28 de dez. de 2009
26 de dez. de 2009
humanidades

minha alma oscila: - entre céu e inferno
doçuras e amargores
- descrenças e esperanças, delícias e dores
mais uma vez
agradeço a meu Deus por sua humanidade
- e pela minha
22 de dez. de 2009
19 de dez. de 2009
tsurus de papel

íbis caminha sobre as águas
aves raras, não as vemos
aves cinzentas proliferam
deixam mais cinza o asfalto
e o céu, já encoberto de fumaça
em algum lugar
um rouxinol se esconde
um colibri insiste e faz seu ninho
em um arranha-céu
andorinhas outra vez fazem verão
tsurus de papel sinalizam:
ainda há esperança
*Depois de ler Gisele e Henrique, me lembrei deste poema.
17 de dez. de 2009
milagre
15 de dez. de 2009
estio
borboleta amarela
o sol nas asas
águas do céu dão trégua
quem tiver asas, voe...
Tem um poema meu hoje, no POESIA DIVERSA. Obrigada, Hilton!
14 de dez. de 2009
mal ou bem - dito

hoje eu não tinha mesmo nada a dizer
busco palavras - onde as encontro? todas tão gastas, puídas, todas
tão - sinônimas
manifesto verbal ou escrito. fonemas sem nexo, vocábulos. busco
articulado som. onde?
o silêncio se impõe. o silêncio é estado de quem se cala. a ausência
é estado de não presença
o estado é modo de estar ou ser. unidade dividida. falada língua. mãe
nação. onde?
soberania - extensão considerável. lagos, rios, solos – o chão. baias
geografias
geo - metrias, centrias, fasias – engulo terra. vomito palavras. tantas
jogo sujo. onde?
salvos pelo verbo, campo minado – território sitiado: minha pátria
língua. derrotado silêncio
quando não se tem o que calar, melhor falar. fica assim então o dito
pelo não. ou quase - mal ou bem. dito
12 de dez. de 2009
velhas árvores
que ela tem corpo e alma (como tudo que vive)
tronco (matéria) que se eleva rumo ao infinito (sol)
galhos (braços) que se estendem sobre a avenida (vida)
e a alma
sob
(raiz)
10 de dez. de 2009
improvável sol
8 de dez. de 2009
um texto de Sylvia Plath

6 de dez. de 2009
contexta-me
e a necessidade de compreender o contexto.
Nina Castro
sentimenta-me
volátil
transfigura-me
sonoriza-me palavra
metrifica-me
rítmica
encadeia-me
expressa-me palavra
verbaliza-me
criativa
extrapola-me
contexta-me palavra
versa-me
fática
transcende-me
5 de dez. de 2009
overmundianas I

elefantes azuis
o tempo não pára mesmo. ele não tem mais jeito. desandou a correr, ultimamente. desembestou. estouro de boiada. manada
__ de elefantes azuis
lava que escoa. corredeira. maremoto. cachoeira. avalanche. batedeira
__desertos
nós, surfistas sobre ondas instáveis. cabelo parafina, pele dourada
__sob o sol que agoniza
nós, turistas num safári no Quênia. sobrevoando baixo, sobre a boca vermelha
__de algum vulcão
escalando Everests, enfrentando Saaras, tempestades de areia
__insolação
ao longe a vida: miragem. oásis
__onde?
2 de dez. de 2009
assim
30 de nov. de 2009
o pássaro
com seus olhos de céu
----.---.---.---..me olha
buscando em mim
as asas
-.-.---que já não tenho
28 de nov. de 2009
o vento
27 de nov. de 2009
palabares
em nossas mãos
palavras
desafiando
o frágil equilíbrio
do sentido
no limiar
entre silêncio
e som
entre música
e ruído
25 de nov. de 2009
dois haicais de lírica
palavras mágicas
música de passarinho
2.
canta o canarinho
na varanda do sonho
22 de nov. de 2009
das dores do poeta
o poeta está triste
pesam-lhe sobre os ombros
as dores do seu povo
e a insensatez do seu tempo
na sua humanidade, o poeta
— que não crê
transcende e toca o céu
19 de nov. de 2009
eu e a cidade
sempre
-------andei pela cidade
me sentindo invisível
agora
------que ela desaparece
encontrei meu lugar
finalmente-posso tocá-la
18 de nov. de 2009
clarão
- (uma fresta)
mas nele cabe - (imenso) - o mesmo sol
- que aquece
e tinge - (de vermelho) - a terra inteira
17 de nov. de 2009
16 de nov. de 2009
14 de nov. de 2009
dos sentires do tempo - III

