Portugal foi eliminado do Mundial.
Até aqui, tudo normal. A
Espanha marcou aos 91 minutos, passou aos quartos de final e nós fizemos as
malas. É futebol. Acontece.
O curioso é o que se viu depois do apito final.
Roberto Martínez apareceu para
explicar que, afinal, tínhamos acabado de fazer o melhor jogo de Portugal neste
Mundial. Confesso que fiquei surpreendido. Passei noventa minutos convencido de
que estava a assistir à nossa eliminação. Aos 91, tive a confirmação. Afinal, estava
perante uma obra-prima que a FIFA, por lapso, resolveu eliminar.
É pena que o regulamento do
Campeonato do Mundo continue tão antiquado. Ainda insiste em apurar as equipas
que ganham, quando podia perfeitamente começar a apurar as que deixam o
selecionador mais satisfeito.
Depois entrou Luís Montenegro.
E a derrota ganhou outra dimensão.
Houve orgulho. Houve gratidão.
Houve talento. Houve entrega. Houve portugalidade. Houve até "a qualidade
que nós temos a fazer as mais diversas coisas". Faltou só um pormenor:
ninguém explicou porque é que quem passou aos quartos foi a Espanha.
Começo a desconfiar que
Portugal não perde jogos. Perde conferências de imprensa demasiado otimistas.
Aliás, se houvesse um
Campeonato do Mundo de boas sensações, de balanços positivos e de
"estivemos muito perto", ninguém nos tirava a taça.
Entretanto, Roberto Martínez também fez as malas.
E há que reconhecer uma coisa
ao homem: tem um sentido de oportunidade notável. Sai logo a seguir ao melhor
jogo que diz ter feito.
Há treinadores que escolhem
sair depois de ganhar um título. Ele preferiu sair depois de descobrir que uma
eliminação também pode ser apresentada como um sucesso. É uma inovação
interessante.
Quanto ao Primeiro-Ministro, também merece uma palavra.
Houston. Toronto. Dallas.
Três viagens para acompanhar a
Seleção, enquanto por cá se discutem os exames nacionais e o combate aos
incêndios, e até as jornadas parlamentares do PSD seguiram viagem sem ele.
Há quem siga dossiês. Luís Montenegro segue a Seleção.
Com uma fidelidade admirável. Se a final fosse em Marte, Montenegro já estava a
comparar hotéis no Booking.
No fundo, a noite acabou por correr bem melhor do que
parecia.
Perdemos o jogo. Perdemos o Mundial. Perdemos o
selecionador. Mas ganhámos uma certeza: ninguém sabe vender uma derrota como
nós.
Mas, graças às conferências de
imprensa, quase saímos de Dallas convencidos de que quem teve azar foi a
Espanha.
Para terminar, dizer que a
Força Aérea Portuguesa teve que ir buscar o Primeiro-Mnistro lusitano. Voos
caríssimos, à conta de quem Montenegro pretende reduzir as condições de vida e
de trabalho.
É a vida!