30 de dez. de 2011

a poesia
fez de mim uma ilha
onde pássaros pousam
queimam os pés
e partem

29 de dez. de 2011

termina o ano como começou
nada nas mãos - a não ser
o verso

26 de dez. de 2011

ah, como deseja mergulhar no vazio
que seja céu ou mar
desde que seja azul
e fundo

22 de dez. de 2011

linha e cerol
e lá se vai o que restou
do sol

21 de dez. de 2011

as velhas árvores estão tombando
como num presságio
em sânscrito medita
tatua dragões em mandarim
canta mantras em híndi
mensageiros do vento em bengali
na sua língua sangram
piercings di_versos

20 de dez. de 2011

há um cansaço em tudo - antigo e reticente
como uma roda d’água
(enferrujadas engrenagens)
prestes a se romper
a água - é fio
e o som da serra - monótono e insistente
agora é canto quase
lamúria
quase gemido quase
dor
e segue a roda
que move a lâmina
que serra a pedra - que há tanto tempo é pó

18 de dez. de 2011

os dias
que parecem intermináveis
são apenas pedaços
começo
de outros intermináveis
dias

17 de dez. de 2011

há um lugar
onde mora um nome
(embora o nome
nunca tenha estado
nesse lugar)
e quando eu passo
o nome me chama
e eu sigo
sem saber se respondo
ou canto

16 de dez. de 2011

dos êxtases sublimes
aos horrores supremos
compartilho

hoje sou poço
onde mergulham todos
os sentimentos do mundo

15 de dez. de 2011

A Gata Por um Fio

Image
A GATA POR UM FIO - de Sandra Santos

Imagem retirada do Blog: Poupée Amélie - de Sandra Amélie.
que sabe o peixe a não ser
do vidro
da água
do gato
que pressente
e a ave, que sabe
a não de ser
da asa
do canto
do sol
que precisa
eu, que sei quase
nada
navego e voo
em seus azuis aquários
e céus
que persigo

12 de dez. de 2011

era manhã bem cedo e se julgava pássaro

quando caiu a tarde
se viu pedra

(e sua cota era apenas um dia)

vida de pedra
deveria ter vivido

não viveu
sonhando asas

pássaros — teriam pousado e feito ninho
raios partiram — árvore velha e lassa
que renasçam morangos
quando chover
e o jardim de concreto e asco
seja campo
— e vasto

10 de dez. de 2011

na madrugada
lacrimejam os olhos
da vidraça
sol atrevido
lambe gotas de orvalho –
surge a manhã
o muro branco
tinto de sol se pôr
resplandece
manhã absurda
escancara os dentes
de sol

6 de dez. de 2011

Nas verdades que canta, a força do poema
Que pedra seja
pedra
E vento seja
Vento
Que seja eterno enquanto
Cascalho e ventania

Que se sopre e que se pise — caminho
Alento
Brisa
Dia
De olhos secos e chão
Nenhum

Diga de nós (busca e retrato)
Do que sai pelos olhos — palavra
Feito carne
Solidez de vento
Invisível pedra
Que seja

A mais precária das verdades
Em que ainda acredito

4 de dez. de 2011

a montanha está lá

quase branca

chuva fina é cortina

quase etérea –

a encobrir

mata lúcida

terra

sólido chão

pasto e casa de bichos

carne e sangue

(matérias impuras)

água não lava

esconde

escorre

esquece

que tudo é miragem

e se desfaz

num sopro

de vento

(ou tempo)

3 de dez. de 2011

Já não te busco, Dionísio.
Cultivo
videiras.

30 de nov. de 2011

no espaço fragmentado da minha lucidez
cabem verdades
poucas
e um espanto do tamanho do mundo
cabem também silêncios
muitos
e algumas palavras
pequenas
que ousam
enfrentar os espantos
guerrilhas
brilho nos olhos são reflexos - e o verso

28 de nov. de 2011

pessoas passam por mim
caminhando lento
todas
carregam mundos
nas costas
vergam
por que pesa
o mundo
nas costas
só os pequenos
caminham leve
segurando
pelas mãos
o barbante esgarçado
do mundo balão

24 de nov. de 2011

estranha tarde
sem rumo sem meta
sinal ou seta
sequer estrada
e um desejo absurdo
de caminhar

20 de nov. de 2011

do trigo não plantado
fez-se o pão
das misérias

do pão não repartido
fez-se o gueto

do gueto ignorado
fez-se o ódio

do ódio incontido
a violência

da violência bruta
 fez-se o medo

do medo escancarado
fizeram-se
as prisões

tijolo por tijolo
 muros trágicos

18 de nov. de 2011

Meus poemas n'O BULE

Image









Um prazer estar n'O BULE. E em tão boa companhia. Grata Geraldo. Abraço!

Nessa mesma edição, poemas de Claudio Daniel e Paulo Kauim.

16 de nov. de 2011

caminho queimando meus pés no tempo
que se fez pedra

arestas que se encaixam precisas

nenhum vão

daninha
a erva não vai nascer

nem a flor

15 de nov. de 2011

éramos jovens
havia uma maçã – vermelha
era um tempo
em que as maçãs eram todas
vermelhas
pequeno sóis sem
sementes
ardiam
era tempo de sol – vermelho
éramos sóis
maçãs
e o tempo não havia
mas isso já faz tanto - tempo

14 de nov. de 2011

como se o tempo fosse um bicho
uma fera do pântano
agarro-o pelas crinas
ele se vira e me olha
com seus olhos de lava e cinzas
dragão
ressurgido dos escombros
(ancestral
das aves que renascem
para morrer todos os dias
ao por do sol)
autofágica criatura
ruminante de asas
tritura gente e flor e pedra e bicho
que encontra no caminho
bulêmico — regurgita pedaços
acende a pira
onde tudo arde e finalmente
num gran finale trágico
previsível e recorrente — se atira
e então — tudo é noite

11 de nov. de 2011

tudo que quero é caminhar em paz
embora
já não existam ruas
e a cidade
apenas
uma miragem que se dilui
ao cair
das tardes

10 de nov. de 2011

de tudo que a vida oferece
pra saciar as sedes
sorvi
tão
pouco
mas tenho
os pés
fincados no riacho - acho
que virei árvore

8 de nov. de 2011

rumores
ecoam as águas
no pé da montanha
sonhando
vertigens

5 de nov. de 2011

asas
que te quero
céu

4 de nov. de 2011

As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira

O poeta Rubens Jardim, tem publicado em seu site uma série interessantíssima, intitulada "AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA", e foi com grata surpresa e alegria que vi meu nome citado ali, entre essas mulheres poetas que admiro, no espaço deste que considero um grande poeta. Super obrigada, caro Rubens. Foi mesmo uma emoção. Abraços fraternos!