Venus at Antique Mall in Powell, Ohio Matt McCaw
há um tempo na vida em que o melhor lugar
é o colo.
depressa vem o tempo da rua. intenso, breve
ele passa.
chega o tempo da casa. doce que parece ser
eterno.
— não é
chega enfim (cruel) o tempo em que nada
nos comporta.
— poesia
único refúgio (meu) neste tempo absurdo
sem lugar.
13 de nov. de 2009
percussiva
tudo é não sim
onde se esconderam as verdades
que moravam em mim?
tudo pode ser nada
nada pode não ser tudo assim
nada de poder tudo ou não
pode tudo nada tudo se danar
preta branca verdade
tudo se esconde
nada branco pode preto sim
tudo não haver danado ser onde?
sonora mentira
12 de nov. de 2009
11 de nov. de 2009
10 de nov. de 2009
cristaleira

Paris 1964 - Lady / Window - Jon Goell
prateleiras
---------------------muitas taças
vazias, translúcidas, solitárias
desparceiradas
------potes de mel, chás, aveia
gergelim,pistache
bombons, biscoitos finos
-------------------------amaretos
vinhos, absintos, licores
águas ardentes
------------------------------
litros
-------------desbotadas as cores
no solo instável em que habito
tremores constantes
-------------------a todo instante
um deles transborda
e a cristaleira tange
------------a canção dos cristais
à espera
do grande terremoto
-----que engole transparências
sonhos e cacos
9 de nov. de 2009
dois poemas de Víctor Rodríguez Núñez*

ANTIPOEMA
A ponto de escrever
“o estado natural do homem é a tristeza”
tu te apresentastes
------------- --------- quase resplandecente
Pensava continuar
---------------- ------ “e tudo o que eu faça
será para alcançar a alegria”
e te vejo nua — como não te havia visto antes —
sardenta magríssima chorando
E talvez concluir
“o belo é a manha da morte”
para beijar teus ossos
para beijar na pele
----------------- ----- o ponto mais feliz
Tudo
---------mulher
---------------- ------ para ficar sozinho
no fim de um poema que se engana.
Talvez comer pão
esférico e dourado
depois de uma sopa lívida
com vísceras de frango.
Escovar os dentes bem devagar
garoar no espelho
com espuma de rosas e claro perfume de menta
arrumar o cabelo
a camisa e as unhas.
Descer os degrau
--------que às vezes ninguém limpa.
Subir em um ônibus que vem do inferno
cumprimentos
----avenidas
------empurrões
--------semáforos
cruzando velozmente
e chegar tarde no cinema
essa jaula com sonho e mundo retido.
E lendo o jornal
ver coisas com estas:
--------duas naves vão a Vênus
--------“a estrela d’Alva”
--------e morreu Boumediene
--------presidente da Argélia.
Depois
---provar os versos
alegres
---atrevidos
de meu amigo Jacques Prévert
------vagabundo.
E finalmente o filme
“retângulo amoroso
------tema social”
com Fellini e De Sica na tela.
Caminhar rua abaixo
------entre álamos adormecidos
policiais acordados na frente das embaixadas
padarias abertas
----gatos que se suicidam
três bancos solitários com cheiro fresco de sêmen
latões de lixo
sonâmbulos que bebem aguardente e silêncio
----até a madrugada.
Subir os degraus
que de vez em quando alguém limpa
-- -- encurvada
------redonda --
e trancar-se no quarto azul
----desarrumado
onde escrevo e transcorro.
Então o amor
------e estas palavras.
*Nascido em La Habana, Cuba - 1955. Poeta, jornalista, crítico e professor de literatura hispânica em Kenyon College. Alguns de seus livros: Con raro olor a mundo (Premio David, 1981), Noticiario del solo (Premio Plural, 1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), El último a la feria (Premio EDUCA, 1995) y Oración inconclusa (Premio Renacimiento, 2000).
7 de nov. de 2009
in memoriam
faz sol e ainda é cedo

