchenko é um dos artistas russos mais versáteis dos anos 20 e 30. Como outros muitos artistas dessa época de fervor artístico, experimentou com diferentes técnicas de expressão artística, estudando a pintura, a fotomontagem e a fotografia em profundidade, com o fim de obter imagens sempre inovadoras. Rodchenko representa uma figura de grande importância no panorama das vanguardas artísticas e suas imagens têm contribuído para a difusão do Construtivismo Soviético. Faleceu em 1956.

29 de ago. de 2009

urgências

palpitam em mim
urgências:

do cego
que agora pode ver

do mudo
que aprendeu a falar

do tolo
que descobriu poder voar

28 de ago. de 2009

só isso

havia flores
esqueci de regá-las

- só isso

secaram
restaram as sementes

vou regar muito
este meu coração agora

até que brotem
e outra vez floresçam

- mais nada

galeria lena gal

Image
--------- -----jardim com flores

27 de ago. de 2009

silêncios de fogo

queimam dentro de nós, silêncios de fogo - por não haver quem nos ouça
brasas vivas nos dilaceram o peito. olhos em chamas. ardem
cinzas cinzas cinzas vento vento vento paz - poema
até o próximo incêndio.

dos que resistem

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Invisible people - L Castro Flickr

vivo
- da minha fé

único
- legado que me resta

pedra
- onde meus pés se engastam

árvore
- no alto da montanha

onde uivam os ventos
- e os demônios

26 de ago. de 2009

um poema de marina tsvétaïeva

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Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.

Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vasa a poesia.

(1934)
Tradução de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985

Esparsos em livrarias, acinzentados pela poeira e o tempo,
não vistos, não procurados, não abertos e não vendidos,
meus poemas serão saboreados como os vinhos mais raros -
quando eles envelhecerem.


De um poema escrito por Tsvétaïeva em 1913, que se tornaria uma profecia.

25 de ago. de 2009

dos sentires do tempo - II

acordei tarde demais
quase noite
e era este o último sol

24 de ago. de 2009

lição de sol

terra engole sol, mar dissolve, nuvem desmancha. sol não teme ser devorado. renasce: da boca que engole, da língua que dissolve da condensada gota que desmancha. mancha vermelha que alimenta, pálidas faces que o devoram.

maria imaculada

Image

belíssima esta imagem de maria

clic

23 de ago. de 2009

a mulher e a serpente

10º
monstro noturno
das 7 cabeças – serpente
me persegue

em arrastados "esses"
sibilam
as bifurcadas línguas:

s s s sedes s s s s
s s s solidões s s s s
s s s saudades s s s s

s s s silêncios s s s s

s s s sombras s s s s
s s s sensações s s s s
s s s segredos s s s s


presságios – tenho medo

rezo
uma ave-maria
frio – já não sinto

no abraço da mãe
adormeço

e a serpente - esmagada
sob pés tão pequenos

22 de ago. de 2009

trans_lúcidos

Image

sombras antigas do que fomos_dançam
nos muros altos que se elevam
atrás dos nossos passos

21 de ago. de 2009

dos humanos olhares - I

I - o príncipe

gautama viu o verme
antes do pássaro, antes da ave de rapina.

depois viu a flecha
antes do velho, antes da dor, antes da morte.

depois viu o monge
antes do rio, antes do barco, antes das águas.

depois ouviu a música
antes de ver as cordas se romperem.

à sombra de uma árvore se sentou
e ouviu, num grito, o testemunho da terra.

de um céu sem nuvens, chuva fina caiu
e o dia finalmente nasceu, iluminado.

então, gautama viu a vida.

20 de ago. de 2009

por isso as chuvas

chuvas
----------levam
------------------sonhos
---------------------- ----ladeira
----------------------------- -- ----abaixo

e chove

---------------------chove, chove, chove

a enxurrada leva o pouco que nos resta até chegar ao rio.
águas do rio não param e volumosas correm

------------------------------------------------------------correm, correm, correm

quando chegarem ao mar então todos os sonhos terão virado água.
que evaporam até chegar ao céu e virar branca nuvem que passa

-----------------------------------------------------------------passa, passa, passa

as nuvens ficam cinzas carregadas
e uma chuva de sonhos cai outra vez sobre nós.

19 de ago. de 2009

dois poemas de flávio miragaia perri

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Catavento

ah se eu fosse o catavento!
te catava
te punha de frente
e te olhava
depois numa caixa lacrada
te fechava
para não fugires

ah se eu fosse o catavento...