2 de nov. de 2011

a solidão é fera
já não domesticável

: resta contê-la

eu, com meus versos
a cerco

1 de nov. de 2011

milenar  cansaço
sete mil sóis sobre sua cabeça
a r d e m - sente sede
pesam mundos nas costas
m u t a n t e - rumina o capim seco
remoído há séculos
dromedária sina - m o r m a ç o
vento nenhum
d .e. s. e. r. t. o

28 de out. de 2011

o tempo do verso
é nunca
é quando
é mudo
o tempo do verso
é mundo
é terra é tudo
o tempo do verso
é fundo
é raso é rasgo
o tempo do verso
é leve é bruto
é bruma
o tempo do verso
é brisa
é breve
é nada - e paralisa

21 de out. de 2011

e por ser raso
exagera
que todo exagerado
no fundo
é raso
ou fundo
depende do olhar
sempre tão relativo
tão raso
às vezes tão
pro fundo

17 de out. de 2011

paralelas linhas
que de tão retas
e longas - se afunilam
seja de fuga ou de encontro
:um ponto

12 de out. de 2011

a árvore
que me viu menina
a mesma
que me viu mulher
a mesma
que estará por aqui
quando eu já
não estiver

7 de out. de 2011

vermelhos meus olhos
de poeira ou pólen
pêlo de cão
talvez
cansaço
do vôo constante
em linha
reta
rumo ao vermelho sol
que nunca
se põe

3 de out. de 2011

as garças rosas
outra vez me chamam
com a voz rouca
das garças
rosas
meus pés descalços
seguem
na trilha
das garças loucas
que embora tendo asas
insistem em
caminhar

2 de out. de 2011

o fim das coisas parece mesmo
ser
como
um rio
que sempre termina onde
começa
outro rio
ou mar - tudo parece recomeçar

30 de set. de 2011

volta a mergulhar no vazio
ainda mais fundo
suporta
cada vez mais
tempo
submerso
um dia vira peixe
e não
retorna
à superfície
na noite abissal
seu habitat natural, talvez
se encontre

29 de set. de 2011

torto, pende para a rua
(num grau absurdo)
o pé de goiaba
que ninguém plantou
parece seguir
desafiando a lógica
de existir

28 de set. de 2011

triste feito um pato
quero não caminhar no pasto
quero sim
mergulhar no lago
o prado
não é pra mim
tenho asas mas amo as águas
mergulho

24 de set. de 2011

a voz do homem grita — pedra
a rocha ecoa — sal

no coral dos aflitos — estratos
minerais

silícios cristalinos
octaedros azuis

lâmina

e

corte

areias incontidas
por incontáveis mãos

espuma

e

vento forte

23 de set. de 2011

acordou tarde demais
quase noite
e era este o último sol

20 de set. de 2011

canto:-
a palavra que se desprende
do céu da boca

19 de set. de 2011

e finalmente Minas
estava lá

nossos velhos todos
nomes de rua

nos olhavam passar

15 de set. de 2011

Um Poema Visual de Constança Lucas

Image

























Postal com um Poema Visual da Constança Lucas. Acabei de receber. Lindíssimo. Grata Constança. Teu trabalho é mesmo fascinante. E esse frasco de "coisas" faz pensar... Abraços!

14 de set. de 2011

pássaros em fuga
rumo ao pôr do sol:- os dias
voam
no deserto hodierno
linguagem é esfinge
autofágica
que a si mesma
se decifra
e se devora

11 de set. de 2011

o planeta apodrece
passou do verde à decrepitude
sem conhecer o gosto doce
da alegria madura
talvez sejam apenas
meus olhos
secos
deturpada visão
no deserto cotidiano
o que impeça o vislumbre
da imensa
e generosa árvore
da vida possível
ouço pássaros, não posso vê-los
serão necrófagos ou sabiás
laranjeira?
sinto cheiro de mel

9 de set. de 2011

o mundo atônito - fogo no céu
no arranha-céu
arranha céu
e terra
não mais o mesmo
céu
a mesma terra
os mesmos homens - não mais

*

o medo
é a bomba que corrói
sufoca – paralisa – cala
implode

o ódio
é a bomba que destrói
devasta - dilacera – grita
explode

*

o ódio cega - o medo seca
o ódio inflama - o medo murcha
o ódio queima - o medo é cinza

*

o ódio
é mais forte do que o medo

porque mata e depois
mata de medo

*

na terra desolada, passeiam juntos
até que morram

pois que um dia - medo e ódio
terão fim
lonjuras distâncias longitudes:- espaço
entre dois nadas ... se afasta
já nem se lembra do que um dia:- cais
o mar
o sal
o mar
o sol
o mar
e nenhuma vontade de retornar
adormecidas mãos que se desprendem
da tábua em que flutua

7 de set. de 2011

rebelados bichos de dentro de mim
me arranham
nenhum deles sou eu
hospedeiro
animal estranho
engolidor de luas
auroras
e campos de flores
predador de sóis poentes
seres que voam
— onde? os outros da minha espécie

5 de set. de 2011

onde mora a palavra não dita
e não escrita
(nenhuma luz)
lugar
de onde não se retorna
super massiva estrela
que agoniza
não silenciar
pois que canto jamais

31 de ago. de 2011

ser como um cão
adormecer
na rua
no asfalto quente
sob um céu
infinitamente
azul
cúpula perfeita
onde meu Deus
habita
o meu colar de contas secas
é tudo que sei

dos mergulhos que não dei

28 de ago. de 2011

lampiões nas varandas
denunciam
que por aqui
o tempo já passou
distantes
luminosos nas esquinas
anunciam
um tempo eterno
de mentira

24 de ago. de 2011

o mundo me estranha
:- normal
também me estranharia
se não me conhecesse
há tanto tempo
:- e tão bem
se bem
que ultimamente
ando me estranhando
:- mais que ninguém

19 de ago. de 2011

a calma do lago
a calma
da flor na brisa
a calma do olhar
a vida
sem pressa

18 de ago. de 2011

carece de alma
meu pobre verso
de corpo
meu verso carece
de tudo
que em mim
é falta
ou excede
carece de nadas

na trilha dos moinhos de vento

fecho as janelas do dia
tantas janelas
que as cortinas dos meus olhos gastos
perderam as contas
montanha
e pôr-do-sol
tatuados nas retinas
(que sóis nascentes vi tão poucos)
e a noite faz ruir janelas
cortinas
montanha e pôr-do-sol
meus olhos
a noite faz ruir o nada que restou
dos dias

16 de ago. de 2011

descompostas palavras
tipologia estranha
        comuns
                lugares
componentes singulares
paradoxos

híbridas como a arte
arame e papelão
        laminadas telas
                estuques
variedades cromáticas
transparências

no espaço fragmentado
da minha poesia
        flutuam
                objetos
evidências
da minha desconstrução

12 de ago. de 2011

ao deixar sua terra sabia
que era pra não voltar
todo exílio é afronta
e corte
que jamais cicatriza
pele que sangra herança
que trago nos olhos
ele voltou
quis morrer sozinho
numa terra
que já não era sua
(já não tinha mais terra)
e ficou por lá
virou pó sob pedra
a mesma
que o manteve e o matou:– flor
nenhuma
alguma prece

10 de ago. de 2011

tudo é cansaço
sequer o sol aquece
a vida hai cai

9 de ago. de 2011

exercícios de abandono

hoje o desejo de silêncio é maior
do que qualquer palavra
e impede
toda e qualquer tentativa
de revolução ou resistência
se entrega
em resignada apatia
à tortura silenciosa
dos que se perdem no caminho
sem chance
de retorno ou recomeço
nenhuma força
para o próximo passo
abre-te chão me traga
faz de mim o nada - que sempre
fui
tenta gritar mas a voz
lhe falta
não há saída - a vida lhe nega
a vida

4 de ago. de 2011

vaso verso

ratos rondam a última flor
do lago
(pelas bordas)
enquanto peixes
a devoram pelas raízes
com meus olhos muranos
resgato e replanto
a flor
nesse vaso verso tão
pequeno

2 de ago. de 2011

EUTOMIA

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Amigos, acaba de sair a nova edição da Revista OnLine de Literatura e Linguística - EUTOMIA, onde alguns dos meus poemas foram publicados. Criada pelo Departamento de Letras da UFPE, visa o debate crítico, a reflexão teórico-crítica e a abertura de canais de articulação com a comunidade literária. Tem como Editora Chefe, Sueli Cavendish.