café com pão sagrados. respiro fundo, pé na estrada. já de saída, três vira-latas na festa da rua. é muito azul e verde, a liberdade plena - há que celebrar. sinto pena do meu cão atrás das grades. sigo em frente.
um sapo - estatelado no asfalto, seco - vira pedra. um pássaro de peito amarelo e mudo - ainda é um pássaro. um bem-te-vi cinzento quase arrebenta garganta e arame farpado.
um guard-rail metálico, que violenta a mata, corre - ao lado da cicatriz de concreto. mais um passo. em pencas, a natureza - mãe - se vinga - flores vermelhas que se atiram suavizando cinzas e metais.
olho a montanha. quase encoberto por árvores imensas, velho chalé resiste. fumaça... chego ao imenso portal que dá no nada. chegadas e partidas são só pedaços. o mesmo trem, se houvesse. dou meia volta. feliz hoje retomo minha caminhada.
amanha já não sei. ninguém sabe amanhã. e a tarde quem sabe? lembro-me do sonhos da noite. apesar da lembrança que engoliu a saudade que engoliu a tristeza que quase me engoliu, a manhã está clara.
faz sol e ainda é cedo. eu, outra vez no caminho.
5 de nov. de 2009
2 de nov. de 2009
um poema de Aramis Quintero*

Enquanto Fala
Um homem morto lá em seu pé repousa,
e com sua mão livre nos cumprimenta
enquanto a outra arranha tristemente a terra.
Como nos amou então seu cabelo.
Como nos ama agora. Quanto sente
cumprimentar-nos assim, sem o lenço.
Como nos diz agora que já volta,
que não demora, só
o que gasta para ver como está seu pessoal,
tomar café, se for o caso, e estar de volta.
Como nos diz agora que já volta, e sabe
que para nós dava no mesmo, e não sabe
como agora queríamos
que secasse sua mão, a que arranha,
e com as duas nos abraçasse, e depois
reunidos, comemos alguma coisa e olhamos
como se já não fosse embora e amanhã
voasse para Lima ou Paris. Quase o vemos
lá outra vez, amando-nos.
E, enquanto fala, cai
um distante pó de biscoitos.
* Nascido em Cuba, 1948, reside no Chile. Poeta, narrador e ensaísta, licenciado em Língua e literatura hispânica, pela Universidade de Havana.
ritual
que de costume
acordo
e entre ciprestes
cumpro
o ritual da saudade
o pássaro
leva nas asas
o abraço e a prece
30 de out. de 2009
espelho d’água

Helder Afonso - Olhares
dérmicas escamas
sopradas pelo vento
barbatanas
revérbero dos peixes
e outros seres do abismo
mundo invisível
onde a luz é apenas
uma miragem
quem?
habita meus olhos
onde?
a máscara do sol
quem?
sabe dos sonhos submersos
das camadas da pele
do sal dos olhos míopes
cristalinas águas a se perder
contidas
pelas ásperas bordas do vazio
28 de out. de 2009
memória silenciosa

Tomasz Gudzowaty - Jovem Jóquei da Mongólia
nos olhos do cavalo
- um brilho
reflexo vítreo
de sílicas epidermes
- verdes
e o cavalo galopa
- sem saber que brilha
sem saber que o pássaro
olhos de nuvem
- espia
nos seus
olhos de pássaro
- um brilho
nos olhos do menino
- faíscas
a voar dos cascos
sob a luz vermelha
- do sol
dos nossos olhos
- um flash
e o instante retido
- memória silenciosa
na prata do papel
- o verde
em preto e branco
- um brilho
27 de out. de 2009
ser enquanto ser
26 de out. de 2009
um poema de Abel G. Díaz*
Caminho passando a língua pelo tempo
ficando sem lábios
sem mãos para pôr sobre a toalha da casa
e sem casa onde meter minha única viagem
Não levo guarda-chuva nem esparadrapo
unicamente esta noite viúva de parágrafos
estas gavetas sem vida privada
esta incursão solene e futura
Avanço até a porta
são cinco horas
despeço uma mulher
tomo a vela e rezo:
“Pai meu — digo
Pai meu, obrigado
os galos me enchem as mãos de suor
e a salvação é uma dor de cabeça cheia de pássaros,
ao centro a aspirina de teus olhos”
e digo bom dia
e que em paz descanse o que eu disse
* nascido em Morón, Cuba - 1952
24 de out. de 2009
hortelã