Nydia e Filipe

ontem
Filipe e Nydia
Nydia e Filipe
gostaram do catavento

é possível um desejo imenso
como quer Camões
arder no peito dentro?

que me diga o vento
quando sonhar
sem que me leve o sonho
a rodopiar

o que me alegra
é que desejo não dura
e eu posso voltar
a ser caradura
nesse suspirar
de versos a indagar

filosófico não é lindo convenci-me
ninguém gosta de filosofar
melhor é sentir
e não mentir
no que é
minha solitária maneira de amar


O poeta por ele mesmo, no seu perfil no Overmundo:
"Um homem do mundo, diplomata, Embaixador na ante-véspera da aposentadoria. Escritor [poeta e contista] bissexto, tento transformar-me em permanente na transitoriedade de tudo".

Flávio mantém o blog poemasinconjuntos onde publica sua brilhante e sempre intensa e inquietante poesia.

não tão claros enigmas

uma flor nasceu na rua. furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. é feia. mas é uma flor. ****

catando comida entre os detritos, o bicho, meu Deus,era um homem. ***

atos secretos do senado: a falta de vergonha é líquida. e vaza. **

o poeta mais amargo que jiló, faz versos doces. *

decifra-nos.


****drummond ***bandeira **terra brasilis *?

18 de ago. de 2009

chuva e não

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Encontrei a poesia do alagoano Sidney Wanderley no blog de Janaína Amado: http://enredosetramas.blogspot.com/ e fiquei impressionada. Sidney gentilmente me enviou um exemplar do seu mais novo livro, ainda não lançado oficialmente: Chuva e não, da Editora Catavento, que eu simplesmente devorei. Vigorosa, delicada, rara, a poesia de Sidney foi uma bela e grata surpresa para mim. Deixo aqui o poema que dá título ao livro:

Chuva e não (II)

Há dias em que chove poesia.
Dias em que pinga.
Dias em que não.

Cautela para os primeiros.
Atenção para os segundos.
Dos últimos, o áspero
aprendizado do silêncio,
a dura ração da recusa.

Alheios a chuva e poesia,
os dias prosseguirão.


Só mais um:

Nota de desaparecimento

Sobreviveu
a um incêndio, duas enchentes,
três mudanças de endereço,
a algumas goteiras renitentes,
à fome das traças e à ira paterna,
mas não ao empréstimo
para o melhor amigo
- aquela brochura rubra e sebosa
do Manifesto Comunista.

hipoglicêmica

ando em busca de doçuras
- mel, passarinho, flor
bom mesmo fosse amor

17 de ago. de 2009

02 - segunda

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eu... meu cão... o sol...
sob o mesmo céu - tudo
é só preguiça

01 - vazio

alma vazia
insiste em fazer versos -
salva-me um haicai:

"vazio agudo
ando meio
cheio de tudo"

paulo leminski

15 de ago. de 2009

juncus confusus*

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*Juncus: gênero botânico de plantas floríferas, conhecidas como juncos, pertencente à família Juncaceae. Apresenta aproximadamente 915 espécies, dentre elas, o Juncus Confusus.

juncus confusus

tempo
fera que ruge
sob as colunas do templo
anos, séculos, milênios
instantes
nos contemplam
e sob nossos olhos:

milagres,
miragens, miras
exércitos
de canções e lamentos
vestes e vultos

vinho e sangue

cascos que tinem
brados
granizos, assobios
desertos
lavas de vulcões

magma e vento

chagas que ardem
vermelhas
ferida carne
morrer é tão velho
quanto a vida

juncos sedentos:
inda vergamos
em busca
do consolo das águas
insaciável sede
que nos mantém
vivos

14 de ago. de 2009

...

casas me angustiam
janelas me confortam

portas me libertam
estradas me transportam

versos me levam
para muito além do meu jardim

13 de ago. de 2009

GALERIA ANAHATA KATKIN - V

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O privilégio de toda uma vida é ser aquilo que nascemos para ser.

Siga sua felicidade, lá onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem ir.

Encontre a paixão da sua vida e siga-a, siga o caminho que não é caminho.

Quando tiver essa sensação, fique aí e não deixe ninguém arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde antes não havia portas e você sequer imaginava que pudesse haver.

Joseph Campbell
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