Online desde 2008, recebe artigos, ensaios, resenhas e traduções, em teoria literária, crítica literária e linguística; e está aberta também à produção ficcional – contos e poemas.

Maiores informações sobre a revista, AQUI. Realmente um belíssimo trabalho, sob o comando de Sueli Cavendish e de toda equipe, formada por professores da UFPE  e também por professores e pesquisadores de outras universidades do Brasil e do exterior. 

o velho tema

salgado mar
haverá tempo ainda?
deliram
naufragados navios
em seus túmulos
de silêncios e corais
sonhando
improváveis resgates
velas e ventos
cais

30 de jul. de 2011

a velha caixa

haverá tempo ainda? o poeta pergunta
sempre no mesmo tom
sereno e compassado
que tempo? se o relógio do mundo
há muito está parado
cordas rompidas — respondo
enquanto dou corda
na velha caixa de música sem
bailarina
que roda vazia há tanto tempo
no ritmo da velha terra
enquanto meus olhos
olham estrelas que se movem
estando mortas
às vezes me pergunto se ainda estou
por aqui

27 de jul. de 2011

estranha caixa

os ossos foram trancados na caixa pequena
(estanha caixa)
que guarda quase dois séculos
da minha história
(onde um dia mergulharei)
as chaves serão veladas por quatro olhos
que um dia serão trancados
na mesma caixa por outros olhos
que não sei quantos serão
até que os últimos olhos
a si mesmo se tranquem e a caixa se desfaça
e tudo será terra (antes do vento)

desenhando céus

sangram os velhos muros:- bolores
e trincas
(feridas abertas pelo tempo)
nas descalçadas
me vejo
menina
desenhando céus
com risca
de giz
(na minha amarelinha sem infernos)
que a primeira chuva forte
apagaria

25 de jul. de 2011

a flor

urbano pós-moderno o poeta devora
cimento e aço / pedra e areia
além de outros pós
finíssimos (aglutinantes)
bebe petróleo e outros líquidos
altamente inflamáveis
então cospe delírios
estradas que não chegam e edifícios
em chamas (sua casa)
enquanto a flor insiste e brota
desafiando insensatez
e cinzas

20 de jul. de 2011

marinho

um peixe negro e sem escamas, vindo do abismo do meio
(pois que no abismo profundo os seres transparecem)
de olhos brilhantes
amarelos
num galope certeiro (marinho que é)
cavalo
atravessou seu dia
desde então, seus olhos simples
transitam
entre claros e escuros tons do mesmo incerto azul
e a água doce (cristalino lago) virou mar salgado
que inunda
sua face de areia e pedra, sob este céu vermelho antigo
reflexo
dos seus cinqüenta e quatro sóis que rumam
em direção à Hidra

19 de jul. de 2011

lugar

esse lugar não é
onde eu queria estar
mas é meu
de posse
e de passagem
a propriedade
apenas um papel
embolorado
em alguma velha
gaveta
eu tenho o chão
abro janelas e vejo
montanha
e estrada
um pedaço de céu
me basta

16 de jul. de 2011

medo das águas

perto de mim flui
generoso
------.o rio
todos mergulham
ou
molham a ponta
dos pés
-------só os meus
sempre secos

outros tempos

poeta engraçadinho
poeta professor
poeta top model
fotopoeta
poeta doutor
que saudade
do poeta poeta
papel e palavra - só

13 de jul. de 2011

CÓDIGO COLETIVO - UM BELO PROJETO

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CODIGO COLETIVO: projeção de poemas em QR CODE, no Castelinho do Alto da Bronze, Centro Histórico de Porto Alegre. Instalação de Sandra Santos, parceria CIDADE POEMA, Laís Chaffe.
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"Concebido, articulado e realizado pela poeta Sandra Santos, o Projeto CÓDIGO COLETIVO transforma nossos poemas em verdadeiras esfinges cybernéticas: enigmáticas, tecnológicas, interativas". Alexandre Brito
Mais informações, AQUI e AQUI e AQUI.

12 de jul. de 2011

percebe então
(depois da leitura de um poema)

'ter se tornado exatamente aquela
que queria ter sido'

salva de si mesma, mais uma vez
por versos outros

(que não os seus)

silencia

6 de jul. de 2011

o poeta mergulha
no inferno do seu mundo real
e silencia
quando voltar
ao paraíso inventado
(em cápsulas)
o poema retorna
com suas verdades
sempre tão relativas
(precárias)
a durar o tempo do espanto
dos olhos

5 de jul. de 2011

faz tanto frio
que a palavra treme
o que aquece a palavra?
outra palavra talvez
silêncio

3 de jul. de 2011

percebe
que solidão já não é fera

é cão

manso

que lambe faces e mãos
todos os dias

(assim que amanhece)

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2 de jul. de 2011

vermelhos olhos de querer
sol

olhos d’água de chuva

olhos secos de vento
e pó

(que tudo é terra)

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rasgo no céu azul
perfeito

por onde descem
raios

: e a palavra
humana se traduz

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30 de jun. de 2011

outra vez no deserto
onde certezas desidratam e o sol
castiga
pele
alma coração quem
sou eu
e o vento
me impede de seguir
rumo ao oásis que inventei ainda
há pouco

29 de jun. de 2011

faço versos à beira do abismo
vento forte me leva
vento ameno me sopra histórias
vindas do precipício
mormaço me traz de volta
à minha pequenez
sem asas
voraz
o rio
é bicho
desencantada serpente
a sibilar:- vem

27 de jun. de 2011

palavras:
um dia me farto
(no bom sentido)
enquanto isso
cato papel na rua
e mastigo
varanus macraei se estira
sobre as pedras
quentes
como se fosse um lagarto
comum
(não se sabe raro)
só o homem se compara
embora sempre tão
igual
(ao mesmo fosse azul)

26 de jun. de 2011

não é:- propriedade dos lúcidos
nem dos loucos
tampouco
patrimônio dos devassos
ou dos puros
sequer pertence
dos eruditos ou dos tolos
é posse:- tomai
poesia

25 de jun. de 2011

no meio do mundo
mudo

contempla
uma estrela morta

vida torta
palavra:- nenhuma

24 de jun. de 2011

o céu desaba sobre sua cabeça
o céu

o chão se abre sob seus pés
: inferno

no limbo do poema
suporta
no deserto do dia a pele exposta
ao sol

saárico

febres atacâmicas sedes
kalaháricas

nenhum
sinal de chuva

23 de jun. de 2011

árvore no vento
flores brancas miúdas
dia de sol

chuva de pétalas:-
tapete macio de algodão

22 de jun. de 2011

realengo - poetas pedem paz

há dores que quando chegam
nos fazem mais - ou menos - humanos
quem somos nós hoje?
quanto de nós
embruteceu ou ascendeu rumo ao céu
do humano sagrado sentir?
quantos de nós
mergulharam no inferno - onde ardem
as indiferenças?