chaleira antiga sobre o fogão
a água ferve
na louça branca a erva fresca
- espera
em breve vai arder e liberar
sabores e aromas
o que então era incolor e frio
- vai colorir de verde
este raminho de hortelã, ser
queria tanto
* este chá foi parar no balaio
22 de out. de 2009
aniz estrelado
tisana
adoçada com mel
perfumada estrela
semente
fruto da terra
da minha boca
o céu
adoça e ilumina
21 de out. de 2009
19 de out. de 2009
dois poemas de Romério Rômulo

abertura, 1*
1. é louco ser solene.
é lúcido ser louco!
2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.
3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.
4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!
5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!
6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.
*do livro “Per Augusto & Machina”, que acaba de ser lançado.
para renata**
eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã, fel em mim,
entope minhas veias.
quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.
**um dos poemas de Romério que mais gosto, dedicado à poeta Renata Nassif
"Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. Com a coragem dos que querem aquela lucidez, não trapaceia com a realidade". Trecho do prefácio de Augusto & Machina, por Maria da Conceição Paranhos.
17 de out. de 2009
16 de out. de 2009
um poema de Mario Benedetti
Papel Mojado
Con ríos
con sangre
con lluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado
Mario Benedetti
15 de out. de 2009
atávico
delírios - da primeira lua – maré cheia
quando vier o último dos sóis – poente e a lua decrescente
no céu de faz de conta que em contas se desfaz
fundo azul - tatuagem ancestral - cristalinas águas - sal
atávico - além do véu do tempo - o brilho
13 de out. de 2009
do sentimento das coisas

Lá fora a noite
é um poço antigo quase
- estéril.
Os limos secos agarram-se às paredes
que de tão cansadas e esquecidas
- desmancham.
Nas poucas águas que restaram
refletidas luas e estrelas – azuis
- lembranças.
As cordas - por um fio - ainda tangem
a canção secular do atrito das roldanas
- lamentos.
Tremem ao toque das mãos rudes - vento
e à visão dos lábios e dos olhos
- sedentos.
Lá fora a noite
é um poço louco que delira
- e transborda.
12 de out. de 2009
um poema de Alex Fleites

Danusia Necula - Foto Jurnal
A Dois Espaços
Nada é meu, nem mesmo a parábola do vento.
Como outros reúnem estrelas, caracóis,
juntei palavras que outros inventaram
para estar depois do sono e da vigília.
Assim entrei pela palavra porta
buscando de minha mãe o intrincado coração
e ali fiquei agachado,
deixando-me ir na maré de seu sangue.
Janela e amor me conduziram
à abismal tristeza desta mulher de respiração cansada
que espera de meus versos sabe-se lá que milagres.
Com a palavra canção menti com ternura aos amigos,
contei histórias de moças
que me chamavam na chuva,
quando na realidade era a combustão do vento
entre galhos.
Em papel almaço, a dois espaços,
durante anos armazenei
verazes notícias incríveis
e sonhos irrealizáveis que acontecem todos os dias.
Por isso é bom ir arrumando manuscritos,
deixar claro que porta serve, no máximo,
para tocar o coração da casa,
e que amor e janela existem para que a gente veja,
entre outras coisas,
como se afasta esta mulher com minha bagagem,
tal como se eu mesmo me afastasse.
Juntar palavras é um delito nobre.
Se fosse minha a parábola do vento
poderia hoje mesmo começar um grande poema.
Alex Fleites, 1954
11 de out. de 2009
do fim, da linha
9 de out. de 2009
8 de out. de 2009
um poema de Reina Maria Rodríguez*

"o estado natural do homem é a tristeza"
tu apareceste
Victor Rodriguez Nuñez - poeta cubano
A ponto de parir meu terceiro filho
olho meu mamilo escuro
e a pele tensa do ventre.
a ponto de cumprir 28 anos
alguns homens -- suas histórias
com medo da esperança
como tantas vezes
faço lista de preços
compro mapas -- seus acordes – o tempo
lugares onde amar
busco uma casinha – os pães no forno
e o amor.
a ponto de perder-me no quadro de alguma exposição
que nunca sonhei
e ficar imóvel
somente olhando para você
me abandono nos parques com o guarda-chuva
tão verde.
as formigas sobem outra vez ao coração
e me apaixono
por teus olhos – caramelo quebrado.
Perco os dias
na estrada de San Francisco – encruzilhada
buscando uma liteira
onde encontrar-te.
a ponto de perder a loucura
espero um telefone público
onde soam tuas palavras
entrecortadas – sem graça – monossilábicas
que caçoam da distância
enquanto eu faço os minutos.
a ponto de assaltar as pequenas ratoeiras
onde o amor dormiu
e crescer definitivamente
com meus monstros joviais.
Eu te amando
é junho
e vovó trouxe melaço em folhas de laranja.
como nos tempos pequenos
me deixou a boca doce.
já não sou o quebra-cabeça de teu livro de histórias
pode tocar-me
tenho a carne morna
e o demônio azul de uma mulher.
esta noite chove – não há notícia
e voltaram outra vez os cupins
a queimar suas asinhas para sempre.
*Reina Maria Rodríguez - Poeta Cubana
6 de out. de 2009
sentidos
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The Bird Watcher's Muse (collage art print)
Stiletto Heights
o pássaro
dos sete cantos
voa
com suas sete asas
- e sob a luz do sol
cintila
em suas sete cores
reflexas
- eu
com meus parcos
sextos
e outros primitivos
sentidos
- jamais
pude alcançar
o sétimo som
- sequer
voar além do básico
sexto céu
- no horizonte
raso
dos meus pares
- vermelho
ainda não surgiu
o sétimo sol
- silencioso e branco
o pássaro
em minhas mãos
espera
5 de out. de 2009
4 de out. de 2009
são francisco
3 de out. de 2009
antologia bloética: poemas e poetas
2 de out. de 2009
1 de out. de 2009
diversos e afins
30 de set. de 2009
29 de set. de 2009
dos gritos, dos silêncios
silêncios
antigos
querem
ser
ouvidos
pobres
não
sabem
que já
não há
palavras
pois já
não há
ouvidos
um poema de abdur rahman
Muitos, como você e eu, ela criou e destruiu.
*Abdur Rahman, poeta afegão
27 de set. de 2009
foz
que meus olhos de rio vão querer desaguar
nestes olhos de amar
26 de set. de 2009
25 de set. de 2009
"landays" de sayd bahodine majrouh
uma noite de amor que não se repetirá.
Como um guizo, com todas as minhas jóias
tini em seus braços até ao fundo da noite.
Meu amor, para lá das montanhas, contempla a lua
e verás que te espero, de pé, sobre o telhado.
Dá-me a tua mão, amor, vamos para os campos
para nos amarmos ou cairmos juntos apunhalados.
Pousa a tua boca na minha
mas deixa a minha língua livre para te falar de amor.
Amanhã os famintos do meu amor serão satisfeitos
porque quero atravessar a aldeia com o rosto descoberto e os cabelos ao vento.
24 de set. de 2009
o grilo, a gota
em que
a minha poesia
tem a força de um grilo
e a fúria de uma gota
grilo
que já não pode cantar
g
o
t
a
prestes a despencar
a minha poesia agoniza
23 de set. de 2009
um poema de sherko bekas
Tenho pousado o ouvido sobre o coração
da terra.
Tenho falado de amor, do seu amor
pela chuva,
à terra.
*Sherko Bekas, poeta da resistência curda.
22 de set. de 2009
o jardim de um estranho
flores do jardim de um estranho.
Poeta afegão
*Minha Guerra Particular - Masuda Sultan
havia um sol
20 de set. de 2009
um poema de julio rodrigues correia
No ciclo de minha infância
havia um riacho de águas
claras e piscosas
que serpenteava
pelo ventre da cidade
e chegava impávido ao rio.
Dele o peixe sadio
nos almôços de sábado
nele o banho suave
nas manhãs dominicais.
Um dia chegaram os homens
com seus apetrechos
de fúria e ganância,
( agentes da destruição)
toldaram as águas
sufocaram cardumes
apodreceram suas margens.
E o riacho de minha infância
hoje está assoreado e morto
mas ainda corre
límpido e soberano
nos labirintos de minha memória.
Julio Rodrigues Correia, jornalista, sociólogo e poeta, Publicou quatro livros: "No Silêncio das Horas", "A Hora Noturna", poesias, " Crônicas Sem Tempo",crônicas e "A Ceia dos Imorais", teatro. Prepara o lançamento de "Degraus do Silêncio". Atualmente reside na cidade de Fortaleza,Ce.
Em minha opinião, Julio é um dos nossos mais brilhantes poetas contemporâneos. Mantém o blog acroatico, onde publica sua magnífica poesia.
19 de set. de 2009