GERMINA LITERATURA - ESPECIAL

POETAS PEDEM PAZ

21 de jun. de 2011

ser, tem doído - queria já não
sob uma velha árvore onde
não ser parece tão
mais confortável

16 de jun. de 2011

tem as mãos calejadas
plantou sementes

tinha os olhos verdes das esperas

a chuva não veio

o não mais esperar agora arranha
os seus olhos de terra
festa na cidade
nas ruas
nos olhos dos meninos
na lua
na memória do povo
nenhuma
festa em mim

14 de jun. de 2011

doeu
olhar nos olhos de Dona Helena
e ver

que ela já não me via

...

acho
que Dona Helena já não mora mais
por aqui

ainda assim sorriu : e deu “bom dia”
eis que se recolhe
à sua infinita pequenez
e se cala
(é tempo de ausências
e silêncios)
ostra que se lança
no mar
em busca
da casa perdida
afinal
a pérola
era mesmo só : fantasia

11 de jun. de 2011

o louco

.

corpo alma pensamento
o quanto:- multifacetados
somos

.

o corpo
de todos, o lado mais instável
o que mais sente

.

doente, a mente
nos transforma em quase
bichos

.

a alma, onde fica
enquanto:- o corpo se debate
e se deforma

.

no rosto do louco
a nossa frágil humana condição
se revela

9 de jun. de 2011

vão indo embora
os velhos da cidade

meus olhos:-
carpideiros choram

7 de jun. de 2011

tentei

saber do mundo
lá fora

perdi meu tempo

mundo
é aqui

dentro

5 de jun. de 2011

como uma velha louca
sai à rua

todos os dias

(catadora de papel)

em busca
do poema perdido

comuns lugares (II)

o poeta sente dor
tão antiga

: dor de barriga

o poeta é mortal
et cetera e tal

1 de jun. de 2011

brevidades:- instantes doces
que a nonna fazia
com polvilho e açúcar
lacônica hora
que de tão breve
se desfez

31 de mai. de 2011

mas para onde foi a menina que fui?
tenho dela apenas um retrato
desbotado
um sorriso não decifrado
e os olhos longe
que ainda não se sabiam
míopes

28 de mai. de 2011

rio breve de não chegar:- olhos que marejam
de não amor

(amargo rio)

que ainda cisma:- mar

27 de mai. de 2011

meu amigo se cala diante da morte
diante da dor:- se cala

o não esperado parece ter
mordaças

: nenhuma delas aprisiona o verso

25 de mai. de 2011

horizonte rubro:-
outro pássaro ousou
tocar o sol

21 de mai. de 2011

miúda e vermelha
pende
pro lado que o vento
flor
a poesia é latifúndio
nas mãos dos poderosos

eu

cultivo versos no quintal
de uma casa que nem é minha
poesia é:- celebração
(nem sempre à vida)
celebra-se
o que se tem nas mãos
cântaros
carregam águas
irei buscá-los
abismados reis
em torres de areias
à beira de algum mar
atlântico — cismam
[... perdida
a tábua das marés
certezas:-
verdades que abraçam
(tenho tão poucas)
sigo em busca
do abraço definitivo
a caixa miúda a vida pequena
o verso raro
hoje tudo é pouco e o rio é raso
já não canta
se arrasta em ruídos
...num fio
que se esquiva das pedras
do fundo
quase seco
saudações ao sol
mais um dia renasce
na minha aldeia
céu tão bonito
mas como estão frias
as pedras da rua
final de outono:
embaçaram os olhos
da noite
na madrugada
lacrimejam os olhos
da vidraça
inverno quase
: nos olhos da memória
queimam fogueiras
o sempre o nunca a ave
de rapina

as penas

f in i tude et ernidade
depois da dor:-
vazio
e depois do vazio
o medo
da dor
interminável
ciclo
que fez de mim
o que não
sou
a morte ronda
o pássaro - a flor
meus olhos

a vida é ciranda

19 de mai. de 2011

outono: outros tons
ou tônus
sobre a pele do dia
e a minha
: epidérmica
estação

18 de mai. de 2011

ovelha branca
destoa
neste templo de negras
serpentes e chacais
não discriminem
o seu olhar
albino
a sua alma
clara
seu coração
vermelho
sangra:- dores iguais

15 de mai. de 2011

a cada poema que leio
arranco um pedaço

não do poema
mas do poeta

nas madrugadas
saio às ruas sangrando

colagens
que não cicatrizam

13 de mai. de 2011

luar de outono
e o velho telhado --
brilha
mas do que vale a vida
se não for dividida:-
nada

inteiro
brilho * estrela
pele
cor
do que um dia
pérola
flor

9 de mai. de 2011

os olhos da noite estão vermelhos
os cabelos embaraçados
a pele fria

a noite é uma velha senhora
que caminha descalça
sobre folhas secas

na ilusão do silêncio
onde cabe o silêncio
cabe a palavra multiplicada

que silêncio é vazio (infinita cratera)
que somente a palavra

aterra

8 de mai. de 2011

repara
que solidão é mais
estado de alma
que de pele
é mais
estado de sentir
que de estar
e o ser?
em que estado fica
nesse caminho estreito
e não delimitado
da alma à flor
da pele

um poema de GIANNIS RITSOS (I)

Image












GRECIDADE

I

Estas árvores não sossegam com menos céu,
estas pedras não sossegam sob passos estrangeiros,
estas faces não sossegam a não ser sob o sol,
estes corações não sossegam a não ser com a justiça.

Εsta paisagem é dura como o silêncio,
cerra no seu seio suas rochas incandescentes,
cerra na luz suas oliveiras órfãs e suas vinhas,
cerra os dentes. Não existe água. Somente luz.
O caminho perde-se na luz e a sombra do curral é ferro.

Marmorizaram as árvores, os rios e as vozes calcinados pelo sol.
A raiz tropeça no mármore. Os lentiscos empoeirados.
A mula e a rocha. Ofegam. Não existe água.
Todos têm sede. Há muito tempo. Todos mascam um bocado de céu sobre sua amargura.

Seus olhos estão vermelhos da vigília,
um vinco fundo acunhado entre suas sobrancelhas
como um cipreste entre duas montanhas no pôr-do-sol.

Suas mãos estão coladas no rifle,
o rifle é uma extensão das suas mãos,
Suas mãos são uma extensão das suas almas -
têm sobre seus lábios a ira
e no fundo dos seus olhos a mágoa
como uma estrela em uma fossa de sal.

Quando apertam as mãos o sol surge para o mundo,
quando sorriem uma pequena andorinha foge-lhes das barbas selvagens,
quando dormem doze astros caem dos seus bolsos vazios,
quando se matam a vida segue adiante com bandeiras e tambores.