culpa
e ele era branco
- doeu em mim
pedi perdão à natureza
ela me respondeu, num vento
ameno
- me isentando de culpa
continua doendo mesmo assim
crepúsculo
não terão de mim mais
que meus parcos [par c’os]
versos [universos]
que escapam
pela fenda [senda] dos olhos
pelo corte [sorte?] no peito
feito à lança
[perfume]
diante das dores
pusilânimes e intensas
da cidade que grita [late]
e agoniza
crepúsculo escarlate
do fim da raça [caça]
do que um dia julgamos
fosse [fosso] humano
* depois de ler: Dark Age Ahead de Jane Jacobs
17 de set. de 2009
retinas de sonhar
Obs: meu aniversário é só na próxima semana, mas ganhei dois presentes adiantados:
flor do sol
um girassol
- um só
e ele gira
gira
em busca do sol
- é único
mas não é só
o sol lhe basta
- é sina
de girassol
- me ensina
girassol
a não ser só
baste-me o sol
- e a vida
enquanto
houver o sol
- e a vida
15 de set. de 2009
do sol do rio
14 de set. de 2009
outro poema de marina tsvétaïeva
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.
1924
Tradução de Haroldo de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985
Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe
1924
Tradução de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985
13 de set. de 2009
fach
12 de set. de 2009
amorados
um poema vermelho
vindo
não do meu velho
coração
vermelho sangue
mas
dos meus dedos
manchados
da minha língua
rubra
dos meus olhos
molhados
que
de tanto
colher comer olhar
amoras
amorados estão
11 de set. de 2009
do que cantamos
a penas
suas próprias dores
canta as dores do mundo
e segue
acreditando na impossível cura
10 de set. de 2009
dos fazeres poéticos
Oscar Wilde
9 de set. de 2009
solo
8 de set. de 2009
e por falar em setembros
cinzas
a vida é mesmo rara
ave que canta breve
e logo voa
dente de leão
soprado pelo vento
bolha de sabão
fagulha de fogueira
cinzas nos olhos
depois do incêndio
bolhas que ardem
em nossas mãos vazias
de primaveras
poema publicado no Full of Crow
7 de set. de 2009
setembros tantos
prestes
a devorar mais um setembro
antes
deixem-me agradecer
por tudo
por todos, por tantos
agora sim, soltem os cães
6 de set. de 2009
4 de set. de 2009
cavalos de terra
há anos que me olham com seus olhos mansos e opacos
rédeas esticadas, empoeiradas , não os afetam
as folhas miúdas no alto relevo, não morrem
lembro das mão fortes do meu avô modelando o barro
sinto o cheiro da argila, dos panos molhados, da oficina
lembro dos arames, dos velhos cinzéis, das espátulas
vejo claramente o esboço desenhado no papel canson
relincham de saudades os cavalos de terra da minha infância
me agarro às suas crinas, deixo que me levem ao sabor do vento
3 de set. de 2009
rebentos
em minhas janelas
- das minhas flores
andei distante
- secaram
os galhos secos
esqueci de regá-los
- indiferente
andei assim
- quase sequei
de pétalas e folhas
me desfiz
- em galhos secos
perdi o brilho e o viço
desfeita
- quase morri
vieram as chuvas
que sempre vêm
- e eu renasci
quando vier o sol
dos meus gerânios
- virão rebentos
2 de set. de 2009
escolhas
1 de set. de 2009
an anna blume, de kurt schwitters
é este o tempo de reler anna blume
este é o dia de reler anna blume
e a hora de reler anna blume:
é agora
Ó tu, amada dos meus vinte e sete sentidos, eu
lhe amo! — Tu teu te a ti, eu a ti, tu a mim.
— Nós?
Isto (aliás) não vem ao caso.
Quem és tu, dona inumerável? Tu és
— és? — Dizem que serias — deixa
que digam, eles nem sabem como a torre da igreja se sustém.
O chapéu sobre os pés, caminhas
sobre as mãos, com as mãos tu caminhas.
Olá, teus vestidos vermelhos, serrados em pregas brancas.
Eu amo Anna Flor vermelho, vermelho eu lhe amo! — Tu
teu te a ti, eu a ti, tu a mim. — Nós?
Isto (aliás) é coisa para a brasa fria.
Flor vermelha, vermelha Anna Flor, o que andam dizendo?
Responda e ganhe: 1. Anna Flor tem um macaco no sótão.
2. Anna Flor é vermelha.
3. Qual é a cor do macaco?
Azul é a cor do teu cabelo amarelo.
Vermelho é o chiado do teu macaco verde.
Tu, moça simples de vestido de chita, tu, doce
bicho verde, eu lhe amo! — Tu teu te a ti, eu
a ti, tu a mim, — Nós?
Isto (aliás) é coisa para o braseiro.
Anna Flor! Anna, a-n-n-a, gotejo o teu nome.
Teu nome pinga como tenra gordura bovina.
Sabes, Anna? Já o sabes?
Posso ler-te também de trás para frente, e tu,
a mais formosa de todas, serás sempre, de trás para frente e de
frente para trás: »a-n-n-a«.
Gordura bovina goteja acaricia minhas costas.
Anna Flor, tu, bicho gotejante, eu lhe amo!
Tradução: Fabiana Macchi
31 de ago. de 2009
30 de ago. de 2009
álbum: alexander rodchenko

Rodchenko e Stepanova 1922
29 de ago. de 2009
urgências
urgências:
do cego
que agora pode ver
do mudo
que aprendeu a falar
do tolo
que descobriu poder voar
28 de ago. de 2009
só isso
esqueci de regá-las
- só isso
secaram
restaram as sementes
vou regar muito
este meu coração agora
até que brotem
e outra vez floresçam
- mais nada
27 de ago. de 2009
silêncios de fogo
brasas vivas nos dilaceram o peito. olhos em chamas. ardem
cinzas cinzas cinzas vento vento vento paz - poema
até o próximo incêndio.
dos que resistem

Invisible people - L Castro Flickr
vivo
- da minha fé
único
- legado que me resta
pedra
- onde meus pés se engastam
árvore
- no alto da montanha
onde uivam os ventos
- e os demônios
26 de ago. de 2009
um poema de marina tsvétaïeva

Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.
Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vasa a poesia.
(1934)
Tradução de Augusto de Campos
Nova Antologia Poesia Russa Moderna
Editora Brasiliense/1985
Esparsos em livrarias, acinzentados pela poeira e o tempo,
não vistos, não procurados, não abertos e não vendidos,
meus poemas serão saboreados como os vinhos mais raros -
quando eles envelhecerem.
De um poema escrito por Tsvétaïeva em 1913, que se tornaria uma profecia.
25 de ago. de 2009
24 de ago. de 2009
lição de sol
23 de ago. de 2009
a mulher e a serpente
monstro noturno
das 7 cabeças – serpente
me persegue
em arrastados "esses"
sibilam
as bifurcadas línguas:
s s s sedes s s s s
s s s solidões s s s s
s s s saudades s s s s
s s s silêncios s s s s
s s s sombras s s s s
s s s sensações s s s s
s s s segredos s s s s
presságios – tenho medo
rezo
uma ave-maria
frio – já não sinto
no abraço da mãe
adormeço
e a serpente - esmagada
sob pés tão pequenos
22 de ago. de 2009
21 de ago. de 2009
dos humanos olhares - I
gautama viu o verme
antes do pássaro, antes da ave de rapina.
depois viu a flecha
antes do velho, antes da dor, antes da morte.
depois viu o monge
antes do rio, antes do barco, antes das águas.
depois ouviu a música
antes de ver as cordas se romperem.
à sombra de uma árvore se sentou
e ouviu, num grito, o testemunho da terra.
de um céu sem nuvens, chuva fina caiu
e o dia finalmente nasceu, iluminado.
então, gautama viu a vida.
20 de ago. de 2009
por isso as chuvas
----------levam
------------------sonhos
---------------------- ----ladeira
----------------------------- -- ----abaixo
e chove
---------------------chove, chove, chove
a enxurrada leva o pouco que nos resta até chegar ao rio.
águas do rio não param e volumosas correm
------------------------------------------------------------correm, correm, correm
quando chegarem ao mar então todos os sonhos terão virado água.
que evaporam até chegar ao céu e virar branca nuvem que passa
-----------------------------------------------------------------passa, passa, passa
as nuvens ficam cinzas carregadas
e uma chuva de sonhos cai outra vez sobre nós.
19 de ago. de 2009
dois poemas de flávio miragaia perri