Há tantos anos todos têm fome, todos têm sede, todos se matam
sitiados por terra e mar;
O calor devorou seus campos e a salinidade regou suas casas,
o vento derrubou suas portas e as poucas primaveras da praça,
pelos buracos dos seus sobretudos entra e sai a morte,
suas línguas são acres como o fruto do cipreste;
seus cães morreram abraçados nas suas sombras;
a chuva bate nos seus ossos.

Em cima das guaritas petrificados fumam o estrume e a noite
mantendo um olho no mar enfurecido onde afundou
o mastro quebrado da lua.

O pão acabou, as balas acabaram,
agora carregam seus canhões somente com seus corações.

Há tantos anos sitiados por terra e mar,
todos têm fome, todos se matam e ninguém morreu -
Em cima das guaritas brilham seus olhos,
uma grande bandeira, um grande incêndio rubro
e cada alvorada milhares de pombas fogem das suas mãos
para as quatro portas do horizonte.

7 de mai. de 2011

saudade
da língua dos coptas - primitivos tempos
corre em mim
um Nilo Azul de palavras e ritos
(trago no peito a marca)

6 de mai. de 2011

lembrar tem doido
feito farpas sob as unhas
(ao por do sol lateja)
o esquecimento
faz parar de doer
... mas nos meus sonhos
todas as flores ferem
espinhos

5 de mai. de 2011

festa no pasto hoje
meu cão correndo atrás das seriemas
que invadiram a manhã com seus cantos agudos
anunciando que de tarde vem chuva
e borboletas muitas compunham a paisagem
das miudezas que meus olhos procuram
e sempre encontram
o céu azul
a árvore vermelha
o asfalto cinzento
hoje tudo que sinto e penso
são coisas e cores
como se a alma
se alojasse nos olhos

3 de mai. de 2011

tecer palavras
em tempos de silêncio
ofício [... arte
canto
a vida miúda que me cerca
tudo mais
são olhares outros tantos
que não os meus

2 de mai. de 2011

perto daqui
silencioso e raso passa um rio
não posso ouvi-lo
— pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem
— ávidas de lua
e mar

1 de mai. de 2011

inquietos metais
voz de cristal

underground
eloqüente

soul...
letra:
tatuagem catártica
mídia:
pensamento em círculos
melodia:
contestação em tons
ler é ouvir
escrever é compor --
palavra é música

ouçam
caminho pelas ruas de Nova Orleães
um sentimento "blues" me chama
respondo: noite escura
metal
“Old Man River"
sonham vapores - navegam
melancolia e blues
há um piano
um violino um bandolim
ai de mim
nesse meu silêncio
sem cordas

29 de abr. de 2011

ciente da minha humana condição
precária e efêmera — ouso
desafiar os dogmas
pós-modernos
e creio
no único Deus
criador de céus e terras
e em seu filho
creio também em seu espírito
que paira
sobre as águas do planeta
e sobre nós
creio e professo minha fé
na vida
que não termina por aqui
voraz o dia — membro da matilha
dos predadores de nós
manso quando amanhece
— uiva
a cada por do sol
[... quando arranca pedaços
faz vento
onde mora meu Deus — palavra
que me vem feito brisa
quando meu coração fraqueja
(humano)
e sente dor

27 de abr. de 2011

agora sente saudades
do vácuo
em que flutuou por longos anos
era tão terno e claro
o aquário vazio
mas como dói ter saudades
assim, de nada
e os olhos do gato
o tempo todo à espreita
sem ter amigos
o poeta se faz presente
o poema é seu presente
e ele o oferta
aos amigos que não tem

23 de abr. de 2011

mais só
que o morto a lua e o louco
de Cooper
se debruça na janela
e segue
o arrastar sinuoso
de uma lagarta de fogo
sobre a parede quente
do sol do dia

21 de abr. de 2011

escrevo porque sim
se não
não sei
o que seria de mim
escrevo, por que não?
nem sei
o que seria
se não fosse assim
[... então

20 de abr. de 2011

angustia é lâmina
mais
que afiada
e no seu corpo
já não cabe
mais
cicatriz
respiro fundo
trago os olhos vermelhos
do ar de outono

18 de abr. de 2011

ZUNÁI- Ano VII - Edição XXII - Março de 2011

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Amigos, acaba de sair a nova edição da Revista Zunái, como sempre, impecável, com ensaios, poemas (incluindo alguns meus inéditos), entrevistas, traduções, etc. Na galeria: Gabriela Marcondes. Mais uma belíssima edição. Fica aqui meu convite para leitura. Abraços!    
luar de outono
mariposa mergulha
no espelho d’água

17 de abr. de 2011

o banco de madeira apodrecida
mais velho que a casa
já tão velha
viu brotar
a árvore
viu crescer
a árvore
agora já tão velha
que viu
o primeiro balanço
cujas cordas já se romperam
há tanto tempo
mormaço
exatos
30º
desiste
abre janelas
respira
(jasmim
lhe deixa
tonta)
ninguém
na rua
(um cão
sequer)
queria
ar
alguém
a lhe dizer:-
vai passar

16 de abr. de 2011

então finalmente
quando ele dói e sangra
(o bruto
coração)
é dado o sinal:
foi encontrada a mina
onde habita a palavra
bruta
jóia rara / lâmina

15 de abr. de 2011

cava fundo no peito
tenta encontrar
a palavra escondida
é preciso ir além
da epiderme
dilacerar a carne
romper nervos e veias
ver transpassado
o bruto
coração

14 de abr. de 2011

um poema de John Berger

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My heart born naked
was swaddled in lullabies.
Later alone it wore
poems for clothes.
Like a shirt
I carried on my back
the poetry I had read.

So I lived for half a century
until wordlessly we met.

From my shirt on the back of the chair
I learn tonight
how many years
of learning by heart
I waited for you.


Meu coração que nasceu nu
foi logo envolto em canções de ninar.
Depois sozinho se vestiu
de poemas como roupa.
Como uma camisa
carreguei nas minhas costas
a poesia que li.

Assim vivi durante meio século
até que sem palavras nos encontramos.

Com minha camisa no encosto da cadeira
esta noite descubro
quantos anos
lendo meu coração
Esperei por você.

11 de abr. de 2011

festa

pequena, minha aldeia
nela cabe uma casa
com quintal
(onde mora um cão)
e crescem flores
nas frestas
que se abrem no chão
(meu canteiro)
onde pássaros pousam
e caracóis azuis
rastejam
(uma festa)

8 de abr. de 2011

brilha lá fora
a lua fatiada --
hoje dourada
as coisas não tem paz
até o que não vive se contorce
e o que vive se deforma
(ainda não sei
se inércia
é tender para o nada
ou para o fundo)
pífaros soam
enquanto o vento roça
as rotas
cortinas de crochê
de algodão cru
(a vida é sopro)
neste momento exato
do poema

7 de abr. de 2011

já é abril?
vou abrir as janelas
e ouvir o vento

6 de abr. de 2011

alguém me disse que a vida passou
e eu não estava lá
juro que não vi — da minha janela
a vida passar
— esquiva

5 de abr. de 2011

c. q. d.

acordo cedo e abro a janela que dá para o quintal. depois de tanta chuva, solzinho sem vergonha aparece. aproveito que Bono saiu pra passear - desço depressa. de repente me vejo ali, de pijama, chinelos, descabelada - ai que saudades da minha antiga juba - vassoura na mão -limpando a sujeirada do meu cão. acho graça. que diriam de mim meus leitores se me vissem assim? não que eu seja muito diferente disso mas... entre o poeta e a pessoa - quanta diferença. um dia acreditei que nossos versos nos revelassem. mas não - nada nos revela. nem nossas imagens desfocadas em nossos mínimos perfis. nem nossas pequenas ou grandes biografias - nada. somos incógnitas. inclusive - e sobretudo - pra nós mesmos. equações impossíveis. soluções vazias. perdida entre inquietações e rabiscos, vejo Bono chegar. o tempo como de costume voa e o sol outra vez se esconde. deixo a limpeza do quintal para amanhã, que é dia de Marlene. entre panos e baldes, sabão e vassouras, ela sim é feliz. é o que é. sem conjecturas. sem expectativas. sem poesia. recomeça a chover. não temos mesmo o controle de nada. c. q. d.

30 de mar. de 2011

pretos
pássaros pousam
no fio
desencapado
dos meus nervos

29 de mar. de 2011

febre
parábolas das águas ternas
termas
gêiseres inquietos
nascentes
vulcânicas rochas quentes
onde
lagartos
se estendem
até mudar de cor
[... talvez
de pele

28 de mar. de 2011

outra vez
dei de cara com o tempo
mas sua face
já não
me pareceu assim
tão feia
fera domesticada
comeu na minha mão:-
migalhas

27 de mar. de 2011

a rosa de Fukushima
brotará
— azul
talvez
brote vermelha
— em chamas
a rosa de Fukushima

26 de mar. de 2011

chacais — são os donos dos guetos
----------peixes miúdos tragam
----------------------o pó o fumo a fome

cinzentas guelras já nem de lembram
----.--que um dia vermelhas flutuaram
--------------------em céus azuis

--------------------e além do morro

outros meninos sonham
----------em seus aquários de cristal
----------------------— vida tão frágil

já não há fronteiras — guerrilhas
--------------.-------território do medo

24 de mar. de 2011

bem do meu lado fingem
dormir
personagens
da última página
do último livro que li:-
um truque
para que não os esqueça

feito fengs sopram
folhas
sonho com o Huang He
antiga serpente
domesticada pelo grande Yü
— longs
vermelhos sobrevoam

no céu de fogo da memória

22 de mar. de 2011

velha vida

feito meu pai me sento
na sua velha
poltrona
marrom
na cabeceira da mesa
de tábua
me apoio
no parapeito gasto
da janela
me curvo
a velha vida se repete
[... dói
saber ninguém
a repetir meus gestos

19 de mar. de 2011

imensa a lua
reflete
nos olhos
do meu
cão
e fica
do tamanho
dos seus
olhos
— e dos meus

ao acaso

faço poemas inconseqüentes
já não me importo com isso
tudo que espero do poema
é que ele se liberte
que ele me liberte
que ele liberte alguém
ao acaso
[acaso exista ainda
alguém
aprisionado
neste tempo absurdo
de liberdade extrema
e solidão
absoluta]

18 de mar. de 2011

a água na chaleira ferve
é madrugada já
a erva é doce

(a camomila nem tanto)

16 de mar. de 2011

minha casa de sapê -
será tempo de colheita
no mundo lá fora?

Bashô

13 de mar. de 2011

todos os dias leio
Rodrigo

duas vezes por dia

os seus cachorros
são azuis

as minhas garças
rosas

sem
nenhuma obsessão
ok. então era isso
tão pouco

12 de mar. de 2011

hei de doar tudo que tenho
ou seja — palavra
que seja pouca e rasa
que seja
assim
hei de doar também a falta
ou seja — silêncio
que seja muito e fundo
que seja
assim
seja

10 de mar. de 2011

cai sobre mim um manto
tecido
em escrúpulos e náuseas

combustível no ar
e uma faísca
basta
um rio
de fogo
se pressente
ninguém dirá
que falo da morte
alguém até
dirá
que me ouviu
dizer
da vida

9 de mar. de 2011

os cães de Hilda uivam
enquanto
passam as caravanas
vazias
de palavras e gentes
a.o v.e.n.t.o

8 de mar. de 2011

. . .

na casa de câmbio
do sol nascente --
moeda é semente

6 de mar. de 2011

um poema de Igor K. Marques

Image

a carga de azul casual
irrompe anil no branco
fluorescente do monitor
no corte transversal
de um fragmento de texto
na percussão dos dedos
impondo o ritmo de criação
na busca da cadência
precisa da escrita
ainda sem nexo
divagando no caos inicial
entrelinha e entrelaços
entranha de cabeleira
de tranças em transe
no devaneio vagabundo
no ócio perturbador
descompasso preciso
nem côncavo
nem convexo
berço da criação
de uma ciência inexata
da poesia

Igor K. Marques - poeta e artista plástico, mantém os blogs: desenhos e poemas e free jazz textos e imagens .

Todos convidados a conhecer o trabalho de Igor, pois como ele mesmo diz: "PRECISAMOS NOS SURPREENDER COM O OLHAR DO OUTRO"

5 de mar. de 2011

ave
de rapina mergulha
em busca
do peixe
(depois o grito)
imagem
refletida no espelho
d’água
ser
da montanha
o sol
nas asas
a vida no bico
retorna ao ninho
natureza sorri
e o peixe
cumpre seu destino

3 de mar. de 2011

. . .

será outono?
voam folhas no vento
silenciosas

2 de mar. de 2011

brancos
os tigres me observam --
não sabem
se me lambem ou me devoram
os tigres da memória

1 de mar. de 2011

diversos e afins

onde a montanha encontra a água
nasce a flor


QUINQUAGÉSIMA QUARTA LEVA - Diversos e Afins - entre caminhos e palavras - seguir em frente é preciso - e eu vou - em busca da flor.

Obrigada, Leila e Fabrício. Bom estar no caminho com vocês. Abraços!


E agora, ellenizada. :)

pedra

raZtro
no céu de aZul turqueZa:-
a vida
hoje é caminho de pedra
rara

28 de fev. de 2011

poetas de segunda

... é o título do blog do poeta Danilo De Abreu Lima - "caminheiro - nas trilhas do mundo, na aventura da poesia", onde tive o privilégio de ser publicada hoje.

Gosto muito do poeta Danilo, mas o leitor Danilo tem o dom de me surpreender e emocionar, com suas leituras sempre tão sensíveis, sutís, generosas, talvez quem melhor me traduza ( ou me decifre?) como poeta.
Super obrigada, Dan. Um prazer e uma alegria enorme estar no 'poetas de segunda' com você. Abraço!