ah se eu fosse o catavento!
te catava
te punha de frente
e te olhava
depois numa caixa lacrada
te fechava
para não fugires
ah se eu fosse o catavento...
Nydia e Filipe
ontem
Filipe e Nydia
Nydia e Filipe
gostaram do catavento
é possível um desejo imenso
como quer Camões
arder no peito dentro?
que me diga o vento
quando sonhar
sem que me leve o sonho
a rodopiar
o que me alegra
é que desejo não dura
e eu posso voltar
a ser caradura
nesse suspirar
de versos a indagar
filosófico não é lindo convenci-me
ninguém gosta de filosofar
melhor é sentir
e não mentir
no que é
minha solitária maneira de amar
O poeta por ele mesmo, no seu perfil no Overmundo:
Flávio mantém o blog poemasinconjuntos onde publica sua brilhante e sempre intensa e inquietante poesia.
não tão claros enigmas
catando comida entre os detritos, o bicho, meu Deus,era um homem. ***
atos secretos do senado: a falta de vergonha é líquida. e vaza. **
o poeta mais amargo que jiló, faz versos doces. *
decifra-nos.
****drummond ***bandeira **terra brasilis *?
18 de ago. de 2009
chuva e não

Chuva e não (II)
Há dias em que chove poesia.
Dias em que pinga.
Dias em que não.
Cautela para os primeiros.
Atenção para os segundos.
Dos últimos, o áspero
aprendizado do silêncio,
a dura ração da recusa.
Alheios a chuva e poesia,
os dias prosseguirão.
Só mais um:
Nota de desaparecimento
Sobreviveu
a um incêndio, duas enchentes,
três mudanças de endereço,
a algumas goteiras renitentes,
à fome das traças e à ira paterna,
mas não ao empréstimo
para o melhor amigo
- aquela brochura rubra e sebosa
do Manifesto Comunista.
17 de ago. de 2009
01 - vazio
insiste em fazer versos -
salva-me um haicai:
"vazio agudo
ando meio
cheio de tudo"
paulo leminski
15 de ago. de 2009
juncus confusus
fera que ruge
sob as colunas do templo
anos, séculos, milênios
instantes
nos contemplam
e sob nossos olhos:
milagres,
miragens, miras
exércitos
de canções e lamentos
vestes e vultos
vinho e sangue
cascos que tinem
brados
granizos, assobios
desertos
lavas de vulcões
magma e vento
chagas que ardem
vermelhas
ferida carne
morrer é tão velho
quanto a vida
juncos sedentos:
inda vergamos
em busca
do consolo das águas
insaciável sede
que nos mantém
vivos
14 de ago. de 2009
13 de ago. de 2009
GALERIA ANAHATA KATKIN - V

O privilégio de toda uma vida é ser aquilo que nascemos para ser.
Siga sua felicidade, lá onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem ir.
Encontre a paixão da sua vida e siga-a, siga o caminho que não é caminho.
Quando tiver essa sensação, fique aí e não deixe ninguém arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde antes não havia portas e você sequer imaginava que pudesse haver.
Joseph Campbell

