27 de fev. de 2011

quero estar só me deixem
como aquela amora temporã
no galho mais alto
faz-se em mim desejo de silêncio
forte pleno denso
mão
que me aperta a garganta
e os pássaros
aprisonados
tantos
em vão
se rebelam [ por ora
o vôo
não se dará
e o canto

26 de fev. de 2011

...

outra vez dei de cara
com o tempo
e a face dele
já não me pareceu
tão feia
fera domesticada
comeu na minha mão
migalhas

25 de fev. de 2011

paisagem

ervas daninhas
mourões
apodrecidos
onde pássaros pretos
pousam
completando o retrato
do abandono

24 de fev. de 2011

estrada [... rio

1.

passou
na paisagem feito um risco
de espátula
borrou
e o que seria estrada
tornou-se rio
lugar
onde não posso ir
sem que me molhem os pés

2.

suave
caminhar entre as águas
deixar-se ir
[...fluir

3.

agora eu sei
que todo rio vai virar mar
(se tiver sorte
e não morrer sufocado)
e se secar
será
finalmente estrada
[...que me leve

23 de fev. de 2011

há muito deixei de contar
os livros que li
vaidades
prefiro contar estrelas
passarinhos no fio
voares
lírios e pedras roladas
na beira do rio
delírios
rajadas de vento
amoras
querem me ouvir por quê
se tudo
o que digo é delírio
e nada faz sentido
se tudo é fruto
colhido
no labirinto estreito
do meu cérebro cansado
pasto seco
onde a flor se negou
a nascer

22 de fev. de 2011

. . .

amanhece em mim:-
outra vez posso ver
o sol

21 de fev. de 2011

fotofóbica

o dia de sol é um rasgo
nas minhas
fotofóbicas retinas
turvas da noite ainda
que insiste
em se alongar além
da conta
por que tudo em mim
parece ser
além [ou aquém
das contas
faço pouco do sol
então
atrás dos meus óculos
[de sol
queria guarda
chuvas [de chuvas
pequenas
um bem-me-quer
queria [só
pra dizer bom dia
[bom dia
que te quero ainda
viver [só os gerânios
me respondem
pendentes
cicatrizes [quase
secas
nas paredes brancas
bolores
únicas flores [mas
onde
se esconderam os beija
flores
meio-dia já [se foi

19 de fev. de 2011

a minha matemática mente
faz de conta

o tempo todo

aleatória
mente

mente

18 de fev. de 2011

. . .

tenho pousado meu coração
sob o leito
do rio
ouço bater o coração
da terra
tambores
fazem vibrar meu coração
um pote
de barro
[até aqui de água

17 de fev. de 2011

pátria

pátria
é o velho casarão em que nasci
de onde me exilei para sempre
quando soprou o vento
que soprou as cortinas e destelhou a casa
derrubou as paredes e espalhou poeira
que arranhou meus olhos de menina [ainda
vermelhos

16 de fev. de 2011

. . .

faz sol e ainda é cedo
ah... manhãs

amanhã
ninguém sabe a manhã

flor que será pisada
assim que brotar

e a tarde quem sabe?
eu não.

14 de fev. de 2011

rosas de silêncios brotaram
vermelhas
como são os silêncios
vermelhos – [quando brotam]
quando secarem – [se]
vou cultivar palavras
neste mesmo canteiro
quando encontrar sementes – [se
não parar a chuva
e os silêncios crescerem – [baobás]
construirei minha casa – [ sobre
virão os pássaros
de ébano
cujo canto se chama - escuridão]

12 de fev. de 2011

descubro finalmente
para onde vão os passarinhos
que abandonam os ninhos
ainda de madrugada
para não voltar:
— se atiram no abismo
[ ... tão breve o canto
tão limitado o vôo

11 de fev. de 2011

. . .

só queria saber
para onde vão os passarinhos
quando deixam seus ninhos
ainda de madrugada
para não voltar

10 de fev. de 2011

por que o vermelho é a cor mais encarnada ...

... ellenizada. :)

. . .

a noite quente
me faz voltar à infância --
tantas janelas

9 de fev. de 2011

ruídos

os relógios insistem em seus ruídos
arrastando ponteiros

e horas

os relógios deveriam ser silênciosos
num mínimo de respeito

aos instantes mortos

7 de fev. de 2011

entre flor e nada

nada
havia no caminho
rodeado de nadas
sertão
surgiu a flor

e de que vale
a flor
no vale rude
onde a chuva não chega
e o vento
se nega a soprar

entre flor e nada
verso
tão seco quanto
ou mais

Um poema de Latif Hamet

Eu vou mãe.
Se não regressar
serei flor desta montanha
torrão de terra
para um mundo
maior do que este

(…)

Eu vou mãe.
Se não regressar
a minha alma será palavra
para todos os poetas.

6 de fev. de 2011

. . .

frágeis como a flor
que despenca no abismo
rompem-se os ovos
no ninho
e o passarinho
que cantava sol
agora canta a eternidade

. . .

rarefeitos ares
cantares
estrelas
antares
raros feitos
cantos
aos pares
candeias
incensos
voares per
feitos
ninhos
(raros
pássaros
incendeiam
o dia)

5 de fev. de 2011

. . .

sorver
das águas puras
numa manhã de sol

nascente

(sentir
que a vida
ainda pode ser

sentida)

. . .

flutuar
na pele fina de algum rio
ainda

claro — (se houver)

4 de fev. de 2011

. . .

mergulhar no cerne do sentir
investigar a fundo
o fundo
dos mares de nós
— abismos

. . .

águas vivas queimar
buscar a pérola

inventariar
naufragados navios

— memória e ferrugem

. . .

tramar impossíveis resgates
sonhar

velas brancas vento e sol

chegar

3 de fev. de 2011

. . .

pintou
seus olhos de azul
do céu
choveu
depois fez sol
choveu
depois fez sol
choveu
e o azul dos olhos
escureceu

(marinho)

2 de fev. de 2011

. . .

cio da palavra
gestação
nascimento
e vida
que depois
de parida
é para sempre
— ou não

coleção João Luis Roth (1)

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Escritas Plásticas - Federico Garcia Lorca

“Poesia é amargura,
mel celeste que emana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.”

. . .

flor amarela
no vão das pedras
suaviza o cinza
sempre tão ríspido

(e a pedra)

31 de jan. de 2011

um poema de Marina Tsvetáieva

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No céu azul os olhos fitos
Como exclamas:— Será tempestade!

Para o flâneur a erguer a sobrancelha
Como exclamas:— Será Amor!

Entre a indiferença cinza dos musgos
Assim exclamo: — Será verso!

1936, Marina Tsvetáieva
Tradução de Veronica Filíppovna

30 de jan. de 2011

. . .

na trilha do despertencimento
segue a sina dos seus

em busca dos céus

do sol

de si

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. . .

o vento sopra
não há mais borboletas
só voam folhas

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. . .

morta de sede
flor pequena se curva
e toca o rio

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. . .

manhã de sol
brincam outros meninos
no rio que era meu

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29 de jan. de 2011

Bashô (1)

Quietude —
O canto das cigarras
Penetra nas rochas.

impetus

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céus
e coisas criadas seguem
em movimento
na revolução das esferas
— o asno titubeia
o bem e o mal ainda:-
montes de feno
dourados sob o mesmo sol
— oh! Buridan
que do ímpeto, a teoria
nos ensina: -
o século não te foi justo
ainda à espera
de quem melhor te traduza

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música

música

música

quando

vou te ouvir outra vez

tocar

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28 de jan. de 2011

. . .

cumprido
o ritual atávico
dos amanheceres
pássaro e dia seguem
pra não voltar

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27 de jan. de 2011

atlântico mar

cantares atlânticos
palavras
areias que arranham
palavras
navios e cascos
palavras
vento vela sol
sargaços
palavras
palavras
palavras
abismo e plenitude
sal

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23 de jan. de 2011

"a complexidade do simples"

Caros, a professora e doutora pela UFRJ, Eliane F.C.Lima, publicou e fez uma análise de alguns dos meus poemas e de minha poesia como um todo, no seu blog: Literatutra em Vida, "um espaço dedicado à produção literária sob todas as suas formas de apresentação: poemas, ficção, análise de textos e do mundo". Porque "literatura é uma das maneiras em que a vida se manifesta, visto que pessoa/arte é um binômio inseparável".

Um belo espaço que conheci recentemente e recomendo a todos. Eliane também escreve poesia e contos, publicados em dois blogs, cujos links se encontram no Literatura em Vida.

Um aspecto importante no trabalho de Eliane é a divulgação da poesia "de autoria de mulheres". "É urgente modificar o cânone, feito por e para homens". Muito bom.

Obrigada Eliane, abraços!

22 de jan. de 2011

outra vez o vento

vejo escamas
sobre as águas agora
seres abissais que se rebelam
ou vento
a me dizer - respira

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20 de jan. de 2011

risco

1-

o grande risco do poema
é que ele é feito de giz
e não apaga dor

2-

o risco do poema
é feito de giz --
e não apaga dor

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A poeta Sylvia Beirute publicou este poema em seu Blog: Uma casa em Beirute. A poesia de Sylvia é das melhores que tenho tido o prazer de ler na blogosfera e seu blog, um espaço de qualidade inquestionável, que convido todos a conhecer.

18 de jan. de 2011

Exercício 2

há sol
quase secos
telhados e ruas
olhos e almas chovem
ainda

(por quanto tempo?)

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. . .

ando pela cidade desfigurada
já não sei mais quem somos

(eu e a cidade)

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16 de jan. de 2011

. . .

quero a palavra pouca e rasa
mas quero

palavra

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. . .

e se eu dissesse apenas
do que sei
e sinto

calava

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expiação

I.

serpentes de barro
rios
de silêncio
rouca
a voz das águas
silencia

II.

ouve-se da vida
um uivo
lobos se esquivam
abutres sobrevoam
enquanto
cordeiros expiam

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. . .

um céu de estrelas
sobre a terra encharcada
depois das chuvas

reflexo de lua
no que restou da rua

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15 de jan. de 2011

. . .

das consolações do espírito
tão poucos provaram

e a fonte sempre tão próxima

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águas barrentas

raso e manso
o rio da infância
agora transborda
enverga
as amoreiras
destrói o asfalto
que não havia
arranca pela raiz
as velhas
mangueiras
decepa
os lírios brancos
talvez
para sempre
é findo
o tempo da doçura
e da inocência
[... águas barrentas
fúria

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14 de jan. de 2011

. . .

um coleirinha
no fio molhado dos meus olhos
canta sol

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13 de jan. de 2011

chama

I

decifra-me palavra
que eu já não te decifro

as minhas as outras
as não proferidas

as que sangram feridas
que desconheço

II

as que tecem teias
de aranha

que uivam que cantam
que arranham

em arrastados erres
e engolidos esses

III

palavra
que sotaque te traduz

vozes da minha terra
ruído canção

lugar

em que a palavra era

IV

templo

som de uma estrela
crepitar de fogueira

onde te queimo ainda
palavra

chama por mim

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12 de jan. de 2011

do milagre das ruas

passou anos
trancado em seu mosteiro
à espera do milagre
[ que não veio
que o milagre está nas ruas
tudo que é dentro
é solitário e pouco
[ que a vida é lá fora

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11 de jan. de 2011

outro dia

a tarde dourada no campo de centeio
não diz das chuvas que virão
diz do sol
embora quase noite
diz do pão
embora as mãos vazias
diz de nós
na janela de outro dia
que já passou

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10 de jan. de 2011

dois poemas - de Hilton Valeriano

PROMESSAS

Aquelas promessas não serão cumpridas.
Mas farão parte de tua coleção de esperas.
Aquelas promessas nunca se realizarão.
Mas constituirão o alento necessário
para que possas continuar a viver.

Serás para sempre um resto aniquilado
de esperanças

que se ergue em amor restituído.


CHUVA

ouvir a chuva
silenciar palavras
recolher sobras
diárias
da convulsão
humana

sentir a chuva
aproximar pessoas
acolher o tempo
desigual
endêmico

lavar as mãos
de quem só soube tê-las

fechadas


Hilton Valeriano - Poesia Diversa

preguiça

desejo de vida
o que me dá
quando acordo de madrugada
antes do sol nascer
pena
ter me tornado uma preguiçosa
e acordar sempre
quando já vai bem alto
o sol

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coleção sumi-ê (I)

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by casey shannon

8 de jan. de 2011

só chuva - só

noite de verão
chuva chuva – só chuva
e escuridão
nenhum sinal de vida
ouço apenas
o barulho das águas - só

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alma

a alma do mundo grita
no mormaço dos dias rasos
na escuridão
das noites infinitas
no abandono
das dores terminais
no corpo
do homem que habita
desolada
depois de gerações ainda
aprisionada
que da eternidade
a que almeja sabe
tão pouco quase
nada

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7 de jan. de 2011

Portal Cronópios - Literatura Contemporânea Brasileira

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Amigos, quero convidá-los à leitura de alguns dos meus poemas da série Casa 11, Telefone 9, publicados hoje no Portal Cronópios. Sempre uma bela aventura mergulhar em águas cronopianas. E para quem como eu, admira a poesia chinesa, um pouco de Yu Xuanji - surpreendente. Abraços!

6 de jan. de 2011

ávidas mãos

A definição de belo é fácil:
é aquilo que desespera
Paul Ambroise Valery
ávidas mãos as da beleza
nem sempre puras:-
quando vazias desesperam

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5 de jan. de 2011

química

pedaços de silêncio
dispersas
palavras
mistura marginal
in_solução
imiscíveis
precipitam:-
substâncias puras

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4 de jan. de 2011

. . .

porque me perco
no labirinto estreito
dos silêncios
e só me acho
na trilha empoeirada
das palavras
antigas
(se é do silêncio
que preciso)

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3 de jan. de 2011

dois poemas de Carmen Silvia Presotto*

Pisares

Existe um sono a que chamo silêncio

velho mapa
de onde voam meus pés
vento

em que me espelho momentos

existe um tempo em que desperto memórias
terras

em que calço meus rastros
fendas
onde soluço meus ossos.


Livre...

Redesenho o cotidiano
pontos
-----e tramas

- corda absurda -
me ouço em outros poemas
feito sussurro ao vento.


*Nascida em Sarandi, reside atualmente em Porto Alegre. Poeta, escritora, coordena o Projeto Cultural e Editora Vidráguas, autora de Dobras do Tempo, EncaiXes e Postigos, recém lançado pela Vidráguas, lindíssimo - como diz Schüler: "versos que saltam precisos, misteriosos, provocativos". Mais de Carmen, aqui, no seu blog: Vidráguas.

revistas eletrônicas (I)

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1 de jan. de 2011

questão de tempo

quando chove
um desejo de não
chover
nos inunda
e quando faz sol
brilha
desejo de chuva
porque viver
parece mesmo
ser
uma questão
de tempo

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